28.12.09

Já voltei há tempos...

... mas meu computador ficou de beicinho com os 10 dias de abandono, e não liga mais. E ainda não consegui um técnico que venha aqui ver. Por isso não atualizei mais por aqui (no trabalho não rola; estou no computador marital agora). Ah é: não tem recesso de fim de ano no silviço. Continuo trabalhando, e portanto mandando emails para os agentes e editoras mundo afora, e estou fazendo a maior coleção de Out-of-Office-auto-replies da história.

A viagem foi ótima, Estrasburgo é uma graça, e os famosos mercados de natal são mesmo um monte de barraquinhas com bugigangas -- mas bugigangas de Estrasburgo, bem entendido. Além disso, lá nós patinamos no gelo em plena rua, e fomos no restaurante mais fantástico: La Cloche à Fromage, um restaurante só de queijos. Isso mesmo. Os pratos são viagens gastronômicas pelo universo queijando, 16 ou 17 pedacinhos de queijos diferentes para degustar. Tem fondue e raclette, que comemos também. Como diz marido, é tipo show. Até compramos uns queijos na lojinha do restaurante, que embalava a vácuo, e conseguimos trazer na mala.
Falar em mala, voltamos a tempo: no dia em que começou a nevar, e de lá pra cá, pelo que leio na imprensa, a coisa só piorou. O voo, aliás, foi um pesadelo. É um voo diurno da Air France, sai de lá de manhã, chega aqui à noite. E por conta da neve, atrasou 4 horas. Para resumir, de porta a porta foram 22 horas dedicadas à viagem. E com turbulência o tempo todo -- tempo este que não passava: vi uns 4 filmes (televisãozinha individual, yay!), todos meia-bomba, li livro, dormi, e nunca que chegava.
Mas finalmente chegamos, e Mathilde ficou toda feliz quando nos viu (porque no fundo rolava aquele medinho que ela fosse nos dar um gelo). Desde então tem estado, quase sempre, no maior bom humor da história. E até quando está meio mal humorada está fofa.
Eu é que ando lesada. Nos últimos 7 dias esqueci uma consulta de dentista (apesar de ter confirmado por telefone na véspera), no dia seguinte esqueci de ligar para me desculpar e marcar outra, esqueci minha bicicleta na garagem do trabalho (fui de bike, voltei a pé, e só percebi no dia seguinte, que já era Natal), e por fim troquei o dia da consulta da pediatra (era hoje e eu achei que era amanhã; ou seja: perdemos).
O Natal foi mega cansativo, e a perspectiva do réveillon (em Mauá, com crianças diversas) não inclui lá muito descanso mesmo. Mas tudo bem. Chato mesmo é que juntando França com Natal, preciso agora fazer uma dieta daquelas, como há tempos não faço. Quem sabe até mesmo voltar às reuniões do Vigilantes. Janeiro está aí pra isso mesmo.
Janeiro aliás, é aniversário de Mathilde. Dois anos, pra você que não se lembra. Jacaré vai fazer festinha? Nem eu...

13.12.09

Oh la la - que frio


Estamos em Paris, e faz um frio de lascar. A cidade é cheia, mas muito cheia de gente. São multidões andando pelas ruas, a qualquer hora, a qualquer dia, em qualquer quartier. São multidões se espremendo no metrô, em qualquer linha, em qualquer direção. São multidões se estapeando na luta por um táxi, a coisa mais preciosa do mundo depois da 1 da manhã e do último metrô. E são multidões pedalando nas maravilhosas bicicletas públicas da prefeitura (pega-se num ponto e deixa-se noutro, tudo controlado automaticamente e via cartão de crédito; a primeira meia hora é grátis, a segunda é 1 euro). As multidões enchem também as lojas, os restaurantes, os cafés, os bares e as boulangeries (crise? que crise?).
Amanhã partimos para Estrasburgo, onde, dizem, funciona o grande mercado de natal da França. Não sei o que esperar; será um grande camelódromo com bugigangas chinesas? Sei lá, tudo pode acontecer. Ah, sim, dizem tambem que lá é muito mais frio. Oh la la.

Atualizações a qualquer momento.

PS: E assim que voltar, meu relato sobre o Mengão Campeão, bien sûr.

26.11.09

Sobre como o calor derrete os miolos da nação

O ar-condicionado do meu quarto quebrou bem no início dessa insana onda de calor, que dura já umas semanas. O aparelho já contava muitos e muitos verões, e resolvi comprar um novo. Como de praxe, fui olhar nas lojas online. Submarino, Americanas.com, PontoFrio. Dos modelos de 7,500 BTUs, só encontro a mesma mensagem: "Produto Esgotado no Momento". Junte-se ao fato que o buraco na minha parede é relativamente pequeno, não são todos os modelos de ar que cabem, só os menores.
Então hoje, quando fez um calor medonho, resolvi procurar nas lojas não-virtuais. Na hora do almoço. Não, não fui bater perna no Centro nem na Av Copacabana. Fui ao xópin Rio Sul. Chegando lá, fui cortando as possibilidades. Nas Casas Bahia, nada, nem um aparelho pra contar história. Na Casa & Video, duas unidades, apenas, de marcas obscuras. Nas Americanas, nada, só vendem pelo site. E a AmbientAir fechou, o que muito me entristeceu.
Nada feito. Resolvi então almoçar. Hora do almoço num xópin center como o Rio Sul é um pesadelo. Um pesadelo com muita gente. Não quis encarar a praça de alimentação, não estava a fim de comer o que quer que fosse em frente a um lugar chamado Giraffas, assim com 2 fs, e com 2 girafas amarelas me olhando. Então subi 2 lances, vi um Garcia & Rodrigues que eu não conhecia, e pensei, vou lá. Bem em frente, um quiosque de café do próprio G&R, chamado Figaro Café. Sentei, olhei o cardápio e pedi quiche de alho poró com salada verde. Quando chegou, veio o quiche mais triste que eu já vi, acompanhado de umas folhas de alface com um molho amarelo.
Dei uma triste beliscada no quiche, que estava péssimo, e pedi a conta. O garçom, solícito, perguntou se havia algum problema.
-- Sim, esse quiche totalmente desmilinguido, e o fato de que isso não é uma salada verde, é só alface.
-- Mas é que a salada é só acompanhamento, é isso mesmo.
Veio a moça que fazia as vezes de maître - exceto pelo fato de que vestia uma blusa de paetês, um short preto, uma meia-calça preta e um sapato preto de salto agulha 10 e plataforma à la globeleza. Eu repeti o que havia dito ao garçom, e disse que estava desapontada, que o prato não fazia jus à fama gastronômica do restaurante.
-- Mas a salada que acompanha o quiche é simples, é só isso mesmo -- ela repetiu.
-- Olha: não existe salada de um ingrediente só.
Fui embora com fome (não cobraram o prato), já atrasada, e com calor, mesmo dentro do ar-condicionado do shopping (provavelmente porque não consegui comprar o meu ar, e estou cada vez menos esperançosa). Parei no Viena, voltei algumas décadas no tempo e pedi um petisco clássico da minha infância: a coxa-creme. Alguém não conhece a coxa-creme do Viena? Não sei como explicar. É a coisa mais entupitiva que se pode imaginar. Exatamente o que eu precisava.
Depois da coxa-creme, parei no McDonald's e comprei uma casquinha. Paguei e fui andando, já para descer e ir embora, quando, ainda de casquinha na mão, reparei que minha bolsa estava aberta e minha carteira tinha sumido. Pânico, pânico. Voltei correndo para o McDonald's.
-- Acho que deixei minha carteira aqui.
-- Deixou sim, senhora, eu acabei de entregar ao gerente.
Procurei o gerente com os olhos, e outro atendente me apontou:
-- Ali no salão.
De fato, lá estava o gerente, com a minha carteira de motorista na mão, procurando, entre os clientes do salão, uma "Dona O-Nome-Do-Meu-Pai". Tipo, suponha que meu pai se chame Walter. Ele estava perguntando quem era a Dona Walter.
Cheguei esbaforida:
-- A carteira é minha.
Ele me olhou, minha habilitação na mão:
-- A senhora é a Dona Walter?
-- Hein?
-- Walter, é o nome que está escrito aqui.
-- Claro que não! Esse é o nome do meu pai! -- e arranquei o documento da mão dele, que ficou meio sem graça e me devolveu a carteira.
Peguei um táxi de volta pro trabalho, depois dessa triste jornada. Dos 4 elevadores, 3 quebrados. Acho que até os elevadores sucumbiram ao calor.
Quando saí para pegar Mathilde na creche, passei no Ponto Frio que fica na esquina da Nova Nelson Mandela e perguntei se tinha ar-condicionado. O vendedor respondeu com aquele ar de quem já respondeu a essa pergunta 150 vezes hoje:
-- Só de 220V. De 110V, só para entrega daqui a vinte dias.
-- Vinte dias? Até lá eu já morri de calor, moço!
-- Pois é, não tem em nenhuma loja. E a indústria não está dando conta de produzir.

