6.10.06

Mi Buenos Aires Querido - parte 4


Comes e bebes - cerveza (cerbêssa)
A Quilmes domina o ambiente. Eu sou do time que prefere quase sempre uma boa cerveja de garrafa, e nesse quesito a Imperial (da Quilmes também) me pareceu imbatível. Vi muito anúncio da Brahma por lá também. Nos pubs de Palermo acha-se fácil chopes Warsteiner e até Guiness tirada na hora -- aquela cerveja preta que não se bebe, se come. Outra coisa interessante é que toda bebida vem com um tira-gosto de cortesia. Para cerveja, geralmente amendoins ou biscoitinhos Torcida-alike. Para cafés, sempre um bolinho, brownie, biscoito...

Crise econômica
Nossos hermanos estão bem ferrados, como nosotros aqui. A quantidade de gente pedindo dinheiro na rua, dormindo nas praças, vendendo bugigangas no metrô, é de espantar até carioca. E é meio pungente reparar que, num ambiente fechado como o metrô, os argentinos se constrangem muito com essa situação. Passa uma velhinha doente pedindo dinheiro para comprar remédio, e a cara dos argentinos é de um sofrimento atroz, uma humilhação por ver o país passando por isso.

Transportes - el subte
O subte (de subterraneo) é o metrô, que atende parte da cidade. Tem cinco linhas que não me pareceam muito inteligentes, pois correm praticamente paralelas umas às outras, sem uma linha que corte na perpendicular. A mais antiga é a linha A, e os trens são estilo vintage. Vale passar pela estação Peru, que é toda bonita.

Transportes - a pé
Buenos Aires é ótima para se caminhar muito. Não tem muitas ladeiras, e na maior parte da cidade é tudo quadrado e fácil de se achar. Além disso, eles têm um sistema de numeração de casas que, quando eu for ditadora do mundo, será adotado em todo o planeta. Cada quadra tem sempre 100 números. Ou seja, uma vai de 100 a 200, a outra de 200 a 300, e assim sucessivamente. Como as ruas e avenidas são longuíssimas, este sistema é muito útil. Porque se você está numa rua no número 1652 e tem que ir para a mesma rua no número 2288, sabe que precisa andar exatamente 5 quadras. Tão simples quanto genial.

5.10.06

3.0


Fazer trinta anos
É saber que você não está chegando na metade da sua vida – um terço, e olhe lá
É já ter amizades que duram vinte anos
É já ter tido um namorado “há mais de quinze anos”
É saber que, se quiser, pode começar tudo de novo
É observar que seus pais estão envelhecendo
É não fechar portas
É saber que não dá para ser a mulher-maravilha em tempo integral
É perceber que não vale a pena se desgastar por questiúnculas
É ter uma lembrança já tão remota da sua primeira transa – que dizer então do primeiro beijo – que não se sabe mais onde acaba a lembrança e começa a ficção
É saber que ainda há muito tempo para tudo
É saber que não precisa comprar TODOS os discos e nem TODOS os livros que tem vontade
É simplesmente não ter mais nenhum interesse por novos videogames
É passar a olhar com mais interesse para a prateleira dos cremes nas drogarias
É ter noção que não dá para acompanhar todas as novas tecnologias
É poder dizer, sem medo, que não entende nada sobre certos assuntos
É poder dizer, com segurança, que entende muito sobre certos assuntos
É poder jogar tudo pro alto
É ser libérrima e exata

4.10.06

Da série E-mails surreais #4

Episódio de hoje: o triste fim de um grande pianista.

Out of Office Auto Reply:
I am out of the office until Tuesday, 10th October 2006. If you have an urgent enquiry, please contact my assistant Keith Jarrett at keith@... .

Best wishes
Kate

3.10.06

Mi Buenos Aires Querido - parte 3

Moda - peluquería 2
Lembram daquelas piranhas para cabelo que vinham com uma flor imensa como adereço? Assim, um look Viúva Porcina? Parece ser o último grito (aaaaahh!!) da moda portenha. É assim, eu diria, increíble. Se eu não tivesse visto, não acreditava mesmo.

Invasão brasileira 2
Postos Petrobras, agências do Itaú e cerveja Brahma. Por todo canto.

