19.5.07

O Problema

O problema é que peguei um freela chato demais. E "demais" com aquele sentido de impossibilidade. Não é "muito" chato. É chato "demais". Porque está quase impossível terminá-lo. Vejam, eu às vezes me sinto muito otária. Pego uns trabalhos que são assim. Alguém recebe uma boa grana para fazer uma coisa. E faz muito, mas muito mal. Mas recebe tudo o que combinou. Aí eu sou contratada para consertar a merda que a pessoa fez. Só que recebo um quarto do que ele ou ela recebeu. E às vezes é tão ruim que bate um desespero. Mas ao mesmo tempo essas porras de éticas protestantes do trabalho não me permitem chegar para quem me contratou e falar: ó, amigo, num dá não, tô devolvendo esta bodega, se fode aí. Então fico lutando contra o freela. Quero me livrar logo, mas não consigo. Passo 40 minutos debruçada sobre o material. Aí faço um pausa. De 90 minutos. Volto e trabalho mais 30. Aí venho para a internet. Até no Youtube, que não sou muito chegada, estou entrando para ver qualquer merda. Até - o auge - no supermercado eu resolvi ir na terça à tarde, para fazer "uma pausa" desse trabalho dos infernos. Entenderam o drama? Ir ao supermercado me pareceu mais legal do que continuar naquela lenga-lenga. Meu prazo é até o fim de maio. Faltam menos de 70 páginas. Faltam ainda mais de 60 páginas. Rezem por mim.

15.5.07

Chopp, bière à la pression, imperial...

Queria fazer muitos outros posts sobre a viagem à Europa. Mas sabe como é, o tempo vai passando e a coisa vai ficando para trás. Um dos posts planejados era, claro, sobre comida e bebida. Então agora que descobri este blog sensacional de 3 meninas que resolveram tomar mil chopes antes de o Romário fazer mil gols (hahaha, como é que ninguém tinha pensado nisso antes?!), encontrei o pretexto ideal não para escrever, mas pelo menos para postar algumas fotos de cervejas. Não são muitas porque afinal este é um blogue anônimo e só entram fotos sem pessoas. Mas enfim, a boa dica em Paris é a cervejaria belga Le Trappiste, na rue Saint-Denis, perto do Sena e da estação de metrô Chatelet (reparem o desenhozinho do frade que é a capa do cardápio). Como tudo em Paris, é caro pra caramba, mas, como diz L., "quem converte não se diverte", grande lema para viagens à Europa. Já em Lisboa, imperdível é a Cervejaria Trindade, no Bairro Alto (Rua Nova da Trindade, 20), para tomar uma imperial (que é como eles chamam o chope) e um Bacalhau à Trindade (de cair o queixo até para aqueles que, como eu, não são loucos por bacalhau). No nosso caso, a gente pegou o avião em Paris e saltou em Lisboa na hora do almoço, e caímos direto na Trindade. E é nessas horas que você percebe como tudo é relativo, porque Paris é ótimo... até a hora em que você chega a Lisboa, que na comparação ganha de lavada.

Vê um livro, faz favor


Um instante de profundo pânico me domina quando ele, indo para o aeroporto, atrasadíssimo, fechando a mala, o táxi já esperando lá embaixo havia dez minutos, a meio caminho da porta, me diz: "Escolhe um livro aí para eu ler na viagem".
O quê??? Escolher um livro? Que você vá gostar? Em meio segundo? Mas se escolher um livro, pra mim ou para quem quer que seja, é uma atividade linda, prazerosa, mas especialmente lenta e contemplativa...
Minha cara olhando para a estante deve ter sido de um desespero tão grande que ele mesmo sugeriu: um Simenon, um Simenon!
Tensa, trêmula, peguei dois livros de casos do comissário Maigret, um vício que eu passei para ele nos últimos anos. Ótimo, obrigado, beijo, tchau.

