23.9.06

Não chore por mim


Vou ali dançar um tango e tomar um vinho.
Volto na semana que vem.

21.9.06

Grupo Corpo



Mas hein?
Eles são bons meeeesmo.
E este número aqui, é tããão bonito e impressionante! Aff...

20.9.06

Variações sobre o mesmo tema

J.W. Waterhouse, "Eco e Narciso", 1903
Homens são todos imaturos, egoístas, ou as duas coisas.
Ou talvez não seja isso, e sim: tenho estado mais próxima das minhas amigas mulheres.
E esta é a fase das separações. E como gosto de ouvi-las, elas me contam. A ladainha é sempre a mesma: imaturos, egoístas, ou as duas coisas. Gosto de lembrá-las de que elas também faziam parte dos seus finados relacionamentos. Portanto, olhai para dentro de si, amigas queridas.
No feriado de 7 de setembro levei um tombo na escada do meu prédio. Estava sozinha, saindo de casa. O tombo não foi feio, mas foi assustador -- no sentido estrito: fiquei mesmo assustada. Eu caía, caía, não vinha o chão, eu não sabia que parte do meu corpo ia bater onde, com que força, com que dor. No final, nada de grave. Apoiei meio mal com o braço, meu ombro doeu, e fiquei com o coração aos pulos. (Como era de se esperar, me vi pensando nessas coisas, de como um dia sem mais nem menos você cai da escada que desce todo santo dia, bate a cabeça, e sua vida muda pra sempre, bla bla bla. Além do mais, como não tem porteiro, ninguém viu o tombo -- se tivesse sido grave eu ficaria ali sabe lá por quanto tempo.)
Mas enfim. Depois que o ombro passou uns três doendo e eu curei com o bom e velho chá de pouco-caso, começou a doer o dedo do pé. Mais e mais doendo. E incomodando para andar. Comecei a meio que mancar. Então fui à clínica ortopédica, "bater uma chapa". Chapei, e não é nada no osso, só uma inflamação. (O doutor me passou um antiinflamatório porque achou que eu era daquelas pessoas que não admitem sair do médico sem uma receita de remédio. Mas é claro que nem comprei.) Recomendou que eu use tênis, nada de salto etc. Na volta pra casa, já umas 8 da noite, no meio da rua encontrei T., amiga querida que mora bem pertinho, na rua ao lado.
Chope urgente. (Esses assim inesperados são os melhores.)
E pra minha surpresa, T. se separou, e eu nem sabia. E como todo mundo (segundo ela me disse), eu também fiz "oooh". Porque eles eram o casal conto-de-fadas. (Eram vizinhos, se conheceram um batendo na porta do outro para pedir açúcar. Você acredita? Nem eu. Mas foi assim mesmo.) Mas depois de um certo tempo aconteceram coisas, coisas da categoria das que precisam ser discutidas, mas ele nem, nem. E como não queria tocar no assunto, agia como se estivesse tudo bem. Mais ou menos forçando para que as coisas permanecessem não-ditas, e desta forma se resolvessem sozinhas, magicamente. Uma maneira estranha de se relacionar. Mas o pior é que ele não é o único. E tampouco isso é exclusivo dos homens. O medo, o medo. E sempre o eu, o eu, ego, ego ego. Sempre variações dessa mesma história.

Eleições

Recebo agora todo dia um spam do Alckmin, com o subject "Assunto de seu interesse". Era só o que me faltava.

Por quanto tempo vamos ficar ouvindo piadinhas variantes de "Nem Freud explica"?

Não estou acompanhando de perto o mais novo escândalo, esse da tal compra do dossiê por R$ 1,7 milhão. Não consigo evitar o sentimento de que compra de dossiê contra o adversário seja uma prática soooo last century.

19.9.06

Na próxima semana

Foto: AFP
Casal moderno que se preza é assim. Ele vai para a Alemanha, eu vou para a Argentina.
Dicas portenhas? Alguém?

A trilha sonora é do Chico, é claro: "O nosso amor é tão bom, o horário é que nunca combina..."

17.9.06

As boas notícias da semana

(Via Síndrome de Estocolmo) Que a prefeitura de Madri proibiu, no Fashion Week de lá, o desfile de modelos com índice de massa corporal menor do que o considerado saudável. Palmas, palmas! Juro que não é desforra de quem vive brigando com a balança. Mas esse modelo anoréxico de beleza -- 1,78m, 43 kg -- já passou do ridículo há muito tempo. Não teve um estilista em São Paulo que num desfile, em vez de modelos, usou cabides? Então. Eu vejo que está tudo muito errado quando vou a uma loja e quero comprar uma blusinha tamanho G. Nunca tem. Todas já acabaram. Quando dou sorte consigo uma M, que serve. E as P estão tooooodas lá. Sempre. Conclusão: ou as pessoas tamanho P são muito pobres e não podem comprar roupas, ou simplesmente não tem tanta gente P no mundo, ou então o tamanho P deveria ser M, e por aí vai.

