Fui fazer depilação hoje no lugar de sempre, e enquanto esperava para ser atendida, uma moça no balcão pagava pelos serviços recebidos a nada módica quantia de 180 reais. Como o máximo que jamais paguei ali foi menos de 80 reais para perna inteira, virilha, axila, buço e sobrancelha, não consegui evitar olhar a moça de alto a baixo para tentar adivinhar o que tanto ela tinha depilado. (Continuei sem saber.)
7.7.12
4.7.12
O melhor do verão carioca
O melhor do verão carioca acontece em junho-julho, quando o calendário insiste em afirmar categoricamente que é inverno.
O melhor do verão carioca é esse céu absurdamente azul, essa temperatura que chega fácil aos 32º por volta do meio-dia, mas que cai no fim da tarde e te permite dormir de cobertor.
O melhor do verão carioca é o mar cristalino e calmo como uma piscina, é aquele primeiro mergulho ao chegar à praia, quando tudo é silêncio embaixo da água, e quando se emerge o primeiro som é o das ondas quebrando na areia.
O melhor do verão carioca é ficar deitada na canga olhando para o céu incomensuravelmente azul, não aquele azul esturricado de janeiro, que de tanto sol chega a desbotar, mas esse azul mais consistente, mais denso, azul-dia-de-sol-de-inverno, olhar para cima e ter seu campo de visão totalmente tomado por esse azul, até ser invadido por umas gaivotas que planam, calmas, sábias, porque sabem que bater as asas é supervalorizado, o que conta mesmo é planar aproveitando o vento, e quando as gaivotas chegam, planam, e vão, você acha que está vivendo dentro de um filme francês nouvelle vague.
O melhor do verão carioca é ficar sozinha na sua canga para praia do Leme, lendo a edição pocket da maravilhosa biografia de Clarice Lispector (que inclusive morou no Leme), mas de vez em quando parar para ouvir as conversas das outras pessoas, pessoas que, vejam, vão à praia numa quarta-feira!, e lamentar, de coração, que Nelson Rodrigues não tenha vivido para escrever sobre os relacionamentos na era da internet.
O melhor do verão carioca é tirar férias na primeira semana de julho.
Ideias fixas:
querido diário,
rio de janeiro
23.6.12
Quando a realidade supera a ficção
E no jantar hoje com os velhos amigos, lembrou-se de uma história vivida há uns seis anos pelo meu marido, história daquelas que todo mundo se recorda e passa adiante, mas dos detalhes ninguém lembrava, até que chegamos em casa e vi que, em prol da posteridade, tínhamos, alvíssaras, o registro escrito.
Fica então, para os leitores do blog, "O Caso Unibanco".
Fica então, para os leitores do blog, "O Caso Unibanco".
O motivo para ir ao banco já era
péssimo: um cheque do condomínio havia voltado. Sim, porque sou síndico do
prédio. E como o prédio é pequeno (só seis apartamentos), não há nem o
benefício da isenção do pagamento do condomínio. Em suma, uma desgraça. E aquele
era o primeiro cheque eu passara como síndico. Ou seja, grandes, enormes
chances de os incompetentes do banco não terem trocado o cartão de assinatura,
do síndico antigo para o novo. Por isso tudo, já cheguei na agência pronto para
soltar os cachorros.
Mas mal passei a porta giratória,
deparei com uma situação que em muito superava o maior escândalo que eu podia
cogitar fazer em uma agência bancária. Uma senhora aos berros desacatava o
gerente de uma forma inédita:
—Você é um engomadinho! Fica aí atrás dessa mesa, com seu
terno e gravata, mas não passa de um engomadinho!
Tive que sentar para assistir ao
espetáculo.
Aos poucos fui me inteirando. A
tal senhora era dona de uma padaria ali perto, e havia ido à agência sacar um
dinheiro. Mil e duzentos reais. Munida do cartão e da senha, foi ao caixa
eletrônico. Mas o caixa eletrônico só permite saques até seiscentos reais. Mais
do que isso, é preciso ir à boca do caixa. E foi o que ela fez. Mas quando
chegou lá, a pessoa do caixa disse que ela não poderia sacar, porque o cartão
não estava no nome dela. E mandou para o gerente. Que por sua vez disse que não
havia nada a fazer. Só o titular da conta pode efetuar os saques na boca do
caixa.
— Mas minha senhora, veja, o titular da conta é o senhor
Carlos Alberto, que...
— O Carlos Alberto não manda nada! Quem manda sou eu! O
dinheiro é meu! E eu quero sacar!
— Mas o titular precisa vir à agência, eu não posso fazer
nada...
— Você é um engomadinho! Eu vou chamar o meu filho. E olha, o
meu filho não é calmo assim como eu, não!
Nisso ela encontrou uma platéia, e passou a se dirigir aos
espectadores:
— Eu quero tirar o meu dinheiro, e esse engomadinho não deixa.
Esses bancos são todos uns ladrões.
E voltando as baterias para ele:
— Eu quero fechar a minha conta!
Aproveitei a brecha para, meio sem graça, falar com o gerente,
o engomadinho. Que me fez uma cara meio que buscando solidariedade e disse:
— Olha, eu não vou poder te atender agora, como você está
vendo. Mas quem vai resolver o teu caso é o Luís, aquele ali. Vai lá e fala com
ele.
Então deixei meu lugar na platéia da dona da padaria e fui
falar com o Luís. Que por sua vez estava atendendo uma senhora de idade, de
aparência humilde, e ao mesmo tempo falava ao telefone e digitava coisas no
computador. Fiquei em pé, ao lado, esperando.
Passaram-se, sem exagero, dez minutos. Do mais absoluto
silêncio. Durante todo esse tempo, permaneci em pé, e, inacreditavelmente, o
Luís não proferiu uma só palavra – nem com a senhora que estava sentada na
frente dele, nem com sei lá quem que estava do outro lado da linha telefônica.
A única coisa que ele fazia era digitar furiosamente o teclado do computador. A
senhora também não disse nada. Tive que quebrar aquele clima:
— Luís?
Ele tira os olhos do monitor e me olha. Incrivelmente, parece
me reconhecer. Mesmo assim, afasta um pouco o bocal do telefone (não que eu
achasse que houvesse alguém do outro lado, mas enfim) e me diz:
— Vai demorar.
Aí não deu mais.
— Não, você vai ter que me atender agora. Escuta, o cheque que
eu passei voltou.
— Ah, eu sei. Fui eu mesmo que mandei devolver.
— Mas por quê??
— A assinatura estava diferente.
— Como assim? Fui eu que assinei!
— Ah, é? Tudo bem. Vou liberar, é só pedir para que a pessoa
reapresente o cheque.
Não sabia ele que, àquela altura, os operários da obra estavam
no prédio, parados, aguardando o material de construção – que não chegou porque
o cheque voltou!
— Não vai dar, Luís. Eu preciso que esse dinheiro entre já
na conta da loja, porque está atrasando a minha obra.
— Faz um DOC.
— Mas entra imediatamente na conta da outra pessoa?
