24.4.07

Power Off

Eu apóio. Mais aqui.

Holanda


Foram poucos dias na Holanda. Poucos mas bons. Bons mas frios.
Sim, claro, a Holanda é muito mais do que flores e bicicletas. É o país do discurso tolerante. Lá os vícios são permitidos. Seja maconha, vide os coffeeshops, seja sexo, vide o Distrito da Luz Vermelha. Por outro lado, isso significa que ninguém se importa muito com o que você faz da vida. Partem do princípio que cada um sabe de si e cuida da própria vida. E no entanto, lá só encontramos pessoas calorosas, amigas, gentis e interessadas. Como se buscassem nos brasileiros o calor da cultura que falta lá. Como se quisessem ir além dos pintores da escola flamenga e da cultura de cartão-postal, tulipa-moinho-vaquinha-queijo-tamanco. E bicicleta. Ah, tem isso. Cuidado com as bicicletas. Eles são finos e elegantes, mas não respeitam muito os pedestres, não.
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20.4.07

Samurai

Esse post muito bacana sobre etimologia me lembrou uma outra questão do mundo das palavras, que é a interpretação diferente que a mesma palavra pode ter em culturas diversas. Aconteceu esta semana.
N. é japonesa, e trocou o Japão pelo Brasil há alguns anos movida por uma paixão. Se apaixonou pela nossa música, e mandou às favas a família, a cultura, o país e o emprego na orquestra sinfônica de Osaka. Vive aqui, ralando como tantos músicos, dando aulas de flauta, tocando em gravações, peças de teatro, shows etc. Eu a admiro muito. Não só por essa trajetória de coragem e amor, mas também pela sua competência profissional. N. toca toda a família das flautas (em dó, em sol, flautim), toca piano muitíssimo bem, saca muito de orquestração, ensaia e rege grupos e pequenas orquestras com a cancha que só quem já esteve do outro lado das estantes pode ter.

Pois bem. Ela participou de um disco cujo release eu escrevi. E quando fui citá-la, disse que ela era uma samurai. (Sim, eu sei que samurais são só homens - ou mulheres disfarçadas -, mas isso realmente não é importante.)

Logo que cheguei de viagem encontrei N., num lugar com muita gente, revendo todos os amigos ao mesmo tempo. Ela me perguntou: "Por que você colocou samurai no release?". Mas eu nem consegui responder, porque estava uma confusão de gente, e depois ela foi embora. Na terça estive de novo com ela, e lá pelas tantas apareceu o release. Ela perguntou de novo: "Por que samurai?". Eu respondi que samurai para mim tinha uma conotação de poder, de coragem, de um guerreiro destemido, com honra, defendendo uma causa nobre, e também alguém com muitas habilidades, e muito bom naquilo que faz. E que eu achava que ela era tudo isso.

Ela fez aquela cara de "Ahhn..." que só os japoneses sabem fazer.

E me explicou que samurai, para os japoneses, era outra coisa. "É aquele guerreiro que saca uma espada e sai matando todo mundo." Hein? Como assim? Um assassino, só isso? E a honra? E a nobreza de espírito? E a coragem? "Tem isso também, mas principalmente é aquele que tira a espada e mata."

Fiquei meio preocupada. Não fora absolutamente essa a minha intenção. Saímos perguntando para todo mundo que estava por ali, e para meu alívio, os brasileiros todos tinham uma concepção bem positiva, parecida com a minha, do que seria um(a) samurai. E acharam a comparação muito apropriada, aliás.

Só houve a discordância quando eu disse que samurai era aquele que fazia muitas coisas, tinha muitas habilidades. Logo veio alguém para dizer que esse é o ninja, não o samurai. E N. explicou maravilhosa e japonesamente: "Ninja é mau. Não tem honra. O ninja está ali, atrás daquele armário, agora, colado na parede (e apontou). Ele te mata e some na noite."

Todo mundo riu, mas a verdade é que ninguém mais ficou perto daquele armário.