Então é essa a situação. Aquece a economia, os ar-condicionados somem no verão (porque já começou o verão, vocês sabem), e nossa potência industrial tropical não consegue repor os estoques.
Só espero que meu ventilador de teto aguente firme.

25.11.09

Da dificuldade da coisas simples

Li este post da Meg, e me lembrei da festinha de 1 ano da filha de uma amiga (que tem outra filha mais velha, de 3), que aconteceu na semana passada, e eu fui com Mathilde.
O convite (lindamente decorado) dizia assim:

Fulana faz 1 aninho, vamos comemorar!
Decidimos comemorar a data de forma bem simples.
Vai ser uma manhã no play para a criançada, pretendo alugar um pula-pula e levar os brinquedos das meninas lá pra baixo.
Graças a Deus, a Fulana é uma criança cheia de saúde e personalidade. E graças a Deus também não lhe falta nada! Tem um armário cheio de roupas que quase não cabe mais nada, um quarto cheio de brinquedos de todas as cores e tipos (tantas e tão generosas são as pequenas que chegaram antes dela).
Por isso queria pedir com toda sinceridade que vocês não comprassem presentes nesta data, queremos apenas a presença de vocês!
Quem quiser chegar mais cedo no dia para ajudar na produção, será muito bem vindo.
Quem ficar se sentindo de mão abanando e quiser trazer um cartão de aniversário bem lindo ou fazer uma contribuição com a animação da festa (trazendo uma brincadeira, uma fantasia emprestada ou um violão pra tocar) fique à vontade também.
O tema da festa é: festinha ecológica!
Sem embalagens, sem descartáveis de plástico, etc.
Queremos que a nossa Fulana viva em um mundo lindo e limpo... pra isso temos que mudar os nossos padrões de comportamento!
Com sinceridade,
Beltrana.

Eu gostei muito do conceito, e sempre tive essa questão com os presentes obrigatórios. Além disso, achei que a mãe, autora do convite, acertou no tom para abordar uma questão nem sempre fácil.
Bom, nós fomos na festa, que foi exatamente como descrito no convite. Tinha ainda uma coisa muito legal: não tinha música (que alívio!) e não tinha ninguém dirigindo as crianças, promovendo brincadeiras assim ou assado. No fundo, quem fez mais o papel de animadora fui eu, porque Mathilde só queria ficar no pula-pula, só queria que eu ficasse lá também, e como tinha outras crianças no pula-pula, promovi umas brincadeiras coletivas que devem me ter feito perder uns dois quilos, no mínimo.
A festa era ecológica (tinha muitas frutas, sucos, água de coco, pães, queijos, geleias), mas não deixou de ter parabéns com bolo de chocolate e brigadeiro. E tinha ainda uma coisa muito bem sacada: almoço para as crianças (arroz, feijão, batata cozida e carne moída), para cada pai servir na hora que achasse melhor (sem o momento "oficial" Hora do Almoço).
Enfim, eu achei um sucesso. Todas as crianças pareceram se divertir muito, cada uma a seu modo. Mathilde saiu carregada, desmaiada de tanto cansaço. Dormiu das 14h às 18h, de tão exausta. (Depois acordou a mil por hora e a esperta aqui é que se deu mal).
Dois dias depois escrevi para minha amiga, a mãe da aniversariante, dizendo o quanto eu tinha gostado da festa, dando parabéns pela iniciativa, etc. etc.
No fundo eu já meio que imaginava que resposta receberia:

"obrigada pela mensagem...
você talvez tenha idéia do trabalho que dá romper com padrões sociais simples...
o custo emocional é bem alto e apesar de você ter gostado... muita gente repudiou com veemencia a minha atitude!
A presença de vocês foi fundamental e me deu a certeza de estar no caminho certo!
Não devia ser tão difícil fazer uma coisa tão simples!"

Não, não devia mesmo. É preciso muita coragem para peitar essas convenções em nome de uma convivência obviamente mais saudável entre as pessoas. Que mundo é esse em que as pessoas se sentem ofendidas quando você pede que não se dê presentes para uma criança de UM ANO, que obviamente não entende ainda o que é isso e não se sente infeliz por não ganhar presentes.
Longe de mim não reconhecer o prazer de presentear. Mas é duro ter que batalhar tanto em nome de coisas tão simples.
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24.11.09

O New Deal na Nelson Mandela

Existe em Botafogo uma rua chamada Nelson Mandela. Só tem dois quarteirões de tamanho, e fica bem perto das saídas do Metrô. Há pouco tempo, presenciei um fenômeno que, acho, poucas pessoas vivenciaram neste século, no Rio: vi uma nova rua ser aberta. É de fato uma nova rua, com calçada, estacionamento, e duas pistas de rolamento. Mas fica paralela à Nelson Mandela, e curiosamente ficou com o mesmo nome, Nelson Mandela, como se fosse a mesma rua. É que entre as duas ruas Nelsons Mandelas teoricamente deveria haver uma praça, mas há coisa muito diferente: uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) construída recentemente, e um terreno baldio cercado que, acho, pertence ao Metrô.
Mas enfim.
O fato é que a Nova Nelson Mandela (que só tem um quarteirão e liga as duas principais ruas de Botafogo, a São Clemente e a Voluntários da Pátria) foi ótima para mim, fica bem no meu caminho entre casa e trabalho, e passo por ela todo santo dia. De um lado da Nova Nelson Mandela colocaram o ponto do ônibus do Metrô, e não tem mais nada além do terreno baldio -- nem mesmo calçada. Do outro lado tem uma calçada nova e um condomínio residencial enorme, que domina a rua de fora a fora. No térreo desse condomínio tem espaço para várias lojas de rua. Mas desde que a rua abriu essas lojas estão fechadas com anúncio de Aluga-se. Até agora não abriu nenhuma. Já ouvi dizer que pertenciam ao Grupo Estação (de cinema), mas que, por ficarem em frente à UPA e ao terreno baldio, eles deixaram de ter interesse e venderam as lojas. Não sei se é verdade. Só sei que, curiosamente, nenhuma loja abriu até o momento, e a nova rua já está lá há meses.


O interessante é que, na frente das lojas, tem umas gradezinhas brancas, e de tantos em tantos metros tem um postezinho entre as grades, com uma luminária. É meio feio, mas podia ser pior. O curioso é que obviamente a grade atrapalha completamente o acesso das pessoas às (futuras) lojas. Então são umas grades que parecem ser de encaixar nos postezinhos com luminárias. E desde que a rua abriu, parece que não chegaram a uma conclusão definitiva sobre essas grades. Tem dias que elas estão lá, tem dias que não estão, e tem muitos dias que elas estão sendo retiradas ou colocadas quando eu passo. Ou é uma grande coincidência, ou essas grades são colocadas e retiradas praticamente o tempo todo.


E aí eles arrebentam o chão (novo) para fincar ou tirar os postezinhos com luminárias. Depois consertam o chão. O fato é que tem sempre homens trabalhando em frente às (futuras) lojas. E na semana passada, por incrível que pareça, vi homens marretando a parede externa de uma das lojas! Destruindo completamente. E esta semana já estava construído de novo. Foi então que me dei conta: estão fazendo um New Deal nessa rua! Lembram, aquela história de que, durante a Depressão nos EUA, contratavam pessoas para abrir um buraco na rua, e depois contratavam outras para fechar o buraco, sem qualquer finalidade, apenas para gerar emprego. Só pode ser isso. Meu deus! Nunca na história deste país...

PS: Por falar em Nelson Mandela, li e recomendo Conquistando o Inimigo (de John Carlin, Ed. Sextante, 2009), livro teoricamente sobre a Copa do Mundo de Rúgbi de 1995, primeiro ano de Mandela na presidência da África do Sul -- mas no fundo sobre Mandela e seu imenso talento político. É um livro arrepiante, e tão bom que, imaginem, me fez ir ao YouTube procurar uns vídeos de rúgbi.

