27.11.10

O Circo chegou


Vejo toda essa comoção em torno da ação da polícia na Vila Cruzeiro e Complexo do Alemão como um grande circo. Um espetáculo midiático como outros que já ocorreram por aqui. A diferença positiva desta vez é que todo o show vem a reboque de uma política de segurança já em implantação há alguns anos, as UPPs. Que têm problemas, claro, que têm de ser pensadas para além de sua implantação, que merecem um olhar crítico, mas que, daqui do minha pequena ilha da fantasia em Botafogo, me parece a melhor política de segurança que o Rio tem em décadas. E pelo simples motivo de ser uma ação contínua, e não pontual. Por isso é que o grande ataque desta semana, o "Dia D" (e que incrível cara de pau do jornal O Globo de colocar ontem no texto da primeira página uma comparação com o desembarque das tropas aliadas na Normandia!), não me comove. Os 450 policiais vão e vêm, bem como os 800 soldados do exército. Nada disso vai mudar a situação significativamente enquanto o Estado não for uma presença constante e rotineira na vida de todas as pessoas.
Mas que diabo, estou a falar obviedades.

Melhor então falar sobre os filmes que tenho visto em casa, durante esse meu período de resguardo. Nos últimos anos fui tão pouco ao cinema, e tenho tão pouco hábito de ver filmes em casa (seja no DVD, no computador ou na TV), que não falta filme para eu correr atrás. Nas últimas semanas vi Bastardos Inglórios, Gran Torino e até o filme sobre a criação do Facebook (A Rede Social), que me pareceu uma loucura total, porque acho surreal que uma bobagem como Facebook valha esse tipo de dinheiro. (Call me old fashioned, paciência.)

Mas, fazendo um paralelo com o primeiro parágrafo deste post, o que vi também na semana passada foi a trilogia O Poderoso Chefão.


(Parêntese para clamar pela desnaturalização desse título brasileiro, essa absurda tradução para The Godfather. O Poderoso Chefão é o tipo de título traduzido que achamos que existe em Portugal e damos gordas gargalhadas com a falta de noção reinante. Mas não. Lá o filme se chama O Padrinho, é claro! E aqui, O Poderoso Chefão. Chefão, amigos, prestem atenção, que aumentativo mais ridículo para um título de filme desse calibre!)

Mas tergiverso. Não sei bem por que resolvi pegar o filme, acho que li algo sobre como foi o único caso em que um filme e sua sequência ganharam ambos o Oscar de melhor filme. Já tinha visto a Parte I há muitos anos, mas não lembrava de nada, a não ser de algumas cenas isoladas, como a morte de Don Corleone na plantação de tomates. Então sentei com vontade para encarar as 3 horas de filme, e para mim não resta dúvida de que se há um filmaço na trilogia, é o primeiro. Lançado em 1972, com Marlon Brando roubando totalmente a cena como Don Vito Corleone. Na verdade, basta a primeira sequência do filme para te deixar boquiaberto. É uma tomada longa, em que um personagem secundário conta uma história triste para o Don Corleone e pede sua ajuda para fazer justiça. Tudo é carregado no chiaroscuro, e a câmera vai abrindo até aparecer a mão do Marlon Brando, e em seguida todo ele, visto de trás. Uma beleza.

Mesmo assim, tem umas partes que eu, na minha suprema ignorância cinematográfica, achei meio longas demais (como a temporada que o Al Pacino passa na Sicília, ou a terrível sequência do produtor de Hollywood com o Robert Duvall).

O Poderoso Chefão II, de 1974, sofre muito com a ausência de Marlon Brando. Confesso que, nas 3 horas e meia do filme, acabei me aborrecendo um pouco com o personagem principal (Al Pacino) e sua eterna angústia e rancor em relação ao mundo. A sorte é a parte em flashback, que conta um pouco da história do jovem Vito Corleone, interpretado por Robert DeNiro, um bálsamo. Sim, naturalmente é ótimo um filme que sugere mais do que mostra, e que te dá coisas para pensar depois que termina a projeção, mas quando o filme acabou fiquei cheia de perguntas por responder (afinal, qual era o grande lance da presença do irmão do Frank Pentangeli no julgamento do Michael? como o jovem Vito sobreviveu sozinho em Nova York com 9 anos de idade em 1901? e principalmente, como ele passou de jovem trabalhador de mercearia a capo? só fazendo pequenos roubos com o Clemenza?! Fantucci não trabalhava sozinho, como pode não ter havido reação a seu assassinato?). Achei este o mais cansativo dos três filmes.



