31.10.06

Rápidas de terça

Ingresso mais barato pro show do New Order no Rio: R$ 230. Preço do mesmo show em Buenos Aires, uma semana depois: 75 pesos. Faz-me rir.

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Agora que acabou a eleição, quem sabe o Balneário não volta a ter um prefeito, e não mais um blogueiro-analista-político-coordenador-de-campanha-de-juíza? É uma idéia, né, quem sabe?

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Este ano não vi as pichações do pessoal do Halloween é o cacete – Viva a cultura nacional. Acho genial. Por onde andam eles?

Pesquisa taximétrica

Foto por jando, via flickr
Não sei se sou só eu, mas tenho achado surrealmente caro andar de táxi no Rio de Janeiro. Eu combato o quanto posso o transporte individual no ambiente urbano (pegar o carro e ir sozinho até algum lugar acessível por transporte público), mas acho que os taxistas estão dando um tiro no pé ao cobrar tão caro. Uma corrida de Botafogo ao Leblon (uns 13km), à noite, está custando R$ 20. Ou seja, R$ 40 para ir e voltar. E eu tenho pena de dar 40 paus em alguns livros! Acaba valendo mais a pena pagar um estacionamento ladrão. Tudo errado, né? Eu converso com os taxistas, mas surpreendentemente ainda não consegui convencer nenhum de que eles estão errados!
Então eu quero saber: quanto custa a bandeirada do táxi na sua cidade, e de quanto em quanto o preço aumenta? Aqui no Rio é R$ 4,30 para entrar no carro, e vai aumentando de R$ 0,15 em R$ 0,15.
E tome ônibus.

30.10.06

Votar pra presidente - III

Sol, calor e engarrafamento. Fui votar, como sempre, ao lado das madames decadentes da Selva da Pedra e dos pretos e pobres da Cruzada. É sempre assim, isso aqui ô-ô, é um pouquinho de Brasil, iaiá, etc. O mesário deve ter uns 17 anos, e não parece entusiasmado com a festa da democracia. O voto leva uns dez segundos, e desta vez não me emociono. No fim da tarde passamos no Rio Sul e ficamos vinte e cinco minutos para encontrar uma vaga. Quando saímos, menos de uma hora depois, sobravam tantas vagas que poderíamos escolher, se fosse o caso. À noite, cervejinha e a resenha eleitoral com M. e P. Comemoramos a derrota da Roseana Sarney, mas só até lembrar que, como prêmio de consolação pela derrota, talvez ela vire ministra ou coisa parecida, e os nossos sorrisos ficam amarelos. Ouvimos o discurso do presidente reeleito no rádio enquanto comemos biscoitos de polvilho. Lembrar esse mesmo momento, quatro anos atrás, é estranho e meio triste. Ontem, éramos todos eleitores do Lula, e no entanto preferíamos discutir o que vai ser no réveillon.

26.10.06

Te cuida, Chitãozinho

Antonio Carlos & Jocafi (vivos ou mortos?)
Papos nonsense no lançamento literário-musical de ontem:
S.: Aquele ali não é o Antonio Carlos ou o Jocafi? Eu nunca sei qual é qual.
Eu: Não tenho idéia, não lembro a cara deles.
A.: Mas um deles não morreu?
Eu: Morreu??
S.: Se morreu algum, foi o Antonio Carlos.
Eu: Por quê?!
S.: Porque nessas duplas sempre morre o primeiro.
A.: ?
Eu: ?
S: É, ué. É só ver. Leandro & Leonardo, quem morreu?
Eu: Leandro.
S.: E Leonardo taí, fazendo o maior sucesso até hoje. João Paulo & Daniel?
A.: Morreu o João Paulo.
S.: E o Daniel? Firme e forte, pop star total. Claudinho & Buchecha?
Eu: ...
A.: Lennon & McCartney!
S.: Pra você ver. O cara acha que é melhor, o nome dele vai primeiro, e tal. Taí. Não sobra um pra contar história.