— Bom, pode demorar até o fim do dia...
— Então não pode ser. Vou fazer pelo método lusitano. Saco o
dinheiro aqui e deposito no Bradesco. E depois peço para me devolverem o
cheque.
— Tá legal, pode ser. É só ir no caixa.
Olhei para a fila, apenas três pessoas. Beleza.
Enquanto me encaminhava para a fila, ainda ouvi o
prosseguimento do ataque de fúria da dona da padaria.
— Porque nós temos um parente que é juiz federal! Então
ninguém da minha família fica mais de um dia preso, seja lá por que motivo for!
Você está entendendo?
Dois caixas para atendimento ao público. Uma mocinha atendia
os clientes especiais. O outro, um rapazinho, atendia o resto dos mortais. A
fila andou razoavelmente rápido até o cara que estava na minha frente, que foi
atendido pelo rapazinho. Obviamente, o caso dele não era simples. Tinha que
descontar um cheque. Mas antes o caixa precisava ligar para a pessoa, para
confirmar que o cheque estava sendo descontado (!!).
— O nome dela é Isabela, você pode ligar para a escola em que
ela trabalha. Pede pra falar com a Isabela, professora de inglês. Tá aqui o
telefone.
Para minha surpresa, o caixa respondeu:
— Ok, vou ligar.
E foi!
Enquanto isso, a outra caixa, dos clientes especiais, com uma
pilha monumental de contas a pagar.
Daqui a pouco volta o rapazinho:
— Olha, eu liguei pra lá, mas não tinha nenhuma Isabela
professora de inglês. Disseram que tinha uma Isabela lá, mas professora de
educação física.
— Não é possível. Eu tenho certeza que ela está lá, e é
professora de inglês... Ah, já sei! É que tem outra Isabela que trabalha lá, e
é professora de educação física. Faz o seguinte: liga de novo e fala que é a
Isabela professora de inglês, que ela está lá, tenho certeza.
E o cara foi!!!
Neste ponto começam os rumores na fila, atrás de mim.
— É brincadeira, hein.
— Só um atendente para a fila, e ainda vai telefonar.
— Esses bancos são todos uns f-d-p...
Nisso vagou a caixa dos clientes especiais, e me chamou.
Graças.
— Quero sacar mil e setecentos reais. Aqui o cartão.
— Ok. Por favor assine aqui.
Daqui a pouco volta ela:
— Olha, a assinatura não está batendo.
Nesse momento tive certeza de que os idiotas não haviam
trocado os cartões de assinatura quando houve a mudança de síndico.
— Ah, não, de jeito nenhum. Pode falar aí com o Luís...
E o Luís já acenou para a moça, dizendo que estava tudo certo.
E ela se rendeu e começou a contar o dinheiro.
Enquanto isso finalmente o outro caixa conseguiu falar com a
Isabela-professora-de-inglês, que felizmente autorizou o saque do cheque. E o
cara foi embora, e finalmente a fila ia andar e o cara que estava atrás de mim,
já resmungando há tempos, seria atendido.
Não fosse pela senhora que se precipitou na frente dele,
furando a fila, com uma pilha de contas de meio metro de altura.
Diante do olhar estupefato do cara da fila, ela não se dignou
nem a olhar na cara dele. Simplesmente parou no caixa com suas mil contas,
virou meio de lado e murmurou, entredentes:
— Sessentaecinco anos, sessentaecinco anos.
— Ah, não, a senhora não vai entrar na minha frente, não, com
esse monte de contas.
— Meu filho, não cria caso. Sessentaecinco anos.
Mas ele resolveu criar caso.
— De jeito nenhum. A senhora tem direito de entrar na frente
para pagar as suas contas. E eu duvido que essas contas
todas aí sejam no seu nome. Quero ver, me mostra essas contas!
Muito surpresa, ela puxou uma conta e mostrou.
— E as outras, quero ver as outras contas! Não é possível que
todas essas contas sejam suas.
Ela se enfezou.
— Eu não tenho que mostrar nada! Isso é o meu direito! Eu
tenho sessentaecinco anos!
A esta altura, claro, uma outra platéia já se havia formado
para assistir a mais esse espetacular embate. O mais atônito era o rapazinho do
caixa, que não tinha a menor idéia de como proceder.
— Seu direito é pra pagar as suas contas. Não a de todos os
seus parentes e vizinhos!
— Você não tem nada com isso, não se meta.
— Olha aqui, minha senhora, eu não gosto de fazer isso, não
costumo fazer, mas a senhora está pedindo. Olha aqui. Eu... eu... eu sou
deficiente físico!!!
E puxou a perna da calça, revelando uma perna mecânica, para
delírio dos espectadores, que boaquiabertos só puderam dizer:
— Oh!
Dona Sessentaecinco anos baqueou. Por essa ela não esperava,
realmente. Mas mesmo assim não se deu por vencida:
— E essas contas?! Deixa eu ver se essas contas são todas
suas!
— Mas eu estou na fila normal!
Peguei meu dinheiro e saí correndo. Mas ainda deu tempo de
ouvir o revide do engomadinho:
— Olha aqui, a senhora está me ofendendo! Está me chamando de engomadinho,
me insultando, e eu estou aqui apenas fazendo o meu trabalho...
Saí de lá achando que encarar uma obra no condomínio como
síndico era a melhor coisa do mundo.
Ideias fixas:
crônica
14.6.12
Momento ternurinha do dia
Mathilde (4 anos e 5 meses) ensinando Oliver (1 ano e 7 meses) a jogar Angry Birds no celular.
Com a maior paciência.
E a mãe pensa: onde é que vamos parar?!
Ideias fixas:
pooootaquiuspariu,
vida de mãe
11.6.12
Mulheres, uni-vos e cortai-vos os cabelos!
Tenho cabelos cacheados, e passei a maior parte da vida querendo que eles fossem longos e lindos. Demorei quase 30 anos para finalmente admitir que meus cabelos jamais ficariam assim:
Então em 2006, pouco antes de me tornar Mulher de Trinta, acabei com aquela miséria e mandei cortar, bem curto. Foi uma sábia decisão, da qual jamais me arrependi. Acabou aquele problema de acordar com o famoso bad hair day, acabou a busca pelos produtos ideais, acabou o martírio da queda incontrolável dos cabelos. Enfim, acabou um monte de sofrimentos. A única coisa que criou foi a necessidade de cortar regularmente, à qual eu não estava habituada. Passaram-se os anos, eu feliz com meus cabelos curtos, mas nos últimos meses acabei negligenciando a coisa e ele foi crescendo, crescendo, até que - horror, horror! - já dava para prender num minúsculo e ridículo rabitcho de cavalo.
