17.4.07

Domingo carioca

Felizes e contentes indo para Niterói, para um churrasco de aniversário, domingão, sol e céu azul, só alegria.
No caminho, pouco antes da Ponte, um assalto. Trinta metros na nossa frente.
Homens armados mandando saltar de um carro. O carro na nossa frente deu ré, nós também, o de trás também. Impressionante constatar esse condicionamento. Em meio segundo todo mundo percebeu o que era e tratou de dar ré. Quase poderia dizer "com naturalidade".
No nosso carro, dois venezuelanos que moram em Paris, por aqui a passeio, turistas.
Vergonha, vergonha.
Demos a ré, esperamos um pouco, seguimos o caminho.
Da Ponte, a vista espetacular do Rio de Janeiro num domingo de sol.

16.4.07

A feira

Em mil-novecentos-e-bolinha eu cantei, imagine só, em um grupo de música medieval. O repertório era cheio daquelas canções e motetos ars antiqua, partituras encontradas em códex, cadernos de trovadores, aquelas coisas tudo a ver com o nosso dia-a-dia. Uma das minhas séries favoritas era o "Livro de Montpellier", séc XIII, e uma das peças imitava os pregões de vendedores nas feiras da idade média, oferecendo morangos, amoras, queijos, vinhos etc. Era um moteto a três vozes, e cada uma falava um pregão diferente. Tanto que o nome da música é, na verdade, três nomes, "On parole de batre/A Paris/Frese nouvele" (tipo: três autistas que não se ouvem, cada um canta uma coisa; a versão medieval do samba do crioulo doido).

Mas isso, como tantas coisas, estava guardado numa gavetinha da memória que não era aberta há muito, muito tempo. E que se escancarou quando me deparei com essa feira livre em Le Puy en Velay, na França (pode procurar no mapa, mas é bem pequeninho). Os legumes e frutas eram de uma cor tão forte que fiquei com pena dos transgênicos que comemos por aqui. Pães de todas as qualidades, e umas lingüiças e uns queijos tão funguentos que dava medo de comer, tal era o cheiro de chulé. (E no entanto, que delícia.) Mel, geléia, bolo, carnes de tudo quanto é bicho (inclusive vivos, como os coelhos...).


Eu sempre acho interessante ir a feiras e mercados em países estrangeiros. Diz muito sobre cada povo, ver o que ele come. Na feira de Le Puy, compramos mel, pão, queijo e lingüiça, que acabamos só podendo comer dois dias depois, numa viagem de trem. E para surpresa geral, estava tudo ótimo. O pão não estava duro, o queijo e a linguiça não estavam podres (isto é, não além do normal). Como devia ser, pelos idos de 1260.

Em tempo: a catedral de Le Puy é parte da rota de peregrinação do Caminho de Santiago.

15.4.07

Voltei

Depois de um mês, caramba, nem sei por onde começar.

Talvez comece pelo início e fim de todas as grandes viagens: o avião. Minha idéia é lançar a companha "Comunismo nas Nuvens - Por um avião sem classes". Porque olha, francamente, passar dez horas naquele aperto desumano a que nos submetem os aviões é uma tortura. Muito, muito esprimido. Isso porque eu tenho um metro e sessenta. E aí você olha um pouquinho ali na frente e vê os latifúndios da classe executiva. E ainda tem a primeira classe, que não dá nem pra ver, ali dos confins da turística. Por que é que nos submetemos a essas condições, hein? Para viagens de mais de 5 horas deveria ter um espaço mínimo obrigatório maior. Muito maior. Todos os lugares deveriam ser maiores, e sem esse esnobismo das classes diferentes. E ainda tem a porcaria do serviço de bordo, em que você pena para conseguir um cálice de água.

Hmm, mas não sei, começando desse jeito até parece que a viagem foi uma porcaria. Que nada. Os últimos 30 dias foram ótimos. Só não deu mesmo pra escrever em blogue. Quando tinha uma internet era pra checar os emails e tchau. Teve bastante trabalho. Mas teve muita curtição e férias também. E muita comida e bebida. Ó, céus, meu santo Vigilantes do Peso, valei-me. Primeiro, muito queijo, vinho e croissant. Depois, muito bacalhau e pastel de nata. E aí já deu para sacar onde eu estive.

