"Essence - Blue"Na escola, sempre achei o tato o mais desprezado dos cinco sentidos. Talvez porque seja difícil imaginar o que seria a sua ausência. Ninguém tem problemas em entender o peso da privação da visão ou da audição. E bem ou mal, podemos imaginar, mesmo que vagamente, porque são casos mais raros, o que seria de repente não ter mais os sentidos tão ligados ao nosso dia-a-dia, que são o olfato e o paladar. E nisso tudo, o tato ficava um pouco relegado àquelas experiências da aula de ciências, de colocar as mãos numa caixa fechada e sentir o veludo, a lixa, a gelatina.
Ninguém ensina, na escola, a outra concepção de tato: o cuidado ao tratar com outrem. A preocupação com o bem-estar de quem se gosta, na hora de dar notícias que podem ser desagradáveis, que podem magoar. No fundo, a habilidade de tocar as pessoas, os seus sentimentos.
Essa semana, mesmo, fiquei bem chateada por um caso que se pode diagnosticar como total ausência de tato. O fato em si não é grave, não é ofensivo, poderia até mesmo ser um motivo de muito júbilo e comemoração (este texto, hein, com “outrem” e “júbilo”, vou te contar...), mas da forma que foi feito foi tão desagradável, tão indelicado, que me deixou magoada. Por falta de tato.
A expressão “cultivar uma amizade” é um verdadeiro achado. Cultivar é ter um cuidado constante. Você não pode abandonar, deixar secar, nem afogar em muita água. Tudo isso pode matar. Cultivar é ter cuidado e atenção, preocupar-se e ouvir as necessidades do outro. Tato.
E agora vejo-me do lado oposto. Uma amiga querida me escreveu dizendo que vai se casar. Eu, que acompanho o relacionamento de-perto-de-longe (porque ela mora em São Paulo, mas sempre me coloca a par de todos os detalhes) desde o início, tenho a impressão fortíssima de que não vai dar certo. É o tipo do casamento que tem todos os ingredientes para dar errado. Relacionamento muito recente, imensas diferenças entre os dois que já causaram sérios abalos no namoro, e sabe-se lá que outras surpresas podem ser reveladas nos próximos meses. Mas ao mesmo tempo, é claro que fico feliz por vê-la feliz, e ela está nas nuvens. Enfim, uma situação delicada. Preciso de tato, muito tato. Porque, na minha humilde opinião, ela está casando pela idade. Ou seja, está casando com quem está com ela neste momento, porque ela sente que é o momento para casar – o “com quem” importa, claro, mas menos. Se namorasse este mesmo cara aos 21 anos, não pensaria em casar com ele, não teria a convicção de que ele é “o” cara. Mas como já tem 31, o tempo urge. Mundo cruel, muito cruel. Mas claro que não vou dizer isto. Vou dizer que acho muito precipitado (apesar de ela já ter se antecipado e dito “não é uma coisa precipitada e impensada!”, o que só deixa mais claro que é, sim, precipitado), que não vejo necessidade de tanta pressa, que eles podem se conhecer melhor, que o melhor é morar junto um tempo, e depois, se estiver tudo ótimo, faz uma cerimônia consolidando a união... E dizer isso sem parecer o arauto das más notícias e a ave do mau agouro, só com muito, muito tato.
Segunda-feira de suspiros.