18.2.10

O poder dos blogs (ou: Terror e pânico - "Eles" estão por toda parte)

Quarta-feira de Cinzas. Marido o dia todo fora trabalhando, e eu passando o dia com Mathilde, sem ter nenhum programa em mente ou agendado. Na verdade o dia começou mal. Cunhada-vizinha chamou para a piscina do seu prédio, e eu ia levando a pequena quando começou uma megapirraça no meio da rua. Acho que é o último grito em termos de manha: sentar no chão, na calçada, e não querer levantar mais. Ficar brincando com folhas caídas e demais lixos espalhados pela rua. E ainda ficar olhando para a cara da sua mãe e ficar rindo, aquele risinho sonso. Ela tem feito isso direto, e eu não estou sabendo muito bem como lidar. “Terrible twos”, adolescência da infância, não importa o nome: esta é a minha vida atualmente. Mas enfim, o fato é que me emputeci e voltamos para casa do meio do caminho: não tem piscina, não tem praia, não tem nada, ouviu? E ela, como sempre, “tá bom”. E sorrindo. Desmoralização.

O resto do dia foi melhor. Ficamos brincando em casa, lendo livrinhos, fazendo teatrinho de fantoches, ouvindo música – CD dos Saltimbancos (aquele velho, do Chico Buarque), nova paixão. Almoçamos e depois fomos ao supermercado. Ela no carrinho, dormiu antes mesmo de chegarmos à esquina. Compras feitas, voltamos pra casa, e ela ferrada no sono, coloquei na cama, liguei o ventilador. Então resolvi fazer uma comida para o jantar. Peguei uma receita de macarrão com abobrinha e fui à luta. Vale dizer que eu nunca cozinho. Não gosto de cozinhar porque não sei, ou não sei cozinhar porque não gosto. Não importa. Não gosto nem sei. Mas às vezes a necessidade se impõe, e temos que rever conceitos. Então fui fazer esse macarrão que, vá lá, não era tão difícil. E além do mais, a abobrinha estava ficando velha na geladeira.

Fiz o macarrão (parafuso) e estava às voltas com o molho, que era muita informação para minha cabeça limitada: alho, cebola e azeite, depois tomates e 1 xícara de caldo de legumes (a esta altura já tinha me arrependido da idéia de cozinhar), depois tomates e a abobrinha, e deixa cozinhar por dez minutos.

Nesses dez minutos, tocou o telefone. O telefone de casa, não o celular. Uma voz de mulher pediu para falar comigo, usando meu nome completo. Mau sinal (= telemarketing alert). No entanto, era uma voz grave e pausada, o que, percebi na hora, destoa do comum das atendentes.

-- Meu nome é M., e eu sou responsável pela agência Bra*des*co da Praia de Botafogo [a.k.a. minha agência, devidamente detonada por mim no post abaixo].
-- Hmmm hmmm.
-- Nós ficamos sabendo da sua insatisfação com o atendimento prestado na agência. Ao que parece, a senhora escreveu a respeito no seu blog.
-- !!!!
-- E eu gostaria, em primeiro lugar, de pedir desculpas em nome do Bra*des*co, e em segundo lugar, pedir que a senhora...
-- Espera aí, M., pára tudo. Como vocês chegaram ao meu nome? Meu blog não é assinado, como puderam saber que era eu?
-- Hmmm, boa pergunta. Não tenho certeza, porque a informação já me foi passada assim, mas parece que a senhora citou a agência, e disse que havia um B.O. da 10ª DP, e como esse B.O. foi entregue na agência, imagino que tenha sido assim.
-- !!!!!!!!!!
-- De qualquer forma, gostaria de saber o que aconteceu, quais os motivos da sua insatisfação, para tentarmos melhorar, caso a senhora nos dê mais uma chance.

Vi que podia conversar com M. Era uma pessoa razoável. Abri meu coração com ela. Lá pelas tantas, não sei como cheguei a esta frase, mas disse a ela que estava “procurando meu lugar dentro do sistema bancário” (acho que foi um momento catártico). Ela pareceu entender. Disse que eu tenho o perfil para ser cliente Pri*me, que é o Bra*des*co dos ricos. Que um gerente especial – que segundo ela eu vou adorar – vai me procurar, e vem até o meu escritório para cuidar da minha transferência para o Pri*me.

(Parênteses para dizer que, graças a esse telefone, o molhou queimou no fogo, grudou no fundo da panela, deu para salvar parcialmente, mas foi uma quase desgraça.)

