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27.5.13

Deuses do constrangimento

Não sei o que é pior.
Ter um prefeito que sai no tapa com cidadãos.
Ou, conhecendo o cidadão em questão há muitos anos, achar que o prefeito deve ter tido ótimos motivos.
Meu Deus...

9.7.12

Praça Paris

Foto O Globo

Tem sido nosso programa das manhãs de domingo há várias semanas: vamos de carro até a Glória, caminhamos até a Praça Paris, que tem estado um luxo, super bem cuidada, com guardas gentis e educados, gramados bem aparados e sem aquela chatice de não-pode-isso-não-pode-aquilo. Ali as crianças correm no gramadão, jogam bola, pintam e bordam até cansar. Tem ainda o espaço dos chafarizes (funcionando) onde as pessoas caminham e fazem cooper.

Quando eles cansam, voltamos andando pela Feira da Glória, uma feira livre toda-toda, frequentada por gente chyk e elegante, compramos frutas e verduras, e paramos para um obrigatório pastel com caldo de cana, antes de pegar o carro e voltar pra casa.

Como por muitos anos a Praça Paris foi sinônimo de abandono, as pessoas se surpreendem ao ouvir que ela voltou a ser uma opção de lazer bacana, com crianças ou não. Enfim, fica a dica, como se diz hoje em dia.

(Fico até meio assim de recomendar qualquer coisa aqui no blogue, porque minhas recomendações anteriores todas degringolaram: a Estante Virtual que funcionava tão bem para qualquer um vender seus livros diretamente agora só aceita pagamento por PayPal - antes da mudança eu vendia em média uns 3 livros por mês. Depois da mudança, que ocorreu em janeiro, só vendi um. E em mais de 60 transações com os compradores depositando o dinheiro na minha conta diretamente, nunca tive problema. O Trocando Livros mudou o design e ficou ainda mais difícil de encontrar qualquer coisa, também nunca mais usei e meus livros nunca mais foram solicitados. O programa de reciclagem da Light que dá desconto na conta de luz, mudou o esquema, eles passaram a ser excessivamente criteriosos na triagem, os horários ficaram mais restritos e os preços caíram tanto que passou a não valer mais o trabalho.)

4.7.12

O melhor do verão carioca


O melhor do verão carioca acontece em junho-julho, quando o calendário insiste em afirmar categoricamente que é inverno.

O melhor do verão carioca é esse céu absurdamente azul, essa temperatura que chega fácil aos 32º por volta do meio-dia, mas que cai no fim da tarde e te permite dormir de cobertor.

O melhor do verão carioca é o mar cristalino e calmo como uma piscina, é aquele primeiro mergulho ao chegar à praia, quando tudo é silêncio embaixo da água, e quando se emerge o primeiro som é o das ondas quebrando na areia.

O melhor do verão carioca é ficar deitada na canga olhando para o céu incomensuravelmente azul, não aquele azul esturricado de janeiro, que de tanto sol chega a desbotar, mas esse azul mais consistente, mais denso, azul-dia-de-sol-de-inverno, olhar para cima e ter seu campo de visão totalmente tomado por esse azul, até ser invadido por umas gaivotas que planam, calmas, sábias, porque sabem que bater as asas é supervalorizado, o que conta mesmo é planar aproveitando o vento, e quando as gaivotas chegam, planam, e vão, você acha que está vivendo dentro de um filme francês nouvelle vague.

O melhor do verão carioca é ficar sozinha na sua canga para praia do Leme, lendo a edição pocket da maravilhosa biografia de Clarice Lispector (que inclusive morou no Leme), mas de vez em quando parar para ouvir as conversas das outras pessoas, pessoas que, vejam, vão à praia numa quarta-feira!, e lamentar, de coração, que Nelson Rodrigues não tenha vivido para escrever sobre os relacionamentos na era da internet.

O melhor do verão carioca é tirar férias na primeira semana de julho.

18.12.11

Bike Rio: o fracasso retumbante de uma ótima ideia

Beleza de publicidade!

Há uns dois meses começaram a surgir pela Zona Sul do Rio uma porção de estações de bicicleta cor de laranja. Era a instalação do projeto Bike Rio, a mais nova tentativa da prefeitura de instalar um sistema de empréstimo de bicicleta, nos moldes do que acontece em Paris com grande sucesso, há anos. Fiquei muito animada, pensei "Agora vai". Porque finalmente, ao contrário das vezes anteriores, instalaram uma porção de estações, não muito longe uma da outra, o que é fundamental para o negócio dar certo.
Fui no site e vi as regras. Por R$10 pagos no cartão de crédito, você compra um passe mensal para usar quantas vezes quiser, cada empréstimo não podendo ultrapassar uma hora de duração, e um intervalo mínimo de 15 minutos entre cada empréstimo. A liberação é feita via celular. Achei tudo legal, exceto pela restrição de horário (das 6h às 22h), que para mim não faz sentido. As bicicletas são bonitas -- patrocinadas pelo Itaú --, têm uma cestinha na frente, e eu comecei a observar uma boa adesão das pessoas pelas ruas. Estava louca para experimentar.

Finalmente a oportunidade se concretizou na terça-feira, quando eu tinha que sair de Botafogo e estar no Jardim Botânico por volta das 19h30. Uma distância razoável, um horário de rush. No mesmo dia, de manhã, fiz o meu cadastro no site, sem dificuldades. Às 19h, passei na primeira estação para pegar uma bicicleta. Mas não tinha nenhuma disponível na estação. Tentei outra estação, não muito distante. A mesma coisa: nenhuma bicicleta. Andei mais 3 quarteirões até onde eu sabia que havia outra estação, e mais uma vez a mesma situação: nenhuma bicicleta disponível.

Nhé

Resolvi ligar para o call center do projeto. São 5 números de telefones que eles divulgam, e nenhum atende. Tentei durante meia hora e só consegui ouvir "no momento este telefone não recebe chamadas". Repare: não foi uma gravação do tipo "Obrigado por ligar para a Bike Rio, no momento todos os nossos operadores estão ocupados". Não. É uma gravação da companhia telefônica dizendo que aquele número não funciona ou nem existe! O único número que funcionava era o usado para liberar a bicicleta na estação. No menu tinha a opção "9 para falar com nossos atendentes", mas aí caía numa gravação dizendo para ligar para um dos números que eu já tinha tentado e não existia. Que beleza, não? Já atrasada, tive mesmo que pegar um ônibus e encarar o engarrafamento de praxe. No dia seguinte, mandei um e-mail para o Fale Conosco. Vocês receberam resposta? Nem eu.