O Poderoso Chefão III, de 1992, é quase uma paródia. A crítica incensa a parte 2 como obra de arte e essa parte 3 como desprezível, mas eu confesso que esta última me entreteve mais. Tem a participação da Sofia Coppola como atriz, que é tão ruim, mas tão ruim, que chega a ser divertido. Tem também o Andy Garcia, que é tão caricato que a gente até esquece do filme e se concentra só em observar como ele é bonito. E, claro, tem o Al Pacino, que em 1992 já era um ator pra lá de consagrado, e portanto interpreta, basicamente, seu papel de... Al Pacino.

O curioso é ver como, ao longo da trilogia, a família Corleone vai se vendo obrigada a se atualizar em sua atuação mafiosa. Jogos, armas e putas, depois drogas, depois a política e a lavagem de dinheiro - e sempre a venda da proteção e a exigência da lealdade. Sim, os banhos de sangue se repetem em cada um dos três filmes (tem sempre um momento "acerto de contas", com vários assassinatos simultâneos), mas os métodos vão se sofisticando com o tempo.

E é justamente isso que parece não acontecer com a questão do tráfico no Rio de Janeiro. As milícias sugerem de fato uma "evolução" do crime mafioso, por não se prenderem a um só produto - ainda por cima ilegal - e por serem mais maleáveis, adaptáveis. Esse modus operandi dos traficantes, com bunkers e territórios demarcados, me parece cada vez mais inviável de sustentar, por ser caro, pesado, pouco prático. Imagino o que será a nova tendência.

16.11.10

Brincando com Beethoven

Não se preocupem. Não vou encher a paciência dos meus 21 leitores falando que Mathilde está com uma tosse terrível que não vai embora e faz com que ela e eu passemos a noite em claro. Tampouco vou ficar aqui escrevendo que Oliver teve suas primeiras cólicas - porque afinal todo mundo sabe o sofrimento que é isso, e esse blogue não é fã de textos autocomiserativos. E muito menos vou ficar aqui me remoendo com o fato de que o pai dessas crianças adoráveis está viajando desde terça passada e só volta de vez no próximo domingo, o que faz com que as coisas fiquem beeeem mais difíceis.
Não, nada disso.
Vou deixá-los com uma das coisas mais incríveis que já vi no YouTube. Um menino de 3 anos regendo Beethoven. E a-do-ran-do. Todo mundo já viu aqueles fedelhos de 2 anos tocando Mozart no piano ou Paganini ao violino, né? Crianças-prodígio abundam, desde que o mundo é mundo. Mas um minimaestro eu confesso que nunca tinha visto. E vejam até o final, pois tem um grand finale.



http://www.youtube.com/watch?v=0REJ-lCGiKU

11.11.10

Agora sim

A foto dos irmãos, registro do primeiro encontro dos dois.

Oliver custou um pouco para chegar, mas quando veio, veio com tudo. A coisa toda aconteceu logo depois da publicação do post abaixo. Ali diz que a hora do post é 18:52, mas esta foi a hora em que comecei a escrever. Depois chegou gente aqui em casa, e só fui terminar e publicar perto das 10 da noite, pouco antes de ir dormir. Até encontrei a Frida Helê no GTalk, ela perguntou como andavam as coisas, eu respondi: acabei de publicar um post, agora vou dormir, nada de novo no front, etc. e tal.

A partir daí, no entanto, os acontecimentos se precipitaram.

Foi Mathilde quem deu início a tudo, e acho que ficaremos sempre na dúvida sobre o que aconteceu, se ela de certa forma "sentiu" que o irmão estava chegando naquela hora, ou se não passou de mera coincidência.