História Sexual da MPB

Não reparem o momento Querido Diário. Mas ontem vi, num mesmo evento, Ney Matogrosso, Beth Carvalho, Joyce, João Roberto Kelly e Ademilde Fonseca. Pois é, foi no lançamento deste livro incrível, dessa pessoa mais adorável. Além da abordagem inédita do assunto, o livro traz dois cadernos de foto absolutamente imperdíveis, com as capas dos discos mais surreais da nossa música. Não deixe de pelo menos folhear, da próxima vez que for à livraria, é diversão garantida.* Ah, e eu estou nos agradecimentos... ui, que emoção!

*Acabo de saber que o livro só chega às livrarias de todo o país no dia 7/11. Antes, só tem aqui no Rio. Por isso é que não achei a capinha para colocar aqui. Enfim, fica dado o recado.

Virtude do mês: paciência

De todas as virtudes socialmente estabelecidas (temperança, lealdade, coragem, compaixão, honestidade, responsabilidade etc.) a que eu mais admiro é a paciência. Porque essas outras todas que estão aí entre parênteses são moleza, é só ser minimamente bom caráter. Não tem muito esforço envolvido. Mas a paciência não. Como é difícil ter paciência. Taí a minha virtude-meta.
Paciência é um exercício, e como tal exige disciplina. É preciso trabalhar, moldar a sua paciência. Principalmente com pessoas hopeless. E mais ainda com pessoas hopeless por quem você tem carinho e afeição. Sabe aquela pessoa que faz tudo errado? Que quer te ajudar e atrapalha muito mais? E que você não sabe mais como tentar ajudar? E com a constância da situação, a coisa vai te irritando, dando aflição, vontade de sumir... Aí que entra ela, a paciência. Quando você percebe que, sim, trata-se de um ser hopeless, e a sua paciência terá de ser eterna. E-ter-na. Muito esforço, viu? Mas olha, me sinto um ser humano muito melhor.

24.10.06

Lost na estação Finlândia

Ontem, sem motivo aparente, sem mais nem por quê, resolvi ver TV à noite e vi um capítulo de Lost. Pela primeira vez.
Achei um saco, não entendi porra nenhuma, e nem fiquei com a menor vontade de entender.

Hoje, sem motivo aparente, sem mais nem por quê, recebi pelo correio a nova edição, pocket, de Rumo à estação Finlândia, do Edmund Wilson (que foi o primeiro livro publicado pela Cia. das Letras, que agora completa 20 anos e relança o título).

Ótimo. Um problema a menos. Eu adoro quando as escolhas se fazem sozinhas.

23.10.06

O mistério da Fórmula 1 (ou: a divisão social do esporte)