19.4.07

Vila Morena


Teve uma certa hora em que paramos em Grândola. Porque estávamos de carro, indo de Beja pra Sintra, e Grândola ficava no caminho. Resolvemos parar para um café (com pastel de nata, bem entendido). E eu fiquei enchendo o saco porque queria tirar uma foto na placa de entrada da cidade, "Bem-Vindo a Grândola, Vila Morena". E ele sem entender o porquê de tanta insistência.

Eu: Por causa da história da música, ora bolas.
Ele: Que música?
Eu, espantada: Como assim, você não sabe a história de "Grândola, Vila Morena"?
Ele, espantadíssimo: ??
Eu, didática: Não sabe que essa música era a senha da Revolução dos Cravos? Que quando ela tocou no rádio, no 25 de Abril, foi o sinal para todos os quartéis e todos os outros revolucionários?!
Ele: É mesmo? Nunca ouvi falar.
Eu: Não é possível!

De volta a Lisboa, comentei com G. que passamos em Grândola e tal.

Eu, com ar quase de desprezo: E imagina que ele não sabia a história da música.
G.: Que música?
Eu: "Grândola, Vila Morena".
G., puzzled: Que história?
Ele, já rindo: Tá vendo?
Eu: Não acredito, vocês dois, cheios de pós-graduações, suma cum laudae e não sei o quê, e não sabem de "Grândola, Vila Morena".
G.: Mas que história é essa?
Contei tudo de novo para ela, que também nunca tinha ouvido falar que a Revolução dos Cravos foi deslanchada por uma música.

Mais tarde, saímos com uns portugueses. No táxi, a caminho, sugeri que pedíssemos que cantassem a música, e confirmassem a história. Mas fui demovida da idéia, com o argumento de que seria tão ridículo quanto encontrar uns gringos no Rio e eles pedirem para eu cantar Cidade Maravilhosa.
Enfim. Agora me digam, tô maluca? Ninguém conhece essa história maravilhosa?

http://www.goear.com/listen.php?v=91ac0c7 (só começa a música lá pelos 40 segundos)
Grândola, vila morena
terra da fraternidade
o povo é quem mais ordena
dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
o povo é quem mais ordena
terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
em cada rosto igualdade
o povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
que já nao sabia a idade
jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
jurei ter por companheira
à sombra duma azinheira
que já nao sabia a idade.

(Zeca Afonso)

18.4.07

Literatura de aeroporto


Ele comentou que quando pega um vôo grande, cai de cabeça num bestseller e se esquece do mundo.

E como tínhamos que esperar SETE horas no aeroporto, comprei um livro. Fui saciar a minha curiosidade por The Curious Incident of the Dog in the Night-Time, de Mark Haddon, que ganhou uns prêmios e fez sucesso na Inglaterra uns anos atrás. (Saiu no Brasil pela Record, O Estranho Caso do Cachorro Morto.) Como acho que já disse antes, não sou fã da literatura inglesa contemporânea. Menos ainda do tipo que ganha prêmios. Man Booker Prize, então, nem me dou o trabalho de ler a orelha. É sempre aquele papo de angústia, perda, deslocamento do indivíduo na sociedade contemporânea, muita malaise demais pro meu gosto. Mas alguns deles, mais muderninhos, são legais. Este é um deles. Li assim, bem rapidinho. Bom pra aeroporto, é isso aí.

(Em tempo: eu também sempre sento no corredor. Janelinha é coisa de criança.)

17.4.07

Um mês fora

Do que eu senti saudades

Minha casa
Minha cama
As pessoas
Pilates
Carioca way of life
Ler jornal

Do que eu não senti saudades

Ônibus barulhentos e com motor de caminhão
Táxis barbeiros
Sujeira nas ruas
Supermercado
Andar sempre olhando pra trás, just in case
Ler jornal

Domingo carioca

Felizes e contentes indo para Niterói, para um churrasco de aniversário, domingão, sol e céu azul, só alegria.
No caminho, pouco antes da Ponte, um assalto. Trinta metros na nossa frente.
Homens armados mandando saltar de um carro. O carro na nossa frente deu ré, nós também, o de trás também. Impressionante constatar esse condicionamento. Em meio segundo todo mundo percebeu o que era e tratou de dar ré. Quase poderia dizer "com naturalidade".
No nosso carro, dois venezuelanos que moram em Paris, por aqui a passeio, turistas.
Vergonha, vergonha.
Demos a ré, esperamos um pouco, seguimos o caminho.
Da Ponte, a vista espetacular do Rio de Janeiro num domingo de sol.