Sei lá por que eu sou assim...

(A imagem acima, muito bacana, é a capa do livro "The Book on the Bookshelf". O capista é Chip Kidd.)

12.5.07

Minha história papal

Tenho uma história de Papa para contar. Não com esse Papa alemão, que é um impostor, mas o outro, o "verdadeiro" Papa. (Descobri que para todo mundo na faixa dos 30 não há diferenciação entre a figura de João Paulo II e o cargo. Ele foi "o" Papa das nossas vidas.)
Em 1997 o Papa veio ao Brasil, e esteve no Rio. Um compositor catalão (!) escreveu uma peça musical para sinos (!!) para ser executada durante a missa do Papa, por várias igrejas, simultaneamente (!!!). Não sei muito bem como fui parar nessa bocada. Acho que porque estava na faculdade de música, sei lá. Sei que fui escalada para badalar na igreja das Carmelitas, no Centro do Rio (mais famosa pelo Bloco das Carmelitas, que sai na sexta de Carnaval). Vejam bem, cada sino tinha uma equipe, um coordenador, um cronometrista, e um para puxar a corda e fazer o sino tocar. Algumas igrejas têm mais de um sino, dá pra imaginar a bagunça. Eu sei que a peça tinha uma partitura totalmente abstrata e incompreensível. E que havia cronômetros e walkie-talkies envolvidos na produção. Teve ensaio e tudo, na semana anterior.
Lembro de chegar na igreja para ensaiar. Lá é um convento também, e tem umas carmelitas que não saem de lá, são confinadas. Eu nunca sei bem como me portar nessas ocasiões, como dizer, eclesiásticas. Não sei o que esperar de religiosos profissionais. Será que são simpáticos e bonachões, tipo Frei Tuck? Ou sinistros, tipo Ratzinger? Podemos fazer uma brincadeira, um comentário espirituoso? E o controle do linguajar? Não dá para deixar escapulir um "mas que inferno!", de toda forma. Não, não, isso não é pra mim...
Bom, mas a peça. É claro que na hora nada deu certo, as coisas não funcionaram e era completamente impossível ouvir o "conjunto da obra", por assim dizer. Mas teve um cachê legal e, olhaí, dez anos depois rendeu até um pôsti.

10.5.07

Bento XVI, minorias e o Flamengo


Ontem depois do jogo vi num telejornal uma chamada ao vivo para a repórter que estava na frente do mosteiro em São Paulo onde o Papa estava hospedado. Chovia e fazia e frio no Rio, que dirá em SP. Ela dizia que o frio e a chuva haviam afugentado a maioria dos fiéis, e que naquele momento "apenas cerca de mil pessoas" continuavam na vigília.

Religião sempre foi uma coisa tão ausente na minha vida que não consigo deixar de me surpreender quando reflito sobre essa informação: meia-noite de uma quarta-feira de chuva, e cerca de mil brasileiros estão em vigília em frente a um mosteiro onde o Papa está dormindo. Será que essas pessoas passaram a noite lá? Mas o que esperavam? Que ele viesse à janela às duas da manhã e acenasse? Ou jogasse cadeiras ou copos, como os Rolling Stones, ou sacudisse bebês, como o Michael Jackson? Ainda mais um Papa desagradável como este, que não desperta nenhuma simpatia com suas risíveis ameaças de excomunhão aos que defendem o aborto. (M. quer saber como fazer para ser oficialmente excomungado. Será que dão certificado para pendurar na parede? Hoho, adorei a idéia, também quero!)

Mas enfim, como diz a Carrie, mui sabiamente, este mundo não me pertence. Hoje parece que o Papa falou a 41 mil pessoas no Pacaembu. Fraco, esse público. Flamengo x Defensor, quando só um milagre classificaria o meu time, botou 57 mil no Maraca. Mas amanhã a expectativa é de dois milhões de pessoas para a canonização do santo brasileiro, o Frei Galvão, que, vamos falar a verdade, até anteontem ninguém nunca tinha ouvido falar. Dois milhões. É mais um número que me deixa com essa eterna sensação de minoria.