Eu realmente não sei se vou virar cliente Pri*me, ou Van Gogh, ou Perso*nalitté, ou qualquer outro nome ridículo em outra língua que os bancos inventam para tentar nos convencer de que somos especiais porque ganhamos mais de 2 salários mínimos. Na verdade isso é o de menos aqui para essa história.

O que me deixou atônita foi o fato de eles terem lido o post aqui, publicado na segunda-feira de carnaval às 17h37, e rastreado o meu nome e telefone e me ligado às 16h da quarta-feira de cinzas. Porque, bem, vocês aí que me lêem sabem que este blog é muito legal, bacana e simpático, mas convenhamos que não é nenhum sucesso de popularidade. Quando tenho cem visitas num dia é uma coisa excepcional. Então, como será que funciona? Tem uma pessoa (uma equipe?) que fica buscando referências ao banco na internet? Faz uma busca específica em blogues? (Estou escrevendo dessa forma ridícula, com asteriscos, tipo spam que escreve V1agra e R0lex para passar pelos filtros antispam, para tentar fugir de outras buscas. Mas tenho cá pra mim que é inútil. “Eles” são mais poderosos.) Você está aí, amigo do Bra*des*co? Fazendo follow-up? Deixe um comentário! Caso contrário, vou ficar realmente paranóica, achando que tem alguém atrás do sofá da minha sala ouvindo minhas conversas. Daqui a pouco vou começar a me referir simplesmente a “Eles” e a falar em código (“Eles sabem tudo”, “Eles podem intervir”!).

E o pior de tudo é que só posso compartilhar essa história aqui! Porque como ninguém sabe da existência do blogue (quer dizer, eu acho, pois não tenho mais certeza de nada), nem posso comentar esse caso surreal com as pessoas.

Estou confusa. Não sei se acho o caso todo muito maneiro ou terrivelmente assustador.

15.2.10

Meu primeiro B.O.

Custou, mas aconteceu. Depois de quase ter perdido a carteira algumas vezes (aqui, por exemplo), agora perdi de vez. Na verdade não perdi, fui roubada. Ou mais precisamente: furtada.
Aconteceu na quarta-feira, dia 10. Eu havia perdido uma aposta com meu chefe, e tinha que pagar na forma de almoço. Enrolamos por várias semanas, até que marcamos na quarta. Eu estava com uma bolsa de lona, dessas abertas, de compras, sem qualquer tipo de fecho (um prato cheio para punguistas mãos leves). Mas o curioso foi a agilidade e profissionalismo do/a sujeito/a que me roubou. Porque saímos da editora, andamos 3 quadras e sentamos num café logo na entrada do Botafogo Praia Shopping. Pendurei a bolsa no encosto da cadeira, e eu estava sentada de frente para a entrada do shopping e a passagem das pessoas, ou seja, minha bolsa estava totalmente para dentro do restaurante -- sem contar o fato de que meu acompanhante estava de frente para mim. Então realmente não sei se foi no caminho até lá (no elevador, na rua, quando paramos no sinal) ou já no restaurante, mas de toda forma foi uma manobra bem arriscada do/a punguista. O fato é que, quando fui pegar a bolsa para pagar o almoço (afinal, eu estava convidando), a carteira não estava lá. Voltamos para a editora, vasculhamos a sala inteira, e nada. Será que não deixei em casa?, perguntará o leitor investigador. Não, e explico. Naquela mesma quarta-feira, às 10h05, fiz uma compra pela internet*, e necessariamente peguei a carteira, pois não sei o número do meu cartão de crédito de cor. Então a carteira estava comigo na editora, e depois sumiu.
Então comecei meu périplo pelo Bradesco. Já que minha agência fica ali na Praia de Botafogo mesmo, passei lá antes de qualquer coisa, para cancelar os cartões e sustar o único cheque que havia na carteira. Fui tão mal atendida que fiquei com pena de mim mesma. Tudo o que me disseram foi para ligar para o Fone Fácil. Que ótimo. De lá segui para a 10ª DP, na rua Bambina, onde esperei cerca de uma hora no calor (ar? que ar?), mas fui bem atendida pelo inspetor de plantão (que não, não conhecia as histórias do inspetor Espinosa, da 1ª DP, Praça Mauá**). Saí de lá de posse do meu primeiro B.O. (que aliás mudou de nome: agora é R.O., ou Registro de Ocorrência), e com este documento, no dia seguinte passei novamente no Bradesco (era preciso deixar lá uma cópia), e fui tão mal atendida que deixei de ter pena de mim mesma e decidi encerrar minha conta logo depois do carnaval. Registrei o ocorrido no SPC e no Serasa (meu pior pesadelo é que saiam abrindo crediários em meu nome). Depois tive de ir ao Detran para solicitar a isenção do Duda para emissão da segunda via da carteira de habilitação -- e é nessa hora que dá mais raiva de toda a história. Logicamente, no Detran da Av. Presidente Vargas. Claro, fui na hora do almoço. É evidente que estava fazendo 50 graus. Mas, para minha surpresa, o atendimento foi ótimo, rápido e cortês. As instalações são muito precárias, mas a coisa foi incrivelmente organizada. Consegui minha isenção, mas tenho de passar de novo na Pres. Vargas no dia 23 para tirar foto, e dois dias depois para pegar o novo documento.
Então meu carnaval está sendo, digamos, frugal. Porque graças ao Bradesco, meu cartão para movimentar a conta só chega em dez dias. Úteis. E para sacar com minha carteira de identidade (que felizmente não estava na carteira), eu teria que entrar em outra fila imensa -- foi neste momento que mandei tomarem no cu e resolvi procurar outro banco para aplicar os meus milhões. De modos que. Estou sem dinheiro e sem poder tirar -- bancada pelo maridão, after all. Engraçada, a vida.
E bom Carnaval para você também.