Por acaso, naquele dia (sexta, 29/10) M. veio dormir aqui em casa. (M. trabalha na casa de minha mãe há 34 anos (começou com a função de ser minha babá), e quando Mathilde nasceu ela passou 3 meses morando conosco, para nos ajudar. Desde então, sua ligação com a minha filha é uma coisa linda de se ver, de tão intensamente amorosa.) M. e Mathilde estavam brincando loucamente em casa até bem tarde, só depois das 22h é que a pequena foi dormir, e pouco depois eu também me recolhi. E então aconteceu que por volta das 23h M. veio nos dizer que Mathilde estava febril. E estava mesmo. Ardendo em febre, acima de 39°, enquanto que menos de uma hora antes estava absolutamente normal. Demos um antitérmico, e ela começou a se debater e gritar, como se estivesse sentindo muita dor. Gritava Mamãe! Mamãe!, mas não falava mais nada que fizesse sentido, apenas berrava e levava as mãozinhas à testa, como se estivesse com dor de cabeça. Mas não respondia quando perguntávamos onde doía, apenas balbuciava qualquer coisa e gritava Mamãe! Mamãe!

Eu, que me acho uma pessoa tranquila e desencanada (bah, e quem não se acha?), fiquei nervosa. Chorei com ela no colo. Nunca tinha visto Mathilde daquele jeito, demonstrando tanta dor e sofrimento. A muito custo, conseguimos que ela dormisse, na nossa cama, lá pela meia-noite.
À 1:00 da manhã eu ainda não tinha dormido, estava deitada, quando senti um jato de água quente entre as pernas. Não senti dor nenhuma, e como não era uma quantidade muito grande de água, achei que tinha perdido líquido, mas não cogitei que fosse a bolsa rompendo. Era.

1:30 comecei a sentir uma dor mais forte embaixo da barriga. Doze minutos depois, de novo. Comecei a acompanhar no relógio, e avisei o marido, que tampouco tinha dormido. Depois da quarta vez não tive mais dúvida e não quis mais esperar. Liga pro médico e vamos pra maternidade. Nesse meio tempo, Mathilde meio que acordou, e gemeu mais um pouco, voltando a dormir. Eu já cambaleava quando deixamos Mathilde com M. e descemos para pegar o carro.

Quando ligamos para o médico (2:00) descobrimos que ele já estava na maternidade. Primeira reação: ainda bem! Não vou precisar esperá-lo chegar. Segunda reação: put*a m*erda, ele já está fazendo outro parto! De fato ele já estava lá com outra paciente, mas num trabalho de parto demoradíssimo, que se arrastava por horas e estava longe de acabar. (Uma parturiente que não queria tomar anestesia. Eu hein. A criança só foi nascer às 6 da manhã, e passou os dois dias seguintes chorando furiosamente. O andar todo ouvia.)

No carro a caminho da maternidade, um toque especial. O rádio, sempre sintonizado na MEC FM, tocava o Concerto para Cravo de Manoel de Falla, uma peça que marido e eu ouvíamos muito no início do nosso namoro, e que eu não ouvia há uns dez anos, no mínimo. A propósito, uma música linda.


Chegamos à maternidade umas 2:30 da manhã. Fui para uma salinha de exame, e uma plantonista esquisita, com cara de punk dopada e que certamente estava dormindo numa sala de repouso até 2 minutos antes, constatou 3cm de dilatação e fez comentários no mínimo curiosos enquanto eu berrava de dor. ("Ih, meu bem, tá doendo tanto assim quando eu encosto aqui? Nossa, que estranho!" -- uma coisa super apropriada a se dizer.)

Fui colocada num elevador, e as enfermeiras me conduziram até um vestiário, onde tirei a roupa e pus um avental. Nesse ponto, estava sentindo uma dor inenarrável. Fui para a sala de pré-parto, onde encontrei marido (que ficara na recepção resolvendo burocracias de internação) e, para grande felicidade, o doutor M. A felicidade só não foi maior porque descobri que a louca que já estava em trabalho de parto desde o meio-dia não queria anestesia (por quê, Senhor, por quê?!), portanto a equipe médica toda já estava lá, exceto o anestesista. As contrações já estavam acontecendo a intervalos muito pequenos, eu me sentia num estado quase permanente de dor incrível, o corpo todo retesado procurando alguma espécie de alívio, que não vinha.

Então, entra o anestesista.

A partir desse ponto, tudo muda radicalmente de perspectiva. De "pára o mundo que eu quero descer; não aguento mais; alguém me mata, por favor", passamos para "ah, que legal, meu filho vai nascer; vamos lá, pessoal; nossa, que maneiro isso tudo". Depois me disseram que quando há rompimento da bolsa a dor é muito maior, é o chamado "parto seco". Com Mathilde a bolsa não rompeu, e a água de certa forma ameniza a dor das contrações. Quando ela nasceu, lembro de ter sentido muita dor, mas não lembro de ter sido tão intensa assim. Por outro lado, dizem que a gente só decide ter um segundo filho porque a memória seletiva trata de apagar a lembrança da dor do primeiro.

