Fim do dia (do ano?) no Leblon, por meanjean, via flickr
De repente você percebe que a cidade está lotada. Todas as vitrines estão radiantes de roupas brancas. Nos restaurantes perto da orla, uma babel de línguas. Nos bares, o estica da praia ultrapassa as onze da noite. Lá estão eles, de roupa de praia e areias nos pés, o rosto moreno e os olhos embotados e felizes depois do chope número vinte e dois. Reencontros históricos no ônibus, lembranças de férias de verão do século passado. Saudades sendo matadas na praia, onde todo mundo se encontra sem ter combinado nada. Às duas da manhã, quando não há absolutamente nenhuma brisa, o termômetro na rua marca 35º. Todo o resto é calmaria e maresia.
Enfim sobrevivemos. Ao natal, às rabanadas, ao calor.
Estive com elas, que são uma grata surpresa, uma lufada de frescor e simpatia britânica no meu verão senegalês. Fomos ao Parque dos Patins, na Lagoa, que é “o” lugar para se estar com crianças, com milhares de atrações ótimas.
Com a família, fizemos o natal no supermercado, mais uma vez um sucesso absoluto. (Ganhei uns chás importados, dei damascos e Nutella.)
O fim do ano é a tradicional “anistia”, ou seja, a volta dos exilados. Impressionante. Todos aqueles que moram fora voltam, de vez ou por um tempo, para essas festas de natal e reveilão. Tempo de muitos reencontros.
E agora no pós-natal ainda saiu mais uma notícia boa, que provavelmente vai significar viagens em 2007. Êba.
O movimento do blogue caiu drasticamente. Não só eu não postei nada como também quase ninguém acessou. Que bom. As pessoas têm uma vida não-virtual, afinal.
E falando nisso, teve também, no pré-natal, aquilo que é a coisa mais legal dessa história toda de blogue. Conhecer os camaradas. Ela esteve aqui, e só deu pra tomar um cafezinho rápido, mas sabe quando rola uma empatia imediata? Então, pois é. Volte sempre, viu?
Várias pessoas deixaram mensagens e comentários desejando feliz natal e bom ano novo. Obrigada a todos, fiquei encantada. Ainda me surpreendo muito com essa comunidade bloguística, pessoas tão carinhosas e atenciosas.
And last but not least, o que as pessoas andam procurando no Google neste fim de ano e vindo para logo aqui: Suco de manga abortivo (como assim? com leite?) Simpatias para marido mal educado (difícil, hein, amiga!) Vestidos gala pre mama (hein?) E o melhor de todos: Hidratação para cabelos fudidos (hahaha, se descobrir, eu também quero!)
Sabe quando você faz, em um único dia, coisas suficientes para preencher o tempo de uns... quatro dias? Pessoas, conversas, emoções, coisas demais num intervalo pequeno de horas. Pois é. Dezembro é foda mesmo.
Entre as muitas coisas chatas desse calor de rachar catedrais é que ele vira monotema. É impossível entabular qualquer conversação com qualquer pessoa sem citar a dor e a delícia da nossa circunstância tropical. No elevador, no trabalho, na fila, no ônibus, no táxi, no supermercado, é um tal de “Que calor, hein?”, “Mas que calor é esse?”, “Tá terrível esse sol”, “Quente, né?”, etc. Saco. E o ar fica tão espesso que parece poder se cortado a faca. E o vento que sopra é quente. E eu, que odeio banho frio, quero tomar um e a água sai do chuveiro morna. E, incrivelmente, as pessoas parecem amar esta estação. Estou quase com inveja da Maria, que escreveu sobre o solstício de inverno no norte da Suécia. (Eu disse “quase”.)
Junto com o calor aparecem também os cartões de natal. Aliás, os e-mails de natal, que cartão pelo correio ninguém mais manda, quase. Os cartões corporativos. Blé. Tem os que tentam ser engraçadinhos e não logram sucesso. Tem os religiosos, que me dão engulhos. Tem os completamente sem loção que pesam seis megabytes. Tem os que fazem um apanhado dos eventos do ano, as falcatruas dos políticos, o mensalão, os sanguessugas, o Pinochet. Ninguém merece. Eu não mereço.
E pra coroar esse cenário de alegria, tem os engarrafamentos constantes em volta da Lagoa por causa da porcaria da árvore de natal, atravancando o trânsito da cidade inteira.
Estava voltando do almoço quando ouvi as crianças brincando na rua*:
PIQUE 1, 2, 3, SALVE TODOS!