Mas a média de satisfação capilar estava sendo de 5 dias péssimos, 1 médio e 1 bom, o que, convenhamos, não é lá essas coisas. Então aproveitei o feriado prolongado e na sexta-feira mandei cortar novamente. Ó alívio, ó satisfação, ó júbilo! A proposta é mais ou menos essa:
E, como aconteceu lá em 2006, depois que cortei fiquei reparando nas mulheres na rua: é impressionante como poucas brasileiras usam os cabelos curtos. É fácil de observar a diferença quando viajamos para o exterior, principalmente para a Europa. Lá, é quase tão raro encontrar uma mulher de cabelos compridos quanto um homem de longas melenas. Mas aqui não, a proporção de cabelões é enorme, e o pior de tudo é que, no dia-a-dia, 90% desses cabelões que vemos na rua não estão na sua melhor forma.
Ou seja: a mulherada sua para manter seus cabelos compridos, mas na verdade eles só ficam no auge da sua forma capilar muito raramente, em ocasiões especiais e à custa de muito tempo e dinheiro investido nos salões. O que mais se vê é aquele cabelo mal-ajambrado, preso de qualquer jeito com uma famigerada xuxinha ou um tenebrosa piranha, ou ainda uma caneta Bic emergencial para segurar mal e porcamente um arremedo de coque que se desfaz cinco minutos depois.
Porque a dura e triste realidade, amiga leitora, é que seu cabelo nunca vai ser assim:
As mulheres esclarecidas já percebemos, há algum tempo, que os ideais de beleza e magreza da indústria da moda são inatingíveis - e mesmo discutíveis quanto ao seu teor de beleza, porque, deus meu, veja se isso é algum modelo de coisa remotamente bela:
Mas enfim, já percebemos que não queremos pesar 40kg e ter olhar de peixe morto, e no entanto parece que acreditamos piamente nas possibilidades da indústria dos produtos de cabelo. E não, amiga, esse resultado NÃO é possível para a imensa maioria de nós.
Só que sempre existe aquela vizinha/colega de trabalho/prima/recepcionista que tem o cabelo perfeito, que fica lindo de qualquer jeito. Sim, essas criaturas existem, bem como aquelas excomungadas que comem e não engordam. Elas nos levam a crer que "Yes, we can". Mas a indústria das dietas e dos produtos de cabelo estão aí, gigantescas, para provar que essas tipas são a imensa minoria. No frigir dos ovos, "No, we can't".
Parando para pensar, poucos são os assuntos aos quais as mulheres dedicam tanto tempo, energia, atenção e dinheiro quanto cabelos. Somos capazes de gastar fortunas, ir ao salão uma vez por mês e passar muuuitos minutos diários nos dedicando a eles. E tudo para quê, minha gente? Para esse resultado meia-bomba que está aí nas ruas para quem quiser ver.
Entendo que numa ocasião super especial valha a pena ir ao salão e ficar, por algumas horas, com aquele cabelo deslumbrante, mas pensa bem: a relação custo benefício vale?
É por isso que eu digo, grito até, aos quatro ventos, tal qual rainha de copas: cortem! cortem-lhe os cabelos! Não fique com o fio reto sem graça a vida inteira. Ouse, seja radical, aproveite as múltiplas possibilidades dos curtos, descubra-se. Corte os cabelos!
Então em 2006, pouco antes de me tornar Mulher de Trinta, acabei com aquela miséria e mandei cortar, bem curto. Foi uma sábia decisão, da qual jamais me arrependi. Acabou aquele problema de acordar com o famoso bad hair day, acabou a busca pelos produtos ideais, acabou o martírio da queda incontrolável dos cabelos. Enfim, acabou um monte de sofrimentos. A única coisa que criou foi a necessidade de cortar regularmente, à qual eu não estava habituada. Passaram-se os anos, eu feliz com meus cabelos curtos, mas nos últimos meses acabei negligenciando a coisa e ele foi crescendo, crescendo, até que - horror, horror! - já dava para prender num minúsculo e ridículo rabitcho de cavalo.
Mas a média de satisfação capilar estava sendo de 5 dias péssimos, 1 médio e 1 bom, o que, convenhamos, não é lá essas coisas. Então aproveitei o feriado prolongado e na sexta-feira mandei cortar novamente. Ó alívio, ó satisfação, ó júbilo! A proposta é mais ou menos essa:
E, como aconteceu lá em 2006, depois que cortei fiquei reparando nas mulheres na rua: é impressionante como poucas brasileiras usam os cabelos curtos. É fácil de observar a diferença quando viajamos para o exterior, principalmente para a Europa. Lá, é quase tão raro encontrar uma mulher de cabelos compridos quanto um homem de longas melenas. Mas aqui não, a proporção de cabelões é enorme, e o pior de tudo é que, no dia-a-dia, 90% desses cabelões que vemos na rua não estão na sua melhor forma.
Ou seja: a mulherada sua para manter seus cabelos compridos, mas na verdade eles só ficam no auge da sua forma capilar muito raramente, em ocasiões especiais e à custa de muito tempo e dinheiro investido nos salões. O que mais se vê é aquele cabelo mal-ajambrado, preso de qualquer jeito com uma famigerada xuxinha ou um tenebrosa piranha, ou ainda uma caneta Bic emergencial para segurar mal e porcamente um arremedo de coque que se desfaz cinco minutos depois.
Porque a dura e triste realidade, amiga leitora, é que seu cabelo nunca vai ser assim:
As mulheres esclarecidas já percebemos, há algum tempo, que os ideais de beleza e magreza da indústria da moda são inatingíveis - e mesmo discutíveis quanto ao seu teor de beleza, porque, deus meu, veja se isso é algum modelo de coisa remotamente bela:
Mas enfim, já percebemos que não queremos pesar 40kg e ter olhar de peixe morto, e no entanto parece que acreditamos piamente nas possibilidades da indústria dos produtos de cabelo. E não, amiga, esse resultado NÃO é possível para a imensa maioria de nós.
Só que sempre existe aquela vizinha/colega de trabalho/prima/recepcionista que tem o cabelo perfeito, que fica lindo de qualquer jeito. Sim, essas criaturas existem, bem como aquelas excomungadas que comem e não engordam. Elas nos levam a crer que "Yes, we can". Mas a indústria das dietas e dos produtos de cabelo estão aí, gigantescas, para provar que essas tipas são a imensa minoria. No frigir dos ovos, "No, we can't".
Parando para pensar, poucos são os assuntos aos quais as mulheres dedicam tanto tempo, energia, atenção e dinheiro quanto cabelos. Somos capazes de gastar fortunas, ir ao salão uma vez por mês e passar muuuitos minutos diários nos dedicando a eles. E tudo para quê, minha gente? Para esse resultado meia-bomba que está aí nas ruas para quem quiser ver.
Entendo que numa ocasião super especial valha a pena ir ao salão e ficar, por algumas horas, com aquele cabelo deslumbrante, mas pensa bem: a relação custo benefício vale?
É por isso que eu digo, grito até, aos quatro ventos, tal qual rainha de copas: cortem! cortem-lhe os cabelos! Não fique com o fio reto sem graça a vida inteira. Ouse, seja radical, aproveite as múltiplas possibilidades dos curtos, descubra-se. Corte os cabelos!
Ideias fixas:
querido diário,
sobre nada e sobre tudo
31.5.12
Dia das Mães 2 x 1 anna v.