(Parêntese para a inevitável digressão sobre o assombro das mulheres que têm uma penca de filhos sem anestesia, desde que o mundo é mundo. Fico pensando naquelas que, por circunstâncias diversas, têm seus filhos sozinhas, em lugares isolados, ou no meio do mato. Isso, minha gente, é empoderamente feminino. Uma mulher capaz de dar à luz sozinha é capaz de qualquer coisa. Mesmo.)

Depois foi muito rápido. Logo nos mudamos para a sala de parto porque a dilatação já estava em 9cm (o máximo é 10). A parte da expulsão (o clássico momento "Força!" que o cinema tanto gosta de usar para representar um parto) foi tão rápida que quando colocaram o bebê no meu colo, às 4:10 da manhã de sábado, dia 30/10, eu lembro de ter ficado atordoada: como assim? já?!

E foi assim que, no segundo turno da eleição 2010, eu não votei para presidente.

29.10.10

Eu quero votar pra presidente, meu filho!

Isso foi mais ou menos o que eu fiquei dizendo a Oliver durante a última semana. Queria que ele nascesse logo para que no domingo eu já tivesse tido alta e pudesse exercer o tal do dever cívico. Mas de nada adiantou. 40 semanas hoje, e nada de esse menino dar as caras. Agora estou dividida entre querer que ele nasça entre amanhã (ou hoje ainda, que dá tempo!) e domingo, e querer que espere até segunda, virando o mês e emplacando a data-código-binário 01.11.10.

Mas enfim, seguimos na luta. Fiz exames hoje (a trinca ultra-cardio-doppler) e está tudo ótimo, basta apenas que sua-majestade-o-bebê decida que chegou a hora.


Quero votar pra presidente porque é claro, é sempre tão importante votar pra presidente. Mas acima de tudo, quero que esse segundo turno maldito termine logo, o que será um grande alívio. Depois de ter votado em Marina no primeiro turno, vou votar na Dilma no segundo, mantendo uma tradição de votar no PT para a presidência desde a primeira oportunidade(que para mim foi em 1994).


Não tenho qualquer dúvida em votar na Dilma e não no Serra, mas não partilho a empolgação de tantos amigos, e lamento que o segundo turno tenha chegado a radicalismos tão bisonhos (tipo "Serra é uma ameaça à democracia" - ora, me poupem). Na verdade, escolho a continuação da gestão petista como escolhi algumas coisas para a obra recente aqui em casa: custa caro pra caramba, mas, bem, vamos pagar, porque em última instância, vai ser melhor. Então voto porque acho que vai ser melhor pro país, porque acho inegáveis os avanços do governo Lula e quero que eles continuem, mas sabendo que o preço do meu voto são minhas ilusões perdidas, acrescidas de juros de uma porção de coisas com as quais discordo e que fazem parte da linha de governo petista. A balança pendeu para um lado, então vamos em frente. (A menos que. Vocês sabem. Venham "as dores".)


Enquanto isso, nos últimos dois dias me senti menos disposta, mais exaurida. Tudo é um esforço. Dormir, andar, brincar, comer, beber, jogar conversa fora. A pele esticada a níveis inimagináveis, os órgãos todos apertados, a respiração curta. Como já escrevi antes, o design do corpo da mulher deixa muito a desejar nessa hora. A natureza é sábia uma ova. (Essa frase só pode ser de autoria de um homem.)


Comecei a ler Comer, Rezar, Amar, dentro da minha auto-imposta obrigação de ler os best-sellers por interesse profissional. Literatura feminina que vendeu mais de 4 milhões de livro no mundo e virou filme com a Julia Roberts, não exatamente o tipo de livro que se possa desprezar, para quem trabalha nesse mercado. Mas estou achando meio chato. Gostei da primeira parte, o "Comer", que se passa na Itália. Mas agora que estou no "Rezar", na Índia, a coisa empacou de vez. E mal cheguei à metade do livro (que é grande para os padrões bestsellerísticos). Ainda falta todo o "Amar", na Indonésia. A autora é prolixa demais, rola uma blablabla sem fim que eu não estou podendo.