Lembrei desse recurso maravilhoso do jogo de pique-esconde. Sim, havia um tempo em que você podia salvar todos. Com um pouco de astúcia, bastava aparecer na hora certa e gritar Salve todos! Como é cruel que a vida adulta não nos ofereça mais esta possibilidade. De ser o salvador de todos, de ter nas mãos o poder de fazer o bem a toda a comunidade – e levar o crédito por isso. Se eu bem me lembro, o Pique 1, 2, 3, salve todos era uma prerrogativa do último participante do jogo que ainda não havia sido achado. Era o momento em que o pique-esconde virava um one-on-one, não mais um jogo coletivo mas uma disputa privada entre dois indivíduos, um procurando, outro se escondendo. Com as regras tácitas e seguidas à risca, como por exemplo a terminante proibição de guardar caixão (de onde vêm essas expressões?!). Nessa hora, todos aqueles que já tinham sido achados podiam gritar ao último que ainda se escondia: “Fulano! Bate Salve Todos!”. E a coisa ficava ainda mais emocionante, porque aquele que procurava poderia sagrar-se vencedor ou ser desmoralizado por um Salve todos que colocaria todo seu trabalho no lixo e o obrigaria a mais uma vez cumprir a solitária função do “procurador” (será essa a origem do nome do cargo?).
O que me fez lembrar de outro recurso maravilhoso das brincadeiras infantis que eu não me conformo de não poder mais usar: o “altos”. “Estar de altos” era a melhor coisa do mundo, era o poder de ser momentaneamente excluído do contexto, por um motivo qualquer. Se o jogo era polícia e ladrão, vinha a polícia te prender e você fazia o V da vitória do Churchill e dizia com a cara mais cínica: “Mas eu estou de altos”. E continuava andando tranqüilamente, até o momento em que resolvesse “sair do altos” (a concordância é o máximo) e voltar a correr. Agora imagine poder ficar de altos no seu trabalho, no seu casamento, na reunião de condomínio, no ônibus lotado ou no engarrafamento? Como foi que deixamos que isso nos fosse tirado, na boba correria da adolescência? Pois eis aí, pra mim, os dois maiores baques da passagem da vida infantil para a adulta: a diminuição das férias, de 3 meses por ano para ___ dias por ano (tirados aos pedaços, espasmodicamente), e a impossibilidade de pedir altos num momento oportuno.
*Só mesmo crianças são capazes de não se importar de exercer uma atividade que pressupõe basicamente correr às 14:30 (sol de 13:30 com horário de verão) de uma tarde em que a temperatura deve andar pelos 42º à sombra.
E no almoço de família surge a história fantástica. A mulher andava muito desconfiada que o marido tinha uma amante. Até que um dia achou, dentro do armário dele, uma mala cheia de dinheiro. Daquelas de filme de máfia. Imprensou o marido contra a parede, e ele admitiu que sim, tinha uma amante, tinha inclusive um filho com ela, e aquele dinheiro era para comprar uma casa para a amante. Não sei os detalhes e os meandros. Sei que a mulher deu um jeito de surrupiar a tal mala de dinheiro, pegou a grana e fez uma mega viagem pelo mundo (!). Depois que voltou (porque deve ser um desses casamentos que não se desfazem por nada), falou para o marido que ele tinha que fazer um teste de DNA para ter certeza que o filho com a amante era mesmo dele. O cara fez e, bingo, o filho não era dele. (Portanto o cara era corno da amante.) Pelo que se sabe o casamento resiste até hoje, mas fico pensando a humilhação diária que deve ser a vida desse homem.
Achamos que essa é uma espécie de fábula de Esopo contemporânea, e a moral da história fica por conta de cada um.
No embalo da discussão anterior sobre o uso das leis de incentivo à cultura, este é um exemplo dos projetos que valem a pena. Nem tudo está perdido, afinal.
Esta semana ele e ela fizeram uns tais posts audiovisuais. Hehe, tenho que dizer que achei meio estranho. Porque a gente se habitua à maneira da pessoa escrever, que é sempre muito diferente do que a gente espera ser como a pessoa fala. Já escrevi aqui antes sobre essa coisa de ler versus ouvir, por conta da apresentação dos Miguilins contando trechos de Guimarães Rosa. De como sempre é diferente daquilo que a nossa imaginação escolheu. Mas claro que pode ser uma surpresa agradável. Agora o senhor mire e veja: ela tem um sotaque eu nunca esperava! E que me fez rir! Ai, que coisa. Com o tempo acostuma, claro. A nossa resistência ao diferente se demonstra em tu-do na vida.
Na seqüência de abertura, um cemitério. Muitas mulheres, com roupas antigas, lenços no cabelo, limpando freneticamente as tumbas. Botam flores, passam panos, lustram metais. São muitas. Mulheres e tumbas. Flores e lápides. O vento espalha a poeira e a terra. Os letreiros vão passando, a música ao fundo. Tem uns filmes que te pegam logo no primeiro minuto.
Por que sempre dizem dezenove e trinta e sete e meia, e nunca dezenove e meia e sete e trinta?
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Todo ano quando vejo essas luzes de natal brancas e que não piscam, que as pessoas colocam em volta dos troncos das árvores, acho que são jabuticabeiras atômicas.