7.12.06

Matrimoniais


Minha professora de Pilates é de Barra Mansa, mas de família mineira, e como todo bom mineiro, fala pelos cotovelos. Ontem o assunto era o casamento dela. Contou que o vestido de noiva que ela alugou tinha sido usado na mesma semana por outra noiva, e quando ela foi na loja ainda não tinha sido lavado, e estava imundo e com a barra toda rasgada, e ela quase desmaiou quando viu. E que no mesmo dia ia ter outro casamento, mais tarde, então o normal era que ela e a outra noiva dividissem o custo das flores que enfeitariam a igreja, mas a outra noiva queria colocar flores de plástico, porque era muito mais barato, e era uma noiva muito humilde, que trabalhava como manicure e tinha trocado aquelas flores de plástico por não sei quantos pés-e-mãos com a dona da loja. Então ela acabou pagando quase tudo sozinha, para ter as flores naturais. E de como se endividou sobremaneira por causa da festa e dessa louca indústria de buquês, calígrafos, convites, lembrancinhas e bom-bocados. Que em cima da hora descobriu que o padre estava de férias (!) e saiu xingando tudo e todos na igreja, para indignação total da mãe, super católica. Aproveitando a deixa, a outra aluna, que casou em Volta Redonda, disse que no casamento dela o padre não aparecia, e que o sacristão ou sei-lá-o-que da igreja falou para ela, com a maior calma do mundo, “não sei se ele vem, não, você não tem o telefone dele?”, como se ela fosse sacar do bolso do vestido de noiva um papelzinho com o telefone do padre! E enfim o padre chegou, meia hora depois da noiva, e que ela casou muito puta e no maior estresse.

Sinceramente, a pessoa não precisa passar por tudo isso na vida para ser feliz.

5.12.06

A saudade mata a gente

A odalisca Índigo outro dia postou sobre “palavras em falta na língua portuguesa”. Aquelas intraduzíveis. São muitas mesmo. Ela citou blind date*, deadline, to earn. Eu já falei aqui sobre misplaced, que não é bem “fora de lugar”, e sim “no lugar errado por engano”, a meu ver – mas isso é uma tradução de 5 palavras para 1, aí não vale.
Agora, vamos passar para a recíproca: palavras em falta nas outras línguas. Não entendo, não consigo entender, não compreendo mesmo como existem idiomas que não diferenciam ser e estar. Aliás, nenhum idioma que eu conheço faz essa diferença, exceto o espanhol. Ser e estar são conceitos completamente diferentes, como é possível que sejam designados pelo mesmo único verbo? Umas pobrezas de línguas, essas que tem por aí, viu?
Bem, quem vê pensa que eu domino oito idiomas. Não é bem assim. Sei que em inglês e francês não tem diferença. No que me recordo daquelas aulas de alemão lá atrás, também era tudo em cima do sein. Italiano não sei. Mas aquele livro do Luiz Ruffato, por exemplo, Mamma, Son Tanto Felice, quer dizer Mamãe, sou tão feliz, ou Mamãe, estou tão feliz? (Ou nem uma coisa e nem outra, e eu é que sou metida achando que entendi italiano?) Você aí, amigo leitor, que fala romeno, húngaro, sueco, holandês, chinês, árabe, russo ou swahili, o que tem a dizer sobre essa questão relevante?

Isso pra não falar de saudade. Saudade é um sentimento tão universal, como é possível que só os portugueses tenham tido a idéia de dar uma palavra a ele? Gênios, esses patrícios.

Mas o que me falta mesmo, neste momento, é uma palavra para designar a saudade que se sente quando o ser amado encontra-se do outro lado do mundo, a doze fusos horários de distância. A presença da ausência é foooorte.

* Eu acho que “encontro às cegas” cumpre a função, mas o problema é que essa prática não existe por aqui, daí a inutilidade de haver um termo para algo que não existe na realidade da língua. (Blind date é o cacete! Viva a cultura nacional! hehe)

Pergunte ao Google

Resisti o quanto pude ao obrigatório post sobre as buscas do Google fazem as pessoas chegarem a este blogue. Os temas campeões são "simpatia para trazer a pessoa amada" (por causa deste post), "fotos eróticas de freiras taradas" (aqui), "pão de miga" (Bs As, claro) e, medo!, "corte de cabelo repicado" (todavia arrentina). Mas hoje alguém veio pra cá ao procurar "como le dar com pessoas com trastorno bipolar?" (sic, sic). Eu me pergunto, então: como le dar, amigos?

Suspende

Do site oficial do Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil.

Suspenção/Cancelamento do Benefício

(suspiro)

Hoje também eu descobri que o meu dicionário Aurélio (o grande) pula da página 544 para a 577.

A última flor do Lácio, inculta e bela, me faz sofrer.