Nós somos minoria em tudo. Nós, eu e você. Não queremos ver o Papa. Não cogitamos a hipótese de ir à praia de Botafogo ver uma surreal corrida de aviões (!). Muito menos ir à praia de Copacabana ver um show do Lenny Kravitz. Tudo bem, se fosse só isso seria apenas uma questão de não gostar de multidões. Mas não. Somos minoria, nós que temos curso superior. Somos minoria, nós que lemos blogues. Gostamos de músicas que não tocam no rádio. Nossos filmes favoritos não são o Homem-Aranha 3 nem A Vingança dos Sith. Somos minorias, nós que lemos livros!

É por isso que pertencer à torcida do Flamengo torna-se uma redenção. É a hora em que somos maioria. Para quem vive no Rio, em qualquer grupo, em qualquer ambiente, haverá sempre mais flamenguistas do que torcedores de qualquer outro time. A não ser, claro, sei lá, no Clube Atlético Português ou coisas do gênero. Quando vou ao Maracanã, por exemplo, posso me dar ao luxo de escolher com que grupo de amigos quero ir. Meu pobre marido, quando "o" amigo botafoguense dele não pode ir, ou vai sozinho ou vai com pessoas meio nada-a-ver. (Na final da Taça GB do ano passado, contra o América, EU fui com ele, para fazer companhia.)

Isso por si só não nos faz melhores que os outros, claro. (Faz sim, mas não pega bem registrar isso por escrito.) Mas dá uma sensação de pertencimento a algo muito grande, a algo absoluto, que eu muito raramente experimento. Talvez na primeira eleição do Lula eu tenha sentido assim.

Mas enfim, só sei que ontem só um milagre levaria o Flamengo adiante na Libertadores. Milagre que esse Papa escroque fez questão de não realizar. Aliás, ainda bem, se não perigava ficar igual àquela coisa ridícula do Fluminense de ficar cantando "A benção João de Deus" per seculi seculorum. Eu não fui ao estádio ontem por questões mais ou menos de saúde. Também não vou dizer que tenha sido horrível ficar em casa debaixo das cobertas numa noite fria de chuva. Mas aqui, sozinha em casa, em frente à TV, eu sentia a vibração da torcida tão forte que quando vi estava batendo palmas e cantando tudo o que eles cantavam. Baixinho, só pra mim. Ó, meu Mengão, eu gosto de você... Ganhamos o jogo, mas fomos eliminados. E o time saiu de campo aplaudido, com gritos de É Campeão. Ah, às vezes não é fácil escrever com lágrimas nos olhos.

6.5.07

É o meu maior prazer vê-lo brilhar


Eu prometo que isso aqui não vai se tornar um blogue monotemático. Prometo. Já vai passar.

2.5.07

Dezena de milhar

É tempo de Calvin e Haroldo voltarem a este espaço para comemorar. No dia 1 de Maio este blogue teve o seu acesso número 10.000, vindo de Passos, MG. Alguém veio parar aqui depois de buscar no Google "porque a coceira do meu ouvido não para". Hehe, coitado, caiu no meu relato irritado sobre os mosquitos que tanto me azucrinam. Pra você, amigo leitor de Passos, tenho que dizer que a única coisa que resolve pra mim é colocar tampões de ouvido. (Também tenho a dizer que esse "por que" é separado e esse "pára" tem acento diferencial, mas isso é outra coisa.) E para todos os outros que continuam vindo aqui, o meu emocionado agradecimento (tipo diva da ópera, abaixando a cabeça com as mãos cruzadas sobre o peito -- visualizaram?).

