9.7.09

Shadenfreude remix


Movimentos migratórios no mundo das editoras. Fofoquinhas do mercado. Eu hoje conversando com meus chefes a esse respeito, lá pelas tantas o überchefe ri e fala de Schadenfreude. Achei tão engraçado. Usei a mesma expressão para falar das mesmas pessoas, aqui no blogue, três anos atrás.

E para quem se interessa de verdade pelo mundinho editorial, vai a dica de uma ótima (e longa) entrevista com o Jonathan Galassi, editor da Farrar, Straus & Giroux, publicada na Poets & Writers. Vale a pena até pular as partes em que ele fala da juventude e carreira pessoal dele para chegar nas ponderações e considerações muito legais sobre agentes, editores, valores de adiantamentos, relacionamentos com autores, com livreiros, e sobre o book business em geral.
Trechinho: "It's a business, and I love the fact that it's a business. I really think it's much better for publishing to be a commercial enterprise. But it's not just a business. It's about selling something that you believe in."
.

7.7.09

Minha primeira reunião de pais -- ou: Sobrevivendo no inferno


Cheguei pontualmente na hora (17h30, horário de trabalho), e encontrei uns quinze adultos sentados em semicírculo em cadeirinhas de crianças. Fechando a roda, a dona da escola, a coordenadora pedagógica e a professora do maternal ("tia S.", "tia R." e "tia A." -- que as crianças chamem os adultos de "tio" e "tia" é questionável, mas vá lá. Agora, os adultos ficarem chamando uns aos outros dessa forma é que não dá pra entender.). Ainda chegaram uns retardatários. No total, uns vinte pais -- alguns casais, poucos homens, montes de mulheres. O único pai sem cônjuge estava num acirrado debate ao celular antes da reunião iniciar oficialmente, perguntando a alguém (esposa? empregada? mãe?) se o pinguinzinho de brinquedo do filho dele era mesmo tão desbotado e surrado como aquele que ele estava vendo ali.

-- Será que é esse mesmo o do D.? Não tenho lembrança de estar assim tão surrado. E o chapeuzinho do pinguim? Esse aqui está meio inclinado para o lado. Você lembra se o do D. era inclinado? Eu não lembro de ser inclinado assim. Deve ser de outra criança, este daqui. É, esse chapeuzinho está inclinado. Não, acho que não era assim. Será outro? Vou perguntar aqui.

Olhei pra cima e suspirei. Isto não está acontecendo. Isto não está acontecendo. Estava, é claro.

Começa a reunião. Alguns avisos. Aula de balé e capoeira para quem quiser, a partir dos dois anos. 50 reais, duas vezes por semana.

Pai do D.:
-- Mas se o meu filho for para a capoeira, ele não vai perder algum conteúdo dado em sala?

Olhei para baixo e respirei fundo. O pobre D. tem 1 ano e 8 meses.

Segue a reunião. Mais avisos. A Festa dos Pais, em agosto, será uma homenagem: o tema será anos 60 e 70. Fiquei sem entender se isso é em homenagem aos pais ou aos avós. Acho que nenhum pai ali presente nasceu antes da década de 70. Não explicaram, e ninguém perguntou. Enfim. A festa será num sábado, num Clube, e nós não vamos, mesmo. Exercitando the art of letting go.

Assuntos diversos. O lanche. O problema frutas vs. biscoitos. Mães reclamam que as crianças só querem comer biscoito. Que antes comiam frutas, e agora não mais. Notem que o lanche que é feito na creche é levado de casa. Modos que. Quer que seu filho coma fruta, é só mandar fruta para a creche.

A mãe-mais-mocréia-de-todas:
-- Ah, mas é complicado, nem sempre dá para lavar, descascar, cortar, sabe como é, né? Eu estava mandando melancia cortadinha, lembra, Fulana? [para a amiga ao lado], mas depois não deu mais certo porque ficava azeda!

A mãe-tímida-com-a-raiz-dos-cabelos-carecendo-de-pintura sussurra para a professora (mas todo mundo escuta):
-- A M. está comendo todo o lanche dela?

Olhei para a janela. Tudo escuro lá fora.

Mais problemas. Crianças que eram muito amigas e agora estão em turminhas separadas, e choram porque sentem falta dos amiguinhos. Dilema. Vamos preparar as crianças que a vida é mesmo feita de mudanças vs. Para que inflingir um sofrimento desnecessário tão cedo.

A mãe-descolada:
-- O E. sente muuuuita falta dos amiguinhos. Por exemplo, eu só consegui que ele parasse de mamar falando que o J. não mamava mais, a C. não mamava mais, e por aí vai. Ele adora esses amiguinhos, e como ele já tem 1 ano e 11 meses, já fala bastante, e vive falando deles.