Mas não desisto tão fácil. Na quarta, fui almoçar com minha prima no Humaitá, um trajeto ainda mais curto. Desta vez havia 2 bicicletas na estação. Oba. Liguei para o número. Digitei o número da estação e o número da posição -- informações necessárias para liberar a bicicleta. Mas, para minha surpresa, ouvi a resposta: "No momento esta posição não está disponível". Ué, mas a bicicleta está aqui bem na minha frente! A mesma coisa aconteceu com a segunda bicicleta que estava na estação. Posição não disponível. Bizarro. Fui até outra estação onde só havia uma bicicleta, e finalmente nesta consegui! A bicicleta em si é boa, tem marchas e um assento bem confortável. Cheguei na estação de destino e prendi a bicicleta numa posição livre. Puxa, enfim funcionou.

Na volta, vi que a mesma bicicleta continuava lá, no mesmo lugar, e resolvi pegar ela mesma de novo -- afinal, o banco já estava regulado numa altura boa para mim. Mas quando fui liberá-la ouvi o temido recado: "No momento esta posição não está disponível". Oi? Como assim? Aí me dei conta de que não há nenhum tipo de recibo ou confirmação de que você devolveu a bicicleta dentro do prazo -- ou mesmo que você devolveu a bicicleta simplesmente, em vez de, digamos, roubá-la. Peguei outra bicicleta na estação e voltei para o trabalho. Quando acessei o "Extrato" no site (que funciona bem), dito e feito: estava registrado que meu primeiro empréstimo, que deve ter durado de 10 a 15 minutos, tinha levado 1 hora e 15 minutos! (O tempo da volta estava certo: 7 minutos) Ou seja, é bem capaz de me cobrarem os R$5 a mais que custam cada hora excedente da hora inicial, incluída no passe mensal.

Nem preciso dizer que fiquei meia hora tentando falar com qualquer um dos 5 números de atendimento, sem sucesso. Mandei outro e-mail para o Fale Conosco, que até agora, 4 dias depois, permanece sem resposta.

Entendo que um projeto como este precise de ajustes, uma vez implantado. Por exemplo: se tudo é feito via celular, era fundamental que o sistema mandasse SMS confirmando a retirada e a devolução das bicicletas na estação. É uma forma de o usuário ter certeza de que tudo está sendo registrado direitinho. Não se pode deixar na mão de um sistema pouco confiável como este o seu número de cartão de crédito -- o valor cobrado pela bicicleta não devolvida é R$1.350,00. Agora, o fracasso absoluto do atendimento ao usuário é indesculpável. Eu tentei muitas vezes. Em horários diversos. Para vários números diferentes. E em nenhuma ocasião consegui falar com quem quer que fosse. Para isso não existe justificativa.

Eu de qualquer forma já aposentei meu passe mensal, não usarei mais essas bicicletas e não recomendo a ninguém. Muito pelo contrário, meu conselho é: fuja dessa roubada -- pelo menos até que alguém mais competente venha a gerir.

Minha linda (e confiável) magrela, que nunca me deixou na mão: perdoa-me por te traíres!

27.10.11

Alô, Botafogo e Humaitá!

Boa dica para os moradores dos bairros de Botafogo e Humaitá. A Light está fazendo um programa piloto de reciclagem de lixo no Morro Dona Marta, que concede descontos na conta de luz para quem leva lixo para reciclar.
Estive lá hoje e fiquei muito bem impressionada com a organização. A coleta é num posto comunitário na rua São Clemente (na praça onde fica a subida para o morro), e o funcionamento para receber o lixo é restrito: apenas terças e quintas, das 8h às 13h. Segundas, quartas e sextas a coleta é na estação do Plano Inclinado do morro.
Funciona assim: você leva sua conta de luz e se cadastra. Ganha um cartão. A partir de então, pode levar o lixo reciclável quantas vezes quiser, e a cada pesagem ganha um novo desconto e um recibo, que é feito na hora, numa maquininha do tipo das de cartão de crédito. Bem legal, rápido e prático. Como moro num prédio pequeno (6 apartamentos) que não separa lixo por falta de iniciativa e organização, cadastrei o condomínio (marido é síndico...), e agora sim terei um pouco mais de moral ao tentar convencer os vizinhos a separar suas garrafas pet, jornais velhos, caixas longa vida, vidros e recipientes em geral. Eles até fornecem lá os sacos transparentes próprios para armazenar o material reciclável.
Os descontos são válidos por enquanto apenas para os moradores desses bairros, mas para os demais é possível levar o lixo e doar o desconto a instituições de caridade cadastradas.
Gostei. Esse tipo de coisa sempre funciona muito melhor quando há um incentivo financeiro por trás.
Maiores informações no site do programa Light Recicla: http://www.light.com.br/light-recicla.asp

14.9.11

Ah, a Bienal

Fui 3 vezes à Bienal que terminou no domingo. Não entendo como pode ser um sucesso tão grande de público, mesmo sendo tão longe (no RioCentro, nome que é uma piada pronta), mesmo tendo que pagar para estacionar e para entrar, mesmo os livros custando o mesmo (ou praticamente) que na livraria, mesmo as opções de comida sendo os horrores caríssimos de sempre, mesmo com as filas imensas para ir ao banheiro, comer cachorro quente ruim ou simplesmente para pagar uma compra no caixa do estande.
Mas o fato é que as pessoas vão, na casa das centenas de milhares, para curtir a Bienal, que é na verdade uma enorme livraria dividida em três pavilhões. E as pessoas gastam, e como gastam. Incrível como vão para lá com a disposição de comprar muitos livros e deixar um bom dinheiro. Fico me perguntando se leem todos os livros que compram.
Eu acho divertido, porque sempre encontro um monte de colegas do mercado editorial, fico sabendo das últimas fofocas, vejo que editoras afinal compraram os livros que nós deixamos de contratar (aqueles que a gente fica torcendo para ser um fracasso, já que não publicamos). E sempre tem os eventos com autores nossos, que é uma parte muito gostosa, conhecer os autores, conversar com eles etc.
Mas o mais legal é ficar no estande observando quem está comprando os livros que a gente se esforça para publicar. Porque nós, os operários do mercado editorial, vivemos num universo totalmente à parte do consumidor final, e a Bienal é uma rara oportunidade de observar o leitor em ação, exercendo sua escolha, comentando com o amigo, recomendando um livro etc.
Os leitores do Rio foram à Bienal? Compraram muito livro?