Alonso e Massa no GP do Brasil. Foto: EFE
Foge à minha compreensão a popularidade da Fórmula 1 no Brasil. Eu acho que é o único esporte de grande público que os entusiastas não podem praticar. E na minha mente binária, um esporte é tão mais popular quanto mais pessoas podem vivenciá-lo.
É como se houvesse um divisão social do esporte. Na base, os esportes de todas as classes, como futebol, atletismo. Em seguida, os esportes, digamos, classe média, como vôlei, basquete, que são coletivos e exigem uma infra um pouco maior. No topo, esportes de elite, tais como tênis, golfe, pólo. E acima de todos esses, a F1, que me parece ser só para milionários.
Eu considero corrida de carro um esporte absolutamente tedioso, mas isso sou só eu, é claro, está aí o resto do mundo para me desmentir. Basta ver como os ingressos para a corrida de domingo se esgotaram rapidamente, e a cobertura maciça da imprensa.*
De todo jeito, me intriga que as pessoas achem tão emocionante um esporte que dura horas e em que você vê uns carros coloridos dando dezenas de voltas em uma pista toda torta, de propósito. (Haha, estou me sentindo como aquelas pessoas que dizem não gostar de futebol porque não vêem graça em ficar olhando "22 homens correndo atrás de uma bola".) Mas na F1 não dá nem para enxergar quem está dentro do carro. Além disso, para uma pessoa leiga (e de má-vontade) como eu, o fator humano conta pouco, não dá para saber até onde vai a perícia do piloto, e até onde vai a engenharia das equipes mecânicas. Que aliás não devem ser muito competentes, porque esses carros vivem dando problema, vivem quebrando, furando pneu, vivem deixando todo mundo na mão.
E por cima de todas essas coisas, ainda tem a própria razão de ser do esporte: ver quem corre mais de carro -- além de ser uma coisa besta, nada poderia ser menos recomendado, vide a quantidade de mortes no trânsito por excesso de velocidade. (Eu aliás não consigo entender por que se fabricam carros de passeio que chegam a 250km/h, se em nenhuma estrada do país é permitido ultrapassar 110km/h. Na minha santa inocência, deveria haver um dispositivo que impedisse o carro de passar de 110. Mas isso é uma idéia estapafúrdia, só pode ser. Ou então é influência maligna da F1.)
Então eu fico pensando por que será que o público se identifica tanto com a Fórmula 1. Não posso acreditar que seja, como diz aquela propaganda, só porque "brasileiro é louco por carro". Isso é balela. Poderia ser pela presença histórica de pilotos brasileiros campeões, desde Fittipaldi, passando pelo Piquet e o Senna. Ou justamente por conseguirmos entrar numa elite tão elite. Mas se fosse isso, depois do fracasso Rubinho-mala-sem-alça era pra todo mundo ter limado esse esporte pra sempre. Ainda mais que sempre os brasileiros estão defendendo montadoras estrangeiras (também, claro, queria o quê, uma equipe Gurgel?! Ha).
Bom enfim, este post acaba em cadência suspensiva, não tem conclusão. Você aí que é fã desse estranho esporte, me explica qual é a magia da coisa, que eu até hoje não captei.

*A melhor eu ouvi na rádio CBN, no domingo, algumas horas antes da corrida. Repórter, em Interlagos: "Uma certa confusão aqui nos bastidores, com a passagem de Michael Schumacher. Ele chegou com sua camiseta, calça jeans apertadinha e botas de vaqueiro. Mas na verdade não foi nada de mais, ele estava apenas voltando do banheiro. Enquanto o alemão foi se aliviar, os mecânicos da Ferrari só ficarão aliviados depois da corrida, é claro". Juro.

22.10.06

Última de Buenos Aires

Li o post sobre Buenos Aires no ótimo blogue Nada após um dia comer o outro, e me dei conta que não falei sobre outra coisa que me chamou atenção: a segurança. Como já disse, economicamente eles parecem estar ferrados como nós, com muita gente pedindo dinheiro e dormindo nas praças. E no entanto todos os bairros que eu fui de dia ou de noite eram bem policiados. Todo mundo anda de madrugada pela rua, sem grilos. Dizem as más línguas que é grande o número de furtos, principalmente, claro, nas áreas mais turísticas. (Deixou sua câmera de bobeira, ela pode sumir.) Mas essa nóia que a gente vive aqui, na eterna iminência de ouvir o "perdeu, perdeu", respirar e não reagir, isso não vi por lá, nada parecido.

Um belo dia em Palermo, sentada na mesa de um pub, do lado de fora, no meio da tarde, um guarda uniformizado, que parecia recém-saído de uma tira da Mafalda, me abordou (vou traduzir do portunhol):
- Bom dia, senhorita, me compreende?
- Compreendo sim, seu guarda.
- Bom, é o seguinte, tome cuidado com essa sua filmadora que está sobre a mesa, porque num momento de descuido, pode vir alguém e pegar.
- Ahn, claro. Mas sabe, seu guarda, eu venho do Rio de Janeiro...
- (risos)
- ... e estou achando Buenos Aires muito segura, policiada por todos os lados.
- Mas mesmo assim, senhorita...
- Bem, se o senhor acha, tudo bem, vou guardar a filmadora agora mesmo.
- Não, senhorita, agora não precisa, afinal eu estou por aqui!

