Quarta-feira de Cinzas. Marido o dia todo fora trabalhando, e eu passando o dia com Mathilde, sem ter nenhum programa em mente ou agendado. Na verdade o dia começou mal. Cunhada-vizinha chamou para a piscina do seu prédio, e eu ia levando a pequena quando começou uma megapirraça no meio da rua. Acho que é o último grito em termos de manha: sentar no chão, na calçada, e não querer levantar mais. Ficar brincando com folhas caídas e demais lixos espalhados pela rua. E ainda ficar olhando para a cara da sua mãe e ficar rindo, aquele risinho sonso. Ela tem feito isso direto, e eu não estou sabendo muito bem como lidar. “Terrible twos”, adolescência da infância, não importa o nome: esta é a minha vida atualmente. Mas enfim, o fato é que me emputeci e voltamos para casa do meio do caminho: não tem piscina, não tem praia, não tem nada, ouviu? E ela, como sempre, “tá bom”. E sorrindo. Desmoralização.
O resto do dia foi melhor. Ficamos brincando em casa, lendo livrinhos, fazendo teatrinho de fantoches, ouvindo música – CD dos Saltimbancos (aquele velho, do Chico Buarque), nova paixão. Almoçamos e depois fomos ao supermercado. Ela no carrinho, dormiu antes mesmo de chegarmos à esquina. Compras feitas, voltamos pra casa, e ela ferrada no sono, coloquei na cama, liguei o ventilador. Então resolvi fazer uma comida para o jantar. Peguei uma receita de macarrão com abobrinha e fui à luta. Vale dizer que eu nunca cozinho. Não gosto de cozinhar porque não sei, ou não sei cozinhar porque não gosto. Não importa. Não gosto nem sei. Mas às vezes a necessidade se impõe, e temos que rever conceitos. Então fui fazer esse macarrão que, vá lá, não era tão difícil. E além do mais, a abobrinha estava ficando velha na geladeira.
Fiz o macarrão (parafuso) e estava às voltas com o molho, que era muita informação para minha cabeça limitada: alho, cebola e azeite, depois tomates e 1 xícara de caldo de legumes (a esta altura já tinha me arrependido da idéia de cozinhar), depois tomates e a abobrinha, e deixa cozinhar por dez minutos.
Nesses dez minutos, tocou o telefone. O telefone de casa, não o celular. Uma voz de mulher pediu para falar comigo, usando meu nome completo. Mau sinal (= telemarketing alert). No entanto, era uma voz grave e pausada, o que, percebi na hora, destoa do comum das atendentes.
-- Meu nome é M., e eu sou responsável pela agência Bra*des*co da Praia de Botafogo [a.k.a. minha agência, devidamente detonada por mim no post abaixo].
-- Hmmm hmmm.
-- Nós ficamos sabendo da sua insatisfação com o atendimento prestado na agência. Ao que parece, a senhora escreveu a respeito no seu blog.
-- !!!!
-- E eu gostaria, em primeiro lugar, de pedir desculpas em nome do Bra*des*co, e em segundo lugar, pedir que a senhora...
-- Espera aí, M., pára tudo. Como vocês chegaram ao meu nome? Meu blog não é assinado, como puderam saber que era eu?
-- Hmmm, boa pergunta. Não tenho certeza, porque a informação já me foi passada assim, mas parece que a senhora citou a agência, e disse que havia um B.O. da 10ª DP, e como esse B.O. foi entregue na agência, imagino que tenha sido assim.
-- !!!!!!!!!!
-- De qualquer forma, gostaria de saber o que aconteceu, quais os motivos da sua insatisfação, para tentarmos melhorar, caso a senhora nos dê mais uma chance.
Vi que podia conversar com M. Era uma pessoa razoável. Abri meu coração com ela. Lá pelas tantas, não sei como cheguei a esta frase, mas disse a ela que estava “procurando meu lugar dentro do sistema bancário” (acho que foi um momento catártico). Ela pareceu entender. Disse que eu tenho o perfil para ser cliente Pri*me, que é o Bra*des*co dos ricos. Que um gerente especial – que segundo ela eu vou adorar – vai me procurar, e vem até o meu escritório para cuidar da minha transferência para o Pri*me.
(Parênteses para dizer que, graças a esse telefone, o molhou queimou no fogo, grudou no fundo da panela, deu para salvar parcialmente, mas foi uma quase desgraça.)
Eu realmente não sei se vou virar cliente Pri*me, ou Van Gogh, ou Perso*nalitté, ou qualquer outro nome ridículo em outra língua que os bancos inventam para tentar nos convencer de que somos especiais porque ganhamos mais de 2 salários mínimos. Na verdade isso é o de menos aqui para essa história.
O que me deixou atônita foi o fato de eles terem lido o post aqui, publicado na segunda-feira de carnaval às 17h37, e rastreado o meu nome e telefone e me ligado às 16h da quarta-feira de cinzas. Porque, bem, vocês aí que me lêem sabem que este blog é muito legal, bacana e simpático, mas convenhamos que não é nenhum sucesso de popularidade. Quando tenho cem visitas num dia é uma coisa excepcional. Então, como será que funciona? Tem uma pessoa (uma equipe?) que fica buscando referências ao banco na internet? Faz uma busca específica em blogues? (Estou escrevendo dessa forma ridícula, com asteriscos, tipo spam que escreve V1agra e R0lex para passar pelos filtros antispam, para tentar fugir de outras buscas. Mas tenho cá pra mim que é inútil. “Eles” são mais poderosos.) Você está aí, amigo do Bra*des*co? Fazendo follow-up? Deixe um comentário! Caso contrário, vou ficar realmente paranóica, achando que tem alguém atrás do sofá da minha sala ouvindo minhas conversas. Daqui a pouco vou começar a me referir simplesmente a “Eles” e a falar em código (“Eles sabem tudo”, “Eles podem intervir”!).
E o pior de tudo é que só posso compartilhar essa história aqui! Porque como ninguém sabe da existência do blogue (quer dizer, eu acho, pois não tenho mais certeza de nada), nem posso comentar esse caso surreal com as pessoas.
Estou confusa. Não sei se acho o caso todo muito maneiro ou terrivelmente assustador.