20.6.07

Nina

Eu tinha dez anos quando ela nasceu, e me lembro de ir à maternidade visitar. A mais nova de três irmãs, a mais velha quase da minha idade.

Lembro quando a família mudou para o Recife e eu fui visitá-los num carnaval. Eu tinha 12 ou 13 anos, lembro da casa enorme, de dois andares, em Jaboatão dos Guararapes, e de ver blocos em Olinda. Ela era pouco mais que um bebê.

Lembro da notícia e do pânico quando um dia a mãe chegou em casa e a viu, aos 3 ou 4 anos, boiando na piscina, virada para baixo. Mais alguns segundos e talvez não tivesse resistido.

Lembro da alegria quando voltaram a morar no Rio.

Lembro da tristeza quando os pais se separaram, e o pai foi morar em outro país. Ela, afinal, a que menos convívio teve com ele.

Lembro quando ela começou a fazer balé.

Lembro até mesmo de ir assistir a apresentações de final de ano em clubes e colégios, ela pequenininha, mas sempre num papel de destaque.

Lembro que a coisa do balé foi ficando séria, e aos 13, 14 anos, quando a maioria das meninas (como eu) sai para fazer outras coisas, ela continuou se dedicando à dança.

Lembro que aos 15 anos ela já dançava em teatros de verdade, não mais clubes e colégios. Não mais apresentações de fim de ano, e sim temporadas.

Lembro quando, aos 17, ela recebeu uma proposta e foi morar fora do Brasil. Para dançar.

Lembro que teve de terminar o segundo grau por correspondência.

Lembro da virada da dança clássica para a moderna, e de como ela ficou contente.

Lembro da alegria que foi quando ela entrou na melhor companhia de dança moderna do mundo.

Lembro que nas duas últimas viagens que fiz à Europa não consegui encontrá-la porque ela estava sempre em turnê, ensaiando, ou coisa que o valha.

Domingo fui vê-la dançar, no Teatro Municipal. Casa cheia, ingressos caríssimos.

Soube que ela estava mais nervosa por dançar aqui, onde conhece tanta gente, do que jamais ficou em Nova York, Londres, Paris ou Tóquio.

Eu já sabia que ela era tudo isso. Mas mesmo assim fiquei espantanda. Impressionada. Encantada. Como ela se tornou uma artista tão madura?

Esqueço. Que ela tem vinte anos.

11.6.07

Outro giro pelo mundo do grande capital (esportivo)

Repara como o Federer nem sua!


Mais ou menos uma vez por ano acontece de eu ver um jogo de tênis. Ontem vi a final de Roland Garros, Nadal x Federer. Foi um jogo bom de se ver, grandes jogadas, emocionante. Mas percebi que o jogo de tênis é parecido com o recital de música clássica. Do público espera-se um comportamento rígido. Não pode falar fora da hora. Não pode vibrar no momento errado. Aplaudir fora de hora, nem pensar. Um espirro mais alto pode atrair o opróbrio de todo o estádio. Pode até voltar o ponto.

As regras também não são assim tão simples. Até hoje não entendi por que se contam os pontos 0-15-40-fim. E se ninguém lhe explicar o que é "Deuce" não é muito fácil deduzir.

É um esporte tão elitizado que para cada jogador na quadra existe um pequeno exército de lacaios. Para começar, uma meia dúzia de homens-estátuas que ficam imóveis com os olhares fixos nas linhas da quadra, esperando a bola bater um milímetro para fora para que eles possam gritar "Ô!" (ou algo foneticamente similar). Além desses, os gandulas do fundo da quadra e os gandulas mais famosos, aqueles que correm rente à rede. Há também os outros lacaios que ficam oferecendo toalhas para os tenistas secarem o suor, quem sabe uma outra bolinha melhor?, ou uma nova raquete, senhor? Bah, aviltante.

E por ser assim tão upper-upper-class, figuras como o Nadal ou a Venus Williams parecem verdadeiros intrusos em um reino que deveria ser só de suíços como o Federer ou belgas como a Justine Henin. Eles não gritam a cada raquetada, por exemplo. O Federer e a Justine me parecem aquelas pessoas que já nascem sócias do Yacht Club, passam férias nos lugares mais exclusivos e poderiam jogar tênis ou pólo.

Mas fugindo do assunto: só eu acho que o Federer parece o irmão mais novo do Tarantino? Separados no nascimento!

8.6.07

O verbo chamar-chamar

O post abaixo e a questão dos cacoetes de linguagem me fizeram lembrar uma crônica sensacional do João Ubaldo Ribeiro, sobre o verbo chamar-chamar. Segundo ele, é um verbo bastante específico, usado sempre com um único significado: quando um telefone não é atendido.
-- Chama-chama e ninguém atende.
-- Chamou-chamou e não atendeu.
(Com uma variante, o verbo tocar-tocar)
Podem reparar. Ninguém nunca diz "Chama e não atende".

E tenham todos uma boa sexta-feira.

Mês 6 e mês 7

Nesta época do ano sempre reparo. Você diz algo como:
- Temos um compromisso no dia 22 de julho.
- Ju-NHO ou ju-LHO?
-Ju-LHO.
Já notaram que é sempre assim, e com essa entonação? Quase um cacoete de linguagem.
Quem terá sido o gênio da comunicação que resolveu colocar nomes tão parecidos em dois meses seguidos? Talvez devêssemos adotar um nome alternativo para um desses meses. Junho, por exemplo, mês das festas de São João, São Pedro e Santo Antônio, poderia ser Anjope, em homenagem aos três.
Sugestões?