Quem acompanha o blog há mais tempo sabe do meu desconforto e falta de saco para a festa do dia das mães da creche dos meus filhos. Em 2010 sofri e jurei que nunca mais. Acabei capitulando em 2011, quando me dei mal novamente. Aí este ano, lá pelo final de abril chegou a temida circular falando sobre a festa das mães. E ali dizia que este ano a festa seria temática, e o tema era "Anos 60" (alou? nenhuma mãe de criança de creche viveu os anos 60). Com isso, as crianças estariam vestidas com figurinos de anos 60 (para as meninas, saia rodada, laço de fita, óculos escuros), e os pais podiam também se vestir de acordo.
Ahmn... Não, obrigada.
Resolvi que não ia participar este ano, e comuniquei via agenda, o que provocou comoção na creche, com a dona me ligando para perguntar "Mas por quêeeeee???", me obrigando a mentir, olha que horror, dizendo que era uma viagem há muito tempo combinada, etc. Mas não falei nada com Mathilde, e pedi que, na creche, ela continuasse participando dos ensaios para a coreografia da sua turminha.
Minha rebeldia com o status quo acabou se tornando mais difícil do que eu previa. Conforme o dia foi se aproximando e Mathilde me contava sobre os ensaios, passei a me questionar sobre a decisão. Afinal, não estaria eu pensando apenas em mim, e não nela? Não faltaram pensamentos a respeito de traumas futuros, pensamentos estes que tento contemporizar, afinal de contas a mãe ou pai que pretender criar seus filhos sem um trauma sequer está fadada ao mais completo fracasso e à frustração eterna.
Quando entendi que ela estava sim animada com a perspectiva da festa, mas não incrivelmente excitada e expectante, tive a ideia de compensar a falta do evento em grande estilo: fizemos uma viagem, só nós duas. E uma super viagem, diga-se de passagem, apesar de apenas um fim de semana.
Pesquisei na internet sobre hotéis para se ir com crianças, e escolhi o Parador Maritacas, que fica entre Mendes e Vassouras, no sul fluminense. Partimos no sábado bem cedinho, chegamos em pouco mais de duas horas (porque sou uma anta na estrada, vou devagaríssimo com medo de errar -- na volta deu 1h45 de viagem), demos a maior sorte com o tempo bom e tivemos um fim de semana espetacular. Principalmente, quality time, como dizem. Mathilde é ótima companhia, o lugar é super lindo, lá tinha uma porção de crianças, recreação super completa com uma equipe de monitores bem legais (quem quiser pode largar as crianças de manhã com eles e pegar a carcaça exausta à noite, tem mil programações).
Para completar, levei a música que ela cantaria na festa da escola em MP3 no celular, e coloquei lá para ela fazer a coreografia, dançamos juntas uma porção de vezes dentro do nosso quarto.
No mais, desejo um feliz todo-e-qualquer-dia a todas as mães, porque a gente sabe que não depende de data.
Ahmn... Não, obrigada.
Resolvi que não ia participar este ano, e comuniquei via agenda, o que provocou comoção na creche, com a dona me ligando para perguntar "Mas por quêeeeee???", me obrigando a mentir, olha que horror, dizendo que era uma viagem há muito tempo combinada, etc. Mas não falei nada com Mathilde, e pedi que, na creche, ela continuasse participando dos ensaios para a coreografia da sua turminha.
Minha rebeldia com o status quo acabou se tornando mais difícil do que eu previa. Conforme o dia foi se aproximando e Mathilde me contava sobre os ensaios, passei a me questionar sobre a decisão. Afinal, não estaria eu pensando apenas em mim, e não nela? Não faltaram pensamentos a respeito de traumas futuros, pensamentos estes que tento contemporizar, afinal de contas a mãe ou pai que pretender criar seus filhos sem um trauma sequer está fadada ao mais completo fracasso e à frustração eterna.
Quando entendi que ela estava sim animada com a perspectiva da festa, mas não incrivelmente excitada e expectante, tive a ideia de compensar a falta do evento em grande estilo: fizemos uma viagem, só nós duas. E uma super viagem, diga-se de passagem, apesar de apenas um fim de semana.
Pesquisei na internet sobre hotéis para se ir com crianças, e escolhi o Parador Maritacas, que fica entre Mendes e Vassouras, no sul fluminense. Partimos no sábado bem cedinho, chegamos em pouco mais de duas horas (porque sou uma anta na estrada, vou devagaríssimo com medo de errar -- na volta deu 1h45 de viagem), demos a maior sorte com o tempo bom e tivemos um fim de semana espetacular. Principalmente, quality time, como dizem. Mathilde é ótima companhia, o lugar é super lindo, lá tinha uma porção de crianças, recreação super completa com uma equipe de monitores bem legais (quem quiser pode largar as crianças de manhã com eles e pegar a carcaça exausta à noite, tem mil programações).
Para completar, levei a música que ela cantaria na festa da escola em MP3 no celular, e coloquei lá para ela fazer a coreografia, dançamos juntas uma porção de vezes dentro do nosso quarto.
No mais, desejo um feliz todo-e-qualquer-dia a todas as mães, porque a gente sabe que não depende de data.
Ideias fixas:
vida de mãe
26.5.12
O site de música mais legal dos últimos tempos
E o Terapia Zero sai de sua longa hibernação para falar de música!
Há dois personagens da história mais ou menos recente da música brasileira que sempre me fascinaram: Ernesto Nazareth e Guiomar Novaes. A razão do meu fascínio é que, em tudo que se lê e pesquisa sobre suas respectivas épocas, eles são citados constantemente, como referências absolutas. Nazareth, no início do século passado, tanto como compositor quanto como intérprete inigualável e formatador do tango brasileiro, e por extensão da polca, do choro e muito mais. Guiomar para o ambiente da música clássica da primeira metade do século XX, adorada por dez em cada dez pianistas clássicos. Há até mesmo a famosa citação de Claude Debussy sobre Guiomar ao vê-la participando de um concurso de piano em Paris -- quando ela tinha treze anos, dizendo que ela tinha a rara qualidade dos artistas, "os olhos ébrios de música", e que tinha sido a única coisa interessante que ele viu naquele concurso de jovens talentos.
E apesar das muitas gravações disponíveis de Guiomar Novaes, que permitem que se conheça sua personalidade artística, sempre senti falta de conhecer mais sobre a mulher por trás do mito. Afinal, quem era essa moça, filha da burguesia do interior paulista, 17ª de 19 irmãos (!!!) nascidos em São João da Boavista? Então quando soube do lançamento do livro Guiomar Novaes do Brasil: A Trajetória da Pianista em Nova York, de Luciana Medeiros e João Luiz Sampaio, corri para ter um exemplar (porque é um desses projetos patrocinados, lançado por uma pequena editora - Kapa Editorial -, o tipo do livro que some pouco após o lançamento e depois você só em encontra em sebos por preços proibitivos. Mas por enquanto ainda se acha, e custa R$80).