*Depois de ensaiar várias vezes pela Amazon, acabei descobrindo que na Livraria Cultura tinha World Without End (a continuação de Pillars of the Earth, sobre o qual falei aqui) em inglês. Agora vejam: uma edição pocket importada, novinha em folha, de 1000 páginas. Preço: R$ 18,43. Sim, amigos, dezoito reais e umas moedas. Paguei dez pilas pelo frete expresso, e o livro chegou em 24 horas. Custo total: R$ 28,43, entregue na minha mão no dia seguinte, sem sair da frente do computador. Preço da edição brasileira: R$ 75. SETENTA E CINCO REAIS. Também conhecido como "o quádruplo do preço". Mesmo trabalhando no mercado editorial e entendendo alguma coisa sobre composição de preço do livro, tem horas em que eu não entendo nada.

**Minha última aquisição via TrocandoLivros foi O silêncio da chuva, primeiro do Garcia-Roza (nunca tinha lido nada dele). Consegui que marido lesse (fato raro), e ele gostou. Li também, e gostei. Ótimo personagem, esse policial que transita pelo Rio. Dá outra graça de ler. Então usei outro crédito para pedir Perseguido, outra aventura do inspetor Espinosa, que já chegou, mas ainda não li.

8.2.10

Canícula

As praias agora andam sempre assim. Incluam-me fora dessa.
(Praia de Ipanema lotada. 17.02.2007 - Gustavo Stephan - Agencia O Globo)


Nasci e sempre vivi no Rio de Janeiro. Portanto, sei o que é o verão, sei o que é o calor. Mas uma das provas de que este ano está especial no quesito inferno é que, antes deste verão, eu não conhecia a palavra canícula. Que agora faz parte do vocabulário cotidiano de todo carioca.

Tenho tentado me lembrar de um outro verão tão inclemente como este. Ou tão longo como este. Porque, se bem me recordo, estamos nesse ritmo de mais de 35º todo dia desde novembro, com rápidos e breves intervalos em que a média baixa para 30º.

Eu confesso que meu bom humor descresce na mesma proporção em que a temperatura se eleva. O sol fortíssimo, o calor incessante e a umidade do ar me derrubam. Eu tento polianizar, pensando que não posso reclamar, afinal trabalho sentada e no ar condicionado - e igualmente durmo com ar condicionado. Mas olha, até Poliana tem reclamado ultimamente.

30.1.10

Mim gosta ganhar dinheiro

Uma das minhas funções no trabalho é cuidar do pagamento de royalties dos livros vendidos. Uma operação financeira, que deveria, em princípio, ficar a cargo desse departamento. Mas como quase todos os títulos publicados são estrangeiros, a barreira da língua fala alto e por isso cabe a mim solicitar os pagamentos (remessas de dinheiro para o exterior) e depois avisar aos agentes/editores/autores que na data X fizemos um pagamento Y referente aos títulos Z. Muito bem, até aí nada. Quase sempre, quando mando essas mensagens avisando dos pagamentos, a maioria dos seres humanos responde qualquer coisa, agradecendo apenas ou tirando alguma dúvida, fazendo comentários etc. Cortesia simples. Mas esta semana eu recebi uma resposta inédita, de uma editora americana para a qual enviamos um pagamento:
"Thank you so much for your message. We love money! All best, Fulana de Tal".
Eu que achei que já tinha visto de tudo nesse mundo, fui pega de surpresa. Fiquei sem reação. Não consegui responder nada a um comentário deste. A única coisa que pensei foi escrever algo como "Pense no Haiti", o que obviamente não fiz.
E vocês, como responderiam?

