
Cheguei pontualmente na hora (17h30, horário de trabalho), e encontrei uns quinze adultos sentados em semicírculo em cadeirinhas de crianças. Fechando a roda, a dona da escola, a coordenadora pedagógica e a professora do maternal ("tia S.", "tia R." e "tia A." -- que as crianças chamem os adultos de "tio" e "tia" é questionável, mas vá lá. Agora, os adultos ficarem chamando uns aos outros dessa forma é que não dá pra entender.). Ainda chegaram uns retardatários. No total, uns vinte pais -- alguns casais, poucos homens, montes de mulheres. O único pai sem cônjuge estava num acirrado debate ao celular antes da reunião iniciar oficialmente, perguntando a alguém (esposa? empregada? mãe?) se o pinguinzinho de brinquedo do filho dele era mesmo tão desbotado e surrado como aquele que ele estava vendo ali.
-- Será que é esse mesmo o do D.? Não tenho lembrança de estar assim tão surrado. E o chapeuzinho do pinguim? Esse aqui está meio inclinado para o lado. Você lembra se o do D. era inclinado? Eu não lembro de ser inclinado assim. Deve ser de outra criança, este daqui. É, esse chapeuzinho está inclinado. Não, acho que não era assim. Será outro? Vou perguntar aqui.
Olhei pra cima e suspirei.
Isto não está acontecendo. Isto não está acontecendo. Estava, é claro.
Começa a reunião. Alguns avisos. Aula de balé e capoeira para quem quiser, a partir dos dois anos. 50 reais, duas vezes por semana.
Pai do D.:
-- Mas se o meu filho for para a capoeira, ele não vai perder algum conteúdo dado em sala?
Olhei para baixo e respirei fundo. O pobre D. tem 1 ano e 8 meses.
Segue a reunião. Mais avisos. A Festa dos Pais, em agosto, será uma homenagem: o tema será anos 60 e 70. Fiquei sem entender se isso é em homenagem aos pais ou aos avós. Acho que nenhum pai ali presente nasceu antes da década de 70. Não explicaram, e ninguém perguntou. Enfim. A festa será num sábado, num Clube, e nós não vamos, mesmo. Exercitando
the art of letting go.
Assuntos diversos. O lanche. O problema frutas
vs. biscoitos. Mães reclamam que as crianças só querem comer biscoito. Que antes comiam frutas, e agora não mais. Notem que o lanche que é feito na creche é
levado de casa. Modos que. Quer que seu filho coma fruta, é só mandar fruta para a creche.
A mãe-mais-mocréia-de-todas:
-- Ah, mas é complicado, nem sempre dá para lavar, descascar, cortar, sabe como é, né? Eu estava mandando melancia cortadinha, lembra, Fulana? [para a amiga ao lado], mas depois não deu mais certo porque ficava azeda!
A mãe-tímida-com-a-raiz-dos-cabelos-carecendo-de-pintura sussurra para a professora (mas todo mundo escuta):
-- A M. está comendo todo o lanche dela?
Olhei para a janela. Tudo escuro lá fora.
Mais problemas. Crianças que eram muito amigas e agora estão em turminhas separadas, e choram porque sentem falta dos amiguinhos. Dilema. Vamos preparar as crianças que a vida é mesmo feita de mudanças
vs. Para que inflingir um sofrimento desnecessário tão cedo.
A mãe-descolada:
-- O E. sente muuuuita falta dos amiguinhos. Por exemplo, eu só consegui que ele parasse de mamar falando que o J. não mamava mais, a C. não mamava mais, e por aí vai. Ele adora esses amiguinhos, e como ele já tem 1 ano e 11 meses, já fala bastante, e vive falando deles.
A mãe-de-oclinhos-e-rabo-de-cavalo ao meu lado:
-- É verdade. Quando a S. mudou de turma, a C. começou a chorar todo dia para vir pro colégio.
Olhei para meus pés. Ainda bem que vesti uma boa meia fina, porque nessa cadeirinha mínima a canela fica muito à mostra.
A professora -- a figura mais sensata e interessante naquele freakshow, felizmente -- conta o dia-a-dia das crianças. Que de manhã, como os alunos vão chegando em horários diferentes, ela faz uma atividade mostrando as fotos de todos na parede e perguntando quem já está ali, e quem ainda não chegou.
Mãe-pequetitinha-e-atrasada, sentada do meu outro lado:
-- Mas a minha filha ainda não fala! Como vocês fazem nesse caso? Ela fica excluída dessa atividade? Imagino que muitos da turma ainda não falem. Ou não?! Só a minha filha é que não fala ainda???!!
Olhei para o relógio. Mathilde, tadinha, já deve estar louca pra ir embora, já passou da hora dela.
A reunião termina um pouco na marra, dado o adiantado da hora. O pai do D. vai lá, claro, falar sobre o pinguinzinho surrado do chapéu inclinado. As mães voam na professora para perguntar se meu filho isso, se minha filha aquilo.
Não sei vocês, mas eu estou terrivelmente pessimista em relação ao futuro da humanidade.
Filha querida, não desanima. Eu vou te levar para ver os patos de novo.

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