Então fui à locadora (sim, eu ainda sou do tipo que vai à locadora!) esta semana, e peguei Linha de Passe, do Walter Salles, e A Fita Branca, do Michael Haneke. Gostei dos dois. Linha de Passe não é tão impactante, não é opulento, mas é sincero e funciona bem na transmissão de um momento na vida dos personagens, todos tão verossímeis. Já A Fita Branca (que peguei porque amei Caché, do mesmo diretor) é mais confuso, literalmente - o filme é p&b e por vezes não consegui distinguir alguns personagens. Tem um monte de crianças super parecidas, com roupas semelhantes, e os adultos também se parecem, de modos que ficou difícil às vezes entender quem estava fazendo o quê. Mas gostei do filme, tem aquele climão bergmaniano norte-europeus-moralistas-de-fachada-mas-no-fundo-ultra-reprimidos-e-problemáticos. É daqueles filmes dos quais, nas CNTP, a gente sai direto para o chope, para discutir e conversar a respeito - uma das coisas boas da vida.


No mais, estamos sem TV, só na base dos DVDs. Marido teve um raro acesso de fúria com a Net e cancelou o serviço, a despeito de todo aquele chororô e atendimento VIP (com direito a enormes descontos) que rola depois que você decide cancelar. A tudo ele resistiu estoicamente ("eles acham que é assim, te oferecem 50% do preço por seis meses, como se fosse uma cenoura na frente do cavalo"), e eu dou todo o apoio. Como nosso humilíssimo prédio não possui antena, não pega nem a TV aberta - de modos que nossos planos para hoje à noite são assistir ao último debate pelo rádio. Ou não.

Outras notícias em breve. A menos que. Vocês já entenderam.

23.10.10

Fotos de Oliver e Mathilde

Ha. Enganei vocês com este título. Mas a situação continua nesse pé. Oliver lá dentro, nós aqui fora, esperando. E fotos da barriga são como congelamento de cordão umbilical e livro do bebê: fez para o primeiro filho, tem de fazer para o segundo também. Não tenho irmãos, não sei bem como lidar e não quero começar logo com esses traumas de rivalidade fraterna. De modos que. Fizemos a sessão de fotos com minha madrinha fotógrafa.


No mais, não há muito mais. 39 semanas. A lua mudou e nada aconteceu. Andei bastante, fiquei muito em pé, e não adiantou nada. Próximo passo é comer comida apimentada, tomar chá de canela e gengibre. E sexo também, dizem que acelera, mas pelamordedeus, tem uns impedimentos anatômicos bem desconfortáveis.

Então tenho ficado em casa, e Mathilde está a-man-do ter a mãe e o pai por perto o tempo todo. Está tão alegre e fofa. Na sessão de fotos, revelou-se uma estrela nata. Inibição zero. Posou, tirou a roupa, acatou todas as instruções, um arraso. Tudo de Oliver já está pronto. Malas feitas, fraldas a postos, berço arrumado, bebê conforto montado.

O que me resta é ler e tentar arrumar meus livros na estante. Já li o novo Ken Follett, e embora não seja tão sensacional quanto Pilares da terra, é um livraço (em todos os sentidos, incluindo as mais de 900 páginas). Os últimos 30% do livro são a melhor parte, de modos que no finalzinho fiquei lendo até as 5 da manhã para terminar. Morri de pena de saber que o segundo volume da trilogia O século (sobre o séc. XX) só sai em 2012. Assim como em Pilares e Mundo sem fim, Follett escreve um novelão com diversos núcleos que vão se entrecruzando ao longo da história, alternando fatos e personagens reais aos fictícios. Neste Queta de gigantes, são 5 famílias (inglesa, americana, galesa, alemã e russa) vivendo as transformações dos anos 10 e 20 (Primeira Guerra Mundial, Revolução Russa, Entre-guerras. Fala bastante sobre a luta das sufragistas pelo direito de voto das mulheres, o que é um aspecto bem interessante. E, claro, sobre a luta de classes e a diplomacia internacional, como era de se esperar.) Não espere grandes sacadas literárias. É ficção comercial de alto nível, com um detalhamento de pesquisa história formidável.