A mãe-de-oclinhos-e-rabo-de-cavalo ao meu lado:
-- É verdade. Quando a S. mudou de turma, a C. começou a chorar todo dia para vir pro colégio.

Olhei para meus pés. Ainda bem que vesti uma boa meia fina, porque nessa cadeirinha mínima a canela fica muito à mostra.

A professora -- a figura mais sensata e interessante naquele freakshow, felizmente -- conta o dia-a-dia das crianças. Que de manhã, como os alunos vão chegando em horários diferentes, ela faz uma atividade mostrando as fotos de todos na parede e perguntando quem já está ali, e quem ainda não chegou.

Mãe-pequetitinha-e-atrasada, sentada do meu outro lado:
-- Mas a minha filha ainda não fala! Como vocês fazem nesse caso? Ela fica excluída dessa atividade? Imagino que muitos da turma ainda não falem. Ou não?! Só a minha filha é que não fala ainda???!!

Olhei para o relógio. Mathilde, tadinha, já deve estar louca pra ir embora, já passou da hora dela.

A reunião termina um pouco na marra, dado o adiantado da hora. O pai do D. vai lá, claro, falar sobre o pinguinzinho surrado do chapéu inclinado. As mães voam na professora para perguntar se meu filho isso, se minha filha aquilo.

Não sei vocês, mas eu estou terrivelmente pessimista em relação ao futuro da humanidade.

Filha querida, não desanima. Eu vou te levar para ver os patos de novo.

.

30.6.09

Audiovisual



Até que demorou. Mas Mathilde finalmente se encantou pelo mundo do audiovisual. Sim, sim, desenho animado.
Tudo começou com uns livrinhos. Mathilde tem livro à beça, e não tem brinquedo no mundo de que ela goste mais do que de ler seus livros. Ela adora sentar no nosso colo e ler junto conosco. E dentre toda sua biblioteca, os favoritos são os livrinhos de uma coleção que comprei um dia, despretensiosamente, de uma personagem até então desconhecida para mim, a Peppa Pig. Mathilde se viciou, e de uns tempos pra cá passou a chamar "Peppaaaaaa!" quando quer que leiamos com ela. Aquela coisa de criança, você lê quinze vezes seguidas o mesmo livro de figuras, com 6 páginas, e ela pede pra ler outra vez. Então fui pesquisar se havia outros livrinhos da Peppa no mercado, e descobri que na verdade a Peppa é um desenho, e os livros, um desdobramento do desenho. Catei no YouTube e achei alguns episódios em português (e outros tantos em italiano, francês, sérvio e polonês -- porque hoje em dia a educação de uma criança não pode ter esses limites, certo?). Pronto. Vício total. Até então ela nunca tinha achado tanta graça em desenhos porque quase não vê televisão. A única da casa fica no nosso quarto, ela acaba tendo pouco contato. Então para ela agora desenho é uma coisa que se vê no computador. E pega a gente pela mão, leva pro computador e pede "Peppa! Peppa!". Só tem 4 episódios em português, e eu já sei todas as falas de cor. Mas pelo menos é um desenho legal.
Esta semana fomos à consulta de rotina no pediatra, que nos recomendou o Pingu. Nossa, adorei, achei muito mais legal.
E vocês com filhos pequenos, quais os desenhos que fazem mais sucessos tanto com pais quanto com filhos?

Ponto final

.
Entreguei a tradução.
Mandei o arquivo para a editora à 1:10 da madrugada de domingo pra segunda.
Nem acredito. 660 laudas.
Sim, ainda falta o copidesque, a revisão técnica, a revisão da revisão etc. Mas, caramba, ficou assim um vazio em minha vida.

É um livro muito bom, que gostei de traduzir. Passado o susto inicial, a responsa de traduzir o texto de um super professor seriíssimo de Oxford e talz, e todo aquele vocabulário britânico que eu não conhecia, foi uma experiência muito boa, e aprendi muito com o autor.
E, entre outras coisas, o bom de traduzir livro sério é que posso escrever outrem e alhures sem constrangimentos.
.