Tem muitas fotos. Desta vez tem até vídeos! Vou colocar aos poucos.

E vocês aí, hein? Quais são as últimas do animado mundo dos blogues?

14.3.07

Alguma coisa está dentro da ordem

Não só eu sumi daqui como o Sitemeter me diz que nos últimos dias o blogue teve zero acessos. Isso mesmo, zero page views, vários dias seguidos. E mesmo assim, ó só que curioso, pessoas comentaram. Enfim, imagino que tenham problemas no Sitemeter, não importa.

Outras coisas importam, não obstante. Por exemplo, estou indo viajar, vou passar um mês fora. Uma coisa assim, internacional, intercontinental, quase intergalática, uau e tal a coisa. Super oh-la-la.

Mas isso nem importa tanto. Mais que tudo, eu queria deixar registrado aqui, em especial para ele, que eu sei que gosta de saber, que Flamengo 4 x 1 Madureira foi um dos melhores jogos, uma das melhores idas ao Maracanã de que eu tenho lembrança. Porque o estádio estava perfeito. Porque a torcida, claro, compareceu. Porque o jogo foi eletrizante, em especial no primeiro tempo. (Aos vinte minutos eu já era um caco humano. Feliz, mas caco.) Porque o time jogou, afinal (mesmo sem Obina). Porque o resultado devolveu um pouco de lógica ao mundo. O Flamengo é o Flamengo. O Madureira -- não. É tanta barbárie por aí, tanta insanidade, que às vezes uma simples constatação dessas basta para a gente continuar confiando que a racionalidade ainda vale a pena.

3.3.07

Calvin, meu amor

Mexeu com meu coração a notícia de que a Conrad traz de volta às livrarias brasileiras livros de Calvin & Haroldo. A coletânea O Mundo É Mágico, recém-lançada, está hoje em primeiro lugar na lista dos livros mais vendidos publicada hoje n'O Globo, seção Infanto-Juvenil. É estranho que esteja entre os infanto-juvenis, mas não é de todo despropositado. Ainda que seja, a meu ver, voltada para adultos, a série Calvin & Haroldo tem um grande apelo para o público jovem, pré-adolescente e adolescente.

Já falei antes sobre como as revistas em quadrinhos foram importantes na minha formação. Parar de comprá-las e de lê-las regularmente não se deu de uma hora para outra. E nessa transição, os livros do Calvin foram muito importantes. Eu estava num ambiente conhecido (tirinhas), mas lendo algo que não era infantil, que me obrigava a refletir, e que me chamava a atenção para a ironia -- algo que eu identificava como eminentemente "adulto".


Minha história de amor com Calvin é bem antiga. Quando eu tinha entre 8 e 9 anos, escrevia um jornalzinho, no qual discorria sobre as coisas importantes para quem tem 8 e 9 anos. Falava de atualidades, de livros, tinha classificados, receitas, piadas. Geralmente era uma folha, frente e verso, datilografada. Não lembro a periodicidade, se semanal ou quinzenal. Meu pai me ajudava, e eu tinha alguns assinantes, entre amigos e parentes. Um dia, não me lembro como nem por que, ligaram de um programa de TV, daqueles de entrevistas no meio da tarde, me convidando para ir ao programa falar do jornalzinho (cujo nome era esse mesmo, "Jornalzinho"). Eu fui, falei sobre o meu veículo de comunicação, e graças ao programa consegui mais alguns assinantes, que, glória total, eu não conhecia. Eles pagavam assinatura e recebiam o jornal pelo correio. Meu pai mandou fazer um carimbo IMPRESSO, que barateava a postagem. Era o máximo.