7.6.07

Cristo by night

Não, eu não sou entusiasta da eleição do Cristo Redentor para nova maravilha da humanidade. Considero essa campanha mais uma do rol de babaquices que assolam periodicamente o planeta, e o Brasil em particular. Não é que me incomode, as pessoas curtem, tudo bem, mas não me peçam votos. (E, numa boa, Alhambra, o Taj Mahal e a Acrópole são muito mais "maravilhosos".)

Mas a questão é que, olhando de algumas ruas daqui de Botafogo, a gente vê o Cristo bem de frente. E certas noites, quando o céu está exatamente do mesmo tom de preto que a montanha, parece que a estátua está flutuando no ar. E aí, não tem jeito. É bonito pra cacete.

Foto de Roberto via Flickr

6.6.07

Ninguém mora na rua Marques Rebelo

Há pouco tempo saiu uma matéria de capa no Prosa&Verso d'O Globo sobre o centenário do Marques Rebelo. Na verdade, a matéria dizia que a grande notícia era o fato de que nada estava sendo feito para comemorar o centenário deste autor. Eu, que sou fã do Rebelo (e que de quebra gosto de matérias sem muito gancho), adorei. Concordo com o teor geral da reportagem, que dizia que, um pouco inexplicavelmente, depois que morreu, Marques Rebelo caiu numa espécie de limbo. Poucos são os que conhecem a sua obra, ele que foi um grande retratista do Rio de Janeiro da primeira metade do século passado e que, em vida, era incensado por outros escritores. Apenas A Estrela Sobe segue modestamente conhecido, adotado em alguns vestibulares. Na verdade ele tem vários livros disponíveis, simplesmente ninguém o conhece.

Bom. Hoje fui a pé da Glória para a Lapa, por um caminho que nunca tinha feito antes. Andando pela Rua da Lapa, vi uma pequena transversal, a Rua Marques Rebelo. É mínima, tem apenas um quarteirão. E o que é mais triste, de um lado é a parede lateral de uma igreja, e de outro, as laterais de dois prédios antigos e grandes. Tem até umas portas e janelas, mas as entradas principais ficam todas ou na Rua da Lapa ou na Moraes e Vale, paralela. Donde se conclui que, desoladamente, ninguém tem um endereço "Rua Marques Rebelo, número tal".

5.6.07

Um giro pelo mundo do grande capital


E eu, crente que estava abafando, contando para a minha mãe que na véspera eu tinha ido a uma festa no Copacabana Palace, e que tudo era muito isso e muito aquilo, me achando chique no último e talz, e ela me diz simplesmente que: na mesma noite, ela tinha ido a uma festa de casamento na Confeitaria Colombo do Centro (que, vejam aí no link, tem mais de cem anos) em que a noiva simplesmente tinha chegado de carruagem puxada por cavalos brancos.

(Parênteses para explicar que a Colombo fica na rua Gonçalves Dias, que é na parte antiga do Centro do Rio, portanto uma rua estreitinha e, se não me engano, de paralelepípedos. Eu não consigo nem começar a imaginar o tamanho do transtorno de fechar a rua para passar uma carruagem.)

Sim, ela viu a chegada da noiva de um telão que tinha lá dentro. E nesse mesmo telão tinha aqueles filmes com historinha da vida do casal. E lá pelas tantas, depois do filminho, anunciou-se que no convite do casamento (que era na verdade um livrinho) havia uma mensagem cifrada, que poderia ser decifrada com as informações obtidas no filminho. E que a primeira pessoa que descobrisse a mensagem... ganhava uma passagem com acompanhante para Paris.

Seu motorista (ou seu cocheiro, mais apropriado), por favor pare, que eu quero descer.

31.5.07

Frase da semana

É uma sacanagem os homens não engravidarem. Nunca podemos fazer como as mulheres e decidir "Bom, agora eu quero ser protagonista de um filme surrealista"!

E., visivelmente consternado

30.5.07

Não tem tradução

Não sei vocês, mas tenho a impressão de que os imortais da Academia Brasileira de Letras não têm muita coisa pra fazer. Às vezes parece que o esforço para se eleger foi a última coisa que eles conseguiram realizar. Posso estar errada, mas às vezes acho que eles publicam livros de menos depois que são eleitos.
(H. outro dia foi almoçar no restaurante da ABL e reparou numa coisa interessantíssima: o cardápio, além de ter vários estrangeirismos, tem citações do... Pablo Neruda!)
Bom, enfim, eu tenho uma tarefa para o pessoal da ABL. O assunto é corriqueiro, vive em pauta, e eu mesma neste blogue já fiz referência a ele aqui e, mais recentemente, aqui. São as palavras que faltam na língua portuguesa. Mas no meu caso, penso numa coisa mais urgente, numa utilidade muito prática, que serviria para facilitar as traduções dos muitos, muitos, muitos livros de língua inglesa que consumimos.
Em outras palavras, senhores acadêmicos, vamos pensar em vocábulos específicos para:
to nod - porque não é mais possível tanto "acenou com a cabeça", "respondeu afirmativamente com a cabeça", "disse que sim com um gesto" etc.
whatever, wherever, whoever - essas construções inglesas são realmente geniais. Mas ficam uma droga quando traduzidas por "o que quer que seja que ele tenha dito", ou "onde quer que ele tenha passado", ou "disse para quem quer que estivesse ao seu lado". Péssimo, péssimo.
to afford - uma noção tão básica nesses tempos do consumo e endividamento, e nós nos quedamos aqui com locuções gigantes como "conseguir arcar com os gastos/custos".