(Via Biscoito Fino e a Massa) Que a Cristina Almeida, candidata ao Senado pelo Amapá, subiu onze pontos nas pesquisas, segundo o Ibope, e se aproxima de Sarney. Ah, que bela notícia. Seria realmente lindo se ela ganhasse. E o mais maneiro é esse sentimento "O Amapá é aqui" que rola. Ah, a internet me deixa com lágrimas nos olhos, eu sempre choro com essas coisas sentimentais do Brasil...

(Via Blowg) A entrevista da Jandira Feghali no site do Sidney Rezende, falando da sua luta pela legalização do aborto no Brasil. A boa notícia nisso tudo (expressa nos posts da Marina e nos comentários no site do Sidney) é que finalmente o tema é abordado com mais inteligência: ninguém é "a favor do aborto", óbvio que não. As pessoas (inclusive eu, claro) são a favor da legalização do aborto. Porque quem quer fazer um aborto vai fazer de qualquer maneira. É meio difícil defender a vida "dos fetos", eles vão morrer de um jeito ou de outro. A luta é pela vida das mães, para que elas tenham mais chance de sobreviver depois dessa cirurugia que -- de novo -- ninguém faz feliz e contente. Eu ia votar na Jandira para o Senado só como voto útil (contra o inominável Dornelles -- que eu, ignorante, achava até que já tinha morrido), agora estou mais contentinha.

Jerry Garcia & Cia

Queimei a língua. Os fãs brasileiros do Grateful Dead não só existem como saíram das tocas onde se escondiam para comentar o post que falava da banda (abaixo). Eu só ouvi falar do Dead quando passei um tempo nos Estados Unidos. E de volta ao Brasil, as únicas pessoas que tinham ouvido falar eram aquelas que tinham morado lá também. A lembrança que eu tinha era de uma coisa mais rock'n'roll, um pouco mais pesada. Mas baixei umas faixas e era tudo assim bem country rock. Não curti não. Imagina ficar, como a minha amiga, seguindo intermináveis turnês ouvindo esse chacundum! Bom, taí o link, tirem suas próprias conclusões...

http://www.goear.com/listen.php?v=131b906

15.9.06

Rápidas de sexta

Você sabe que o frio já é passado quando tem 15 mulheres na sua frente para fazer depilação. Ah, a vida no balneário.

Tive que ir ao Centro da cidade na hora do almoço, e o calor era tanto que me dismilingüi pela Av. Rio Branco. Minhas faculdades mentais caíram pela metade – talvez tenham derretido. Fui salva por um suco de manga gelado. Ah, a vida nos trópicos.

Fiz operações financeiras pelo bankfone de um orelhão na Almirante Barroso. Tão inusitado, tão moderno.

Comprei ingressos para ver o Arnaldo Cohen no domingo à tarde. Concerto de Mozart, oba. Cinco reais, oba duplo.

As eleições estão quase aí, e nada acontece. Ô pleitozinho sem graça, esse.

14.9.06

Montreal

Inverno em Montreal

2005. Então combinamos de eu visitá-la nas minhas férias. Ela já morando nos EUA há dois anos, vindo sempre ao Brasil, mas eu ainda não tinha ido para lá conhecer a casinha de doutoranda dela. E não tem jeito, melhores amigas têm mesmo que fazer essas coisas, gastar os tubos só pra passar uns diazinhos juntas.
Então fui. Era novembro. Cheguei no aeroporto de Boston e ficamos uns cinco minutos abraçadas ali no desembarque, quase chorando de alegria. Um exagero, nem tinha tanto tempo assim que ela tinha vindo ao Brasil pela última vez, mas e daí?, é assim mesmo.
E ali mesmo no aeroporto fomos na Herz para alugar um carro. Queríamos o modelo mais simples de todos, mas quando perguntamos se teria algum problema cruzar a fronteira do Canadá com o carro alugado o atendente ficou morrendo de pena e nos deu um upgrade de categoria, sem cobrar mais nada por isso. Disse que era muito perigoso fazer uma viagem dessas com o modelo mais simples. Quando vimos, tinha um Hyundai Sonata nos esperando, e ficamos assim como índios em frente ao espelho, sem acreditar que íamos circular com aquele carrão totalmente desproporcional aos nossos tamanhos (1,50 e 1,59 de altura).