9.3.11

Ônibus monocromáticos (Da série: Cartas para o jornal)

Um dia, quando eu tiver muito tempo livre, vou me dedicar a escrever cartas para o jornal. Sou daquelas que leem a seção de cartas dos jornais. E observo que alguns missivistas são assíduos. Já sei identificar quais os assuntos caros a cada um, e como se posicionam em relação a temas cotidianos. No fundo, nutro uma profunda admiração por aqueles que dedicam parte do seu dia a escrever para o jornal dizendo que isto ou aquilo é um absurdo.

Ainda não cheguei ao estágio de escrever cartas para o jornal, mas tenho um blogue. E aqui posso dizer, sem medo de ser cortada pelo editor da seção de cartas: é um absurdo o que estão fazendo com as cores dos ônibus cariocas!

(Disclaimer: Desculpem os que não são do Rio, mas já dizia, com propriedade, meu amigo H., carioca que há muito mora fora: discutir linhas de ônibus é o cúmulo da saudade. E é verdade, o carioca de classe média costuma ter uma relação estreita com o sistema rodoviário que cruza a cidade. O ônibus ainda é, de longe, o principal meio de transporte coletivo do carioca.)

Para quem não está entendendo nada: a prefeitura resolveu uniformizar a pintura dos ônibus da cidade. Agora estão todos ficando iguais, brancos com detalhes em cinza.

438 e 157 - vermelhinhos clássicos desbravando o Centro para cortar a cidade de Norte a Sul

A questão é que, há décadas, os ônibus do Rio eram caracterizados pela cor de sua (imensa) carroceria. E o mais incrível é que as cores, bem como os números das linhas, costumavam ter sua lógica.

Dentro do caos que é o serviço de ônibus do Rio, com um óbvio excesso de coletivos vazios circulando e atravancando o trânsito, o sistema das cores era uma das poucas coisas boas. Pelo simples motivo de que, parado no ponto de ônibus, atrás de cinco dúzias pessoas olhando na mesma direção, era possível discernir, lá de longe, se é o seu ônibus que está vindo ou não. E isso faz toda a diferença. Só não sabe disso quem não anda de ônibus, que são justamente as pessoas que tomam essas decisões.

572 Glória-Leblon: Figurinha fácil na Zona Sul, mudou de número e perdeu o bege característico


Quem, senhores, nesta cidade, nunca andou de 433, 432, 438? Assim como todas as linhas iniciadas por 4, estes fazem a ligação Zona Norte-Zona Sul. E são (eram) todos de um vermelho inconfundível. O 157, Central-Leblon, único que margeia a Lagoa Rodrigo de Freitas no sentido Botafogo-Leblon, também sempre foi vermelho. O 410 (Tijuca-Gávea) e 409 (Tijuca-Horto) eram azulões na minha infância, mas há alguns anos viraram branco com azul. 434, 435 e 464 formavam a trinca laranja. Os verdes, começados com 6, fazem o circuito Zona Norte-Centro.

179 - Central-Alvorada: garantia de uma viagem de muitas horas...

Pela Zona Sul, abundam os circulares: todos beges e começados por 5: 571 e 572 (Glória-Leblon), 583 e 584 (Cosme Velho-Leblon), 569 e 570 (Largo do Machado-Leblon), 511 e 512 (Urca-Leblon). Sempre aos pares porque um é via Botafogo, e outro é via Copacabana. Crime dos crimes, estão mudando também os números!!! Outro dia via um ônibus 161 circulando, e não entendi nada: esta linha não existe, pensei. Descobri que é o "antigo 571". Aaaaah!!! Estão destruindo a memória de uma cidade!

Para ir ao Maracanã, os prateados que pegam o Rebouças: 460 e 110. E os amarelos, Centro-Zona Sul todos eles: 127, 128, 132 (via Aterro), 158 (antigo 174, que mudou de número depois daquela tragédia), 178 (São Conrado), 179 (Barra).

606 - Verde mas nada ecológico, passa no Engenhão

Enfim, estou muito revoltada com isso. Como dizem meus colegas missivistas, é um absurdo.


23.12.10

Quero uma passagem só de ida para Oslo

Começou o verão, a estação mais superestimada do ano. Não sei que diabo as pessoas veem de tão bom no verão do Rio de Janeiro, cidade onde no inverno a temperatura dificilmente vai a menos de 17ºC, de modos que não se pode nem dizer que a alegria de dezembro e janeiro é um reflexo da tristeza provocada pelo frio de junho e julho.

A única coisa que presta no verão é, como descobriu recentemente a Frida Monix, ir à praia no fim de tarde/noite. Isso é bom mesmo.

Mas fora isso, verão carioca é:
  • Acordar no meio da madrugada para entrar debaixo do chuveiro, tomar uma ducha, e depois voltar pra cama - sem se secar muito.
  • Tomar no mínimo 3 banhos diários.
  • Chegar em casa louca pra tomar banho e constatar que a água fria está morna, porque a caixa d'água passou o dia inteiro cozinhando ao sol.
  • Sair do banho e, ainda enrolada na toalha, enquanto penteia o cabelo em frente ao espelho, sentir o suor já escorrendo pelas costas.
  • Sentir o cabelo grudando na nuca.
  • Ficar meia hora sem fazer nada, com o rosto a 3cm do circulador de ar.
  • Sair na rua e sentir que o ar, de tão espesso, pode ser cortado a faca.
  • Entrar subitamente num banco, só pra sentir o ar condicionado.
  • Sair para tomar um chope à noite e constatar que, à uma da manhã, a temperatura é 35ºC.
  • Aprender o significado da palavra canícula.
  • Constatar que a indústria nacional não dá conta de produzir mais ar-condicionados.
  • Ver a conta de luz chegar à estratosfera.
  • Ir ligando os ventiladores de teto conforme muda de cômodo.
  • Conviver com os bichos do calor: baratas, mosquitos da dengue, bichinhos da luz.