28.1.10

Meras formalidades

-- XYZ Cartões, Natalia Glaucia falando, em que posso ajudar?
-- É sobre a anuidade, vi que vocês já cobraram a primeira de 4 parcelas de R$72,50, e está muito caro, não quero pagar as outras.
-- Pois não, senhora. A taxa de manutenção serve para cobrir os serviços oferecidos pela XYZ Cartões.
-- Certo, mas é muito caro e eu nem utilizo esses serviços.
-- Um momento.
Tra la la la
-- Obrigada por aguardar, senhora. Conversei com meus superiores e consegui cancelar a terceira e a quarta parcelas da sua taxa de manutenção.
-- Não. Quero que cancele a segunda também. Essa primeira já paga está mais que suficiente.
-- Um momento.
Tra la la la
-- Obrigada por aguardar, senhora. Então, consegui cancelar também a segunda parcela. A senhora fica portanto isenta da segunda, terceira e quarta parcelas, ficando a cobrar somente esta primeira.

Antigamente eu até me esforçava mais na argumentação. Ano que vem vou tentar me lembrar e me antecipar, para não cair nem a primeira cobrança.

27.1.10

Casamento é uma caixinha de surpresas


Quando você conhece uma pessoa desde 1992, namora com ela desde 1994, mora junto desde 2005 e tem uma filha em comum desde 2008, dá para supor que já sabe tudo sobre essa pessoa, conhece de trás pra frente etc. Certo? Claro que não. Há sempre uma surpresa pairando. Diálogos assim.

-- Napolitano?!
-- Hein?
-- Você comprou sorvete napolitano?
-- Comprei.
-- Não acredito.
-- Por quê?
-- É horrível. Sorvete de festa de criança.
-- ??
-- Podendo comprar qualquer sorvete, você escolheu napolitano?!
-- Mas eu gosto, ué!
-- Como gosta? Napolitano é horrível, fica sempre cavucado o chocolate e ninguém come o morango.
-- Eu gosto do morango.
-- Não é possível!
-- O sorvete é meu, o siso arrancado é meu, eu compro o sorvete que quiser.
-- Humpf. Vou ao mercado comprar um sorvete de gente grande.

25.1.10

Livros 2009

Segunda-feira em casa de molho, convalescendo. Boa oportunidade de escrever aquele post que eu queria. Sobre alguns dos livros que li em 2009.

O filho eterno, Cristovão Tezza
Não podia deixar de ler o livro mais premiado da literatura brasileira nos dois últimos anos. Tinha uma simpatia pelo Tezza porque há anos li Juliano Pavollini, romance a respeito do qual não me lembro nada, exceto que gostei de ter lido. Fui então ao Filho eterno, que é um livro de memórias do Tezza -- um ótimo livro de memórias, aliás -- sobre seu relacionamento com o filho que tem síndrome de Down e hoje tem 20 e tantos anos. (Os angloparlantes têm bem definido esse gênero literário, a que chamam "memoir" e é muito popular, mas aqui não temos isso tão claramente. Não é bem uma autobiografia, pois que menos "sério", rigoroso e abrangente. É só isso mesmo: um livro de memórias.) Mas aí é que a coisa me incomoda: o livro ganhou todos os prêmios na categoria Romance. Mas ora, não é um romance. Não é ficção. (Estou sendo muito estreita nesses critérios? Acho que não, mas talvez sim. Paciência.) Tudo ali diz respeito à vida do autor (descrito como "o escritor"), seus livros têm os títulos reais, e o próprio "filho eterno" é descrito com seu nome real (Felipe). Então enfim, isso me intrigou, o livro ter ganho tudo quanto é prêmio de romance ser sê-lo. Mas fora isso, é um relato de uma franqueza espantosa, diria até comovente, da juventude de um escritor brasileiro, de suas arrogâncias, decepções e esperanças, de sua inabilidade em lidar com o lado menos intelectual da vida, de sua forma esquerda de abordar as emoções e as expectativas alheias. É bem cru, bem honesto, e aposto que tocou fundo na alma dos jurados que lhe concederam tantos prêmios literários. Pena que o último quarto do livro perde em força, quando chega muito próximo do momento presente o assunto meio que acaba, porque claro, todos estão tocando suas vidas -- o autor, o filho eterno e todos os demais. Então a coisa termina assim meio no ar, e é um anticlímax.