A viagem
Partimos no dia seguinte com destino a Montreal – pois o objetivo era “sair dos Estados Unidos”. Além do fato, claro, de termos uma amiga em Montreal. Saímos de Boston debaixo de chuva. Seis horas de viagem, o plano era chegar no mesmo dia. No meio do caminho, uma parada prevista, em New Hampshire, para encontrar uma amiga minha, americana, que eu não via desde 1992.
Google Maps rules. Uma coisa incrível de precisão, vou te contar, esses americanos têm a vida fácil. 30 miles nessa estrada, vira à esquerda, 2 miles nessa rua, vira a direita etc. Tudo certinho. Só nos demos mal uma vez, pegamos uma entrada errada num balão, aquela coisa que em inglês tem o nome genial de roundabout. E chuva o tempo todo.

Grateful Dead
Chegamos no ponto de encontro, um café em Keene, NH. Pouco depois chegou minha amiga, que para meu alívio, 13 anos depois continuava uma pessoa adorável. Fomos até a casa dela. Que era -- como explicar? -- uma comunidade alternativa. É. Hippie, praticamente. Ela mora com o marido e os três filhos numa espécie de sótão em cima de uma marcenaria. Um lugar precário. Só tem umas poucas casas no local, uma escolinha, e eles criam porcos, vacas, e plantam coisas. Os Estados Unidos são um lugar assim meio sei lá. Muito... interessante. Ela, a amiga americana, tinha umas fotos minhas de 13 anos atrás simplesmente fantásticas. E me contou que nem chegou a completar a high school, porque se apaixonou por um cara e foi com ele seguindo as turnês do Grateful Dead. Que é uma banda que nem nunca fez muito sucesso aqui no Brasil. Então se já é muito difícil entender por que alguém abandona a vida que leva para seguir uma banda, mais difícil ainda é entender por que se faz isso pelo Grateful Dead. Mas ela fez. E passou dois anos seguindo as turnês da banda, e fazendo artesanato para sobreviver. Ela e o namorado, e mais gente que integrava essa comitiva de adoradores do Grateful Dead. Então, amigos, eu vou repetir. D-o-i-s a-n-o-s. (Este nem era o assunto que eu queria falar, mas acabei caindo nele, e essa história é tão inacreditável que eu não resisto.) E nesse tempo ela engravidou e teve um filho, que é o mais velho dos três filhos dela. E só depois que o filho nasceu é que ela parou de achar tanta graça em ficar pra lá e pra cá pelos Estados Unidos com um neném de colo, morando em barracas de camping, e largou o cara e voltou pra casa da mãe.
Isso tudo ela contou pra gente assim, de supetão, e as duas brasileiras só “oh!”, de boca aberta e queixo caído. Depois ela nos serviu abóbora e arroz plantados ali na comunidade, e nós comemos. E nessa hora começou a nevar, então nós fomos embora. Logo logo começou a nevar muito, e se não fosse o (atual) marido dela nos conduzir até a estrada principal, nós estaríamos lá até hoje, possivelmente.

Maus momentos
Seguimos sempre para o norte, para o alto e avante, rumo ao Canadá, e ficava cada vez mais frio, e caía mais e mais neve. Foi ficando tudo branco... branco... branco... Até que escureceu. Eram três da tarde, estava um breu, nevava furiosamente e nós ainda estávamos longe da fronteira. Quem dirigia era eu. E como aquela foi a primeira nevasca do ano, a estrada não estava preparada (ou seja, não haviam passado caminhões como os da foto ao lado, que removem a neve e jogam sal na estrada). Onde não tinha neve, tinha gelo. Então todos os carros passaram a andar muito devagar, um atrás do outro, sem perder a trilha deixada pelos pneus do carro da frente, caso contrário, derrapagem certa. Não foram bons momentos. E conseguimos manter alguma serenidade nem sei bem como, porque não sabíamos dirigir na neve.
Claro que resolvemos parar na primeira cidade que aparecesse, mas naquela velocidade e com a adrenalina àquelas alturas, a primeira cidade demorou muito para aparecer. Mais perdidas do que achadas, saímos da highway na primeira Exit que surgiu e depois de rodar por uns lugares ermos topamos com uma placa que dizia Main Street, e resolvemos que ficaríamos ali aquela noite, nem que aquilo fosse a Baixada Fluminense do estado de Vermont. Haha. Era Montpellier, capital do estado e possível cidade-cenário de todos os filmes natalinos-família-feliz norte-americanos. Mais à frente, The Montpellier Inn. Vacancy. E nessas horas não tem jeito, o que você diz é mesmo Thank you, Lord.