No mais, refresquemo-nos assistindo à inesquecível sequência inicial de Do The Right Thing, de Spike Lee -- a do banho de hidrante:

27.11.10

O Circo chegou


Vejo toda essa comoção em torno da ação da polícia na Vila Cruzeiro e Complexo do Alemão como um grande circo. Um espetáculo midiático como outros que já ocorreram por aqui. A diferença positiva desta vez é que todo o show vem a reboque de uma política de segurança já em implantação há alguns anos, as UPPs. Que têm problemas, claro, que têm de ser pensadas para além de sua implantação, que merecem um olhar crítico, mas que, daqui do minha pequena ilha da fantasia em Botafogo, me parece a melhor política de segurança que o Rio tem em décadas. E pelo simples motivo de ser uma ação contínua, e não pontual. Por isso é que o grande ataque desta semana, o "Dia D" (e que incrível cara de pau do jornal O Globo de colocar ontem no texto da primeira página uma comparação com o desembarque das tropas aliadas na Normandia!), não me comove. Os 450 policiais vão e vêm, bem como os 800 soldados do exército. Nada disso vai mudar a situação significativamente enquanto o Estado não for uma presença constante e rotineira na vida de todas as pessoas.
Mas que diabo, estou a falar obviedades.

Melhor então falar sobre os filmes que tenho visto em casa, durante esse meu período de resguardo. Nos últimos anos fui tão pouco ao cinema, e tenho tão pouco hábito de ver filmes em casa (seja no DVD, no computador ou na TV), que não falta filme para eu correr atrás. Nas últimas semanas vi Bastardos Inglórios, Gran Torino e até o filme sobre a criação do Facebook (A Rede Social), que me pareceu uma loucura total, porque acho surreal que uma bobagem como Facebook valha esse tipo de dinheiro. (Call me old fashioned, paciência.)

Mas, fazendo um paralelo com o primeiro parágrafo deste post, o que vi também na semana passada foi a trilogia O Poderoso Chefão.


(Parêntese para clamar pela desnaturalização desse título brasileiro, essa absurda tradução para The Godfather. O Poderoso Chefão é o tipo de título traduzido que achamos que existe em Portugal e damos gordas gargalhadas com a falta de noção reinante. Mas não. Lá o filme se chama O Padrinho, é claro! E aqui, O Poderoso Chefão. Chefão, amigos, prestem atenção, que aumentativo mais ridículo para um título de filme desse calibre!)

Mas tergiverso. Não sei bem por que resolvi pegar o filme, acho que li algo sobre como foi o único caso em que um filme e sua sequência ganharam ambos o Oscar de melhor filme. Já tinha visto a Parte I há muitos anos, mas não lembrava de nada, a não ser de algumas cenas isoladas, como a morte de Don Corleone na plantação de tomates. Então sentei com vontade para encarar as 3 horas de filme, e para mim não resta dúvida de que se há um filmaço na trilogia, é o primeiro. Lançado em 1972, com Marlon Brando roubando totalmente a cena como Don Vito Corleone. Na verdade, basta a primeira sequência do filme para te deixar boquiaberto. É uma tomada longa, em que um personagem secundário conta uma história triste para o Don Corleone e pede sua ajuda para fazer justiça. Tudo é carregado no chiaroscuro, e a câmera vai abrindo até aparecer a mão do Marlon Brando, e em seguida todo ele, visto de trás. Uma beleza.

Mesmo assim, tem umas partes que eu, na minha suprema ignorância cinematográfica, achei meio longas demais (como a temporada que o Al Pacino passa na Sicília, ou a terrível sequência do produtor de Hollywood com o Robert Duvall).

O Poderoso Chefão II, de 1974, sofre muito com a ausência de Marlon Brando. Confesso que, nas 3 horas e meia do filme, acabei me aborrecendo um pouco com o personagem principal (Al Pacino) e sua eterna angústia e rancor em relação ao mundo. A sorte é a parte em flashback, que conta um pouco da história do jovem Vito Corleone, interpretado por Robert DeNiro, um bálsamo. Sim, naturalmente é ótimo um filme que sugere mais do que mostra, e que te dá coisas para pensar depois que termina a projeção, mas quando o filme acabou fiquei cheia de perguntas por responder (afinal, qual era o grande lance da presença do irmão do Frank Pentangeli no julgamento do Michael? como o jovem Vito sobreviveu sozinho em Nova York com 9 anos de idade em 1901? e principalmente, como ele passou de jovem trabalhador de mercearia a capo? só fazendo pequenos roubos com o Clemenza?! Fantucci não trabalhava sozinho, como pode não ter havido reação a seu assassinato?). Achei este o mais cansativo dos três filmes.



O Poderoso Chefão III, de 1992, é quase uma paródia. A crítica incensa a parte 2 como obra de arte e essa parte 3 como desprezível, mas eu confesso que esta última me entreteve mais. Tem a participação da Sofia Coppola como atriz, que é tão ruim, mas tão ruim, que chega a ser divertido. Tem também o Andy Garcia, que é tão caricato que a gente até esquece do filme e se concentra só em observar como ele é bonito. E, claro, tem o Al Pacino, que em 1992 já era um ator pra lá de consagrado, e portanto interpreta, basicamente, seu papel de... Al Pacino.

O curioso é ver como, ao longo da trilogia, a família Corleone vai se vendo obrigada a se atualizar em sua atuação mafiosa. Jogos, armas e putas, depois drogas, depois a política e a lavagem de dinheiro - e sempre a venda da proteção e a exigência da lealdade. Sim, os banhos de sangue se repetem em cada um dos três filmes (tem sempre um momento "acerto de contas", com vários assassinatos simultâneos), mas os métodos vão se sofisticando com o tempo.