30.4.07

Dois a dois

Renato comemora o gol com a estranha fantasia de urubu-rei

Pelo que eu sei, não existe um apelido para o clássico Flamengo x Botafogo. Flamengo x Vasco é o Clássico dos Milhões, por serem os clubes de maior torcida do Rio; Botafogo x Fluminense é o Clássico Vovô, por serem os clubes mais antigos; Flamengo x Fluminense é o Clássico das Multidões, mas eu acho que deveria se chamar Clássico dos Clássicos, uma vez que Fla-Flu já transcendeu seu significado original para remeter a qualquer rivalidade acirrada. (Em Lisboa vi uma pastelaria que se chama Flu-Fla. As informações chegam lá meio truncadas.)*

Enfim, não há um nome-fantasia para Flamengo x Botafogo. Mas posso dizer que é Clássico Aqui de Casa. É daqueles dias em que toda civilidade é pouca, em que nós dois pisamos em ovos. É um dia de muitos silêncios entre este casal. Um silêncio respeitoso, nunca de escárnio, jamais um risinho no canto da boca. Nada, nem um comentário.

Ele foi ao Maracanã, eu fiquei em casa. Ele voltou, e agimos como se nada tivesse acontecido. Ele está no maior mau humor até hoje. Eu agüento. Eu estou de ótimo humor. Mas não demonstro.

Assistir a um jogo de final de campeonato sozinha em casa é uma forma de auto-conhecimento. Pela experiência de ontem, descobri que sou uma pessoa que foge dos problemas, em vez de encará-los de frente. Pois quando vi o Flamengo levar uma coça do Botafogo no primeiro tempo, esmagado pela óbvia superioridade do adversário, e tomar dois gols no primeiro tempo, o que eu fiz? Mudei de canal. Fiquei vendo qualquer porcaria no Telecine, no GNT, no Canal Comunitário, na TV Senado... Irritada, apertei o Mute e fiquei trabalhando na mesa ao lado da TV. Sabia que, se algo acontecesse, ouviria a reação dos vizinhos (aqui na rua a torcida Arco-Íris é imensa). E aí, algo aconteceu. E no segundo tempo eu pulava no sofá e gritava sozinha, num espetáculo meio patético, olhando em retrospecto. E depois de devidamente empatado o jogo, ainda houve uma cobrança de falta aos 43 do segundo tempo. Para a maioria dos flamenguistas, uma cobrança de falta aos 43 do segundo tempo é um evento de gloriosa memória, desde o dia 27 de maio de 2001**. Mas como Renato não é Pet, a bola bateu no travessão e eu dei apenas mais um pulo no sofá.

Deixamos então a decisão para o próximo domingo, quando provavelmente nós dois estaremos no Maracanã, em lados opostos.

Às vezes acho que as coisas são mais fáceis quando não se gosta de futebol.


*Ah, a internet. A Wikipedia tem uma lista de clássicos brasileiros, por região. Só assim para eu saber que Remo x Paysandu é o Clássico-Rei da Amazônia, América x Náutico é o Clássico da Técnica e Disciplina e Itabuna x Colo-Colo é o Clássico do Cacau.

** Didatismo: final do Carioca, Flamengo x Vasco. O Vasco era favorito e podia perder por até um gol. De fato perdia, estava 2x1 pro Flamengo, placar que dava o título ao Vasco. A frustração era enorme, ganhar o jogo e perder o campeonato. Até que aos 43 minutos do segundo tempo Petkovic marcou um gol de falta, uma pintura. 3x1, Flamengo campeão. Tricampeão, aliás. Foi a terceira final consecutiva entre os dois times, e a terceira vez seguida que o Vasco foi vice.

29.4.07

No Palácio

O Palácio Capanema é uma das jóias da arquitetura modernista brasileira. O projeto é do Lúcio Costa.