Outro PS: Essas fotos são exatamente do local a que me refiro, mas não são minhas. Dei uma busca e achei essas justamente num site de imobiliária! É de uma das lojas para alugar (R$ 8.000,00 por mês, for the records).
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22.11.09

Portátil

Como faço todo ano, divulgo aqui que estão abertas as inscrições para a EPM - Escola Portátil de Música, ano letivo de 2010.
São 26 cursos diferentes, de instrumento, teóricos, práticos, tendo como professores os melhores instrumentistas do Rio de Janeiro - sem favor - no ramo da música popular. O foco é o choro (não se diz chorinho, vocês sabem), e do choro se parte para tudo quanto é gênero que compõe a música popular instrumental brasileira.
As aulas acontecem nas manhãs de sábado, na Uni-Rio (Urca), e os preços são bastante em conta. No site tem todas as informações.

Eu já fui aluna da EPM por alguns anos, e, como praticamente todo mundo que passou por lá, me tornei catequista da causa. O clima na EPM é tão bom, você se sente tão à vontade, tão privilegiada de estar ali fazendo parte de uma coisa tão, tão bacana, que é difícil não querer incutir essa vontade nas pessoas que a gente gosta.
Pode ir assistir, também. Todo sábado 12h30 tem ensaio do Bandão, aberto ao público. Veja só como é:



A qualidade do video é ruim, mas dá para ter uma ideia. E se alguém tiver notícia de outro conjunto que soe melhor reunido uns 40 pandeiros, 80 violões, 20 cavaquinhos, 10 bandolins, 30 flautas, 6 trompetes, 2 trombones, 1 tuba, 10 saxofones, 15 clarinetas e 4 contrabaixos acústicos, me avise, porque eu juro que não conheço.
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16.11.09

Era uma vez um blogue chamado Terapia Zero

Morrendo de saudades de ser blogueira...

O furor autobiográfico vai dar um tempinho. Voltamos com a parte 5... no ano que vem, quando completar 34!

No mais, Mathilde é uma figura que nem lhes conto. Não sei bem como se dá essa passagem, mas chega um momento em que a gente começa a obedecer os filhos. Mas ela é tão bem humorada, e agora me mata de rir quando faz uma imitação perfeita... de mim. A "cara de mamãe" é uma testa franzida e um olhar meio oblíquo de reprovação "nível 1" (para faltas menores e quase desprezíveis). Ela faz só para rir junto. É uma pândega, essa minha filha.

No mais 2, vamos para a França em dezembro, 10 dias sem Mathilde. Dicas de regiões para se conhecer em pleno inverno? A princípio Alsácia, mas abertos a opções. Dicas sobre como aguentar a saudade do cotoquinho falante de 85 cm? Cartas para a redação.

30.10.09

33 anos - parte 4

A vida escolar transcorreu sem muitos problemas, ou pelo menos foi isso que ficou na minha memória. Logo fiz amigas no colégio, grandes amigas mesmo, daquelas de ir dormir na casa umas das outras. Hoje não tenho mais contato regular com ninguém do tempo do St. Patrick's. Esporadicamente encontro uma pessoa ou outra, mas nada muito relevante. Uma das minhas melhores amigas teve uma filha aos 13 anos, outra é atuamente diretora de novelas da Globo, uma terceira tem um salão de beleza no Leblon. Eu tirava boas notas, e não me preocupava muito em estudar em casa. Fazia os deveres, e só. Teve a época da tabuada, claro, que foi um pouco marcante. Minha mãe e meu pai, que se empolgou imensamente com a brincadeira, acreditavam piamente no aprendizado por meio da repetição, e viviam me perguntando, o dia todo, nos momentos mais inusitados: três-vez-oito? cinco-vez-sete? seis-vez-nove? Minha prima, uma série à minha frente, me ensinou a mágica da tabuada de nove: fazer duas colunas de algarismos, uma crescente, e outra decrescente, de 0 a 9 (0-9/1-8/2-7/3-6), e voilà.
Meu pai me ensinou a andar de bicicleta sem rodinha em plena rua, no Leblon. Hoje seria impensável, mas minha lembrança é nítida. Na calçada das ruas principais do bairro, ele correu atrás de mim segurando a parte de trás da bicicleta enquanto eu gritava para não soltar, mas quando vi, já tinha soltado há muito tempo e eu estava pedalando sozinha, sem rodinha. Ele me levava também para soltar pipa no Aterro do Flamengo, e organizava jogos de pique-bandeira ali na rua também, na General Urquiza, com outras crianças que moravam na área. Foi meu pai também quem me ensinou a jogar damas, e depois xadrez. (Numa olimpíada de colônia de férias, minha única medalha de ouro foi em damas!) Além disso, me dava muitos livros para ler. Acho que ninguém ficou tão feliz quanto meu pai, que é escritor, com a minha precocidade em aprender a ler. Outro dia achei uma carta que ele me mandou quando eu tinha 4 ou 5 anos. Ele estava em outra cidade, e me mandou pelo correio (envelope no meu nome!) uma carta batida à máquina dizendo o quanto ele estava contente porque agora eu já podia ler. Eu gostava de ler, e lia bem. Sempre me voluntariava para ler em voz alta na escola, e achava que os meus colegas liam horrivelmente mal -- ou pelo menos muito pior do que eu. Meu pai me ajudou a escrever um livro, "O Leão Triste", que demos de presente para minha prima no aniversário dela. Era uma colagem de figuras (leões, naturalmente) com desenhos e algum texto, escrito por nós dois. Não lembro qual era a história do leão triste, apenas do título. Minha prima também se lembra, mas acho que não tem mais o exemplar.
Não fui a criança mais atlética do mundo -- nem a menos. Continuava no balé. Fiz natação um tempo. Depois fiz ginástica olímpica no Flamengo, e mais tarde vôlei, no mesmo clube. Nunca era a melhor nem a pior. Na escola jogava queimado quase todo dia no recreio. Gostava da aula de educação física, mas, talvez por ser filha única, odiava quando meu time perdia. Foi assim que me envolvi na primeira e única porrada da minha vida, ainda na primeira série, numa aula de educação física, com uma menina feia, gorda e chata que ficou sacaneando meu time depois que perdemos. Foi também numa aula de educação física, no primário, que passei por uma das situações mais constrangedoras de que tenho lembrança. O St. Patrick's não tinha quadras cobertas para prática de esportes. Apenas um pátio, onde era o recreio e também as aulas de ed. física. Quando chovia, íamos para um auditório no último andar, que tinha um palco e um espaço grande e vazio onde, quando necessário, colocava cadeiras dobráveis. Num desses dia de chuva, durante a aula de ed. física, o professor propôs um jogo qualquer, com duas equipes. Não lembro os detalhes, exceto que era uma coisa meio complicada, sai dessa fila, levanta, pega uma bola, coloca em tal lugar, volta, passa o bastão para o próximo da fila, algo assim. Nem todo mundo entendeu as regras direito. As duas equipes ficavam sentadas no chão, e só uma pessoa de cada equipe ficava em pé, por vez, correndo para fazer as tais coisas com bolas, bastões, etc., até passar para o companheiro seguinte da equipe. Bem. A uma certa hora, num time estava A., que era minha melhor amiga, mas meio lesada das ideias, e no outro time outra menina, também limitada e insegura. As duas se confundiram e erraram tudo o que tinha para fazer, de uma maneira realmente patética. Todo mundo riu, e elas ficaram com vergonha. Mas a vergonha delas foi rapidamente desviada para mim, que ri tanto que fiz xixi na calça. Muito xixi. Tipo, havia uma poça de xixi em volta de mim. Eu não sabia o que fazer, onde me enfiar. Não queria levantar da minha poça de xixi, fiquei ali chorando até todo mundo levantar e voltar para a sala de aula. Eu nem voltei pra aula, fui pra casa mais cedo, totalmente humilhada pela minha própria incontinência urinária. Essa coisa de rir muito e fazer xixi na calça me acompanhou até a adolescência. Passei por situações muito desagradáveis por causa disso, mas nenhuma tão pública e tão traumática quanto essa da aula de educação física, que foi na primeira ou segunda série (ou seja, eu tinha algo em torno de 7 ou 8 anos). Deve ser algo genético. Minha mãe tinha o mesmo problema. Para ela o momento mais traumático foi quando, adolescente, com uma prima, conseguiram burlar a segurança de um hotel para falar com o Anthony Perkins (ou Jean-Paul Belmondo, agora não lembro, mas era um astro de cinema que elas idolatravam), que estava hospedado ali. Inacreditavelmente, conseguiram chegar na porta do quarto onde o ator estava hospedado, só para ter um ataque de riso, durante o qual minha mãe fez uma cascata de xixi e teve que sair correndo. Mas enfim, ainda acho que meu caso foi pior.
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23.10.09