É claro que antes de sair de férias e licença separei, no trabalho, alguns arquivos de manuscritos que quero ler (livros cujos direitos de tradução para o Brasil estão disponíveis). Um deles foi um livro de memórias do Rob Lowe, vejam vocês. Não que eu ache que devamos publicar no Brasil as memórias do senador McAllister de Brothers & Sisters, mas é que fui tão fã dele na minha adolescência, que quis conferir, por interesse pessoal. O manuscrito não está nem terminado, só foram disponibilizadas as primeiras 150 páginas, mas é muito acima da média desse tipo de livro. Não sei quem o auxiliou na redação, quem foi o ghost, mas é alguém muito bom. O trecho termina com as filmagens de Vidas Sem Rumo, primeiro filme de Lowe (aos 18 anos). Ele já começou como protagonista, e dirigido pelo Coppola. Nossa, foi um mega flashback, lembro muito desse filme. Apesar de ter sido lançado nos EUA em 1983, eu devo ter visto pelos idos de 1988, 89, por aí, no auge da minha fase tiete de Tom Cruise e Rob Lowe (pôsteres colados na parede e tudo). E Vidas Sem Rumo, além de Cruise e Lowe, tem mais uma penca de gatinhos: Patrick Swayze, Emilio Estevez (que é simplesmente a cara do pai, Martin Sheen, que por sua vez, pouco tempo antes quase tinha sucumbido durante das filmagens de Apocalipse Now, do mesmo Coppola*), Matt Dillon pré-Selvagem da Motocicleta (outro filme de Coppola), Ralph Macchio pré-Karate Kid e Thomas Howell. O resultado é que fiquei escarafunchando o YouTube vendo trechos do filme adolescente sobre as disputas entre os rebeldes e os mauricinhos de Tulsa, Oklahoma, nos anos 50. Outra madeleine.

Fora os livros, consegui ir ao cinema uma vez, numa quinta-feira às 14h, ver Tropa de Elite 2. Já tinha gostado do 1º filme (que vi grávida de Mathilde), e achei este ainda mais fantástico - menos violento, mas ainda mais brutal, pela complexidade do assunto. É daquelas obras que te fazem sentir vivendo num reino da fantasia, num mundinho à parte, totalmente descolado da realidade da sua própria cidade. Filmaço.
(Mais engraçado foi descobrir que uma colega de trabalho mora num prédio na Lagoa, cujo síndico é ninguém menos que Rodrigo Pimentel, o real Capitão Nascimento - e autor dos livros e roteirista dos filmes. Diz ela que depois que ele assumiu o cargo, o prédio ficou um brinco. Ninguém mais pára nas vagas erradas - que são poucas e costumava dar a maior briga entre os vizinhos -, ninguém mais faz barulho tarde da noite, ninguém mais prende o elevador etc. Achei a situação surreal e hilária.)



Então por enquanto é isso. Dicas de livros e filmes serão bem-vindas. Hoje é sábado, e domingo me parece um excelente dia para nascer, pois não? Já passamos pela segunda data cabalística do mês (depois de 10.10.10, foi 20.10.2010) e já perdemos a oportunidade de ter mais um libriano na família. (Não entendo nem acredito em horóscopo, mas confesso que ter um bicho peçonhento como escorpião à guisa de signo não me parece muito entusiasmante.)


Se der, volto a escrever aqui antes do nascimento, a respeito da frustrante experiência que passei para comprar um presente para Mathilde - o tal presente que o irmãozinho vai trazer, recomendado por tanta gente como forma de amenizar as tendências fratricidas.



16.10.10

Fermata

A Fermata, na notação musical, significa que uma nota (ou pausa) deve ser sustentada por mais tempo do que o indicado. A duração é indefinida, fica a cargo do intérprete. Em geral, é aquela hora em que o pianista respira, levanta os pulsos, antes de atacar a seção seguinte.

38 semanas, firme e forte. Compasso de espera. Doutor acha que será na semana que vem. Eu também acho.

A casa está quase pronta. O novo mármore da bancada da cozinha, quando foi cortado com a maquita para encaixar as tomadas, provocou na casa inteira uma nuvem de pó de mármore que se arrasta por vários dias e resiste a sucessivas faxinas. Mas ficou bom, e quero crer que um dia ficará tudo limpo. Temos um novo armário, para fazer as vezes de despensa. O filtro foi substituído por um desses modernos "purificadores de água", que têm refrigeração e portanto evitam que se abra a geladeira para pegar água.