Leite derramado, Chico Buarque
Consegui este pelo TrocandoLivros. Estava na minha lista de livros a ler, por causa de Budapeste, de que gostei tanto. Continuo gostando mais de Budapeste, apesar de ter lido Leite derramado sem a menor dificuldade. Não achei um grande livro, mas tem uma forma bem interessante e instigante de contar uma única histórica por meio da memória episódica de um velho de mais de 100 anos. A grande pergunta é: teria lido da mesma forma se não soubesse que o autor é Chico Buarque. Acho que não. E provavelmente teria gostado menos. É totalmente impossível fazer essa desvinculação, e desconfio muito de quem diz conseguir.



Pontal do Pilar, Paulo Cesar Pinheiro
Sou grande fã de PC Pinheiro, responsável por tanta coisa boa na nossa música, e que não tem o reconhecimento que merece. Aliás, é um problema dos nossos letristas em geral. As pessoas choram com as músicas do Milton Nascimento sem saber que os versos são do Fernando Brant. Vibram com o Ivan Lins sem nunca ter ouvido falar do Vitor Martins. Acho que só Aldir Blanc conseguiu um pouco mais de visibilidade, um pouco por ser uma figura tão chamativa, em parte por escrever crônicas em jornal e aparecer o tempo todo quando precisam de personagens vascaínos ou gente para ilustrar a vida tijucana no bairro da Muda. Mas voltemos ao PCP. Que além de letrista é poeta, com não sei quantos livros de poemas publicados e outros tantos na gaveta. Aí ele vem e me lança o primeiro romance, e por essa editora nova portuguesa, a Leya, recém-instalada no Brasil. O livro é uma beleza de produto, de capa dura, papel cuchê e lindas ilustrações. Mas não posso negar que o conteúdo me decepcionou. Pontal do Pilar me pareceu a introdução para um romance, e não um romance acabado. Apresenta uma porção de personagens que moram no tal Pontal, uma rede intricada de relacionamentos diversos, com muitos personagens deliciosos (e é impossível fugir à referência de Jorge Amado para esses ambientes e essas gentes praieiras -- mas sem pastiche), mas quando a gente sente que a ação propriamente dita está pronta para começar, quando finalmente todos os personagens são apresentados, pronto, acaba o livro. Simples assim. Tremendamente frustrante.

Os Pilares da Terra, Ken Follett
O livro que mais me empolgou em 2009. Ficção comercial em sua melhor forma. Nunca tinha lido nada do Follett (nem tinha o menor interesse), até meu chefe me falar tanto desses Pilares, que comecei a procurar no TrocandoLivros (foi lançado em 1989). E para meu deleite supremo, encontrei lá uma edição pocket americana, de modo que pude ler o texto original em inglês. (Porque é aquela coisa, tradução é como salsicha: quanto mais você sabe como é feito, menos você tem vontade de consumir.) São quase mil páginas de um incrível romance histórico, passado na Inglaterra do século XII, girando em torno da construção de uma catedral. (A edição brasileira é em 2 volumes, e comprar os dois custa incríveis R$ 124, de modo que recomendo muito uma visita à Amazon ou à EstanteVirtual). Os personagens são fascinantes, e formam claramente representações dos três estados: o clero, a nobreza, os camponeses. É um novelão, daqueles cheios de traição, intriga, vilões incrivelmente maus (mas não só isso: vários personagens são bem complexos e ambíguos) e ainda por cima uma aula de idade média. Difícil de largar. E depois fui descobrindo outros entusiastas. Aliás, todo mundo que conheço e que já leu é super fã. Tem uma continuação, Mundo sem fim (que se passa no séc XIV), mas ainda não consegui me apossar de um.