4.12.06

O Homem Horizontal


Estou aqui me divertindo com esse O Homem Horizontal, que você provavelmente não conhece. O romance, recém-lançado pela editora Publit, que publica livros sob demanda, é a história de Hebdomadário de Oliveira, um homem só e desnecessário.

"O homem desnecessário chama-se, por exemplo, Hebdomadário de Oliveira, que é esse o meu nome, exatamente esse. Sou, nesse particular, um homem comprovadamente só, por absoluta falta de outro Hebdomadário. Trago a certidão de nascimento sempre comigo, para aquelas pessoas que não acreditam que alguém possa ser, dos Oliveiras, o Hebdomadário."

E é nesse estilo extravagante e hilário que se desenrolam as muitas peripécias do protagonista só e desnecessário. Por vezes, rocambolescas demais, mas em certas ocasiões o enredo se rende ao estilo -- o humor erudito, poderia-se dizer.

"-- Frank?
-- O quê?
-- Os espelhos e a cópula são abomináveis porque multiplicam o número de homens, você não acha isso, acha?
Até para citar Borges a gente precisa ter cuidado. Eu, amante profissional, falando mal da cópula, e desse modo escarrando no leito generoso que me dá amor e me alimenta a vinho de seleção e caviar. Mas o autor citado é o Borges, pô, e Borges devia pairar acima dessas susceptibilidades. Mas não paira, não paira, não paira, não."

Para quem gosta de descobrir novos autores, um prato cheio.

Moda


Então quer dizer que agora, depois das roupas em que as mulheres literalmente se embrulham pra presente com um laço de fita em torno do estômago e um laçarote, a moda é calça legging por baixo do vestido?
Vou te contar, esse pessoal da moda tem um senso de humor muito estranho...

Serviço de utilidade pública - parte IV

Os prefixos e o hífen

Prefixos e elementos de composição que precisam separar-se pelo hífen somente diante de certas letras.

4º grupo (2): mal- e pan-.
Regra: Pedem o hífen quando seguidos de vogal e h.
Exemplos: mal-acabado, mal-agradecido, mal-assada, mal-assombrado, mal-educado, mal-estar, mal-humorado; pan-americano, pan-africanismo, pan-eslavismo, pan-helenismo, pan-hispânico.

Obs.: O Pequeno Vocabulário registra sem hífen malajambrado, quando seria de esperar mal-ajambrado, forma única usada no VOLP e, provavelmente por inadvertência, panarmônico em vez de pan-harmônico, segundo manda a regra; o VOLP registra as duas formas.

Nos outros casos não ocorre o hífen: malcriado, malfazejo, malferido, malgrado, malmequer, malquerença, malquisto, malsão, malsoante, malversar, malvisto; pangermanismo, panromânico.

Fonte: KURY, Adriano da Gama. Para falar e escrever melhor o português. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

(Continua)

2.12.06

Uma noite em Tuktoyaktuk


É engraçado quando duas pessoas diferentes resolvem te dar o mesmo CD de presente.
Mas bonito mesmo é ver que elas te conhecem muito bem, porque acertaram em cheio.
Com vocês, o disco de estréia doBrasov, Uma Noite em Tuktoyaktuk.
(Que é pra começar o fim de semana dançando)


http://www.goear.com/listen.php?v=be976e3


http://www.goear.com/listen.php?v=2778313

OBS: O CD vem com 6 capas diferentes, pra você escolher sua preferida.

Serviço de utilidade pública - parte III

Os prefixos e o hífen

Prefixos e elementos de composição que precisam separar-se pelo hífen somente diante de certas letras

3º grupo (2)
2 terminados em -r: super- e inter-.
Regra: Pedem o hífen quando seguidos de h e r.
Exemplos: super-homem, super-humano, super-requintado; inter-resistente.
Nos demais casos não se usa o hífen: superabundante, superdotado, superfino, superpotência, superprodução.

Obs. 1: É super- o único prefixo terminado em r citado nas "Instruções"; mas é lícito incluir nesta regra inter-, de que o PVOLP registra um exemplo com hífen: inter-resistente. O VOLP inclui numerosos outros, como inter-racial, inter-relação, etc. E assim procede o VOLP, que registra com hífen compostos em que o segundo elemento se inicie por h: inter-helênico , inter-hemisfério e inter-humano.

Obs. 2: Seria de esperar que outro prefixo terminado em r, hiper-, seguisse a mesma regra. O Pequeno Vocabulário, entretanto, registra hiperepatia, hiperidrose, entre outras palavras, quando seria de esperar hiper-hepatia, hiper-hidrose. Mais uma incoerência oficial. O VOLP mantém hiperepatia, inexplicavelmente, uma vez que estabelece o hífen quando hiper- vem seguido de h ou r. E registra hiper-hidrose (ao lado de hiperidrose), hiper-hedônico e hiperedônico, hiper-hidratação e hiperidratação , com preferência para as formas que mantêm o hífen.