Confesso que fiquei decepcionada com o livro. Para começar, é um livro de luxo, formato grande, capa dura, edição bilíngue, todo em papel cuchê, repleto de fotos, e inclui 2 CDs de Guiomar tocando com a New York Philharmonic, regida pelo Bernstein (que estou ouvindo enquanto escrevo). Naturalmente essa opção pela edição luxuosa, "coffee table", não é, em si, um problema. O que me incomoda é que toda essa beleza externa na minha opinião serve para mascarar as deficiências do livro. O texto é fraco (na verdade nem cheguei a ler até o fim, pois perdi o interesse) e não revela quase nada sobre quem foi essa mulher. É quase uma compilação de fatos que a levaram aos EUA em 1915, depois de uma primeira temporada na Europa - a segunda foi abortada por causa da Primeira Guerra Mundial. Muita descrição e pouca análise. Mesmo dando o desconto necessário para o fato de o livro se concentrar na trajetória dela em Nova York, como diz o título, achei um desperdício. Ainda falta uma verdadeira biografia de Guiomar Novaes. Ou talvez exista e eu é que não conheço. Se alguém souber, por favor me fale.
Mas tudo isso sobre a Guiomar foi só uma digressão. Eu queria mesmo era falar sobre o Nazareth, e finalmente explicar o título deste post. É que estou fascinada pelo site www.ernestonazareth150anos.com.br, feito para comemorar o sesquicentenário do compositor, que será em 2013 (no site tem uma contagem regressiva: hoje faltam 298 dias). Não é segredo que tenho uma tendência forte à acumulação, organização e compilação de coisas. Todos os testes de autoconhecimento que já fiz ressaltam esse meu apreço pelo arquivo, pelos projetos grandiosos para organizar dados, etc. E de fato, cada vez que me aparece um desafio desses pela frente, fico entusiasmada. Então me encantou esse site, que é certamente obra de gente que não bate bem (no bom sentido).
Porque não seria nada de mais dizer que no site tem uma lista com todas as composições do Nazareth (mais de 200). Mas a coisa começa a ficar mais interessante quando se descobre que tem também todas as partituras disponíveis para download. E vira realmente espetacular quando se revela o fato que essas partituras têm duas versões: original para piano e adaptada para regional. Para quem não se tocou do que isso significa: dessa forma, qualquer grupo instrumental pode tocar as músicas, e não apenas os pianistas (Nazareth só escreveu para piano). Esse detalhe, sozinho, significa muito em termos da possibilidade de disseminação e popularização das composições.
Mas o motivo que me fez escrever que este é o site de música mais legal dos últimos tempos é o link "Discografia". Ali você consegue ouvir, em streaming, todas as gravações feitas de todas as obras. Em todos os tempos. São mais de 2 mil gravações, brasileiras e estrangeiras, antigas e modernas, em tudo quanto é transcrição, adaptação e instrumentação diferente. É por isso que acho que isso é coisa de gente com um parafuso a menos.
Independente da sanidade mental, eu tenho me deliciado descobrindo quantas músicas boas ele escreveu e especialmente comparando as interpretações de artistas diferentes para a mesma música. É uma aula e uma demonstração cabal das múltiplas interpretações de um mesmo texto musical. Ok, tá certo que no YouTube isso existe de montão: pequenas colagens de vários intérpretes tocando a mesma obra ou trecho. Mas nunca tinha visto nada dessa escala, com tantas opções para você navegar como quiser.
E caramba, quanta música boa tem o Nazareth! Eu que estudei piano durante tantos anos tinha 2 álbuns de partituras dele, cada um com umas 30 peças, por aí. Não é nem um terço da produção. A maioria das pessoas só o conhece como autor de Odeon, Apanhei-te Cavaquinho e Brejeiro, e quem sabe um pouco mais de história da música lembra do fato de ele ter morrido louco, afogado tentando fugir na Colônia Juliano Moreira, um sanatório. Na verdade, Nazareth tinha sífilis (como Nietzsche, com quem também compartilhava o bigode, e de quem todo mundo também se lembra disso: morreu louco, conversava com cavalo etc.). É impressionante como essas "excentricidades" acabam sendo preponderantes no imaginário popular em detrimento da obra. No fim das contas, é isso que se grava, esse exótico "morreu louco".
É impossível medir a importância do Nazareth para a música popular brasileira. Sabe-se que ele era um cara popular em seu meio e sua época, que as pessoas vinham de todas as partes só para vê-lo tocar na sala de espera do cinema Odeon (e de outros onde ele tocou), inclusive Villa-Lobos, Radamés Gnattali e até o Rubinstein, na época uma grande estrela do pianismo internacional. Sabe-se que ele, como qualquer pianista, foi muito influenciado pelo repertório clássico (e ouvir suas valsas com atenção é entender como uma escola clássica e uma alma popular se encontram tão harmonicamente), e há grandes e intensas discussões musicológicas e psicológicas sobre o quanto ele seria "traumatizado" por não ser um pianista e compositor clássico. Há um famoso episódio em que Nazareth vai ao Theatro Municipal assistir a um concerto de, adivinhem!, Guiomar Novaes, e sai de lá aos prantos, em meio a um surto, se lamentando por não ter ido estudar na Europa e não tocar como ela.
Com tudo isso, com um personagem dessa magnitude e riqueza, não há, que eu saiba, uma biografia de Ernesto Nazareth. Existe um livro chamado O Enigma do Homem Célebre: Ambição e Vocação de Ernesto Nazareth, de Cacá Machado, que eu já li e achei chatérrimo, que não se presta a ser uma biografia real. Neste livro, o autor compra a versão de que Nazareth é a inspiração para o conto "Um homem célebre", de Machado de Assis (leiam, é uma delícia), cujo protagonista é Pestana, um compositor de polcas ultra populares que no fundo é atormentado por não conseguir compor peças clássicas. Além disso, o livro do Cacá Machado é muito técnico, tem análises musicológicas profundas que me derrotaram.
E então eu já entro em um novo tópico, que é a carência de biógrafos profissionais no Brasil. Li recentemente a biografia do Steve Jobs escrita pelo Walter Isaacson e fiquei boquiaberta. É um livro muito bom, excelentemente pesquisado e soberbamente escrito, leitura fácil e agradável mesmo para quem não tem nenhum interesse especial pelo tema nem pelo biografado. É um contraste com o que existe aqui, com as figuras e personagens do Brasil.