A Civil Action, Jonathan Harr
Este livro estava há anos na minha estante, e não sei nem de onde ele apareceu. Um belo dia, sem mais nem por quê, peguei para ler. É um livraço de não-ficção, e conta a história de uma batalha jurídica -- assunto que em geral nem de longe me interessa. Mas aí residem o segredo e o fascínio da arte da escrita. Um livro bem escrito pode ser sobre qualquer coisa, que fica bom. Este é sobre um advogado americano que investe tudo que tem num caso sobre poluição de leitos aquíferos por indústrias químicas, que gerou uma contaminação na água e acabou matando várias crianças que moravam num mesmo bairro. O advogado não faz por idealismo, faz pela grana e pela mídia, e depois vira uma questão de honra vencer os advogados filhos-da-puta das grandes corporações poluentes. Vira uma imensa rede de intrigas, provas e testemunhos que aparecem e somem misteriosamente, laudos técnicos para todos os lados, ofertas de acordo etc. E no final das contas o cara perde a causa. (Perde em termos: consegue um acordo muito menor do que esperado, que não dá para cobrir o que ele havia investido -- ele perde carro, casa, etc.) Parece que tem um filme baseado no livro, que foi bastante premiado nos EUA, dos anos 90, com o John Travolta no papel do advogado, mas eu não vi. Em tempo: este livro nunca saiu no Brasil, mas o autor tem um outro lançado aqui, outra não-ficção que dizem ser muito boa também: O Quadro Perdido.

Presente do mar, Anne Morrow Lindbergh
Livro lindo, incrível, fantástico, extraordinário, que toda mulher deveria ler. É, na verdade, uma espécie de livro de autoajuda, como isso não pega bem, pode-se dizer que é um ensaio sobre a condição feminina (bem grosso modo, isso aí). O livro é de 1955, o que torna tudo ainda mais incrível, pela atualidade das palavras da autora, pela qualidade das suas reflexões sobre o que é ser mulher, mãe, profissional, numa época em que isso ainda não era um tema tão batido. Anne Lindbergh era esposa de Charles Lindbergh, que ficou famoso por ser o primeiro aviador a cruzar o Atlântico (Paris-NY, em 1927). Ela também era aviadora. Eles tiveram 5 filhos, sendo que o primeiro foi sequestrado e morto quando ainda era bebê. O caso gerou uma comoção nacional, porque o Lindbergh era muito famoso, e o assédio era tanto que a família se mudou para a Inglaterra. Enfim, é um ponto de tragédia na vida dela, mas o livro não tem nada a ver com isso. Tem a ver, sim, com a necessidade de ter um tempo só para si, no meio do turbilhão da vida moderna (o que Virginia Woolf chamou muito bem de "A Room of One's Own", título de seu livro lindo (No Brasil, Um teto todo seu)), com o papel da mulher no vértice de uma engrenagem que nunca pode parar de girar, e outras imagens bonitas -- imagens marinhas, de conchas, pois é o Presente do Mar. Recomendadíssimo.

Conquistando o inimigo, John Carlin
Deve ficar bem badalado a partir do mês que vem, quando estreia o filme inspirado no livro, do Clint Eastwood, com Morgan Freeman e Matt Damon como protagonistas. Mais uma não-ficção nota dez. Desta vez, o pretexto é a Copa do Mundo de Rúgbi de 1995, na África do Sul -- primeiro ano de Mandela presidente. Sim, este é o pretexto, porque o verdadeiro assunto é o fantástico talento político de Mandela, sua capacidade de conquistar corações e mentes de todo o mundo. Não vi o filme, mas já estou preparando o lencinho. O livro é muito emocionante.



A louca de Maigret, Simenon
Maigret e o ladrão preguiçoso, Simenon
O amigo de infância de Maigret, Simenon
Já falei aqui tantas vezes do meu amor por George Simenon, mas não me calarei jamais. Considero uma espécie de missão divulgar a obra deste autor, para que suas vendas não decepcionem e a L&PM não deixe de lançar seus livrinhos nas lindas edições pocket que se pode meter na bolsa e ler em qualquer canto. Esses 3 comprei na Bienal, em setembro (já comprei mais 3 depois disso, que ainda não li), e o que mais gostei foi o último que li: A louca de Maigret. É um dos livros mais tardios (escrito na década de 70), o que se faz perceber pela imensa intimidade que o autor já tem com seu personagem. A louca de Maigret é uma velhinha que passa uns dias stalkeando o comissário, e ele nada de atendê-la, porque tem coisas mais importantes a fazer. Quando finalmente ela consegue abordá-lo na rua, diz que está se sentindo ameaçada e tem medo de morrer -- seu único indício é que os objetos em sua casa parecem ser mexidos quando ela sai, e ela mora sozinha. Maigret não dá muita atenção, e no dia seguinte, pimba, a velhinha aparece morta. Não é sem remorso que ele se põe a investigar o caso, mas o mais fascinante é que durante o livro todo não aparece sequer uma pista decente. Nada dá em nada, nenhuma linha de investigação parece ter futuro. Esse é o gênio de Simenon, ficar 100 páginas contando um caso que leva de nada a lugar nenhum. Mas, claro, no final aparece sim, um culpado. Um não, vários, haha.