33 anos - parte 3

Primeira parte
Segunda parte

Aos 6 anos tive que deixar o Patronato da Gávea, que só ia até o C.A., e entrei no Colégio St. Patrick's, depois de fazer prova para a primeira série. Não era uma grande prova, como hoje existem os "vestibulinhos" para entrada no ensino fundamental. Lembro de fazer essa prova sozinha, na sala da coordenadora ou coisa do tipo, uma folha com questões em letras violeta e ainda exalando cheiro de álcool do mimeógrafo. Tudo aquilo era novidade para mim, que não estava acostumada a testes, provas, etc. Não sei por que meus pais escolheram o St. Patrick's, um colégio irlandês, bem tradicional (ecos bostonianos, talvez?). Não conhecíamos ninguém que estudasse lá. Aposto minhas fichas no quesito praticidade. O St. Patrick's era na mesma rua onde eu morava, a meros 3 quarteirões de distância. Era (ainda é) um colégio médio em tamanho. Na época tinha duas turmas de cada série, com cerca de 25 alunos cada uma; ia do C.A. à oitava série, e hoje em dia tem segundo grau (ensino médio, que seja). A dona do colégio era uma senhora irlandesa, temidíssima, Mrs Maureen, que falava com um sotaque carregado, como se tivesse chegado ontem de Dublin. Ou Belfast. Parece que ainda é viva, volta e meia alguém me diz que a viu fazendo compras num supermercado do Leblon. Se for verdade, Mrs Maureen deve ter uns 120 anos, por aí.
O diferencial "irlandês" do St. Patrick's era o ensino de inglês. Desde a primeira série tínhamos aula de inglês cinco vezes por semana. O colégio tinha também turmas especiais para estrangeiros, com todas as matérias em inglês. Mas essas turmas eram de manhã, eu estudava à tarde e não tinha contato com os angloparlantes. A professora de inglês dos cinco dias por semana era a mesma da primeira à oitava série: Teacher Terezinha. Tanto convívio era fatal, e na terceira série todo mundo já detestava a professora e seu ritual diário: Good afternoon, class; Good afternoon, Teacher; How are you today?; I'm fine, thank you, and you, Teacher?; I'm fine, thank you, class. A turma falava em uníssono. Ainda no quesito Irish Pride, comemorávamos o St. Patrick's Day todo 17 de março. Até hoje sempre me lembro da data.
Como de costume, a primeira série foi o início de uma vida institucionalizada, de rotinas, horários, deveres de casa. No primeiro dia de aula, eu com meu novo uniforme, de blusa branca de botões com um trevo bordado no bolso do lado esquerdo, saia de pregas verde, meia branca e sapato preto tipo boneca, fiquei fascinada com a possibilidade de comprar lanche na hora do recreio. Aquilo era uma novidade completa. Fui, com a maioria das crianças, para o refeitório comer o lanche fornecido pela escola (groselha, biscoitos de maizena), mas fiquei pasma com os alunos que compravam misto quente e coca-cola (garrafinha caçula) na cantina. Levar dinheiro para escola! De qualquer forma, eu levava dinheiro muito raramente, e quando isso acontecia quase sempre era para comprar biscoitos de polvilho ou paçoca. No dia-a-dia, ficava mesmo com a groselha e os biscoitos maria -- e achava aquilo muito bom.
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14.10.09

S.O.S. doação de livros

Temos uma porção de livros estrangeiros novos lá no trabalho, enviados por editoras ou agentes literários como opções para publicação, que decidimos não publicar. As editoras/agentes não pedem os exemplares de volta. Nós também não queremos ter a despesa de enviar pacotes para o exterior o tempo todo, sem necessidade. Assim, ficamos com esse problema. Centenas de livros novinhos (não só lançamentos recentes como em excelente estado de conservação) ocupando espaço.
Eu tinha arranjado de doar para uma ONG aqui do Rio, mas hoje fiquei sabendo que eles deram para trás e não apareceram para buscar os quase 200 livros já separados e encaixotados, e nem vão mais aparecer.
De modos que:
alguém conhece alguma instituição que se interesse?
São livros em inglês, em sua grande maioria.
Talvez cursos de inglês, ou cursinhos, ou bibliotecas comunitárias?
Sei lá. Alguma ideia?
A única condição é ir buscar (em Botafogo, RJ).
Tem ficção, não ficção, juvenil, infantil...
Quem tiver alguma sugestão, por favor indique nos comentários.
Obrigada.
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13.10.09

F*ck the fashion

12.10.09

33 anos - parte 2

Continuação daqui.

Todas as minhas memórias, portanto, são de viver numa casa só de mulheres, nós 3 sempre, eu, mamãe e a babá/empregada. Meu pai aparecia de vez em quando, nem muito ausente, nem muito presente. Minhas avós estavam sempre mais próximas, em especial a mãe do meu pai, que, acho, procurava suprir as lacunas deixadas por ele. Além disso, era eu sua neta única, condição que durou muitíssimo tempo. Já para minha avó materna fui a 9ª dos 12 netos e 13 bisnetos que ela conheceu enquanto viveu (até 2003, pouco antes de completar 90), portanto já era mesmo de se esperar um tratamento, digamos, menos "exclusivo".
Por volta dos 3 anos fui para a escolinha, o Patronato Operário da Gávea, que na verdade não fica na Gávea, e sim no Jardim Botânico, bem perto da Lagoa. Houve épocas em que meu pai me levava todos os dias de ônibus, e em outras épocas era a babá. Depois passei a ir de condução, como se chamava na época. Era uma Caravan com uma dúzia de crianças amontoadas na caçamba -- precursora das vans que existem hoje. Acho que gostava do Patronato. Lembro da hora de dormir, quando cada criança tinha sua própria esteira, e eu, mesmo já grande, ainda precisava da minha chupeta para dormir. Esse vício eu só larguei aos 6 anos, com muita dificuldade. Eu me envergonhava, queria largar, mas não conseguia. Queria dormir na casa de meus primos, na casa das amigas, e tentava, sem a chupeta. Mas na hora de dormir, não havia jeito. Alguém ia sempre me buscar, já tarde da noite. Um sofrimento.
Em casa, no meu quarto, uma das paredes era liberada para escrever e pintar. Era a alegria dos meus primos, quando iam lá em casa, aquele recanto de liberdade infantil. Meus primos maiores escreviam lá no alto, muito acima do meu alcance. Eu passava as tardes rabiscando a área abaixo de um metro de altura. O mais curioso é que foi ali, naquela parede, que aprendi a ler e escrever. Foi durante umas férias de verão, e eu era muito novinha, uns 4 anos. Quando as aulas recomeçaram, eu deveria ir para o Jardim II, mas como já estava lendo, e bem, me pularam para o C.A. E foi assim que me tornei, para sempre, a caçula da turma.
Mais ou menos nessa época minha avó (paterna) me colocou no balé. Na escola de dança Dalal Achcar, onde estudava a nata da fina flor da sociedade carioca. E eu. Minha avó me apanhava de carro duas vezes por semana, me levava para a aula, esperava lá, e me trazia de volta para casa. É engraçado, minha avó sempre teve essa coisa bem suburbana de querer parecer fina. Se vestir super bem para ir me levar ao balé. Querer que eu estudasse na escola de balé mais grã-fina. E eu curtia isso muito. Por exemplo, ela tinha carro, o que para mim era o máximo. Nem minha mãe nem meu pai tinham carro, a gente fazia tudo de ônibus. Minha avó tinha um Voyage dourado, que eu achava chiquérrimo. Já a mãe da minha mãe tinha um Fusca bege (apelidado pela família de "Pata de Elefante"), que eu achava de uma pobreza tamanha. Minha tia adora contar uma história (de que eu não me lembro, claro) segundo a qual eu teria dito, com cara de nojinho, que em Fusca eu não entrava -- isso para mostrar como minha outra avó tinha me transformando numa mini-perua-wannabe. (Parênteses para registrar o fato curioso de minhas duas avós -- nascidas em 1913 e 1924 -- terem trabalhado fora a vida inteira, e dirigido seus próprios carros. Não era comum para a geração delas, e sem dúvida fui muito influenciada por essa postura de vida.) Mas enfim, o balé era legal, e eu continuei até uns 12 ou 13 anos, quando mudei para jazz e depois para o sapateado. Tenho ótimas lembranças do balé, inclusive de ter dançado uma temporada do "Quebra-Nozes" no Teatro Municipal no final de 1984 ou 85, por aí, como parte do corpo de baile infantil. Era um trabalho, e eu gastava a maior onda por ter essa responsabilidade.
Na verdade eu já tinha outros trabalhos. Remunerados. Aos 4 anos comecei a fazer as primeiras gravações de jingles e comerciais de rádio. Aquela coisa, "Papai, não corra na estrada!", etc. E cantava também. Aos 6 eu já estava na panelinha oficial do coro infantil das gravadoras. Minha mãe tinha os contatos no meio musical, viu que eu era afinada, e me pôs pra dentro. As gravações foram uma constante ao longo de toda a minha infância. Até os 15 anos eu ainda fazia uns coros. Era sempre a mesma turminha, para todos os discos. Xuxa, Balão Mágico, Trem da Alegria, Os Trapalhões... you name it. Mesmo outros artistas, como Beth Carvalho, Milton Nascimento, até mesmo Roberto Carlos, às vezes uma faixa precisava de um coro infantil, então lá ia eu. Era o má-xi-mo. Não só pelo lado profissional, mas porque eu matava aula na escola, e quando voltava mostrava todas as músicas em primeira mão para meus amiguinhos. E, céus, como eu gastava onda com isso, ensinando "Ilariê" para todo mundo na hora do recreio, meses antes de o disco sair.