Mas principalmente, fizemos uma mega-arrumação, daquelas de rever conceitos, como mudar as coisas de lugar (não os móveis, mas as coisas e seus lugares nas estantes e armários) e principalmente jogar muita, mas muita coisa fora. É como se a casa tivesse feito uma cirurgia de redução de estômago e perdido 40kg. Ficou, por assim dizer, mais magra.
Minhas coleções de revistas (Nossa História, Bravo, EntreLivros)> doadas para a creche de Mathilde, para virar matéria-prima de trabalhinhos de colagem.
Pastas e mais pastas com extratos bancários de contas encerradas em 2003, comprovantes de pagamento de provedor de acesso à internet de 2000, boletos quitados de plano de saúde de 2002> lixo.
Peças antigas de computadores arcaicos> lixo.
Joguinhos de xícaras de café e potinhos de sorvete que ganhamos no chá-de-panela em 2005 e nunca usamos> doados.
E roupas, muitas roupas. Sapatos. Chapéus. Sobretudos e luvas de lã já há muito substituídos por itens mais recentemente adquiridos> doados.
E os livros, ainda em processo de depuração. Mas pode olhar aqui ao lado, no Mini Sebo, que já acrescentei algumas coisas. (E o lance de ser "leitor-vendedor" da Estante Virtual funciona mesmo, viu? Já vendi uma porção de livros por essa via, e deu tudo certinho.)
Muita boa essa sensação de desapego. Quanta coisa se acumula.

Roupinhas de Oliver já arrumadas e lavadas, em sua infinita quantidade, tudo fruto de doações e presentes. Roupinhas de Mathilde que não cabem mais e que não servirão para Oliver (porque tudo bem um filho meio metrossexual que use body de florzinha, mas para tudo há limites) já passadas adiante, em sua quantidade igualmente absurda. Quarto das crianças quase finalizado, faltando apenas a fofa decoração da parede que minha prima desenhou e que será colada na semana que vem (impressa em vinil, fica muito legal). Exclusiva e customizada, tipo luxo total.

Hoje sem falta vou fazer as malas (minha e de Oliver) para a maternidade. É nesse momento que bate um sentimento estranho. É agora. A qualquer momento vai sair de dentro de mim um bebê. Outro ser humano, com coração, rins, pulmões, olhos, língua, córtex cerebral etc. Uma sensação tão absurda que nem consigo descrever. Uma espécie de teatro do absurdo, Esperando Godot ou O Deserto dos Tártaros, com a diferença que neste caso, Godot ou o exército tártaro não só aparece como surge de dentro do seu próprio corpo. É ao mesmo tempo estranho e muito bom, porque o que é racionalmente absurdo é também emocionalmente tão poderoso que escancara os limites da razão com um amor que vai brotando sabe-se lá de onde, que não se imagina possível, factível ou viável, mas que existe, pesado de tão concreto, esmagando qualquer tentativa de resistência.

Viver é um negócio muito curioso.

10.10.10

10/10/10

Confesso que essa noite fiquei apreensiva. Oliver se mexeu tanto, mas tanto, que praticamente não consegui dormir. E minha barriga ficou dura. Quase morri de tanta dor nas costas. E senti uma pressão nos ossos pélvicos.

Pensei: Ah, é só o que me faltava, querer nascer justo hoje.

Não porque eu só na sexta tenha parado de trabalhar, e portanto tenha o DIREITO de ter umas 2 semanas de folga para acabar de terminar a zona que ainda está na casa.

Mas porque hoje, dia 10/10/10, todas as maternidades vão estar lotadas com cesarianas agendadas pelas loucas da numerologia.

E eu me pergunto: como é que pode?

5.10.10

Trinta e quatro

Ano passado, o 5 de outubro deslanchou em um turbilhão de memórias, um momento terapia-tudo, que foi ótimo e lamento ter interrompido.

Este ano, o 5 de outubro está na direção oposta, olhando só para a frente, querendo criar e adivinhar o futuro.

De qualquer forma, a caixa de comentários está aberta para os parabéns e depoimentos elogiosos à minha pessoua, ha.

1.10.10

Atendendo a pedidos

Mathilde, 2 anos e 8 meses

Voltamos para nossa casa no fim de semana passado, depois de 3 semanas fora. Pintura, reforma dos armários, ajustes menores e maiores, e enfim à casa tornamos. Mathilde felizmente gostou de seu novo quarto (que até então tinha sido o quarto de casal, e que decidimos trocar por uma questão de armários) e principalmente de sua nova cama, que passou a ser uma cama de solteiro tamanho adulto, e não mais a mini-caminha que ela tanto adorava (e que vai voltar a ser um berço, agora para Oliver). Também, haja mise-en-scene de nossa parte para transformar o fato da nova cama num acontecimento mágico, fantástico e extremamente positivo. Foi um tal de todo mundo dizer "Mas que cama mais linda!", que acabou funcionando. Com auxílio de novas roupas de cama de bolinha, florzinha e borboletinha, é bom que se diga.