Tiro o chapéu para o Ruy Castro, que escreveu ótimos livros sobre Nelson Rodrigues, Carmen Miranda, Garrincha, a Bossa Nova, e para o Fernando Morais, cujas biografias de Olga Benário e Assis Chateaubriand são verdadeiros clássicos. Na área da música, tiro o chapéu também para o Sergio Cabral pai, que não é um biógrafo da estatura dos outros, mas fez um trabalho incrível de preservação de memória e de ocupar essa lacuna inexplicável, com seus livros sobre Pixinguinha, Tom Jobim, Ary Barroso, Elizeth Cardoso e Nara Leão. Existem, claro, outras boas biografias musicais, como a do Mário Reis escrita pelo Giron, a do Dorival Caymmi escrita pela neta Stella, do Cauby Peixoto escrita pelo Rodrigo Faour, do Vinicius de Moraes escrita pelo José Castello, e o excepcional trabalho feito pelo João Máximo e Carlos Didier em Noel Rosa, uma biografia, criminosamente esgotado e difícil de achar. Há outros bem mais limitados, como as biografias da Elis Regina, da Clara Nunes e da Maysa. E com tantos exemplos, acho que é pouco, muito pouco. E imagino que a causa seja a falta mesmo de investimento editorial. Porque o cara vai precisar mergulhar na vida de um personagem, no espírito do tempo em que o biografado viveu, passar meses, um ano, trabalhando obsessivamente naquele assunto, entrevistando montes de gentes, pesquisando à beça. E para isso, precisa ser remunerado durante esse período de gestação, coisa que as editoras dificilmente fazem.
Bom, acho que já deu para me lembrar como é escrever em blog. :-)
Há dois personagens da história mais ou menos recente da música brasileira que sempre me fascinaram: Ernesto Nazareth e Guiomar Novaes. A razão do meu fascínio é que, em tudo que se lê e pesquisa sobre suas respectivas épocas, eles são citados constantemente, como referências absolutas. Nazareth, no início do século passado, tanto como compositor quanto como intérprete inigualável e formatador do tango brasileiro, e por extensão da polca, do choro e muito mais. Guiomar para o ambiente da música clássica da primeira metade do século XX, adorada por dez em cada dez pianistas clássicos. Há até mesmo a famosa citação de Claude Debussy sobre Guiomar ao vê-la participando de um concurso de piano em Paris -- quando ela tinha treze anos, dizendo que ela tinha a rara qualidade dos artistas, "os olhos ébrios de música", e que tinha sido a única coisa interessante que ele viu naquele concurso de jovens talentos.
E apesar das muitas gravações disponíveis de Guiomar Novaes, que permitem que se conheça sua personalidade artística, sempre senti falta de conhecer mais sobre a mulher por trás do mito. Afinal, quem era essa moça, filha da burguesia do interior paulista, 17ª de 19 irmãos (!!!) nascidos em São João da Boavista? Então quando soube do lançamento do livro Guiomar Novaes do Brasil: A Trajetória da Pianista em Nova York, de Luciana Medeiros e João Luiz Sampaio, corri para ter um exemplar (porque é um desses projetos patrocinados, lançado por uma pequena editora - Kapa Editorial -, o tipo do livro que some pouco após o lançamento e depois você só em encontra em sebos por preços proibitivos. Mas por enquanto ainda se acha, e custa R$80).
Confesso que fiquei decepcionada com o livro. Para começar, é um livro de luxo, formato grande, capa dura, edição bilíngue, todo em papel cuchê, repleto de fotos, e inclui 2 CDs de Guiomar tocando com a New York Philharmonic, regida pelo Bernstein (que estou ouvindo enquanto escrevo). Naturalmente essa opção pela edição luxuosa, "coffee table", não é, em si, um problema. O que me incomoda é que toda essa beleza externa na minha opinião serve para mascarar as deficiências do livro. O texto é fraco (na verdade nem cheguei a ler até o fim, pois perdi o interesse) e não revela quase nada sobre quem foi essa mulher. É quase uma compilação de fatos que a levaram aos EUA em 1915, depois de uma primeira temporada na Europa - a segunda foi abortada por causa da Primeira Guerra Mundial. Muita descrição e pouca análise. Mesmo dando o desconto necessário para o fato de o livro se concentrar na trajetória dela em Nova York, como diz o título, achei um desperdício. Ainda falta uma verdadeira biografia de Guiomar Novaes. Ou talvez exista e eu é que não conheço. Se alguém souber, por favor me fale.
Mas tudo isso sobre a Guiomar foi só uma digressão. Eu queria mesmo era falar sobre o Nazareth, e finalmente explicar o título deste post. É que estou fascinada pelo site www.ernestonazareth150anos.com.br, feito para comemorar o sesquicentenário do compositor, que será em 2013 (no site tem uma contagem regressiva: hoje faltam 298 dias). Não é segredo que tenho uma tendência forte à acumulação, organização e compilação de coisas. Todos os testes de autoconhecimento que já fiz ressaltam esse meu apreço pelo arquivo, pelos projetos grandiosos para organizar dados, etc. E de fato, cada vez que me aparece um desafio desses pela frente, fico entusiasmada. Então me encantou esse site, que é certamente obra de gente que não bate bem (no bom sentido).
Porque não seria nada de mais dizer que no site tem uma lista com todas as composições do Nazareth (mais de 200). Mas a coisa começa a ficar mais interessante quando se descobre que tem também todas as partituras disponíveis para download. E vira realmente espetacular quando se revela o fato que essas partituras têm duas versões: original para piano e adaptada para regional. Para quem não se tocou do que isso significa: dessa forma, qualquer grupo instrumental pode tocar as músicas, e não apenas os pianistas (Nazareth só escreveu para piano). Esse detalhe, sozinho, significa muito em termos da possibilidade de disseminação e popularização das composições.
Mas o motivo que me fez escrever que este é o site de música mais legal dos últimos tempos é o link "Discografia". Ali você consegue ouvir, em streaming, todas as gravações feitas de todas as obras. Em todos os tempos. São mais de 2 mil gravações, brasileiras e estrangeiras, antigas e modernas, em tudo quanto é transcrição, adaptação e instrumentação diferente. É por isso que acho que isso é coisa de gente com um parafuso a menos.
Independente da sanidade mental, eu tenho me deliciado descobrindo quantas músicas boas ele escreveu e especialmente comparando as interpretações de artistas diferentes para a mesma música. É uma aula e uma demonstração cabal das múltiplas interpretações de um mesmo texto musical. Ok, tá certo que no YouTube isso existe de montão: pequenas colagens de vários intérpretes tocando a mesma obra ou trecho. Mas nunca tinha visto nada dessa escala, com tantas opções para você navegar como quiser.
E caramba, quanta música boa tem o Nazareth! Eu que estudei piano durante tantos anos tinha 2 álbuns de partituras dele, cada um com umas 30 peças, por aí. Não é nem um terço da produção. A maioria das pessoas só o conhece como autor de Odeon, Apanhei-te Cavaquinho e Brejeiro, e quem sabe um pouco mais de história da música lembra do fato de ele ter morrido louco, afogado tentando fugir na Colônia Juliano Moreira, um sanatório. Na verdade, Nazareth tinha sífilis (como Nietzsche, com quem também compartilhava o bigode, e de quem todo mundo também se lembra disso: morreu louco, conversava com cavalo etc.). É impressionante como essas "excentricidades" acabam sendo preponderantes no imaginário popular em detrimento da obra. No fim das contas, é isso que se grava, esse exótico "morreu louco".