Tango
Fomos a dois lugares muito bacanas de tango, fora do circuitão turístico (pelo menos eu acho). Café Homero (José A. Cabrera 4946, Palermo) e Centro Cultural Torcuato Tasso (Defensa 1575, Santelmo). No Homero chegamos com fome e nos demos mal (em termos, as empanadas eram ótimas, mas não tinha comida-comida). Mas o show foi bem legal. Já o Tasso, além de casa de show, também é restaurante e lá foi onde comi "o" bife de chorizo da viagem. Notem bem: eu não sou das carnes. Nunca como bife, hamburger, picanha, esses troços. Não dou valor. E aí descobri o motivo: é porque aqui nunca vou achar uma carne tão maravilhosa quando o chorizo do Tasso, então pra que insistir nessa frustração?
Também gostei de ver uma orquestra de tango tocando na rua, perto da feira de Santelmo, no domingo à tarde. Eram uns malucos, levaram um piano (!), tinha 3 bandoneons, violinos, um violoncelo, contrabaixo... Enfim, eles estão lá todos os domingos.
Mas o tango, a música. Eu gosto muito. Mas gostaria de saber mais sobre o que acontece no tango "contemporâneo", o que se faz na Argentina, hoje em dia, de tango. Não me refiro, claro, a presepadas como tecnotango ou afins, mas sim aos verdadeiros seguidores da tradição tanguera e milonguera que certamente deve ter desembocado numa música mais moderna e atual (além do Piazolla, claro). Isso ainda não descobri. Ouvindo o que eu ouvi lá, era como se alguém viesse ao Brasil e ouvisse Ary Barroso, Geraldo Pereira e Noel Rosa. Incontestavelmente maravilhoso, mas tem muita coisa boa que aconteceu depois. E as letras, ah, as letras. Realmente não tem nada mais para baixo do que letra de tango. Os temas são sempre coisas como a mulher que morreu, o cara que perdeu tudo no jogo, o infeliz que pára em frente à loja de brinquedos mas não tem grana pra comprar um presente para o filho. Só tragédia. E tudo acompanhado pelo bandoneon, piano, violino, instrumentos igualmente trágicos. Fico comparando com a música brasileira e vejo como são engraçados e curiosos muitos dos nossos sambas, mesmo quando as letras são trágicas, as músicas são pra cima ("Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim, ah meu bem, não faz assim comigo não", "Eu perguntei ao mal-me-quer, se o meu bem ainda me quer, e ele então me respondeu... que não", "Lata d'água na cabeça, lá vai Maria", "Sorria, a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações"). Ainda vou, um dia, me debruçar mais sobre esse tema que acho fascinante, de como as músicas populares no Brasil e na Argentina tiveram origens parecidas mas diferentes, e desenvolvimentos semelhantes mas diversos -- e ambas conseguiram um gigantesco reconhecimento no mundo todo (já contei que uma vez fui parar num clube de tango em Roterdam? pois é.).
*
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire

..................................................................................

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

(M.B., "Pneumotórax")


http://www.goear.com/listen.php?v=fb6c525

2.10.06

Salut, Balzac

Quinta-feira completo a trigésima volta ao redor do sol.
Tempos de mudanças.
Hmmmm.

Mi Buenos Aires Querido - parte 2

Comes e bebes - el té
A influência inglesa cobra seu tributo. Os argentinos tomam muito chá. Obviamente o mais popular é aquele horroroso chá de erva mate que nossos gaúchos também gostam, para ficar pitando naquelas caçambinhas horrendas o dia inteiro. Bleargh. Mas além disso, na Argentina encontra-se uma variedade enorme de chás deliciosos. Eu me esbaldei numa lojinha da Av Santa Fé comprando caixinhas de chá Twinnings de sabores exquisitos que valem muuito a pena. Outra dica: um restaurante fofo chamado Cabernet (Borges, 1757, Palermo - http://www.cabernet-restaurant.com.ar/) onde se pode tomar chá com torta, à tarde, por 10 pesos (esse é o preço da "selección exquisita de tés", simplesmente divina). Faça como os portenhos, sente lá e fiquei uma hora batendo papo, comendo a torta e bebericando o chazinho.

Comes e bebes - pizza
A colonização italiana também cobra seu tributo. As pizzas têm muuuuito queijo. Diz a história que os imigrantes italianos quando chegaram à Argentina ficaram deslumbrados com a fartura de comida, e por isso desceram a mão nas quantidades. A melhor que comi foi na Pizzaria Güerrín (Corrientes quase esquina com Uruguay), um restaurante tradicional, bem clima Lamas, mas com uns garçons que devem ser primos dos do Bar Lagoa (para quem não é do Rio: restaurante nada "descolado" e garçons de mal com a vida), graças às dicas de uns amigos argentinos.

Livrarias
Por muito tempo ouvi dizer que só na cidade de Buenos Aires tinha mais livrarias que no Brasil inteiro. Depois desmentiu-se essa história, como sendo uma lenda. Pois eu estou aqui para desmentir o desmentido. É absurda a quantidade de livrarias de Buenos Aires. Nas grandes avenidas, como Corrientes, Santa Fe, ou Calle Florida, é uma atrás da outra. Mas mesmo nos bairros residenciais, nas ruas tranqüilas, há sempre uma livraria perto de você. As grandes redes (Cuspide Libros, El Ateneo) dão um banho nas nossas redes como Siciliano e Saraiva. Elas têm tudo, tudo mesmo. Imperdível é visitar a Ateneo da Santa Fe (entre Callao e Riobamba), construída onde era um teatro. O restaurante é onde ficava o palco, os CDs ficam abaixo, na platéia, e os livros em todas as galerias e na parte central. Simplesmente espetacular.

1.10.06

Tende misericórdia

Como assim?
O Dornelles foi eleito senador?
Pára esse estado, que eu quero descer!