E é justamente isso que parece não acontecer com a questão do tráfico no Rio de Janeiro. As milícias sugerem de fato uma "evolução" do crime mafioso, por não se prenderem a um só produto - ainda por cima ilegal - e por serem mais maleáveis, adaptáveis. Esse modus operandi dos traficantes, com bunkers e territórios demarcados, me parece cada vez mais inviável de sustentar, por ser caro, pesado, pouco prático. Imagino o que será a nova tendência.

8.2.10

Canícula

As praias agora andam sempre assim. Incluam-me fora dessa.
(Praia de Ipanema lotada. 17.02.2007 - Gustavo Stephan - Agencia O Globo)


Nasci e sempre vivi no Rio de Janeiro. Portanto, sei o que é o verão, sei o que é o calor. Mas uma das provas de que este ano está especial no quesito inferno é que, antes deste verão, eu não conhecia a palavra canícula. Que agora faz parte do vocabulário cotidiano de todo carioca.

Tenho tentado me lembrar de um outro verão tão inclemente como este. Ou tão longo como este. Porque, se bem me recordo, estamos nesse ritmo de mais de 35º todo dia desde novembro, com rápidos e breves intervalos em que a média baixa para 30º.

Eu confesso que meu bom humor descresce na mesma proporção em que a temperatura se eleva. O sol fortíssimo, o calor incessante e a umidade do ar me derrubam. Eu tento polianizar, pensando que não posso reclamar, afinal trabalho sentada e no ar condicionado - e igualmente durmo com ar condicionado. Mas olha, até Poliana tem reclamado ultimamente.

24.11.09

O New Deal na Nelson Mandela

Existe em Botafogo uma rua chamada Nelson Mandela. Só tem dois quarteirões de tamanho, e fica bem perto das saídas do Metrô. Há pouco tempo, presenciei um fenômeno que, acho, poucas pessoas vivenciaram neste século, no Rio: vi uma nova rua ser aberta. É de fato uma nova rua, com calçada, estacionamento, e duas pistas de rolamento. Mas fica paralela à Nelson Mandela, e curiosamente ficou com o mesmo nome, Nelson Mandela, como se fosse a mesma rua. É que entre as duas ruas Nelsons Mandelas teoricamente deveria haver uma praça, mas há coisa muito diferente: uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) construída recentemente, e um terreno baldio cercado que, acho, pertence ao Metrô.
Mas enfim.
O fato é que a Nova Nelson Mandela (que só tem um quarteirão e liga as duas principais ruas de Botafogo, a São Clemente e a Voluntários da Pátria) foi ótima para mim, fica bem no meu caminho entre casa e trabalho, e passo por ela todo santo dia. De um lado da Nova Nelson Mandela colocaram o ponto do ônibus do Metrô, e não tem mais nada além do terreno baldio -- nem mesmo calçada. Do outro lado tem uma calçada nova e um condomínio residencial enorme, que domina a rua de fora a fora. No térreo desse condomínio tem espaço para várias lojas de rua. Mas desde que a rua abriu essas lojas estão fechadas com anúncio de Aluga-se. Até agora não abriu nenhuma. Já ouvi dizer que pertenciam ao Grupo Estação (de cinema), mas que, por ficarem em frente à UPA e ao terreno baldio, eles deixaram de ter interesse e venderam as lojas. Não sei se é verdade. Só sei que, curiosamente, nenhuma loja abriu até o momento, e a nova rua já está lá há meses.


O interessante é que, na frente das lojas, tem umas gradezinhas brancas, e de tantos em tantos metros tem um postezinho entre as grades, com uma luminária. É meio feio, mas podia ser pior. O curioso é que obviamente a grade atrapalha completamente o acesso das pessoas às (futuras) lojas. Então são umas grades que parecem ser de encaixar nos postezinhos com luminárias. E desde que a rua abriu, parece que não chegaram a uma conclusão definitiva sobre essas grades. Tem dias que elas estão lá, tem dias que não estão, e tem muitos dias que elas estão sendo retiradas ou colocadas quando eu passo. Ou é uma grande coincidência, ou essas grades são colocadas e retiradas praticamente o tempo todo.


E aí eles arrebentam o chão (novo) para fincar ou tirar os postezinhos com luminárias. Depois consertam o chão. O fato é que tem sempre homens trabalhando em frente às (futuras) lojas. E na semana passada, por incrível que pareça, vi homens marretando a parede externa de uma das lojas! Destruindo completamente. E esta semana já estava construído de novo. Foi então que me dei conta: estão fazendo um New Deal nessa rua! Lembram, aquela história de que, durante a Depressão nos EUA, contratavam pessoas para abrir um buraco na rua, e depois contratavam outras para fechar o buraco, sem qualquer finalidade, apenas para gerar emprego. Só pode ser isso. Meu deus! Nunca na história deste país...

PS: Por falar em Nelson Mandela, li e recomendo Conquistando o Inimigo (de John Carlin, Ed. Sextante, 2009), livro teoricamente sobre a Copa do Mundo de Rúgbi de 1995, primeiro ano de Mandela na presidência da África do Sul -- mas no fundo sobre Mandela e seu imenso talento político. É um livro arrepiante, e tão bom que, imaginem, me fez ir ao YouTube procurar uns vídeos de rúgbi.

Outro PS: Essas fotos são exatamente do local a que me refiro, mas não são minhas. Dei uma busca e achei essas justamente num site de imobiliária! É de uma das lojas para alugar (R$ 8.000,00 por mês, for the records).
.

24.2.09

Carnaval 2009


Baiana é aquela
Que entra no samba
De qualquer maneira

Que mexe, remexe

Dá nó nas cadeiras

E deixa a moçada

Com água na boca


O que eu acho mais fascinante no carnaval do Rio de Janeiro, que de uns dez anos pra cá voltou a ser eminentemente um carnaval de rua, é o folião quase à paisana. É aquele que vai para um bloco mas sem uma fantasia muito produzida. É a pessoa que está no metrô, no meio da tarde, de bermuda jeans, camiseta branca e sandália, mas com um pinguim de pelúcia na cabeça à guisa de chapéu. Ou com um simples colar havaiano. Ou mesmo apenas uma presilha de flor colorida na cabeça e uma sombra de purpurina. Ela está ali, agindo "civilmente", comprando um bilhete, passando na roleta. E ninguém acha estranho aquele arco na cabeça, com dois chifrinhos de diabo que piscam com luz vermelha.
Para mim, este é o maior barato do carnaval.