Mi Buenos Aires Querido - parte 6 (final)

Manifestações
Pelo visto, as passeatas podem ser consideradas um programa turístico de Buenos Aires. Ainda mais para nós brasileiros, que temos tão pouco esse hábito. Estive lá por uma semana e vi duas manifestações populares. Uma, a favor da legalização do aborto. Um dos gritos de ordem era "Nosotras parimos, nosotras decidimos". Haha. Essa era em parte da Av. 9 de Julho, e tinha aparato policial controlando e organizando, mas não chegava nem perto da outra manifestação que eu vi. Estávamos M. e eu saindo do Café Tortoni (o da foto do pão de miga abaixo), onde nos esbaldamos de Quilmes Imperial. Quando saímos, em plena Avenida de Mayo (que liga o Congresso à Casa Rosada) nos deparamos com uma passeata imensa, com muita, muita gente, mesmo.
Eram umas 7 da noite, e todos marchavam barulhenta porém organizadamente em direção à Casa Rosada. O motivo: o ex-chefe de polícia Miguel Etchecolatz, do tempo da ditadura militar, havia sido julgado e condenado à prisão perpétua por conta de seus atos naquela época (crimes contra a humanidade), dez dias antes. No mesmo dia que saiu a condenação, uma das principais testemunhas do processo, o pedreiro Julio López, cujo depoimento foi fundamental para a sentença, desapareceu. Então a manifestação era exigindo o reaparecimento do López, com vida, e a punição dos culpados. Ele passou a ser considerado "o primeiro desaparecido da democracia". A manifestação era enorme, tinha bandeiras de partidos, sindicatos, entidades estudantis, tudo. Gente saindo pelo ladrão. E no entanto não vi nenhum ambulante com seu isoporzinho de cerveja. Nada que pudesse desviar o propósito daquele evento. Tudo isso somado me pareceu uma coisa do outro mundo. Não era pra ser, era? Se nós somos hermanos e temos muito mais semelhanças do que diferenças. Já ouvi dizer que a ditadura militar na Argentina foi mais barra-pesada do que no Brasil, no que diz respeito aos desaparecidos políticos. Eu não saberia dizer, nunca estudei o assunto muito a fundo. O que percebo é que eles são muito mais eficientes do que nós na rememoração desse passado. As Mães e Avós da Praça de Mayo são uma força política muito respeitada, e pela sua comovente e inquestionável batalha, há mais de trinta anos, são conhecidas em todo o mundo. Elas estava lá nesse dia, com as fotos dos seus filhos e netos desaparecidos. Aquelas fotos de trinta anos atrás, sabe como é. Dá vontade de chorar, mesmo. Numa das milhares de livrarias da cidade, eu vi, na seção de livros infantis, um título, algo como "La Ditadura Militar Explicada a los Niños". Era publicado pelas Mães da Praça de Mayo. Folheei o livro, e meu deus, era horrível. Era um livro ilustrado, e lá pelas tantas tinha desenhos de mulheres grávidas sendo torturadas. Entre outras coisas. Não sei, a idéia me pareceu interessante, mas a realização era punk demais. Parece que houve uma anistia na Argentina, para todos os lados, como aqui. Mas que depois essa anistia foi (ou está sendo, não sei ao certo) revogada, porque principalmente esses parentes de mortos e desaparecidos não admitem um perdão aos repressores. Vi esta semana no Clarín a notícia de outra manifestação, quando se conta um mês do desparecimento do López. Eu não sei o que nos moveria dessa maneira. O esporte, talvez?Se o Flamengo fosse rebaixado acho que haveria chances de uma revolta popular. Mas por motivos políticos? Duvido. Ainda mais com o poder isolado naquela Bras-ilha, como diz a Cam. Porque não temos nenhuma educação política. No fundo não sabemos bem o que é política. Só temos a experiência dos políticos. Mas a teoria, o conceito, é zero.
Ficamos ignorantes ou ficamos cínicos? Posted by Picasa