O símbolo perdido, Dan Brown
Está longe de ser minha predileção, mas em geral procuro ler os mega-sellers, na medida do possível. Ossos do ofício. Ah, bem, que mais se pode dizer? É meio grande, conspirações maçônicas não me interessam muito, mas de fato, lê-se sem esforço. Vejo mérito, sim, nos livros de Dan Brown, não acho que seja ofensivo como tanta gente diz. É um thriller -- como tantos outros. Um thriller competente, mas que não me faz morrer de amores, não. E ainda por cima sempre me vem à mente a imagem do Tom Hanks, o que não ajuda exatamente.



Órfãos do Eldorado, Milton Hatoum
Por mim, parei com o Milton Hatoum por aqui. Não pretendo mais comprar seus livros (na verdade, este também não comprei, foi mais um que recebi via TrocandoLivros -- aliás, que site maravilhoso!). Explico: há alguns anos, li no jornal uma resenha sobre Dois irmãos. Gostei da resenha, fui à livraria e comprei o livro -- que é absolutamente maravilhoso. Desde então fiz tudo para divulgar o livro, ou seja, dei de presente para várias pessoas, emprestei para outras tantas. Foram tantos empréstimos sem volta que certa ocasião fui à Flip, o Milton Hatoum estava lá, e eu pedi para autografar um novo exemplar, para que daquele eu nunca pudesse me desfazer. Então Dois irmãos é um grande livro, um enorme livro. Fui atrás dos outros livros do autor, e na época só havia um: Relato de um certo Oriente. Achei chato, nem terminei a leitura. Tudo bem. Depois saiu outro, Cinzas do Norte. Comprei, li e achei mais ou menos. Nada de mais. Por fim, saiu este Órfãos do Eldorado, que me aborreceu muito. Então 3x1, mesmo que o 1 seja um grande 1, pra mim é um veredicto.

Leaving the world, Douglas Kennedy
Novo romance de DK, um autor que estranhamente nunca foi publicado por aqui. Gostei muito deste, sobre uma professora de inglês que se desconecta do mundo depois de uma tragédia, e tenta inventar uma vida nova, sem relação com a vida antiga. É um tema curioso e atraente para quase todo mundo, na verdade. E o livro tem pegada. Eu me emocionei (lencinho! lencinho!). É uma daquelas ficções comerciais mesmo, sem muitas pretensões literárias (forma, linguagem, estilo etc.).

Sobrevivi

2 dentes a menos, devo até ter perdido alguns gramas, o que não seria má ideia. Há que se reconhecer que o dentista é um craque. Liquidou a fatura em meia hora, e nem senti quase dor. Tá certo que me custou uma grana, mas perto dos relatos que ouvi por aí, valeu cada real. E ainda saímos do consultório debaixo do tremendo dilúvio que caiu na sexta-feira. O ruim mesmo é o day after. Os days afters. Estou no terceiro dia sem comer sólidos, e quase sem falar. Comprei litros de sorvete, que é bom para aliviar, mas só porque posso e devo comer, estou com vontade zero. Sexta e sábado fiquei na base no bloquinho com caneta para me comunicar. Lembrei de um filme ruim desses, com o Brad Pitt ridículo de cabelos super compridos fazendo papel de filho do Anthony Hopkins, patriarca fazendeiro que sofre um derrame, não consegue mais falar, e aí anda com um mini-quadro-negro pendurado no pescoço, onde ele escreve umas palavras com giz. Ok, eu estou um pouco melhor do que isso, mas enfim, lembrei. Mathilde passou o final de semana zanzando por aí, na casa da bisa, depois na casa da vó, e voltou pra casa ontem à noite toda fofa, dizendo Mamãe tá dodói e fazendo carinho. E eu passei o final de semana todo em casa, com saco de gelo encostado nas bochechas, livros, filmes e o sorvete que quase não tomei. Na sexta passei na locadora e aluguei 4 filmes. O atendente disse que teria que atualizar meu cadastro porque eu não alugava nada desde janeiro de 2008. Pois é, eu disse, em janeiro de 2008 nasceu minha filha. Ele não entendeu bem, só disse "Ah!", e não se estendeu no assunto -- nem eu queria. Mas enfim. A parte boa é que como nesses dois últimos anos praticamente não fui ao cinema nem assisti nada em casa, tinha um monte de filme que eu queria ver, e nem estavam mais na parte de Super Lançamentos, nem mesmo Lançamentos. Estavam lá atrás, em Catálogo, que ainda por cima é mais baratinho. E estou lendo muito também, é claro. No fim de semana terminei o segundo volume da trilogia Millenium, do Stieg Larsson. Gostei bem mais do vol. 1 (Os homens que não amavam as mulheres, título péssimo), mas o 2 (A menina que brincava com fogo) não é ruim, só não é tão bom quanto o 1. Engatei no thriller-mode e agora estou lendo A Farsa, que é bom, mas no fundo não gosto tanto desses thrillers sobre ogivas nucleares e terroristas iranianos. Gosto muito mais dos psicopatas e assassinos movidos por motivos vis, sem esses ideais políticos todos.
Então tá. Mais um dia quietinha.
.