(Continua)
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10.10.09

Pet peeve


Eu não conhecia a expressão "Pet peeve" até ontem, quando li este post, do blogue de uma agente literária americana, que acompanho. Segundo o dicionário, pet peeve é "motivo freqüente de reclamações ou discussões". No post em questão, era isso em relação à língua inglesa. Um dos pet peeves da autora do blogue é a abominável mania de se trocar "you're" por "your", assim como "they're" por "their". Os mais de 100 comentários são ótimos, com as pessoas felizes por terem um espaço para dizer que detestam o mau uso do apóstrofo e das aspas (e vocês já visitaram o hilário site The "Blog" of "Unnecessary" Quotation Marks?), pessoas que usam "that" no lugar de "who", pessoas que dizem "Anyways...", assim mesmo no plural, e milhares de outros casos.

Eu também tenho minhas picuinhas de linguagem. (E aposto que o Revisor e seus leitores terão muito o que acrescentar sobre este tópico.) Fico muito irritada quando vejo um erro de concordância tão frequente quanto idiota: "Fulano foi um dos deputados que mais compareceu ao plenário". "Compareceram", cacete! Dos deputados que mais compareceram, Fulano foi um! Não tem complexidade, é simplesmente uma questão de lógica. Vejo esse erro um dia sim, o outro também.
Em segundo lugar, o infeliz "por que" separado em frase que não é uma interrogação direta. Não sei como puderam perpetrar esse crime por tantas anos na escola: "Por que" separado é em pergunta, "porque" junto é em resposta. Não, não, mil vezes não! Existem mil usos de "por que" em frases não interrogativas. Por exemplo: Não sei por que ensinam isso nas aulas de português. É simples. Não sei por que motivo. Não sei por que razão. Não tem muita margem para dúvida. E se tiver, verte para o inglês. Se for why, é por que. Se for because, é porque.

Nem vou entrar no assunto da pontuação e da crase, verdadeiros traumas nacionais. Acrescento apenas que abomino as pessoas que usam o verbo "realizar" como sinônimo de perceber, dar-se conta. Um anglicismo semântico horroroso.

Mas quero saber, quais são seus pet peeves da língua portuguesa?
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5.10.09

Há 33 anos

Nasci na madrugada do dia 5 de outubro de 1976, no hospital Pró-Matre, centro do Rio. O parto (cesariana) não foi feito pelo médico que acompanhou toda a gestação, um bom amigo da minha mãe (que foi, inclusive, meu primeiro ginecologista), porque a mulher dele se matara pouco tempo antes, e ele estava afastado. Nasci com peso e tamanho normais, mas com o nariz amassado. Parece que fiquei com o rosto imprensado, dentro da barriga da minha mãe, e o nariz ficou torto para um lado. Imagino a cara de decepção dos amigos e parentes na maternidade -- e, por que não?, de meus pais também -- ao ver aquele bebezinho de nariz torto. Conforme as horas passavam e o nariz não endireitava, a apreensão foi crescendo. Minha mãe pensava: "Meu Deus, será que vou passar a vida inteira olhando para esse narizinho torto?". No dia seguinte minha avó materna mandou buscar um cirurgião plástico bam-bam-bam para olhar o caso e ver o que poderia ser feito. Pelo que me contaram, ele chegou, olhou para mim durante alguns segundos, murmurou algo sobre "perda de tempo" e foi embora com cara de poucos amigos. E de fato, pouco tempo depois meu nariz desentortou naturalmente.
Meus pais passaram o final da gravidez numa casa alugada na ilha de Paquetá. Para quem não conhece, Paquetá fica na baía de Guanabara, e é conhecida como "ilha dos amores". O único acesso é de barco, e há um serviço de barcas com vários horários diários. Uma das particularidades de Paquetá é que lá não há carros, a não ser ambulâncias. Todo o transporte é, até hoje, feito de bicicleta ou charrete. Esse lugar bucólico foi meu primeiro lar. A ideia de morar em Paquetá só pode ter sido do meu pai. Paquetá era um destino frequente nos fins de semana da infância dele, com meus avós e minha tia. Tinha praia de baía (sem ondas), era calmo e agradável. Um hit suburbano, e minha família paterna era tipicamente suburbana. Duvido que minha mãe, nascida e criada no Leblon, a uma quadra da praia, tenha sido a autora da ideia.
Mesmo para os padrões dos anos 70, ir morar em Paquetá com um recém-nascido era uma ideia pra lá de alternativa. Mas meus pais estavam vindos de uma temporada morando em Boston, e achando o Rio de Janeiro muito confuso, sujo e barulhento. Minha mãe morava em Boston desde 72, e tinha se formado recentemente numa faculdade lá. Meu pai foi para lá atrás dela, e nunca soube direito o que ele fazia nos EUA. Pequenos trabalhos, eu acho. Sei que passava a maior parte do tempo na biblioteca pública, lendo e escrevendo. Sei também que voltou para o Brasil antes dela. Quem também morava em Boston na época era minha madrinha, estudante de fotografia. Por isso há tantas fotos lindas da minha mãe naquela época, tocando em casas noturnas, na faculdade, pelas ruas. A cobaia de uma fotógrafa talentosa. É também por meio dessas fotos que sei que meu pai tinha cabelo comprido e uma barba escura e espessa. Todos eram magros, jovens, belos e macrobióticos. O movimento hippie acontecia mesmo por ali.
Quando minha mãe se descobriu grávida, resolveu que era hora de voltar para o Brasil. Ela e minha madrinha arranjaram carona num cargueiro, um favor do comandante do navio ao pai da minha madrinha -- sempre essas altas conexões. Trouxeram toda a bagagem de anos morando nos EUA nesse navio. Mais de 20 volumes, inclusive duas bicicletas e um par de caixas de som de mais ou menos 1,20m de altura por uns 70cm de largura, que minha mãe tem até hoje em casa. A família foi esperar no porto. Um dos meus tios trabalhava na época com transportes de máquinas industrias, então providenciou um caminhão de 20 eixos para levar a mudança das duas. (Um caminhão para carregar retorescavadeiras e betoneiras, obviamente um exagero completo.)
A vida em Paquetá não foi fácil, e não durou muito. Quando eu contava cinco meses, mudamos para o Rio. Meu avô pediu de volta um apartamento alugado no Leblon, onde minha tia havia morado muitos anos antes, com a família. Cooptaram a empregada da vizinha da minha avó, uma moça de 17 anos chegada havia pouco do Ceará, que adorava crianças. Ela foi trabalhar na casa da minha mãe, onde continua até hoje. É minha segunda mãe, minha irmã mais velha, e a pessoa a quem eu confiaria minha filha, em caso de necessidade.
Fomos morar no Leblon, então. Que, na época, não era o metro quadrado mais caro do Rio de Janeiro, e nem o cenário das novelas do Manoel Carlos. Ganhamos uma máquina de lavar, para minhas fraldas de pano. Depois que cresci mais um pouco, minha babá cearense me levava à praia todo dia de manhã cedo, e à pracinha na parte da tarde. A casa era mobiliada basicamente por doações de parentes. Lembro bem de um sofá de jardim (de ferro) que ficava na sala. Pelas fotos, vejo a mesinha do telefone (o único da casa, com um fio comprido para chegar nos quartos), três tijolos de cada lado, com uma tábua em cima. Meu pai morou pouco tempo conosco. Não tenho lembranças dessa época. Antes dos meus dois anos ele já vivia em sua própria casa, em Copacabana. Ele minha mãe continuaram se dando muito bem, de modo que não tenho memórias traumáticas de separação.