6.2.09

Polícia e ladrão


Sexta-feira, chopinho com T., minha amiga que é psicóloga e trabalha com crianças nas escolas públicas, nos morros cariocas. (Você queria esse trabalho? Pois é, nem eu.)
Ela me conta que as crianças - que via de regra vêm de famílias muito desestruturadas, muitos têm pais presos, mortos ou desaparecidos, coisas dessa sorte (ou falta de) - como sempre brincam de faz de conta. Mas que lá os papéis são outros: fulano é o traficante, fulaninha é a filha do traficante, beltrano (um menino mais mané) é o marmita, o cara que faz as quentinhas, e por aí vai o jogo de referências. Até aí tudo bem, nenhuma novidade.
Segundo T., essas crianças pegam o papel dos maços de cigarro que encontram no chão, cortam em tirinhas e aquilo é o dinheiro de mentira delas, que serve para todas as brincadeiras.
E aí, como desde sempre, tem a brincadeira de polícia-e-ladrão, que todo mundo conhece. Só que é assim: se você é ladrão, e é pego pela polícia, tem que pagar pra polícia te soltar. Ou então, se um amigo é pego e não tem dinheiro, você pode pagar pra soltar seu amigo.
E agora?, me perguntou T. Como é que se faz pra começar a tentar explicar que não é bem assim? Mas afinal, é bem assim ou não é bem assim?
(Você queria esse trabalho? Pois é, nem eu.)

10.1.09

A serviço da amizade

Bip Bip, o nosso bar do coração

No finalzinho do ano, ganhamos um exemplar do livro "Bip Bip 40 Anos", uma homenagem editorial ao nosso bar do coração. É uma coletânea de 104 textos escritos por frequentadores (sem trema, ai ai ai, vamos praticando) do Bip. Texto de todo tipo, uns bons, uns péssimos, uns longos, outros curtos. Tem poesia, tem contação de causo, tem crônica, tem de tudo. Os organizadores nos haviam pedido, antes, um texto do nosso grupo, e ficamos de nos reunir para escrevermos juntos, mas é aquela coisa, muita gente, muitas agendas, muitos compromissos, acabou não rolando. P. escreveu sozinho um texto que ficou muito do bom, e nos representou a todos.
Mas confesso que, depois de pronto o livro, me arrependi de não ter nem ao menos tentado escrever alguma coisa.
Porque tenho tanta coisa pra falar do Bip Bip...
Poderia começar o texto como muitos que estão no livro: "Não lembro a primeira vez que fui ao Bip". Mas tenho quase certeza de que foi em 1997. Porque alguns anos antes, a nossa turminha de amigos havia, como dizer, caído no samba. Tínhamos 18, 20 anos, e estávamos em plena lua-de-mel com o samba. Entre nós havia violonistas, um bandolim, um pandeiro, um cavaquinho, e um monte de gente querendo cantar. Ouvíamos diuturnamente os discos Roda de Samba vol. 1 e 2 (1965), do conjunto A Voz do Morro (Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho), Rosa de Ouro 1 (1965) e 2 (1967), Zé Kéti, Portela Passado de Glória (1970), Cartola, Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, Candeia, Carlos Cachaça, Geraldo Pereira, Paulo da Portela. Os discos do A Voz do Morro eu acho que sabia cantar, inclusive, na ordem, de tanto que ouvia.
O grande entrave era um lugar onde tocar. Fizemos muitas e muitas rodas em nossas próprias casas (ou melhor, na casa dos nossos pais, como era na época). Íamos também, às vezes, aos lugares onde se tocava samba naquela época, como o Sobrenatural ou o longíssimo Candongueiro, mas isso era mais para escutar, não para tocar (ninguém ainda tinha essa moral).
Aí, no primeiro semestre de 97 eu viajei, passei 6 meses fora. Quando voltei, não se falava em outra coisa: tudo agora era no Bip Bip.
Foi o Bip que acolheu aquele grupinho de pós-adolescentes de classe média da Zona Sul que nunca tinha posto um pé numa favela mas adorava cantar e tocar o dito samba de morro. Uma coisa assim meio Nara Leão, mas sem o apartamento na Atlântica.
Pra quem não conhece, eu descrevo: o Bip Bip é um bar minúsculo que fica numa rua minúscula de Copacabana, bem pertinho da praia, no posto 5. O Bip é tão fascinante quanto incômodo. Lá é tudo apertado, tem pouco espaço para as cadeiras e mesas de dobrar, e estas são quase sempre reservadas para os músicos - que tocam lá pelo prazer de tocar. No Bip não tem couvert artístico, não tem ingresso, e nem pode bater palma, pra não incomodar os vizinhos. (Mas mesmo assim, incomoda. Eu mesma já presenciei muitos arremessos vindos dos vizinhos incomodados.) No Bip não tem comida. Só o amendoim quentinho de cone que o camelô passa vendendo. Quer comer, vai no Bob's, no Rei do Mate, no restaurante da esquina. No Bip só tem cerveja. Em lata. Às vezes quente. Quer dizer, agora tem água também, mas é uma concessão recente. Bem, tem vinho tinto também, e umas batidas de mil novecentos e qualquer coisa. Quem chega pedindo Coca-Cola ouve logo uns risinhos de mofa. Ah, e querendo uma cerveja, você é quem vai na geladeira e pega.
No Bip tem muita gente chata. O Terminal Rodoviário Bip Bip, como chamamos, tantas são as malas que aparecem. Malucos de toda espécie e tamanho, arremedos de sambistas, conquistadores baratos, aristocratas falidas, tocadores de tan-tan, e daí pra pior.
As paredes do Bip são cobertas de quadros com desenhos, textos e fotos. Tudo girando em torno da música popular brasileira e do Botafogo, as grandes paixões do Alfredo, o dono do Bip.
E é incrível que eu só agora, depois de tantos parágrafos, mencione o Alfredinho. Porque ele e o Bip são o que há de mais indissociável. Criador e criatura, um não existe sem o outro.
No livro tem muitas histórias do Alfredo, muito melhores do que eu poderia contar aqui. E ele é, naturalmente, o responsável por toda a parte boa do Bip, que supera em muito o aperto, a falta de opções do cardápio e as malas. Alfredinho tem aquele dom de congregar as pessoas em torno de si para fazer o bem. Para além da caridade verdadeira que ele, como cristão praticante, exerce (ajuda os meninos de rua que vivem por ali, arrecada dinheiro e organiza shows para músicos pobres e doentes, promove almoço de natal para os sem-teto de Copacabana, etc.), o Alfredo parece que tem essa missão de abrigar a música. Tem umas expressões super clichê, como "espaço de resistência", mas não tem jeito, é isso mesmo que o Bip é, graças ao Alfredo. E com esse lado missionário, o Alfredo contagia. Tem o pessoal frequentador assíduo, que bate ponto lá, que nós chamamos de "Família Bip". A Família Bip dá um show, quando precisa. Toma conta do Bip quando o Alfredo, por algum motivo, não pode; organiza eventos, no Bip ou fora dele; prestigia os músicos que vão lá tocar, sejam bons ou ruins. Tudo graças ao contágio de boa vontade que vem do Alfredo.
Eu sei, parece que estou exagerando, mas não estou. Leiam os textos do livro, e vocês vão ver.
O Bip Bip fez 40 anos no último dia 13 de dezembro. Ou seja, foi inaugurado no dia do AI-5. (O Alfredo só comprou o bar nos anos 80.) Por uma dessas coincidências da vida, é, há tempos, o espaço da liberdade.
Na frente do Bip tem um cartaz bem tosco, feito no computador, atualizado todo ano. Desde dezembro, lê-se lá:
Bip Bip: 40 anos a serviço da amizade
Amém.