22.1.10

Semana do horror odontológico

Segunda fui à dentista fazer limpeza. Quase morro de tanto tártaro (e toda vez é assim; e a doutora ainda diz, Nossa, está muito melhor!).
Hoje vou (tentar) extrair 2 sisos. Orem por mim. A partir das 18h. Espero viver para contar como foi.
(E por favor, poupem-me das piadinhas do tipo siso-a-essa-altura?!, ok? Grata.)

21.1.10

A arte quase perdida da gentil correspondência


Quando recebi, na loja de sucos da esquina, o suco de laranja com acerola, com açúcar, no copo de vidro, depois de ter pedido um suco de laranja com cenoura, sem açúcar, pra viagem, me lembrei de meu chefe. O überchefe (= dono da editora).

Tenho minhas admirações pelo überchefe, e uma delas é que ele domina a arte da correspondência. Fico boba de ver como ele consegue mandar e-mails dando notícias em tese más (desistimos de publicar este livro que tínhamos contratado, ou não vamos mais manter este título em catálogo, ou não vamos publicar este livro que você enviou para nossa análise) e mesmo assim falar de um jeito que as pessoas respondem felizes, misteriosamente. Tem um quê de galanteador, tem um quê de dar a impressão que a pessoa é tão importante que ele fica de fato arrasado de dar uma notícia como aquela. E tudo isso sem embromação: são mensagens curtas, mas com alta concentração de gentileza por linha.

E aí que um dia estávamos conversando sobre isso, mensagens por e-mail, e ele explicou que só escreve parágrafos curtos, de frases curtas, e com um espaço duplo entre os parágrafos. Porque, segundo ele, não dá para contar com a capacidade das pessoas de absorver informações. Coisa que ele aprendeu ainda jovem, quando frequentava o Gordon*.

Na fila do Gordon, ele sempre pedia: um milkshake pequeno de chocolate. Imediatamente o/a atendente virava para cozinha e gritava: Morango! E foi assim, com a repetição sistemática desse fenômeno, que ele conclui que a capacidade média do ser humano era de processar no máximo 2 informações: 1. milkshake; 2. pequeno. A terceira (chocolate) se perdia invariavelmente.

Tenho tentado colocar em prática, em meu dia a dia profissional. E, ora, não é que funciona? Funciona a concisão, sim. Mas acima de tudo, funciona a coisa da gentileza. Sei lá, acho que as pessoas andam tão preocupadas em ser duronas e super profissionais, que quando você manda um pequeno elogio, ou mesmo algo um pouco mais caloroso, "thank you so much for your amazing patience on this matter" (para assuntos encrencados que se arrastam), "we appreciate the opportunity granted" (na hora de dizer que não), ou um simplérrimo "have a lovely weekend" (para as sextas-feiras), tudo isso tem um efeito muito maior do que seria razoável supor.

*As crianças não conhecem, mas o Gordon era uma rede de lanchonetes do Rio de Janeiro, que existiu até meados da década de 80, por aí. Concorria principalmente com o Bob's. Que eu me lembre, tinha lojas Gordon em Copacabana e uma no final do Leblon, onde hoje se encontra um recém-falecido McDonald's. A marca do Gordon era um canguru cor de laranja, e nessa loja do Leblon havia um enorme canguru de brinquedo, daqueles de ficha, em que a criança montava e ele balançava para frente e para trás durante alguns minutos. Minha avó morava quase em frente, e eu amava aquele canguruzão.