É impossível medir a importância do Nazareth para a música popular brasileira. Sabe-se que ele era um cara popular em seu meio e sua época, que as pessoas vinham de todas as partes só para vê-lo tocar na sala de espera do cinema Odeon (e de outros onde ele tocou), inclusive Villa-Lobos, Radamés Gnattali e até o Rubinstein, na época uma grande estrela do pianismo internacional. Sabe-se que ele, como qualquer pianista, foi muito influenciado pelo repertório clássico (e ouvir suas valsas com atenção é entender como uma escola clássica e uma alma popular se encontram tão harmonicamente), e há grandes e intensas discussões musicológicas e psicológicas sobre o quanto ele seria "traumatizado" por não ser um pianista e compositor clássico. Há um famoso episódio em que Nazareth vai ao Theatro Municipal assistir a um concerto de, adivinhem!, Guiomar Novaes, e sai de lá aos prantos, em meio a um surto, se lamentando por não ter ido estudar na Europa e não tocar como ela.
Com tudo isso, com um personagem dessa magnitude e riqueza, não há, que eu saiba, uma biografia de Ernesto Nazareth. Existe um livro chamado O Enigma do Homem Célebre: Ambição e Vocação de Ernesto Nazareth, de Cacá Machado, que eu já li e achei chatérrimo, que não se presta a ser uma biografia real. Neste livro, o autor compra a versão de que Nazareth é a inspiração para o conto "Um homem célebre", de Machado de Assis (leiam, é uma delícia), cujo protagonista é Pestana, um compositor de polcas ultra populares que no fundo é atormentado por não conseguir compor peças clássicas. Além disso, o livro do Cacá Machado é muito técnico, tem análises musicológicas profundas que me derrotaram.
E então eu já entro em um novo tópico, que é a carência de biógrafos profissionais no Brasil. Li recentemente a biografia do Steve Jobs escrita pelo Walter Isaacson e fiquei boquiaberta. É um livro muito bom, excelentemente pesquisado e soberbamente escrito, leitura fácil e agradável mesmo para quem não tem nenhum interesse especial pelo tema nem pelo biografado. É um contraste com o que existe aqui, com as figuras e personagens do Brasil.
Tiro o chapéu para o Ruy Castro, que escreveu ótimos livros sobre Nelson Rodrigues, Carmen Miranda, Garrincha, a Bossa Nova, e para o Fernando Morais, cujas biografias de Olga Benário e Assis Chateaubriand são verdadeiros clássicos. Na área da música, tiro o chapéu também para o Sergio Cabral pai, que não é um biógrafo da estatura dos outros, mas fez um trabalho incrível de preservação de memória e de ocupar essa lacuna inexplicável, com seus livros sobre Pixinguinha, Tom Jobim, Ary Barroso, Elizeth Cardoso e Nara Leão. Existem, claro, outras boas biografias musicais, como a do Mário Reis escrita pelo Giron, a do Dorival Caymmi escrita pela neta Stella, do Cauby Peixoto escrita pelo Rodrigo Faour, do Vinicius de Moraes escrita pelo José Castello, e o excepcional trabalho feito pelo João Máximo e Carlos Didier em Noel Rosa, uma biografia, criminosamente esgotado e difícil de achar. Há outros bem mais limitados, como as biografias da Elis Regina, da Clara Nunes e da Maysa. E com tantos exemplos, acho que é pouco, muito pouco. E imagino que a causa seja a falta mesmo de investimento editorial. Porque o cara vai precisar mergulhar na vida de um personagem, no espírito do tempo em que o biografado viveu, passar meses, um ano, trabalhando obsessivamente naquele assunto, entrevistando montes de gentes, pesquisando à beça. E para isso, precisa ser remunerado durante esse período de gestação, coisa que as editoras dificilmente fazem.Bom, acho que já deu para me lembrar como é escrever em blog. :-)
26.3.12
E quando menos se espera...
... acaba o mês e o blogue ficou de novo abandonado.
Mas olha: ainda não comprei o tablet, mas já me decidi pelo Galaxy. Inclusive comprei um smartphone (ui!), um Samsung Galaxy S2 e estou achando o máximo.
Sobre as dúvidas a respeito da falta de entrada USB, agora que conheci o mundo do bluetooth (com uma década de atraso, mais ou menos, e sem ter a mais vaga ideia do motivo por que tem esse nome, dente azul) descobri que de fato não tem necessidade de cabo nenhum.
E aí o smartphone tem um fone de ouvido ótimo e muitos gigabytes de memória para armazenar arquivos, então passo um monte de discos para MP3 e, com todas as minhas caminhadas diárias (de casa para a escola das crianças, de lá para o trabalho, de lá para casa almoçar, e de volta ao trabalho, e depois de volta ao lar), dá para ouvir praticamente um disco por dia!
No mais, tenho vários assuntos e muito sono no momento, de modos que... chope urgente!
Mas olha: ainda não comprei o tablet, mas já me decidi pelo Galaxy. Inclusive comprei um smartphone (ui!), um Samsung Galaxy S2 e estou achando o máximo.
Sobre as dúvidas a respeito da falta de entrada USB, agora que conheci o mundo do bluetooth (com uma década de atraso, mais ou menos, e sem ter a mais vaga ideia do motivo por que tem esse nome, dente azul) descobri que de fato não tem necessidade de cabo nenhum.
E aí o smartphone tem um fone de ouvido ótimo e muitos gigabytes de memória para armazenar arquivos, então passo um monte de discos para MP3 e, com todas as minhas caminhadas diárias (de casa para a escola das crianças, de lá para o trabalho, de lá para casa almoçar, e de volta ao trabalho, e depois de volta ao lar), dá para ouvir praticamente um disco por dia!
No mais, tenho vários assuntos e muito sono no momento, de modos que... chope urgente!
Ideias fixas:
sobre nada e sobre tudo
2.3.12
Compartilhar com parcimônia
Esta semana saí do Google+, a rede social do Google. Quer dizer, não sei se é isso, um rede social. Enfim, só tinha entrado mesmo porque várias pessoas me mandaram uns convites. Mas nunca captei realmente o espírito da coisa. Achava muito chato a coisa de agrupar seus conhecidos em "círculos" para então compartilhar as coisas com mais facilidade. No fundo, nunca compartilhei nada por meio dessa ferramenta, a verdade é essa.
Olha, realmente essa coisa do compartilhamento sistemático não faz sentido pra mim. Nessas horas me sinto meio velha. Mas fico pensando que não tenho assim tanta informação para compartilhar com tanta frequência. Posso ter amor, amizade, compaixão e solidariedade para compartilhar, mas não tenho, digamos, tantos links, tantos videos ou tantas fotos para ficar sistematicamente atualizando as pessoas sobre o status da minha simplória existência. Claro que às vezes dá vontade, sim, de compartilhar algo com alguém. Outro dia, por exemplo, fiquei chocada com este bizarro livro de receitas. Aí mandei para um amigo que eu sabia que ia gostar. Mas só isso. Uma pessoa que eu sabia que ia curtir, em especial. Não doze, nem oitenta, nem duzentas e quinze pessoas.