Bip Bip
Rua Almirante Gonçalves, 50
Copacabana, Rio de Janeiro.
Aberto todo dia, das 19h à 1h (mais ou menos)
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6.12.08

Rua da Glória

É preciso tirar o chapéu para a Prefeitura (essa do apagar das luzes) da muy leal e heróica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Pois conseguiram encontrar uma rua que nunca engarrafava. Então fizeram uma obra para aumentar a calçada que já era de uma largura mais que suficiente, e reduziram de quatro para duas pistas de rolamento. E se ao menos tivessem colocado ciclovias pelos lados, mas nem isso: só mais vaga$ para estacionamento. O resultado são magníficos engarrafamentos, a qualquer dia, a qualquer hora.
Vamos e venhamos: esses caras da Prefeitura são bons. Fazer uma barbeiragem dessa não é pra qualquer um. Requer técnica, prática e habilidade.

Desmandos à parte, nos últimos dois anos trabalhei na Glória, e me encantei pelo bairro. Apesar de meio suja e abandonada, a Glória tem um tremendo charme. Além de abrigar a Marina da Glória, o Outeiro da Glória, o Hotel Glória e a Taberna da Glória, ela tem uma elegância antiga que muito me agrada. Da Rua da Glória (agora com seu calçadão de um decâmetro e largura), ver a baía de Guanabara ao fundo e a Praça Paris no meio é um espetáculo. Várias vezes tive a impressão de que, dali, o céu era muito mais azul.

PS: Estou tentando inserir uma foto bonita da Glória, da Praça Paris, mas por algum motivo não está funcionando esta bodega. Alguém sabe o que é? É o Blogspot? Será a última atualização do Fire Fox que baixei ontem? Bom, o link para a foto é este aqui.

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17.11.08

Minha jangada vai sair pro mar


Peguei hoje um temporal na rua. Eu voltando pra casa, saí do metrô direto para o dilúvio. Nem sei como consegui sair do metrô, porque as pessoas ficavam na saída da estação, bem em frente à escada rolante, olhando para fora, para a chuva, como se nunca tivessem visto um fenômeno semelhante. Cariocas são assim, ficam sempre atônitos olhando para a chuva, como se olhar fosse fazer parar a tempestade.
Saltei na estação Botafogo. Não sei se o amigo leitor conhece o venerável bairro carioca de Botafogo, mas se não conhece, posso adiantar que é a freguesia que mais rapidamente alaga de que se tem notícia. Talvez a Ásia das monções possa lhe fazer frente neste quesito - apenas "talvez". Em dez minutos de chuva já não se distingue mais a calçada do asfalto, tudo é uma imensa bacia hidrográfica com lixo boiando. Os carros passam criando marolas e tratando de molhar as poucas partes ainda não encharcadas dos pedestres.
Comprei um guarda-chuva no camelô, mas só por uma questão pro-forma, de modo a manter um mínimo de dignidade e não ficar completamente ensopada.
E lembrei, claro, desta música ótima, que conheci com a gravação da Monica Salmaso no disco "Iaiá".

Cidade lagoa
(Sebastião Fonseca e Cícero Nunes)

Essa cidade que ainda é maravilhosa
Tão cantada em verso e prosa
Desde o tempo da vovó

Tem um problema vitalício e renitente
Qualquer chuva causa enchente
Não precisa ser toró

Basta que chova mais ou menos meia hora
É batata, não demora
Enche tudo por aí

Toda cidade é uma enorme cachoeira
Que da praça da Bandeira
Vou de lancha a Catumbi

Que maravilha nossa linda Guanabara
Tudo enguiça, tudo pára
Todo trânsito engarrafa

Quem tiver pressa seja velho ou seja moço
Entre n’água até o pescoço
E peça a Deus pra ser girafa

Por isso agora já comprei minha canoa
Pra remar nessa lagoa
Cada vez que a chuva cai