O novo presidente da Funarte diz que o Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio, será transformado num grande centro cultural que vai abrigar eventos de todas as artes. Se acontecer mesmo será ótimo. Por acaso estive no Palácio esta semana. Adoro aquele prédio, e me sinto bem só por estar ali. Fui lá procurando a Representação Regional do Ministério da Cultura, uma iniciativa recente que achei bastante inteligente, em sua proposta de descentralizar todas as operações, informações etc. que antes eram só em Brasília. Como eu tinha que mandar alguns documentos para o Minc, resolvi ir até o palácio e entregar lá, em vez que mandar um Sedex.
Era o meio de uma tarde linda, céu azul até não mais poder, contrastando com as curvas do Palácio, as plantas e os azulejos. Na portaria, um guarda distribuía crachás aos visitantes. Disse que queria ir à Representação Regional do Ministério da Cultura. O que você vai fazer lá?, perguntou ele com a maior naturalidade. Surpresa com aquele tipo de pergunta ainda quase na porta da rua, balbuciei qualquer coisa como "entregar uns documentos". Mas é projeto?, insistiu ele. Comecei a me irritar. Não, não é projeto. Ele ficou com cara de quem espera mais informação. Eu disse que tinha ligado antes, ele se conformou e me deu um crachá escrito "2º andar".
Saltei do elevador no segundo andar, dei de cara com um balcão lindo de madeira, enorme e em forma de onda (como o calçadão de Copacabana, mais ou menos). Ele ficava no canto de uma sala incrivelmente grande, ampla, linda... e vazia. Até que num cantinho vi uma moça, com roupa de guarda de segurança terceirizada, sentada atrás de uma mesa minúscula, como uma carteira de colégio, que ficava ainda mais diminuta em contraste com a amplidão modernista daquele lugar. Falei com ela, que também me perguntou "É projeto?", e diante da negativa, me encaminhou para uma sala pequena, cheia de mesas e pessoas. Bem ao lado, uma porta aberta dava para outra sala gigantesca e descomunalmente vazia, que dava ainda para uma varanda espetacular. Era muito estranho aquilo, tantos lugares tão grandes vazios, e um monte de gente esprimida numa sala mínima.


Falei com duas moças que dividiam uma mesa e um computador. Naturalmente, me perguntaram "Mas é projeto?" e ficaram em dúvida quando eu expliquei que não, não era projeto, não era Lei Rouanet. Quase como se o Minc não tivesse mais nenhuma atividade desvinculada da Lei Rouanet -- o que, convenhamos, não está muito longe da verdade.
Quando expliquei o que era, elas ficaram assim com uma cara tão abismada, como se eu tivesse dito "Bom dia, eu vim aqui comprar um quilo de alcatra". Mas pegaram o telefone e ligaram para algumas pessoas, para chegar à conclusão que meus documentos deveriam ser mandados para Brasília. Eu disse que sabia disso, mas será possível que eu não poderia entregar ali e eles me dariam um protocolo e encaminhariam ao lugar certo, em Brasília ou onde quer que fosse? Ah, peraí, vamos ver. Tem que perguntar para a fulana. Nesse momento entra uma mulher enorme, tanto vertical quanto horizontalmente, senta-se atrás de uma mesa, ouve o meu caso (sim, porque já virou um "caso"), pergunta "Mas não é projeto?" e diz, peremptória: Você tem que ir ao 12º andar e procurar a senhora Jupiara.
Eu quase ri com aquela frase, que parecia alguém querendo imitar depreciativamente o serviço público. Jupiara, no 12º andar? Só faltou a parte do "em três vias".
Voltei para o elevador, mas antes parei no balcão-calçadão-de-Copacabana e preenchi o envelope pardo com o endereço que eu tinha de Brasília, além de conferir mais uma vez o conteúdo, na minha organização paranóica-neurótica-obsessiva (faltam-me subsídios psicanalíticos para me decidir pela melhor definição para o meu caso). Nisso tocou meu celular e eu fiquei um tempo falando.
Finalmente peguei o elevador para o 12º andar. Lá, a primeira coisa que se vê é um balcão com vários guichês. Apenas um guichê tinha um ser humano atrás, ser humano este que conversava com outro, do lado oposto, e ao lado, mais uma guarda de segurança terceirizada (sabe como é, não contratam mais ninguém, é tudo terceirizado).
-- Bom dia, por favor a senhora Jupiara?
O ser humano do lado de lá do balcão franziu a testa:
-- Jupiara??
Ah meu deus, pensei. Vai ver que inventei o nome da mulher, no meio tempo em que fiquei endereçando o envelope e falando no celular, já passaram muitos minutos entre o momento em que me falaram o nome da criatura e agora.
-- Er, agora não tenho certeza, acho que é Jupiara. Mas talvez Jupira? Ou Iracema? (vejam por que distâncias viaja a mente da pessoa)
Fui salva pelo outro ser humano, do lado de cá do balcão.
--A Juju, da Administração!
-- Ah, sim, claro, a Juju!, lembrou o outro. É projeto?
-- *suspiro*
A segurança terceirizada pediu a minha identidade (!), anotou valiosas informações na sua prancheta, e me encaminhou até uma outra salinha cheia de mesas e pessoas. Como sempre, no meio de uma amplidão desocupada. Logo encontrei a Jupiara, atrás de sua mesa. Naturalmente a Juju perguntou "É projeto?", mas por sorte não achou o fim da picada o fato de não ser. Pegou o envelope, conferiu o endereço, sorriu e me deu um protocolo com o número do malote e do envelope.
-- Amanhã de manhã já vai estar lá em Brasília, ela disse confiante.
Afinal, o serviço público se orgulha da sua presteza e competência.


