12.10.09

33 anos - parte 2

Continuação daqui.

Todas as minhas memórias, portanto, são de viver numa casa só de mulheres, nós 3 sempre, eu, mamãe e a babá/empregada. Meu pai aparecia de vez em quando, nem muito ausente, nem muito presente. Minhas avós estavam sempre mais próximas, em especial a mãe do meu pai, que, acho, procurava suprir as lacunas deixadas por ele. Além disso, era eu sua neta única, condição que durou muitíssimo tempo. Já para minha avó materna fui a 9ª dos 12 netos e 13 bisnetos que ela conheceu enquanto viveu (até 2003, pouco antes de completar 90), portanto já era mesmo de se esperar um tratamento, digamos, menos "exclusivo".
Por volta dos 3 anos fui para a escolinha, o Patronato Operário da Gávea, que na verdade não fica na Gávea, e sim no Jardim Botânico, bem perto da Lagoa. Houve épocas em que meu pai me levava todos os dias de ônibus, e em outras épocas era a babá. Depois passei a ir de condução, como se chamava na época. Era uma Caravan com uma dúzia de crianças amontoadas na caçamba -- precursora das vans que existem hoje. Acho que gostava do Patronato. Lembro da hora de dormir, quando cada criança tinha sua própria esteira, e eu, mesmo já grande, ainda precisava da minha chupeta para dormir. Esse vício eu só larguei aos 6 anos, com muita dificuldade. Eu me envergonhava, queria largar, mas não conseguia. Queria dormir na casa de meus primos, na casa das amigas, e tentava, sem a chupeta. Mas na hora de dormir, não havia jeito. Alguém ia sempre me buscar, já tarde da noite. Um sofrimento.
Em casa, no meu quarto, uma das paredes era liberada para escrever e pintar. Era a alegria dos meus primos, quando iam lá em casa, aquele recanto de liberdade infantil. Meus primos maiores escreviam lá no alto, muito acima do meu alcance. Eu passava as tardes rabiscando a área abaixo de um metro de altura. O mais curioso é que foi ali, naquela parede, que aprendi a ler e escrever. Foi durante umas férias de verão, e eu era muito novinha, uns 4 anos. Quando as aulas recomeçaram, eu deveria ir para o Jardim II, mas como já estava lendo, e bem, me pularam para o C.A. E foi assim que me tornei, para sempre, a caçula da turma.
Mais ou menos nessa época minha avó (paterna) me colocou no balé. Na escola de dança Dalal Achcar, onde estudava a nata da fina flor da sociedade carioca. E eu. Minha avó me apanhava de carro duas vezes por semana, me levava para a aula, esperava lá, e me trazia de volta para casa. É engraçado, minha avó sempre teve essa coisa bem suburbana de querer parecer fina. Se vestir super bem para ir me levar ao balé. Querer que eu estudasse na escola de balé mais grã-fina. E eu curtia isso muito. Por exemplo, ela tinha carro, o que para mim era o máximo. Nem minha mãe nem meu pai tinham carro, a gente fazia tudo de ônibus. Minha avó tinha um Voyage dourado, que eu achava chiquérrimo. Já a mãe da minha mãe tinha um Fusca bege (apelidado pela família de "Pata de Elefante"), que eu achava de uma pobreza tamanha. Minha tia adora contar uma história (de que eu não me lembro, claro) segundo a qual eu teria dito, com cara de nojinho, que em Fusca eu não entrava -- isso para mostrar como minha outra avó tinha me transformando numa mini-perua-wannabe. (Parênteses para registrar o fato curioso de minhas duas avós -- nascidas em 1913 e 1924 -- terem trabalhado fora a vida inteira, e dirigido seus próprios carros. Não era comum para a geração delas, e sem dúvida fui muito influenciada por essa postura de vida.) Mas enfim, o balé era legal, e eu continuei até uns 12 ou 13 anos, quando mudei para jazz e depois para o sapateado. Tenho ótimas lembranças do balé, inclusive de ter dançado uma temporada do "Quebra-Nozes" no Teatro Municipal no final de 1984 ou 85, por aí, como parte do corpo de baile infantil. Era um trabalho, e eu gastava a maior onda por ter essa responsabilidade.
Na verdade eu já tinha outros trabalhos. Remunerados. Aos 4 anos comecei a fazer as primeiras gravações de jingles e comerciais de rádio. Aquela coisa, "Papai, não corra na estrada!", etc. E cantava também. Aos 6 eu já estava na panelinha oficial do coro infantil das gravadoras. Minha mãe tinha os contatos no meio musical, viu que eu era afinada, e me pôs pra dentro. As gravações foram uma constante ao longo de toda a minha infância. Até os 15 anos eu ainda fazia uns coros. Era sempre a mesma turminha, para todos os discos. Xuxa, Balão Mágico, Trem da Alegria, Os Trapalhões... you name it. Mesmo outros artistas, como Beth Carvalho, Milton Nascimento, até mesmo Roberto Carlos, às vezes uma faixa precisava de um coro infantil, então lá ia eu. Era o má-xi-mo. Não só pelo lado profissional, mas porque eu matava aula na escola, e quando voltava mostrava todas as músicas em primeira mão para meus amiguinhos. E, céus, como eu gastava onda com isso, ensinando "Ilariê" para todo mundo na hora do recreio, meses antes de o disco sair.

(Continua)
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4 comentários:

Deh disse...

(nem vou falar nada, essas memórias de infância estão saborosíssimas e vou só esperar ansiosa pela continuação. Beijos em vc e na Mathilde!)

Clara Lopez disse...

Maravilha, ana, suas memórias são o que de melhor se pode ler em blog hoje. Agora, me explica -'gastar onda' já existe há muito tempo? Nunca tinha lido antes, caramba estou virando um fóssil...:)
Ah, e imagino que mathilde vai ter a parede dela tb pra rabiscar, achei muito boa a idéia, mas penso que foi o conjunto todo dos aparelhos culturais (caramba!:) que deu a vc essa escrita tão boa, interessante e fluida. Já disse que vc escreve bem à beça? Já, eu sei...:)
beijo,
clara

ps. fiquei um tempão pra colocar a meia aspa na expressão, por conta do email anterior, eheheheh

Ângela F. disse...

oba. momento terapia tudo :)
eu fui para o ca antes do tempo tb, mas chorei chorei chorei q queria voltar para brincar mais e mamãe deixou. eu e zé henrique, meu primeiro amor.

Anunciação disse...

Prossiga,prossiga...adorável narrativa;e real,o que é mais legal ainda.