Enfim, alguns números do Jornalzinho tinham quadrinhos, e o primeiro foi uma tira do Calvin, que na época saía publicado na Folha de S.Paulo. Eu era pequena, e achei incrivelmente engraçada a tirinha em que ele entra no armário para colocar seu uniforme e virar super-herói, mas em seguida fica com medo do escuro e grita pela mãe. Foi o início da minha paixão.


Alguns anos depois, eu devia ter uns 13, comprei os primeiros livros que saíram aqui, pela editora Cedibra. Calvin & Haroldo (1988), Algo babando embaixo da cama (1988), Yukon, hei! (1989). Mais tarde vieram Estranhos seres de outro planeta (1990), e A Vingança dos oprimidos (1991), este último um presente da minha mãe quando eu estava indo para os EUA passar seis meses, num programa de intercâmbio, em 1992. Lá comecei a comprar os novos livros em inglês: Scientific Progress Goes "Boink" (1991), Attack of the Deranged Mutant Killer Monster Snow Goons (1992). Mas as edições mais bonitas que tenho são da Warner Books, publicadas na Inglaterra: The Days Are Just Packed (1993), Homicidal Psycho Jungle Cat (1994) e There's Treasure Everywhere (1996).

Eu gostava tanto, que ficava fazendo adesivos do Calvin e Haroldo para colar no meu fichário da escola, no meu armário, no meu aparalho de som. Era um processo artesanal. Comprava papel-manteiga, colocava em cima do desenho e copiava por cima, com caneta preta (aquelas Paper Mate pretas finas, 0.7, lembra?). Em seguida cortava ao redor do desenho copiado, deixando uma margem. O passo seguinte era pegar um Contact transparente e cortar com o mesmo formato do desenho em papel manteiga, mas num tamanho maior. Abria-se um pouquinho o Contact, descolando só de um lado, e colocava o desenho no meio, entre a parte colante e a parte não-colante. Pronto, era um adesivo, que podia guardar. Depois era só abrir o Contact todo e colar onde quisesse. Eu fiz tanto isso.

Quando entrei no Orkut pela primeira vez, me inscrevi na comunidade Calvin & Hobbes. Tinha gente do mundo todo, principalmente americanos, indianos e brasileiros. Os não-brasileiros ficavam intrigados com o fato de Hobbes ter sido batizado aqui de Haroldo. Foi a primeira vez que parei para pensar nisso. Não tenho idéia do que possa ter motivado essa decisão editorial. Calvin não é um nome comum no Brasil, e nem por isso foi alterado. E Hobbes, com a referência do filósofo, dá ao personagem do tigre um caráter totalmente perdido na estranhíssima opção pelo nome Haroldo, que por si não siginifica nem remete a nada específico.

Eu amo essa cara que a mãe faz em algumas tiras

A comunidade do Orkut era muito legal (naqueles primórdios, época em que alguém ainda parava para ler mensagens em fóruns do Orkut), e passavam-se mensagens e mais mensagens relembrando as tiras preferidas -- algumas seleções específicas, como "qual a sua tira sobre bonecos de neve preferida?", esta aliás uma das minhas séries favoritas. Alguém da comunidade passou o link de um site onde havia todas as tiras, e eu passei um bom tempo (re)lendo algumas tiras todo dia de manhã, antes do trabalho.

Calvin & Haroldo é tão genial porque todos os personagens são muito elaborados, em sua simplicidade do dia-a-dia. Todos eles têm mil faces, todos são imprevisíveis, todos são bons e maus, virtuosos e calhordas em determinados momentos. Assim, todos são muito reais. Cada um de nós tem seus momentos Calvin, Haroldo, Pai, Mãe, Susie, Moe, Miss Wormwood, Rosalyn. Tanto que Pai e Mãe não têm nem mesmo nome ou sobrenome, a cidade onde eles vivem é qualquer uma, a escola não tem nome etc.

Acho difícil escolher o que mais gosto dentro do universo calvinista. Os diálogos com o pai são sem dúvida um ponto alto:


Ou nas suas críticas ácidas à arte contemporânea ou à academia:


As incríveis fugas do cosmonauta Spiff, as noites com a baby-sitter Rosalyn, a relação de amor e ódio com Susie Derkins, o mundo dos dinossauros, as contantes idas para a sala do diretor da escola, as tentativas do pai de "formar caráter", os monstros sob a cama, as brigas com Haroldo, a máquina do tempo e o duplicador, os bonecos de neve, os trabalhos escolares.