27.6.09

As pessoas são muito loucas

A frase acima é uma espécie de slogan aqui em casa. Uma das frases favoritas de Marido e minha. Serve para expressar nosso sentimento de estranheza perante, como dizer?, "o mundo em geral".
O post do Starbucks me fez lembrar da frase. Assim como no sábado passado, quando fui com Mathilde à praia ("A paia! A paia!"). Estava um dia perfeito de inverno carioca, céu azul sem uma nuvem sequer, temperatura ideal. Mathilde enlouquecida brincando na piscina armada pelo barraqueiro. Comprei um saco de Biscoito Globo para nós duas. Ela, típica bonne vivante [não é revelador que esta expressão só exista no masculino?], sentou-se numa cadeira de praia dessas que ficam para alugar e apontou para a cadeira do lado dizendo "mamamamãe", o que significa mais ou menos uma ordem para que eu me sente ao lado dela. Obedeci. Ela se deu por satisfeita e ficou comendo o biscoito apreciando o movimento no calçadão.
Enquanto isso, outras crianças mais ou menos da mesma idade brincavam na areia. Algumas, totalmente vestidas, apenas sem sapatos. Outras, de roupa de banho. Mas o mais curioso eram as mães. A menina louca para entrar na piscina, e a mãe "Fulaninha, não encosta nessa água, que você está gripada!". Dois irmãozinhos brincando na mangueira de onde jorrava água da bomba, e a mãe "Fulano! Beltrano! Saiam daí! Vocês vão se molhar!". Um garoto um pouco mais velho (uns 4 anos) estava de camiseta de manga comprida, e enfiou os dois braços na piscina enquanto os pais se distraíram com a irmã menor. Coitado, só faltou apanhar, porque a blusa ficou encharcada.
Então a nova moda parece ser essa. Levar as crianças para a praia e não deixar que elas se molhem.
Tenho certeza de que tem alguma parte dessa história que ainda não me contaram. Algum sentido tem que haver.
.

Deslumbre

Parece que abriu uma loja Starbucks no shopping center do bairro. Percebi porque comecei a ver, na rua, umas pessoas com copos da Starbucks na mão. De repente passei a reparar. Muitas pessoas. E percebi que entraram numas de exibir seu copo de isopor da Starbucks. Tipo, depois de vazio, continuar andando com o copo na mão. Quem sabe se não guardam em casa para usar novamente no dia seguinte.
Me senti em Moscou quando abriu o primeiro McDonald's.

Este mundo não me pertence mesmo.
.

26.6.09

Música, apenas

M. sapecou algumas fotos ótimas do concerto!

O show de segunda foi um enorme sucesso. A Cecília Meireles lotada, numa segunda à noite. E o concerto, lindíssimo. Fiquei muito feliz.

E enquanto ouvia a música, voltei a pensar em algo que já vinha matutando desde há algumas semanas, quando fui ao um concerto da Rio Folle Journée* com M., na mesma Sala Cecília Meireles.** Que é sobre assistir concertos de música clássica e música instrumental. Gosto tanto porque são ocasiões em que não há nada competindo com a música. Não há filme. Não há história. Não há mise en scene. Não há luzes piscando. Não dá pra dançar. Não dá pra conversar. Não há letra para entender. Nada para tirar sua atenção. Não há opção a não ser ouvir. Apenas.

*Sempre tento ir nesses eventos. Rio Folle Journée, Rio Restaurant Week, Festival de Cinema do Rio. Porque são tantas as desvantagens de se morar numa megalópole, que me sinto na obrigação de aproveitar as vantagens.
**Este ano toda a programação de clássicos está sendo na Sala porque o Municipal está em reformas. Como vocês sabem, 2009 é o centenário da inauguração do Municial. Aí hoje vi na televisão do elevador do trabalho que a previsão de término da obra é dezembro. Não é sensacional? No ano inteiro do centenário o Teatro vai ficar... fechado! Como é que ainda me surpreendo com essas coisas?
.

22.6.09

Hoje 20h30


Estarei lá.

18.6.09

O lorde da motocicleta


Todos que trabalham no mesmo prédio que eu já o viram. Não tem como não reparar. Ele vai embora lá pelas 6 da tarde, e a princípio a gente pensa que é um, sei lá, astronauta. Mas é só um motociclista. Só que nunca se viu um tão paramentado. Protetor de cotovelos, calça especial, tênis que fazem nhec-nhec, casaco high tech e um estranhíssimo protetor de pescoço, que mais parece aquelas almofadas em forma de U para dormir em avião. E capacete na mão.
Passado o primeiro susto, da segunda vez que se pega o mesmo elevador que ele já dá pra reparar. Ele é bonito. Beeem bonito. Alto, meio grisalho, cabelo bem aparado. Ar de, sei lá, holandês. Holandês bonito, bem entendido, que não é lá uma coisa assim muito fácil.
Ah bom, então. Ele trabalha no meu ex-andar (como já falei, agora subi na vida [3 andares, precisely] e tenho vista pros barquinhos do Iate). E aí que um dia me vi esperando elevador com ele no hall do andar. E olhamos da janela lá embaixo e vimos aquele trânsito compriiiido da Mena Barreto, uma porção de luzinhas vermelhas andando devagarinho. Fui eu que comecei. Falei qualquer coisa sobre uma moto imensa que estava parada no engarrafamento. Ele respondeu sem hesitar ("Mas não é um triciclo?". Era.) e não parou mais de falar. Fez vários comentários sobre, sei lá, o trânsito, as ruas de Botafogo, o tempo. E eu com meu capacete vermelho na mão. Ele olhou, curioso, mas não perguntou nada. "Bicicleta", eu disse. "Ah", ele sorriu. E o elevador chegou, entramos e logo entraram mais 250 pessoas.
Encontrei o motociclista outras vezes. "Ué, não está mais vindo de bicicleta?", ele perguntou um dia, ao me ver indo embora sem capacete. Expliquei que agora paro na garagem e prendo o capacete na tranca junto da bicicleta. Ele disse que não faz isso na moto porque tem medo que alguém suje ou faça algo com o capacete dele (que pressuponho ser de titânio, urânio enriquecido, kriptonita ou material semelhante). Uma outra ocasião ele comentou que os capacetes de bicicleta são muito frágeis. "Eu já quebrei uns 3 desses". Fiquei sem entender se ele já atropelou 3 ciclistas ou se é ele mesmo um ciclista muito ruim. Achei melhor não perguntar.
Quando comentei com as calegas-de-trabalho sobre meus papos com o motociclista, todas ficaram espantadas em saber que ele é simpático. Porque sua figura paramentada é tão intimidadora, que tenho a impressão de que ele ficou genuinamente grato por ter estabelecido um contato. Falei que parece holandês também porque, além da cara de Van der Sar (só que bonito!), sinto nele um levíssimo sotaque, indefinido. E essa sensação de estrangeiro só se reforça nessa alegria que ele parece sentir por fazer um mínimo contato com alguém. Não tem nada de flerte, é só a alegria do reconhecimento.
E a gente, que anda sempre a fazer troça da alteridade mínima.
.