Quebec
No dia seguinte chegamos em Montreal. E que cidade bacana. E que pessoas fantásticas. E como é tão diferente dos EUA. Não sei na parte anglófona do país, mas ali no Quebec é mesmo um outro lance. E essa é a primeira lição. Nunca dizer canadense se você pode dizer quebequense. E quem me ensinou que o termo correto em português era quebequense foi uma nativa, que participa de um programa de pós-graduação em biologia feito em parceria com a Universidade Federal... do Pará. Então essa fofa quebequense fala português perfeito, mas com sotaque do Pará. E não é Belém. O trabalho de campo que ela faz é numa cidade que eu nunca tinha ouvido falar e nem lembro mais o nome, perto de Santarém. Ela levou de lembrança um CD da Banda Calypso. Pois é.

Passamos dias ótimos em Montreal, e se não fosse pelo frio absurdo teríamos aproveitado mais. Em Montreal descobri como é bom tomar um grog, uma das bebidas favoritas do comissário Maigret – e que até então eu só tinha ouvido falar nos livros dele mesmo (receitas aqui).

Montreal. A cidade velha. O porto. O museu da cidade. Os mercados de comidas naturais. Os pinheiros de natal à venda junto das outras plantas. Os cafés. Os parques, muitos parques. A neve, muita neve. Maple syroup ou sirop d’erable. O metrô, estação Jean-Talon. As comunidades de imigrantes. As lojas descoladíssimas. A loja do Exército da Salvação onde comprei minhas botas-barbarella por 7 dólares canadenses.
Tanta coisa boa pra se falar de Montreal.



11.9.06

Beethoven e o vassoureiro

E quando a gente tenta colocar um pouco de poesia na nossa vida, vem a realidade com sua pata enorme e esmaga.
Sábado em casa, e você lutando contra um freela que já há muito se arrependeu de ter pego, porque é enorme, porque é chato, porque não termina nunca (a velha teoria do papel-macho + papel-fêmea, que quando se juntam se reproduzem), porque o prazo está chegando. Etcétera. Você se sente assim como a Lu, procurando pretextos para, toda hora, fazer uma pausa. Hmm, acho que vou tomar um café com leite. Vou ligar para minha mãe. Vou checar os e-mails. Vou regar as plantas. Vou ler aquela parte do jornal. Vou fazer um chá. Só quando você cogita a possibilidade "vou tirar as roupas do varal" é que você se dá conta de que isso está ridículo. Nenhum freela chato pode ser pior do que tirar as roupas do varal. (Isto é um dogma.)
E o freela avança mais um pouco. E você lê, lê, mas quase não registra o que está lendo. E agora faltam só trezentas páginas.
Até que finalmente você se dá a pausa que realmente merece: vou tocar um pouquinho. Ah, agora sim. Dá pra passar uma hora fácil ali. E sempre com a sensação de que está fazendo algo de produtivo, e não perdendo tempo. Então você começa a se envolver com a música, finalmente consegue parar de pensar nas trezentas páginas que faltam, consegue parar de sentir culpa por não estar lá sentada avançando mais algumas laudas.
E oh, você chega no segundo movimento, aquela coisa espetacular, em que sua maior preocupação é cantar bem a melodia da mão direita

depois de ter passado pela pirambeira que é primeiro movimento, depois daquela canseira, você está finalmente em transe, a mente vazia -- ou melhor, cheia, mas só de coisas boas, quando de repente vem da rua (até aquele momento completamente silenciosa, como em geral é a sua rua) um som inequívoco.
-- Vassoureeeeiro! Vassoureeeeiro!
Você desperta do transe. O som vai ficando mais alto.
-- Vassoureeeeiro! Vassoureeeeiro!
Você não pode acreditar. Não, não tem um vendedor de vassouras passando na rua justo agora.
-- Vassoureeeeiro! Vassoureeeeiro!
Mais alto e mais alto. Você não consegue mais ignorá-lo. Você mal consegue se ouvir agora. Pára de tocar. Levanta e vai até a janela. Lá está o rapaz, carregado de vassouras. Ele te vê na janela, seu olhar se enche de esperança.
-- Vassoura, madame?
Você sorri.
-- Não, obrigada.
E de volta para o freela.

(A história é verídica, mas no fundo foi só um pretexto para experimentar esse GoEar, uma espécie de YouTube só de música. Se não der certo clicando no player, tem o link: http://www.goear.com/listen.php?v=931f36d)