(Continua)
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14.9.09

Vidinha

Estou passando por uma daquelas crises bloguísticas. Do tipo em que acho que nada na minha vida pode interessar a quem quer que seja, então por que me dar ao trabalho de ficar escrevendo? Não que tudo esteja um tédio, muito pelo contrário, tudo na mais perfeita ordem, com as pitadas de desordem que fazem tudo ficar mais legal. Mathilde cada vez mais fofa, me fazendo ir à praia todo fim de semana em que o tempo permite (e, céus, como sou grata a ela por esse retorno às areias cariocas!), no trabalho tudo bem, planos para viajar no final do ano, e a obra do prédio caminhando para seu desfecho, para finalizar um imenso transtorno dos últimos meses.
Estive na Bienal do Livro no primeiro e segundo dias (5ª e 6ª), o que para mim é ótimo, porque é uma forma de rever os amigos do mercado. Social, para usar o termo preciso. Mas confesso que me intriga constatar como tem tanta gente vai à Bienal a passeio. (Para ir num fim de semana, cobro um cachê cujo valor tem 5 dígitos.) Para começar, é longe, muito longe. Paga-se para estacionar (R$ 12 para veículos e motos! Absurdo!). Paga-se para entrar (R$ 12 a inteira). E lá dentro, os livros custam o mesmo preço de sempre. Quando muito, umas queimas de estoque de títulos encalhados, ou então uns descontinhos mequetrefes de 10 a 15%. Mas sabem por quê? Por causa dos estandes das livrarias. Acho muito errado. Se a editora quiser colocar todos seus livros com 40% de desconto (o que seria perfeitamente possível, em não se contando com a intermediação e margem de lucro do livreiro), a Saraiva vai lá reclamar. A Submarino também. Porque elas estão lá, com seus estandes, praticando seus preços normais. E nenhuma editora vai querer brigar com seus principais clientes. Então fica essa situação maluca, o mesmo preço da livraria. É claaaro que na Bienal só deveriam ser expositores os editores, ora. Enfim, enfim. Sei que passei na L&PM e comprei alguns dos novos livros do Simenon que eles lançaram. Vocês sabem o quanto sou fã. Há alguns meses uma amiga que trabalha na simpática editora gaúcha me mandou os dois volumes inéditos de contos do comissário Maigret. Fiquei eufórica e me joguei de cara na leitura. Amarga decepção! Não gostei dos contos. Porque são muito curtos, não há tempo de se aprofundar na história, nem nos personagens, então as soluções são, como direi, "mandrakes" demais, um desfecho qualquer para uma historieta de dez páginas. Não bom, não bom. (E não obstante, li todo o volume 1 quase de uma só vez...) Mas agora comprei mais 3 novelas, que é o formato em que o Simenon é imbatível, e já estou atracada com o primeiro, Maigret e o ladrão preguiçoso. E falando em romance policial, tenho lido tantos para meu trabalho! A oferta é infinita, e digo isso no sentido literal. O mais dificil desse meu trabalho é ler livros ótimos e declinar da oferta para publicá-los no Brasil, por achar que não encontrariam mais de 4 ou 5 mil leitores dispostos a comprar. (Como este ou este, por exemplo.) E, também lá no silviço, estou alimentando ainda um site (um blog, na verdade) de um grande lançamento do final do ano. Um livro que não estou nem a fim de ler, mas sobre o qual tenho de ficar pesquisando na internet todo dia para criar posts interessantes. Bueno, cada um com seus problemas.

Para finalizar, dicas gastronômicas e culturais.
Para a criança vintage e de bom gosto musical, recomendo uma vista ao site do Instituto Moreira Sales> Acervos e pesquisa> Música> Pesquisa simples. Digite "Cantigas de roda" para ouvir 2 lados de um antigo disquinho (ótima qualidade de som) com um pot-pourri das clássicas cantigas, em arranjos e interpretações do tempo em que as pessoas davam importância a coisas como arranjos e interpretações. Muito bom mesmo. Além disso, digite também "Chapeuzinho vermelho" (em 4 partes) para ouvir a inolvidável gravação dos disquinhos coloridos. Mathilde é fascinada. Todo dia pede para ouvir, várias vezes. E fico muito impressionada de ela se concentrar tanto na história sem qualquer estímulo visual, apenas com a narração. Uma criança vintage, pois não. Fato é que ela já sabe tudo de cor, e quando o Lobo vai comer a vovozinha, ela se antecipa e diz "Iiiih!". Sem contar que a música da Chapeuzinho ("Pela estrada afora/ eu vou bem sozinha") ela já canta inteira, com letra. Temos gravação.

And last but not least, vizinhos e vizinhas, comemorai: descobri a melhor pizza delivery de Botafogo, logo ali, numa vila escondida da São Clemente. Vale a pena.

E não é que saiu um post todo?
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27.8.09

Inverno no Rio


Quem foi que disse que não tem mais foto de Mathilde?!

26.8.09

O método Elsève de educação infantil

Uso um creme no cabelo, da Elsève.
Um dia, olhando o pote, dentro do chuveiro, atentei para as promessas feitas pela L'Oreal para as consumidoras do produto: parece que o tal creme "Nutre, Alisa e Disciplina".
Que coisa.
Há mais semelhanças entre o que desejamos fazer com os cabelos e com os filhos do que jamais poderiam sonhar os redatores de potes de xampu.

25.8.09

A pílula falante do doutor Caramujo


Emília engoliu a pílula muito bem engolida, e começou a falar no mesmo instante. A primeira coisa que disse foi: Estou com um horrível gosto de sapo na boca. E falou, falou, falou e falou. Falou tanto que Narizinho , atordoada, disse ao Doutor que era melhor fazê-la vomitar aquela pílula e engolir outra mais fraca. Não é preciso – explicou o grande médico. Ela que fale até cansar! Depois de algumas horas de falação, sossega e fica como toda gente. Isso é fala recolhida que tem de ser botada para fora. E assim foi. Emília falou três horas sem tomar fôlego. Por fim calou-se.

Louvemos sempre Monteiro Lobato pelo maravilhoso conceito de "fala recolhida", atribuída aqui ao doutor Caramujo, o grande médico do Reino das Águas Claras. Porque só quem já presenciou uma fase como essa, numa criança, pode entender a extensão e a magnitude desse formidável processo que é a aquisição da linguagem.
Pelo pouco que entendo, não há muito consenso sobre como uma criança aprende a falar, sobre os mecanismos cognitivos que a fazer dominar esse complicado código do idioma. Mas minha experiência com Mathilde me diz: é muito rápido.
A impressão que tenho é que as crianças apreendem muito e desde muito cedo. Ainda bebezinhos, já memorizam palavras, e muito rapidamente captam seu significado. Tanto que, quando ainda não falam, já entendem e respondem a uma infinidade de instruções (deita, levanta, dá tchau, pega o seu travesseiro, etc.).
E aí, um belo dia, elas engolem a pílula falante.
Mathilde desatou a falar tudo e mais um pouco. É uma matraca. A sensação é que, de fato, a fala estava "recolhida", e ela agora se sente contentíssima por ser capaz de verbalizar. E tome de "levanta, mamãe", "quer subir", "quer água", "não, não, não", "a p(r)aia", "a Peppa", "teêvisão", "bauúio" (o aspirador ligado), "caiu tudo", "esse não", e o impagável "isso, mamãe, muito bem", quando, atendendo ao pedido dela, limpo com guardanapo as mãozinhas sujas de comida. E quando não tem mais "assunto", ela se contenta em simplesmente nomear as coisas. Aponta e fala: cadeira, mesa, prato, colher, ventilador, porta, bicicleta.
Naturalmente, com isso as manhas e malcriações não só se intensificaram como ficaram mais elaboradas, mais extensas e muito mais trabalhosas de lidar.
É incrível como, com essa coisa de filho, nada é mesmo por acaso, e nada vem de graça. Não tem ponto sem nó, e nada fica sem consequência.
E tudo é difícil, sim, mas as recompensas também vão ficando mais e mais sensacionais.