E se uma boa me pedir uma carona
Com prazer eu levo a dona
Na canoa do papai


28.10.08

Desamor


Meu grande presente de aniversário, no dia 5, foi a ida do Gabeira para o segundo turno da eleição municipal, com chances reais de vitória. Há tempos não me empolgava com uma eleição, e acompanhei com interesse e espírito de torcida cada resultado divulgado de pesquisa. Por isso, sinto-me arrasada com o resultado das urnas ontem, uma derrota por diferença ínfima, 55 mil votos, ainda por cima sabendo que a abstenção foi de quase um milhão de eleitores. Sei lá se o domingão de sol e calor combinado ao feriado do dia do funcionário público convenientemente antecipado para segunda teve influência decisiva. O que sei é que teremos mais do mesmo, mais da mesma politicagem de sempre camuflada no discurso bocó do bom administrador, síndico etc. A pilantragem toda comemora. Por aqui, só o cansaço, cansaço. E pior de tudo é saber de gente com discernimento que não votou no Gabeira por uma tal fidelidade ideológica ou algo semelhante, não votou por se considerar de esquerda, qualquer coisa assim, como se isso fosse mais importante do que a cidade onde se vive.
Pois não é.
Acabamos de perder uma chance rara de fazer alguma diferença.
Essa declaração de desamor ao Rio de Janeiro, eu confesso que não engulo, não.
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1.8.08

"Papai, não corra na estrada!"

É um horror a campanha de prevenção de acidentes que o governo do estado faz no Rio de Janeiro. Tem um outdoor assim: o maior close do rosto de um menininho lourinho olhando pra cima, com lágrimas escorrendo. Aí o texto:
Eu só queria dizer Eu te amo
Mas você não voltou
Aí do outro lado tem uma foto, muito menor do que a do menino chorando, que não dá pra ver direito o que é. Anteontem eu passei a pé e vi o cartaz, e só então entendi que a foto é de um carro totalmente destruído num acidente. A coisa foi tão sinistra que mal dá pra ver que é um carro. De modos que o motorista que passa não entende que aquilo é uma mensagem pra ele.
Mas pior ainda são outras plaquinhas espalhadas pela rua (na Jardim Botânico tem montes), dizendo que, em tal ano, naquela via, houve X acidentes. Só que. O cartaz é mínimo. Tem texto à beça. Com uma letra bem miúda. Ou seja: o motorista que parar para ler corre o sério risco de bater. Não é genial?

Ah: a frase do título. Foi meu primeiro trabalho. Eu tinha uns 4 anos. E fui gravar um spot de rádio. Era uma campanha desse tipo, e eu dizia essa frase, "Papai, não corra na estrada". Meu primeiro cachê. Minha Moedinha nº 1 do Tio Patinhas.
:-)

6.5.08

Mais zarabatana!

Continuando a campanha "Zarabatana neles!"

Zarabatana nos inúteis disfarçados de agentes de trânsito que ficam soprando um apito alto pra caraleo embaixo do sinal de trânsito, fazendo pi pi pi pi pi e mandando você seguir em frente quando o sinal está verde e fazendo piiiiiii e mandando você parar quando o sinal fica vermelho. Mas se não são uns gênios! E aí quando todo mundo segue o comando e o cruzamento fecha, e ninguém mais anda pra lado nenhum e começam a buzinar loucamente, o imbecil fica olhando com cara de ué...
Zarabatana neles!

10.4.08

A praia enquanto vista


P. e C. vieram aqui em casa outro dia e desataram a contar mil e uma histórias das suas buscas por um apartamento para comprar no Rio de Janeiro. É uma tragicomédia atrás da outra, desde o corretor muito gordo que hesite em entrar no elevador do prédio antiguinho até as grandes pegadinhas dos classificados ("cozinha original" significa cozinha decrépita; "necessita reforma", é melhor nem tentar, "sem vista para comunidade", essa só os cariocas entendem).

Eu por algum motivo estranho e desconhecido, gosto de acompanhar as novidades do mercado imobiliário. É um mercado superaquecido no Rio de Janeiro -- que aliás deve ser a cidade mais cara do Brasil. Sei que é muito mais caro do que São Paulo, e não consigo imaginar que outra cidade poderia valorizar mais um metro quadrado. Uma bolha que daqui a pouco estoura, os preços estão surreais demais.

Enfim, a questão é que sempre vejo os muitos anúncios de lançamentos imobiliários nos jornais. Primeiro, morro de rir com os nomes que nunca são em português (uma rápida folheada e lá estão Riserva Uno, O2 Corporate & Offices, Uplife Barra Bonita, Vitá Araguaia, Weekend Bandeirantes, Ecolife Recreio, Villa Carioca, Peninsulaway Residence, Smartlife Botafogo, Magnifique Botafogo, Les Palais Botafogo e aquele que para mim é o campeão da ausência de noção: London Green (Park & Style) Barra da Tijuca).

Depois dos nomes, o que me chama atenção é que não existe mais anúncio de imóvel com as plantas dos apartamentos. Até outro dia mesmo era assim, mas agora não tem mais nenhum com planta. Todos só querem enfatizar uma coisa: os serviços. E não é aquela coisa da minha época, de play, piscina e salão de festas. O negócio agora é parque aquático com não sei quantas piscinas, bar na piscina, quadras de esporte, cinema privativo, local de ensaio para garage band de adolescentes (!), brinquedoteca, academia de ginástica, parques com paisagismo e não sei o que mais inventam. Um clube, é o que gostam de dizer. Sendo que, claro, tudo com direito a 3 ou 4 vagas.

Sim, desde criança escuto aquele yada yada de que os ricos se prendem em seus condomínios. Mas o que eu percebo agora é que coisas como vista para a praia ou para a Lagoa são para ser consumidas assim mesmo: como vistas, e só. A pessoa que compra um apartamento num super condomínio desses da Barra simplesmente não vai à praia da Barra, mesmo que ela se derrame deslumbrante pela sua janela todo dia pela manhã. Ser próximo da praia significa, no máximo, que você vai ter uma brisa com cheiro de maresia à noite.

Duas gerações atrás, meu avô praticava natação na Lagoa Rodrigo de Freitas e ia à praia em Botafogo ou no Flamengo, nas lindas praias da Baía de Guanabara. Hoje nada disso é mais possível porque são águas podres, simplesmente. E, o que é mais incrível, achamos isso normal e nos despencamos para o Leme, para Copa, Ipanema, Leblon, Barra ou para a Prainha. Próximo está o dia em que essas praias oceânicas também estarão tão imundas que ficarão infreqüentáveis.

Onde será que os filhos de Mathilde vão pegar sol?

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