17.6.09

As razões do meu sumiço

Não que alguém esteja curioso, mas.

Primeiro motivo, esse lindo projeto. Lindo, mas que está me dando uma tremenda canseira, que coordenar uma coisa dessas enquanto se trabalha em outro lugar de 9 às 6 não é bolinho. Mas ó: atentem para a agenda dos shows, façam download das músicas, enfim, aproveitem.

Segundo motivo, a tradução. Que, meus queridos, acabei. Exatas 539 páginas de Word, Times New Roman corpo 12, entrelinha 1,5. Querem mais números? 208.085 palavras. 1.112.366 caracteres sem espaço. 1.319.149 caracteres sem espaço. 2.509 parágrafos. 17.626 linhas. Estou agora dando uma lida geral e final em tudo. Ainda falta metade. Mas, nossa, orgulho imenso. Penso até em fazer uma noite de autógrafos quando for publicado, hahaha.

Terceiro motivo, o trabalho. Que minhas funções aumentaram. Bastante. Salário aumentou também, não tão bastante assim, mas anyway. E mudei de sala, agora tenho vista para a Baía de Guanabara e Pão de Açúcar. Depois mando fotos no estilo "sorry, perifa". Mas aí fiz seleção para estagiário, pois a grã-fina com motorista saiu fins de maio. Morri de rir quando li na Bel:
"Vou pra sempre imitar Liz Lemon: "OMG! Youths!", e sair correndo."
Porque foi quase isso. Esse pessoal nascido na época da Olimpíada de Seul. Mas nem posso reclamar. Entrevistei 15 almas, e pelo menos 7 eram bons candidatos - excelente média, me garantem amigos do mercado editorial que passaram por isso recentemente. Fiz uma shortlist de 3, que foram hoje para uma segunda entrevista, e escolhi, junto com Mr My Boss, uma jovem de cabelos vermelhos e unhas pretas.
Mas o engraçado foi ver os currículos, e o que as pessoas acham que devem incluir. "Canoa havaiana", por exemplo, tinha num currículo. "Possui carteira de motorista", em outro. Youths!

Quarto e melhor motivo de todos, Mathilde. Que cada vez mais é a maior alegria do meu dia, da minha vida, de meu tudo. Desandou a falar uma porção de coisas. E se revelou uma garota de Ipanema. Não podemos passar pela praia ou pela Lagoa de carro que começa a gritar "A paia! A paia!" (pois é, tem essa mania de falar várias coisas precedidas do artigo definido). E na semana passada, estávamos na casa da minha mãe e ela olhava pela janela (cuja vista não é para a praia) e gritava "A paia! A paia!", então a levamos até a praia, que fica a dois quarteirões só. Nossa, que acontecimento. Quando estávamos a meio quarteirão de distância, e ela se tocou que estávamos mesmo indo para a praia, ficou louca. Gritava maniacamente, começou a correr, uma coisa. E, bem, estava frio, né? Então minha mãe ficou no calçadão e eu desci com ela, as duas de calça e camiseta, e ficamos sentadas na frente do mar. E ela sentada, parada, olhando para o mar. E eu brincava um pouco com areia, e cavava um buraco, ela brincava e tal. Mas logo levantava, se afastava um pouco, sentava sozinha e ficava contemplando o mar. O que se conclui desse comportamento, eu juro que não sei.

.