24.8.09

Antigos vícios

Começou na quinta-feira.
Noite fechada, escura, fria e molhada quando saí na Voluntários da Pátria para iniciar a caminhada de volta para casa. As poças formadas ao longo do dia inteiro de chuva me obrigavam a andar longe do meio-fio. O guarda-chuva aberto protegia da chuva fina e persistente.
Não sei bem o que me levou àquela esquina. Parada no sinal, do outro lado da rua, comecei a olhar para o vendedor. Talvez um acesso de nostalgia, uma vontade súbita de voltar a experimentar sensações há muito esquecidas e enterradas. Reviver parte da minha juventude -- quiçá infância!
Fazia muito tempo, de fato.
Ao longo dos anos fui me convencendo de que aquilo não prestava. Construí uma aversão psicológica, a ponto de não mais sentir qualquer vontade. Parecia-me algo imundo, repulsivo, até. Algo em nada condizente com meu status de profissional de sucesso, mãe de família, mulher bem resolvida. Ah, as enganosas auto-imagens que construímos.
E então assim, sem razão aparente, voltou a vontade. Atravessei a rua e me encaminhei decidida para lá. Envergonhada por minha desinformação, não tive alternativa senão pergintar: "Quanto é?". O vendedor respondeu, frio como a noite, "Tem de um e de dois reais". "Me vê um de um", respondi tentando aparentar normalidade. Escolhi a minha variedade preferida. Ele preparou e me entregou. Paguei, peguei e voltei as costas para ele, caminhando rapidamente na direção da São Clemente, procurando me afastar o mais rapidamente possível.
E pronto, o mal já estava feito.
Na sexta à noite, voltei. Hoje, segunda, também.
Mas amanhã é outro dia. E tentarei resistir ao churro com recheio de doce de leite da barraca do Dantas!
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13.8.09

Jacob


Hoje faz 40 anos que Jacob do Bandolim morreu.
Se não fosse pelo email de HBC, a data passaria em branco para mim.
Os que acompanham esse blogue hão de saber que fui, há algum tempo, atingida pelo vírus do choro, a música brasileira instrumental por excelência. Já faz anos que não cometo a gafe de chamar de "chorinho" e que batalho pela maior divulgação desse maravilhoso gênero musical, em especial do choro contemporâneo, tão bom quanto desconhecido do grande público (assunto que merece um post próprio, em breve).
Mas antes de chegar no choro de hoje, é claro, ouvi -- e ouço -- muito os grandes mestres, Jacob em destaque entre eles.
Jacob foi uma figura meio sui generis na roda dos chorões. Nasceu na Lapa, no seio da boemia carioca, mas de boêmio não parecia ter nada -- ao menos não na acepção mais desregrada da boemia, porque sabemos que ele era o rei do sarau. Começou a tocar bem cedo, logo passou a figurar na rádio com conjuntos regionais, teve sucesso, tinha bastante trabalho. Mas mesmo assim, resolveu não depender exclusivamente da música para prover o sustento da família: prestou concurso público e tornou-se escrevente juramentado da Justiça. Mesmo dando expediente na repartição, trabalhou muito pela música. Gravou, compôs, ensaiou, formou conjuntos, e o que é mais incrível: era um pesquisador nato. Dono de um arquivo fabuloso que juntou ao longo de toda a vida, era minucioso na sua organização, e graças a ele temos acesso a um sem-número de partituras, informações e fitas de rolo com gravações de choros dele e de outros, gravadas com o intuito de preservar. Dava saraus famosos em sua casa em Jacarepaguá.
Gravou muitos discos importantes e históricos. Tocava Ernesto Nazareth numa época em que isso não era muito comum (dedicou-lhe um disco inteiro). Homenageava chorões das gerações anteriores, como Anacleto de Medeiros e Joaquim Callado, de quem gravou, respectivamente, Três Estrelinhas e A Flor Amorosa, entre outras. Tocava sambas, acompanhava cantores, e compunha espetacularmente. Suas interpretações são, até hoje, "a" referência para qualquer bandolinista, mas não só para eles. Qualquer instrumentista de choro tem no Jacob um norte para a interpretação para um vasto repertório. Não exagerava, o Jacob -- tampouco fazia por menos. Dizia tudo.
Era um músico incrível.
As composições são um caso à parte. Sou fã devotada das músicas de Jacob. De seus choros ditos "clássicos", como Noites Cariocas ou A ginga do Mané (homenagem ao Garrincha), de suas valsas, como Pérolas ou Feia (de infeliz batismo), e mais ainda nos sambas-choro, gênero em que acho que ninguém o superou. Basta ouvir Bole-Bole, meu favorito, mas também Receita de samba, Diabinho maluco ou Treme-treme para poder dizer, sem medo: gênio.
O pessoal do Instituto Jacob do Bandolim faz um trabalho lindo de preservação de seu acervo, de sua memória e de sua música. Eles têm uma campanha para conseguir imagens em vídeo do Jacob. Por incrível que pareça, apesar de ter sido um artista "midiático" e muito conhecido em sua época, só se tem, até hoje, uma única imagem em movimento do Jacob, de poucos segundos: uma entrevista em que ele fala a um repórter - mas o áudio se perdeu. O IJB colocou no ar (reparem que ele parece estar saindo de cinema mostrando Os Sete Samurais!):



Outra gravação pra lá de clássica, lançada em disco (e CD), mas que não tem registro em vídeo, é o show do seu conjunto, o Época de Ouro, com Elizeth Cardoso e Zimbo Trio, no Teatro João Caetano, no Rio, em 1968. Desse disco, acho que a faixa mais conhecida, com justiça, é Barracão. Como no YouTube de tudo se acha, encontrei essa montagem que alguém fez, com imagens de favela (!). Esqueça as imagens, fique navegando, mas deixe tocar e preste atenção ao solo quando a Divina Elizeth fala "Dá-lhe, Jacob!":



Mas a verdade é que não se pode falar de Jacob e sua música sem mencionar Vibrações, de 1967, considerado por muitos o maior disco de choro de todos os tempos. É uma alegria ouvir de tempos em tempos esse disco. Como não existem videos do Jacob, e eu não sei postar audios, então quem quiser ouvir tem que correr atrás. Eu gosto muito. Nesse meio tempo, mais uns youtubes selecionados:

Diabinho Maluco



A Ginga do Mané




Noites Cariocas



Mimosa






12.8.09

Passeio no xópin

Fui fazer compras. De roupas para trabalhar, basicamente. Reconheci, um pouco a contragosto, que meu guarda-roupa dos anos 90 já está em estado de petição de miséria. Saiu da categoria vintage-cult para a categoria mendigagem-descaso.
Detesto comprar roupa. Foge-me à compreensão como as pessoas podem gostar. Bater perna, encarar vendedoras, experimentar roupa naquelas cabines! Sair para comprar roupa para mim é como ir ao supermercado. Sei que preciso, não há como fugir, na hora é um saco, e depois de terminado dá uma sensação de alívio e dever cumprido, e a alegria de saber que não precisarei mais passar por isso por algum tempo.
Como não compro roupa quase nunca, quando saio para comprar sempre digo a mim mesma que não vou economizar: se gostar de uma roupa, compro, não importa o preço. Afinal, é tão difícil achar uma coisa de que eu goste e com que me sinta bem. Mas na hora agá nunca funciona. No momento de pagar NOVENTA REAIS (ou mais, muito mais) por uma blusa, acho um escândalo e me recuso. Ou DUZENTOS E NOVENTA E CINCO REAIS por um par de sapatos. Sei lá. Não consigo.
Mas dei sorte, e achei umas blusas boas por preços, digamos, possíveis. Como sempre faço nesses casos, comprei várias do mesmo modelo, de cores diferentes.
Queria ter comprado sapatos e calças também, mas aí já era demais. Quase dez da noite, no xóps cênts, too much. Sem falar que sapato é ultra difícil para mim. Porque não abro mão de conforto, mas não quero andar só de tênis. Nem convém, lá onde trabalho. (Só na sexta-feira, que é Friday Casual e todo mundo vai mais relax.) E nossa, como é difícil encontrar sapatos arrumadinhos e confortáveis. E vejo as mulheres andando para cima e para baixo com uns scarpins inacreditáveis, com umas sandálias medonhas, de salto fino bem alto e só uma tirinha passando entre o dedão e o segundo dedo, de modos que em 95% dos casos fica saindo pé pra fora da sandália, o mindinho ali meio torto, caindo, encostando no chão. Ou com sandálias de salto alto e tiras amarrando na canela, moda gladiador! O horror, o horror.
Não que eu preferisse ser homem, nesse aspecto. Acho bacana poder variar tanto. Não sou uma só, já diria a querida. Mas é bizarro constatar a dificuldade em encontrar coisas ao mesmo tempo medianamente formais (não trabalho de tailler, nem de jeans e camiseta) e que não sejam apertadas, desfavoráveis e, pelamordedeus, que não tenham babados! (O senso de humor dessa gente da moda parece não ter limite.)