25.4.07

Da série Perderam a Loção dos Preços!

Na tinturaria do bairro, privilegiando o pequeno comércio em detrimento das grandes redes (abaixo o grande capital transnacional, haha):
-- Bom dia, eu queria lavar a seco esses dois paletós e este vestido.
-- Pois não.
-- Quanto é?
-- Os casacos saem por R$ 18 cada um, e o vestido, R$ 25.
-- O quê? Mas ali na parede tem uma tabela de preços diferentes.
-- É que esses não são paletós, são casacos.
-- Olha, este aqui até vá lá, é um sobretudo de lã, ok. Mas este aqui, como assim não é um paletó?
-- Ah, porque tem o forro, e é de veludo.
-- E daí? É um paletó de veludo e com forro.
-- Não, mas paletó é igual a este aqui (mostra outro, num cabide).
-- Ah, bem, tá bom, então. Mas por que este vestido não é R$ 20, como na tabela.
-- Por que este não é um vestido simples.
-- Como assim?
-- É que tem preços diferentes. Alguns vestidos têm pedrarias e outros detalhes.
-- Mas não é o caso deste, né? Só tem essa parte que é diferente, mas é tudo tecido, não tem detalhes e tal.
-- Ah, mas não é um vestido simples, não.
-- Então não vou deixar o vestido. Olha, isso tá muito caro. Vou deixar só os paletós/casacos.
-- Tá bem. Eu faço pra senhora por R$ 30 os dois casacos.
-- Certo. Mas o vestido eu vou levar de volta.

Na franquia estrangeira de tinturarias:
-- Quanto custa pra lavar este vestido a seco?
-- Hmmm, não é um vestido simples...
-- ...
-- Custa R$ 27.
-- Mas nem tem pedrarias nem brocados nem nada!
-- Mas tem essa parte aqui, ó, tá vendo? De tecido diferente.
-- Nossa, muito caro. Tá bom, obrigada, não vou lavar, não.
-- Péra aí. Vou ver ali se dá pra fazer pelo outro preço.
-- Ok.
(2 minutos)
-- Olha, vai ficar então por R$ 15.

Valor da tinturaria em Lisboa, para uma blusa de seda japonesa: 3,35 euros.