Fonte: KURY, Adriano da Gama. Para falar e escrever melhor o português. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

(Continua)

1.12.06

The American Friend

Klimt, "Árvore da Vida", 1905-09

Som: In a Sentimental Mood com Duke e Coltrane.


http://www.goear.com/listen.php?v=35bcdcd

Quando conheci D. e R. eu devia ter uns 6 ou 7 anos. Eles eram um casal de amigos da minha mãe, e vinham bastante para o Brasil, a trabalho mas também porque gostavam. E como eram americanos, e era a década da hiperinflação, eu sempre tinha a impressão que eles eram muito ricos. Nem eram. Mas eles alugavam uns apartamentos na Vieira Souto, de frente pra praia de Ipanema, e eu ia lá e achava uma gastação de onda. Claro que eles alugavam esses apês junto de parentes e amigos que vinham também, e no rachuncho não deveria sair tão absurdamente caro. Naquela época em que tudo aumentava tanto de preço tão rápido que nem mesmo a gente conseguia acompanhar.
Eles traziam uns presentes bárbaros para mim. Uns ursos de pelúcia enormes, como eu nunca tinha tido. Uns livros para colorir que eram simplesmente fantásticos. E uns super estojos de pilots de mil cores, que era para colorir os livros. Presentes inesquecíveis.
Naquela época a gente se comunicava não sei bem como. Alguém traduzia, mas na verdade rolava uma comunicação direta. Principalmente com D., com quem sempre me dei tão bem.
Quanto eu tinha 8 anos fomos para os Estados Unidos, minha mãe e eu. E encontramos com eles em NY. D. tinha a pachorra incrível de ficar me levando nos fliperamas onde a gente podia jogar Pacman sentado no banco, a tela ficava como se fosse numa mesa, você tinha que olhar para baixo, não para frente. E eu só despejando quarters no Pacman, e morrendo na mão dos fantasminhas.
Depois eles vieram ao Brasil muitas outras vezes. Eu era adolescente, e ia com eles a shows de jazz. Chique no último, quando você tem 13 anos.
Aos 15, passei seis meses nos confins da Carolina do Norte, e quando acabou fui para a casa deles em Nova York, e fiquei um mês inteiro lá. Hoje em dia, que tenho minha casa e às vezes hospedo pessoas, sei que não é exatamente uma moleza ter um hóspede por um mês. Ainda mais um hóspede de 15 anos. De outro país. Eu ajudava como podia. Levava a cachorra pra passear e paquerava os outros donos de cachorro do Lower East Side. Fazia coisas secretariais para a pequena produtora que eles tinham em casa, como passar fax, bater envelopes à máquina (1992, people, um tempo estranho sem internet) e colocar no correio. Levantava cedo e ia comprar bagels para o café da manhã. Eles me levavam ao Blue Note. E foram comigo a Woodstock, para que eu conhecesse a mítica cidade do festival. E um fim de semana me levaram a Connecticut. Eu tinha um walkman e gostava de andar pelas ruas da cidade ouvindo música (na época eu comprava fitas K7 originais dos álbuns; hoje acho que as crianças não sabem mais que isso um dia existiu). Ele me dizia para não fazer isso, porque o som das ruas era importante para sua própria segurança (por exemplo, pra não ser atropelada, ou para se ligar se vier uma sirene ou gente berrando).
No final dessa minha temporada novaiorquina, D. comprou uma super câmera fotográfica e me deu a antiga dele. Uma máquina muito boa, Canon, toda manual, que eu tenho até hoje. Veio com uma lente 28mm e ele foi comigo comprar um zoom 35-105mm, de segunda mão, numa lojinha de lentes. E eu trouxe a máquina pro Brasil, e levava pra todo canto, e dizia a quem me perguntava, “Foi meu amigo americano que me deu”.
E se eu lembro de todos esses detalhes até hoje, é porque tudo isso foi muito importante.
Alguns anos depois, eu soube que eles dois tinham resolvido se casar, numa cerimônia, para oficializar a união que já durava uns quinze ou vinte anos. Achei meio estranho, mas enfim. O fato é que pouco tempo depois D. e R. se separaram. A produtora acabou, e cada um abriu seu próprio negócio. A gente manteve mais contato com ele, que passou a se dividir entre NY e Los Angeles.
Em 2002 estive em Nova York, e entrei em contato com eles dois. Não consegui encontrar R. mas fui almoçar com D. Rolava um afeto tão antigo, que foi ótimo esse encontro. Só estranhei ele estar muito magro, com uma aparência doente. Mas não comentei nada.
Depois disso nos falamos muito pouco. E se você leu até aqui esse texto memorialístico, já deve ter deduzido que D. morreu, como eu soube ontem. Soube de mais detalhes nessa notícia. Ficou a saudade e o registro desses bons momentos do meu amigo americano.