16.4.07

A feira

Em mil-novecentos-e-bolinha eu cantei, imagine só, em um grupo de música medieval. O repertório era cheio daquelas canções e motetos ars antiqua, partituras encontradas em códex, cadernos de trovadores, aquelas coisas tudo a ver com o nosso dia-a-dia. Uma das minhas séries favoritas era o "Livro de Montpellier", séc XIII, e uma das peças imitava os pregões de vendedores nas feiras da idade média, oferecendo morangos, amoras, queijos, vinhos etc. Era um moteto a três vozes, e cada uma falava um pregão diferente. Tanto que o nome da música é, na verdade, três nomes, "On parole de batre/A Paris/Frese nouvele" (tipo: três autistas que não se ouvem, cada um canta uma coisa; a versão medieval do samba do crioulo doido).

Mas isso, como tantas coisas, estava guardado numa gavetinha da memória que não era aberta há muito, muito tempo. E que se escancarou quando me deparei com essa feira livre em Le Puy en Velay, na França (pode procurar no mapa, mas é bem pequeninho). Os legumes e frutas eram de uma cor tão forte que fiquei com pena dos transgênicos que comemos por aqui. Pães de todas as qualidades, e umas lingüiças e uns queijos tão funguentos que dava medo de comer, tal era o cheiro de chulé. (E no entanto, que delícia.) Mel, geléia, bolo, carnes de tudo quanto é bicho (inclusive vivos, como os coelhos...).


Eu sempre acho interessante ir a feiras e mercados em países estrangeiros. Diz muito sobre cada povo, ver o que ele come. Na feira de Le Puy, compramos mel, pão, queijo e lingüiça, que acabamos só podendo comer dois dias depois, numa viagem de trem. E para surpresa geral, estava tudo ótimo. O pão não estava duro, o queijo e a linguiça não estavam podres (isto é, não além do normal). Como devia ser, pelos idos de 1260.

Em tempo: a catedral de Le Puy é parte da rota de peregrinação do Caminho de Santiago.

15.4.07

Voltei

Depois de um mês, caramba, nem sei por onde começar.

Talvez comece pelo início e fim de todas as grandes viagens: o avião. Minha idéia é lançar a companha "Comunismo nas Nuvens - Por um avião sem classes". Porque olha, francamente, passar dez horas naquele aperto desumano a que nos submetem os aviões é uma tortura. Muito, muito esprimido. Isso porque eu tenho um metro e sessenta. E aí você olha um pouquinho ali na frente e vê os latifúndios da classe executiva. E ainda tem a primeira classe, que não dá nem pra ver, ali dos confins da turística. Por que é que nos submetemos a essas condições, hein? Para viagens de mais de 5 horas deveria ter um espaço mínimo obrigatório maior. Muito maior. Todos os lugares deveriam ser maiores, e sem esse esnobismo das classes diferentes. E ainda tem a porcaria do serviço de bordo, em que você pena para conseguir um cálice de água.

Hmm, mas não sei, começando desse jeito até parece que a viagem foi uma porcaria. Que nada. Os últimos 30 dias foram ótimos. Só não deu mesmo pra escrever em blogue. Quando tinha uma internet era pra checar os emails e tchau. Teve bastante trabalho. Mas teve muita curtição e férias também. E muita comida e bebida. Ó, céus, meu santo Vigilantes do Peso, valei-me. Primeiro, muito queijo, vinho e croissant. Depois, muito bacalhau e pastel de nata. E aí já deu para sacar onde eu estive.

Tem muitas fotos. Desta vez tem até vídeos! Vou colocar aos poucos.

E vocês aí, hein? Quais são as últimas do animado mundo dos blogues?