Tampouco tenho Facebook (nunca tive), o que me transforma numa espécie de pária social. Mas não é por aversão ao conceito, muito menos por uma suposta superioridade moral ou vontade de ser diferente. É simplesmente uma questão de prioridades. Acho que Facebook é legal, manter as pessoas em contato etc. Mas não quero gastar ainda mais tempo online do que já gasto. Só isso. Tenho tantas coisas para fazer com as crianças, tantos filmes para ver, tantos livros para ler, que me parece loucura inventar um "hobby" que me deixe com ainda menos tempo para essas coisas.
Então, para não dizer que não falei de flores, vou compartilhar uma coisa aqui com meus incríveis leitores. Na verdade, é uma dica para os pais de crianças pequenas, que sei que respondem por boa parte do meu leitorado. Seguinte: se você não aguenta mais ver Galinha Pintadinha, já sabe as falas de Enrolados de cor (meu caso) e quer que seu filho ou filha se divirta com algo diferente, aí vai uma ótima opção:
Olha, realmente essa coisa do compartilhamento sistemático não faz sentido pra mim. Nessas horas me sinto meio velha. Mas fico pensando que não tenho assim tanta informação para compartilhar com tanta frequência. Posso ter amor, amizade, compaixão e solidariedade para compartilhar, mas não tenho, digamos, tantos links, tantos videos ou tantas fotos para ficar sistematicamente atualizando as pessoas sobre o status da minha simplória existência. Claro que às vezes dá vontade, sim, de compartilhar algo com alguém. Outro dia, por exemplo, fiquei chocada com este bizarro livro de receitas. Aí mandei para um amigo que eu sabia que ia gostar. Mas só isso. Uma pessoa que eu sabia que ia curtir, em especial. Não doze, nem oitenta, nem duzentas e quinze pessoas.
Tampouco tenho Facebook (nunca tive), o que me transforma numa espécie de pária social. Mas não é por aversão ao conceito, muito menos por uma suposta superioridade moral ou vontade de ser diferente. É simplesmente uma questão de prioridades. Acho que Facebook é legal, manter as pessoas em contato etc. Mas não quero gastar ainda mais tempo online do que já gasto. Só isso. Tenho tantas coisas para fazer com as crianças, tantos filmes para ver, tantos livros para ler, que me parece loucura inventar um "hobby" que me deixe com ainda menos tempo para essas coisas.
Então, para não dizer que não falei de flores, vou compartilhar uma coisa aqui com meus incríveis leitores. Na verdade, é uma dica para os pais de crianças pequenas, que sei que respondem por boa parte do meu leitorado. Seguinte: se você não aguenta mais ver Galinha Pintadinha, já sabe as falas de Enrolados de cor (meu caso) e quer que seu filho ou filha se divirta com algo diferente, aí vai uma ótima opção:
Ideias fixas:
vida online
1.3.12
R-e-g-o-z-i-j-a-i
De repente reparei que meu post sobre Downton Abbey começa com um erro de digitação. Em vez de "regozijai", escrevi "regojizai".
Também pudera.
Regozijo, apesar do significado alvissareiro, está para mim no top 5 das mais feias palavras da língua portuguesa.
Aliás ontem n'O Globo (adoro escrever assim com esse n'O) tinha um artigo do Roberto da Matta que terminava com a seguinte frase:
Estou seriamente pensando em me encontrar com o Dalai Lama, pois ser juiz neste nosso Brasil republicano bem vale uma viagem ao Tibete.
Não seria nada de mais se alguém da editoria de opinião não tivesse escolhido justamente esta frase para ser o "olho" do artigo, aquela frase em destaque que fica no meio do texto, num box, em letra maior. Um recurso comum da diagramação de jornais. Só que, por motivos que não consigo imaginar, o olho ficou assim:
ser juiz neste nosso Brasil republicano bem vale uma viajem ao Tibete
Repararam? Viajem, amigos, uma viajem! E no texto está certo, só nesse destaque é que ficou errado. Grosseiramente errado.
Na página ao lado, no principal artigo de opinião do jornal, o que sai encimado por um indubitável "Nossa opinião" (em contrapartida à "Outra opinião", que vem logo abaixo), achei um "grande números". No Segundo Caderno, uma crítica da Barbara Heliodora saiu com "vendávies" em vez de "vendáveis".
Ao que eu me pergunto: PQP, cadê o revisor?! Ninguém mais dá a mínima bola para essa porcaria? Ninguém lê a p*rra do jornal antes de mandar para a gráfica? Eu fico assim, passada.
No carnaval, a Prefeitura do Rio encheu os postes da cidade de galhardetes sobre o carnaval de rua. Um deles propagandeava que em 2012 haveria pela cidade não sei quantos banheiros químicos, "250% a mais em relação à 2010". Isso mesmo, a craseado. Caramba, quem é que aprova essas peças? Quem é o infeliz do funcionário público cujo salário eu pago e que dá um visto dizendo que está tudo bem uma propaganda oficial que diz "em relação À 2010"? E cá entre nós, por que 2010? Talvez devesse ser 2011 e este foi mais um erro de revisão...
Também pudera.
Regozijo, apesar do significado alvissareiro, está para mim no top 5 das mais feias palavras da língua portuguesa.
Aliás ontem n'O Globo (adoro escrever assim com esse n'O) tinha um artigo do Roberto da Matta que terminava com a seguinte frase:
Estou seriamente pensando em me encontrar com o Dalai Lama, pois ser juiz neste nosso Brasil republicano bem vale uma viagem ao Tibete.
Não seria nada de mais se alguém da editoria de opinião não tivesse escolhido justamente esta frase para ser o "olho" do artigo, aquela frase em destaque que fica no meio do texto, num box, em letra maior. Um recurso comum da diagramação de jornais. Só que, por motivos que não consigo imaginar, o olho ficou assim:
ser juiz neste nosso Brasil republicano bem vale uma viajem ao Tibete
Repararam? Viajem, amigos, uma viajem! E no texto está certo, só nesse destaque é que ficou errado. Grosseiramente errado.
Na página ao lado, no principal artigo de opinião do jornal, o que sai encimado por um indubitável "Nossa opinião" (em contrapartida à "Outra opinião", que vem logo abaixo), achei um "grande números". No Segundo Caderno, uma crítica da Barbara Heliodora saiu com "vendávies" em vez de "vendáveis".
Ao que eu me pergunto: PQP, cadê o revisor?! Ninguém mais dá a mínima bola para essa porcaria? Ninguém lê a p*rra do jornal antes de mandar para a gráfica? Eu fico assim, passada.
No carnaval, a Prefeitura do Rio encheu os postes da cidade de galhardetes sobre o carnaval de rua. Um deles propagandeava que em 2012 haveria pela cidade não sei quantos banheiros químicos, "250% a mais em relação à 2010". Isso mesmo, a craseado. Caramba, quem é que aprova essas peças? Quem é o infeliz do funcionário público cujo salário eu pago e que dá um visto dizendo que está tudo bem uma propaganda oficial que diz "em relação À 2010"? E cá entre nós, por que 2010? Talvez devesse ser 2011 e este foi mais um erro de revisão...
Ideias fixas:
em bom português
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