Fico impressionada em ver como ela já é realmente uma pessoazinha, com quem se pode falar de tantas coisas. Uma precisão linguística que para mim é surpreendente. Ela não diz, por exemplo, que o pai não deve deitar na nova caminha dela porque é muito grande. Diz que ele não deve deitar porque é grande demais. E quando, menos de 2 horas depois de jantar um belo prato de arroz, feijão, carne, batata e cenoura, com direito a melancia e jujuba de sobremesa, ela diz que está com fome e quer "comer uma coisinha", eu faço minha cara mais cética, ela resolve mudar a ênfase e em vez de dizer que quer comer, diz que precisa comer uma coisinha*.

A pessoazinha também anda muito carinhosa com a mãe. Quase morro quando ela me abraça e diz "Você é a minha barrigudinha!". E faz muito carinho na minha barriga quando, à noite, depois da caminhada de volta do trabalho pra casa, eu me queixo que a barriga está doendo. E depois do carinho me olha muito séria e pergunta: "Melhorou?".


Tento passar o máximo de tempo com ela, aquele "quality time" em que a gente se dedica totalmente, porque sei que daqui a poucas semanas (mais 2? mais 3?) vem um rolinho compressor que vai mudar pra sempre o nosso relacionamento, transformá-lo em outro -- provavelmente melhor, no longo prazo, mas de qualquer forma é sempre uma mudança e tanto.

Eu trabalho até o final da próxima semana. Depois entro de férias, e emendo na licença-maternidade. Oliver está ótimo, de cabeça pra baixo na posição certinha (virou quando eu já tinha quase perdido as esperanças, depois de passar a maior parte da gestação sentado), mexendo muito muito muito. Até agora, nenhuma contra-indicação para parto normal, como foi o de Mathilde. Eu estou bem, na medida do possível das 36 semanas (= dormindo mal, andando bem devagar, mal conseguindo amarrar os cadarços do meu Reebok Madeleine, etc.). Mas não engordei demais (acho que uns 9kg até agora), a pressão está normal e a temperatura mais amena está ajudando a não inchar tanto. É como diz o ditado: a gravidez dura 8 meses e 1 século.

Ainda não me caiu a ficha de que em breve terei dois filhos. O quarto agora é o "das crianças". Às vezes me pergunto que loucura é essa, onde estávamos com a cabeça quando resolvemos ter mais um, como vamos administrar essa zona.** Mas sei que tudo isso vai se esclarecer magicamente quando ele nascer, como foi da primeira vez. No fundo, vai ser mais uma oportunidade de eu descobrir tantas coisas boas dentro de mim.

*O diálogo:
-- Mamãe, eu
preciso comer uma coisinha.
-- O que você quer comer?
-- Arroz, feijão, carninha...
-- Ah, não, de jeito nenhum, você já jantou e está muito tarde. Quer comer uma banana? Um iogurte? Um biscoito?
-- Está bem.
Chegando na cozinha:
-- Então, o que você vai querer? Banana?
-- Hmmmm... Acho que pode ser uma jujuba.
Nem 3 anos de idade e a cara-de-pau inapelável dos adeptos da técnica do se-colar-colou. Impressionante.

**Disse um amigo com 2 filhos com 2 anos de diferença de idade: Criar um filho é como cuidar de um bichinho de estimação. Criar dois filhos é como administrar um zoológico.

22.9.10

Ausência temporária

Obrigada a todo mundo que escreveu pedindo notícias.
Estamos todos bem, mas por conta de reformas, pinturas e outros quetais, estamos temporariamente abrigados na casa dos meus sogros. Lá só tem 1 computador e, bem, o blog é secreto e anônimo, lembram?

Oliver está ótimo, quase 35 semanas e super saudável, mexendo à beça e já com a cabeça pra baixo, como sói.
Mathilde também está boa, se acostumando a ficar na casa da avó, cada vez mais fofinha.

Enfim, semana que vem espero estar de volta a casa.

Por ora é isso.