Votar pra presidente

Eu sempre me emociono quando tenho que votar pra presidente. No momento da urna. O que mais ouvi durante esse período pré-eleitoral era que essa eleição estava desanimada (é verdade -- mas acho que tanto quanto a reeleição do FH, se vocês pararem pra lembrar), e que o Brasil estaria "amadurecendo enquanto democracia" uma vez que eleição se tornava um evento corriqueiro e até monótono. É, pode ser. Mas para mim é sempre um grande acontecimento. Meu olhos marejam. Fico pensando quanto trabalho deu para que hoje em dia todo mundo possa votar pra presidente (e meu alerta para texto piegas começa a acender a luz amarela).
O fato é que esta foi a primeira eleição presidencial em que eu não votei no Lula. E foi meio estranho. Porque era como se eu estivesse mesmo habituada a digitar o 13 naquela hora. Quase uma traição -- seria uma revanche, uma espécie de vingança pela traição que eu julguei sofrer neste último ano, por parte do governo Lula? Um troco por eu ter me despencado para passar uma porcaria de réveillon em Brasília em 2002 só pra assistir à posse do presidente com que tanto sonhei, e depois ter que admitir, morrendo de vergonha, que não era bem aquilo? Será? Analistas e analisados, help!
Enfim, eu quero que o Lula ganhe essa eleição. Quero mesmo. Mas tenho sentimentos ambíguos o tempo todo sobre como deveria ser essa vitória. Ao mesmo tempo em que acho que a vitória de lavada no primeiro turno daria ao governo uma moral que ele não deve ter, temo pelas alianças que serão feitas num segundo turno.
Aí eu vejo que entre os mais pobres o Lula tem uns, sei lá, 70% dos votos. E fico pensando sobre o que isso pode significar. Leio mil coisas boas e lúcidas contra e favor as políticas públicas sociais do governo. Como não entendo nada desse assunto, não trabalho com isso, não estudo esse tema, fico dando tratos à bola para chegar a uma conclusão -- que nunca é muito definitiva (e nossa, como eu invejo as pessoas que têm certezas absolutas quanto a isso). Mas aí toda hora me toca um alarme contra a arrogância. A arrogância de achar que a elite intelectual (na qual nos incluímos eu e você) é que sabe o que é melhor para quem é pobre, sem estudo, e com fome. E que um voto é uma maneira, sim, de todo mundo ter voz (luz vermelha para texto piegas!).
Nessa hora penso de novo no Lula e na história dele, tão incrível e tal. E em como é importante ele ser presidente do Brasil. Depois corta pras imagens dele, outro dia mesmo, conversando pra fazer aliança com o Orestes Quércia. E com o Sarney. E com o Newton Cardoso.
Estou assim, esquizofrenizando.

Mi Buenos Aires Querido - parte 1


A invasão de magnatas brasileiros
Com o câmbio favorável (aprox. 1,40 peso cada real) e os pacotes e passagens muito baratos, os brasileiros invadimos mesmo a Argentina. Um motorista me disse que chamam a estação de esqui de Brasiloche. Em Buenos Aires ouve-se português em qualquer lugar, turístico ou não. Reparei que isso mexe com os brios desse povo quase nada orgulhoso que é o argentino. Brasileiros compramos tudo, damos gorjetas (propinas, haha) milionárias, gastamos sem dó nem pena. E, para além do câmbio favorável, as coisas são mais baratas mesmo. Principalmente comida e transporte (seja táxi, ônibus ou metrô). Mas atenção: não vale a pena levar reais para trocar lá (como eles não querem dar o braço a torcer, usam um câmbio péssimo de 1,25), e sim dólares (3,08 pesos nas casas de câmbio).

Comes e bebes - cafés
Sim, em Buenos Aires rola aquela clima de ficar no café batendo papo durante horas, ou lendo um livro ou jornal, sem que os garçons te encham o saco para vc consumir mais. Tem café de tudo quanto é tipo, sempre. E tem aquela coisa genial, que é o Submarino (leite quente com uma barra de chocolate dentro, que derrete aos poucos). Aliás, o que é a tara por chocolate que esse povo tem?! Um progama bem típico indicado por argentinos, e que eu fui conferir, é comer churros com chocolate no La Giralda (Corrientes 1453) (o lugar tem o clima do Nova Capela, mas não tão trash). Reparem na dieta: a porção vem com quatro (!) churros (daqueles que vendem nas barraquinhas no Brasil, só que mais sequinhos e gostosos) recheados com chocolate e polvilhados com açúcar, e acompanha uma xícara imensa de chocolate quente. Hoho. Na linha "É turístico sim, mas não perca": o Café Tortoni, uma confeitaria antiga no estilo da Colombo. Fica na Av. de Mayo 825 (http://www.cafetortoni.com.ar/). Peça tostados de pão de miga, um clássico.

Moda - peluquería
Sabe o clássico corte de cabelo repicado, em camadas, dos anos 80? Pois é. Voltou com força total em Buenos Aires. Todas --eu disse todas-- as mulheres têm agora cabelo repicado. E nenhuma delas é a Farrah Fawcett. Que essa moda não chegue por aqui para provocar novas vítimas.

E eu voltei num avião da Gol

Imaginem o clima que foi...
Mas fora essa notícia trágica, a viagem foi óootema e relatos bonairenses seguirão em breve.