Nas mesmas histórias, o melhor e o pior de ser uma criança, o melhor e o pior de conviver com uma criança.


Para os fãs: visitem a lista de links sobre o assunto em http://ignatz.brinkster.net/clinks.html, e não percam o site onde se pode buscar tirinhas por assuntos ou palavras: http://www.transmogrifier.org/ch/comics/list.cgi

Adeus Bahia, zumzumzum, Cordão de Ouro...


Totalmente imperdível a peça Besouro Cordão de Ouro, que já esteve em cartaz no CCBB e agora voltou, na vizinha Casa França-Brasil, onde fica até 18/3. O texto é do Paulo César Pinheiro, direção de João Neves. No elenco, ninguém famoso. Todos ótimos. Conta a história de um lendário capoeirista baiano do séc XIX, o Besouro, que a gente já conhecia da letra de Lapinha. (Leia mais aqui)

Agora, melhor mesmo, só se tiver a mesma sorte que eu, e por uma felicíssima coincidência estiver lendo Um Defeito de Cor quando for assistir à peça.

Não sei, às vezes dá impressão de que tem um assunto te perseguindo.

2.3.07

Culpa do aquecimento global

Quando os dias de muito calor passam a se enfileirar assim, um atrás do outro, sem trégua, a cabeça da gente vai rateando.
E sob essas circunstâncias, mesmo pessoas esclarecidas são capazes de não se tocar que não se deve almoçar a 30cm do ventilador se o seu prato está cheio de farofa.
A farofa voava e eu olhava tão incrédula que nem consegui reagir.

Tem um lado bom, isso de você ainda conseguir se surpreender consigo mesmo -- ainda que não seja positivamente.

28.2.07

Inveja branca


Minha mãe vai ao casamento dele.

Ai ai.

Um dia na vida da pessoa de férias

Situação 1.
Eu em casa, relax. Liga cunhada nº 2. Aflita. Imaginem que saiu de casa, deixou a diarista trabalhando, e, sem perceber, trancou a coitada lá dentro. E o pior, na casa não tem telefone ainda, porque ela se mudou há pouco e está só com celular. Então a diarista fica tensa. E liga pro porteiro. Que, sei lá como nem por que, tem o telefone do meu sogro. Que então liga pra cunhada. Que está no trabalho. E por isso liga pra mim, que moro perto. Porque aqui tem uma cópia da chave dela, pra emergências. Mas eu não sei onde está a chave. Porque quem guardou não fui eu, foi o marido. Que está em São Paulo. E disse que estaria num lugar -- onde não estava. E toca a procurar. Achei, achei! Ela exulta do outro lado da linha. Lá vou eu, nesse calor, libertar a outra. Coitada. Que encrenca. Espeto, como diria o Nelson. Ganhei pontos no céu, hein.

Situação 2.
Amiga liga: Me ajuda, tenho que comprar as passagens de trem no site francês, tenho medo de errar, faz comigo no telefone? Eu ali, no meio do Seinfeld. Claro, vamos lá. Clica ali tá vendo? Oui, aller-simple. Agora onde está escrito assim. Vai, agora preenche com a data. Eu falando e fazendo, ela fazendo do outro lado. Comprar 6 passagens de uma vez. Agora clica ali em reservar. Choisir cette aller. E pra mim apareceu tudo direito. E pra ela disse que infelizmente já não havia mais passagens disponíveis para aquele trem. Claro, porque EU tinha reservado as últimas. Ai, Je-sus. Tive que eu fazer as compras, no final das contas. Contando ninguém acredita.

26.2.07

Feliz 2007


Hoje, quando o ano parece que finalmente começou, eu fui à praia em Ipanema. Estava vazia e perfeita.
Sabe, a vida é tão curta.

(Foto de minha autoria, dezembro 2003)