7.8.09

Histórias do happy hour


Então M. conta que, ano passado, foi a uma festa de pré-reveillon. E lá prometeu que, se "beijasse na boca" naquele dia, jogaria flores para Iemanjá no reveillon. Dito e feito. "Naquela festa ninguém mais beijou na boca, entre minhas amigas. Só eu!". Viu que coisa funcionava. Arriscou: se alguém a pedisse em namoro ainda naquele ano, mandaria uma barco para Iemanjá. Pois alguém foi lá e pediu. A verdade é que ela não aceitou o pedido do namoro. Mas como a promessa era essa, viu-se obrigada a pagar.
"Fui na casa de macumba e pedi o barquinho mais discreto que havia. 'Se tiver uma canoa, moça, melhor ainda'. Não tinha, claro. A vendedora me falou: 'Se está querendo arranjar marido, melhor levar um barco grande'. Comprei, é claro, né. E quando me perguntaram o que eu ia colocar no barco, fiquei surpresa: 'Ué, ainda tem que colocar coisa dentro?!'. Então na própria loja descobri que tinha um 'kit', um 'kit Iemanjá', vê se pode. Menina, você não imagina a vergonha que eu senti no dia do reveillon, dentro do ônibus, carregando aquele barco! Coloquei num saco plástico, é claro, mas ó, que vergonha. E na hora, na praia, cadê a coragem de levar o barco pro mar? Todo mundo tinha me dito que era comum, que no dia ia ter uma porção de gente jogando barco pra Iemanjá, mas cadê? Ninguém! Acabou que não tive coragem, pedi para alguém levar o barco para a beira d'água para mim, de tanta vergonha."
-- Não brinca?!
"Pois é. Resultado taí, este ano. Maior secura!"
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29.7.09

Três anos

Este blogue fez três anos em junho e a data me passou inteiramente despercebida.
Em junho de 2006 eu estava em outro emprego, absolutamente de saco cheio. Não havia nenhum bloqueio a sites, então eu lia tudo quanto era blogue e postava do trabalho mesmo. Tinha muito tempo ocioso naquela época. Aliás, essa jornada de 8 horas de trabalho é um exagero completo. Eu me sentia sub-aproveitada, tanto que no final daquele ano pedi demissão.
Alguns meses antes, havia começado a ler os blogues, entender a dinâmica, e meio que "encontrar a minha turma": via que os blogues de que mais gostava estavam sempre se linkando mutuamente.
Finalmente em junho, no meio da Copa do Mundo, com o marido viajando e sem ter muito com quem comentar sobre jogos como Irã x Angola ou Gana x EUA, resolvi criar meu blogue. O nome não era Terapia Zero. Lembro ter tentado "Inútil Paisagem", mas já existia outro com esse nome. Devo ter tentado outras alternativas, das quais não me recordo mais. Até chegar nesse Terapia Zero, que é meio engraçado e talvez um pouco taxativo demais. Hoje em dia, claro, me acostumei. Assim como me acostumei a chamar minha filha de Mathilde, apesar de o nome dela não ter nada a ver com isso, e apesar de eu nem estar mais trabalhando no livro sobre Freud, cuja primogênita serviu de inspiração para esse pseudônimo.
Em junho de 2006 eu quase só escrevia sobre os jogos da Copa, e sobre umas trivialidades, como a dificuldade de encontrar uma calça jeans que não seja de cintura baixa (e de lá pra cá nada mudou nesse front). O primeiro comentário foi da Alena. Nos meses seguintes passei a contar casos, falar da vida, muitos posts sobre relacionamentos (inclusive o da assistente de mágico, expressão que até hoje traz muita gente para cá via Google).
Deedse então, escrever continuou sendo para mim uma grande terapia. Se hoje não frequento mais tanto as mesas de bar que me serviram de "consultório" por tanto tempo, por outro lado tenho aqui um espaço para falar todas as bobagens e desbobagens que me apetecem, e o que é melhor, com uma porção de interlocutores de todos os cantos do mundo. Alguns já conheci pessoalmente, outros é como se conhecesse. E tem ainda aqueles desconhecidos da mesa ao lado, que às vezes se viram para comentar alguma coisa, sempre começando com a célebre frase "sempre leio seu blogue, mas nunca comento...".
Três anos.
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28.7.09

Agora em SP

.Vou sábado, volto segunda de manhã.
(Clique para ampliar)
PS: Não foram ainda visitar o site do projeto? Puxa vida...
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23.7.09

A day in the life


Acordei 7:20 com a faxineira tocando o interfone. Como o interfone resolveu que não abre mais a porta, tive que descer, de pijama, para que ela pudesse entrar (o prédio não tem porteiro). Mathilde dormiu na minha cama, porque tossiu muito durante a noite, e assim eu podia acodi-la mais prontamente durante a madrugada (Marido is out of town). Às 8 chegou a babá, e às 9 eu já estava na farmácia para trocar um pacote de fraldas que comprei anteontem, mandei entregar em casa, e quando fui abrir hoje, reparei que já estava aberto e fechado com um durex. Excuse me? Na farmácia todos fizeram cara de espanto e indiganação e trocaram sem criar caso. Mandei entregar em casa, que eu não ia pro trabalho com um pacote de Pampers. Subi na bicicleta e fui para o trabalho, vencendo os obstáculos de praxe do trânsito de Botafogo. Que não são nada, se comparados ao desafio cotidiano d'As Rampas -- G1, G2 e G3, onde estaciono. (Mas nem posso me queixar, porque depois que mandei a bicicleta para uma revisão de freios e marchas, ela virou um aviãozinho.) Não encontrei o lorde da motocicleta hoje, mas bem que tenho cruzado muito com ele, já descobri várias outras coisas a seu respeito.
Trabalhei, trabalhei, trabalhei, até a hora do almoço, quando peguei a bicicleta, desci G3, G2 e G1, e voltei pra casa, onde Mathilde estava linda e fofa, pronta para ir pra escola. Levei a pequena de bicicleta, na sua cadeirinha, com o devido capacete rosa-choque. Pedalei de volta pra casa, almocei, li um resto do jornal, e voltei para o trabalho. Pedala, pedala, pedala, G1, G2, G3.
Trabalhei, trabalhei, trabalhei, mandei aquelas dúzias de e-mails, tive uma reunião chatinha e às 18:15, mais ou menos, já estava de novo descendo G3, G2, G1.
Fui ao Hortifruti, estacionei no bicicletário em frente. Comprei pão de forma, banana (prata), morango (R$ 2.99 a caixa), queijo (Minas padrão), maçã (Fuji), alho (importado, caríssimo). O Hortifruti está sorteando prêmios, depositei alguns cupons preenchidos na urna. Pai de um amigo ganhou uma TV num sorteio do Hortifruti uns anos atrás, passei a acreditar.
Pus as compras na cestinha e fui pedalando para a creche, pegar Mathilde. Fofa demais, com a jaqueta jeans que foi, vejam vocês, do pai dela. Botei capacete, montei a cadeirinha, e viemos cantando pelo caminho, como sempre. (Nosso caminho passa pela frente da casa da Monix.)
Chegamos em casa, e descobri que, além do interfone que não funciona, 2 das 3 luzes da área comum do prédio, antes do hall de entrada, estão queimadas. Então lá fomos, no escuro, colocar a bicicleta na garagem, e depois subir (já com luz) as escadas (o prédio não tem elevador): eu, Mathilde, as compras, a cadeirinha da bicicleta, o capacete dela, o meu capacete, e a minha bolsa. A fofíssima veio trazendo as maçãs. (Francamente, acho que está na hora de procurar outra casa para morar.)
Os avós vieram visitar um pouco mais tarde. Minha sogra trouxe blusinhas pra Mathilde e uma mochilinha ótima para mim, de presente. Minha mãe trouxe folhas de eucalipto para colocar no quarto de Mathilde, numa panela de água quente, para melhorar a tosse.
Jantar, pijama, escovar dentes, e brincar um pouco. Cantamos muitas músicas (ela sempre pedindo: "Mais!"). O avô ensinou a música "Cabeça, ombro, perna e pé" (para mim era "joelho e pé", mas tudo bem).
Enfim ela dormiu. Os avós foram embora. Tomei um leitinho quente.

Alguns dias são um exagero.
Para o bem e para o mal.
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22.7.09

Delete

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Relendo o post abaixo, achei de um pedantismo horroroso. Parece que estou me gabando dos milhões que passam por minhas mãos diariamente.
Haha. Quem vê pensa.
Mas ficou bem ruim o texto.
Eu, se não conhecesse este blogue e caísse de paraquedas (para-quedas?) no texto de ontem, nunca mais que voltava. Só não apago por questão de princípios.
Então tá. Era só isso que eu queria dizer.
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21.7.09

Fazendo conta


Como já escrevi por aqui, no meu trabalho estou sempre envolvida com valores -- adiantamentos de direitos, pagamentos de royalties pelos livros vendidos, licenciamento de imagens etc. Negociar faz parte do meu dia a dia. Às vezes as cifras são muito altas, tanto que acabo perdendo a noção, e me pego falando de 40 mil dólares como se 40 reais fossem.
Hoje, por exemplo, dei uma chorada básica num email mandado para a Inglaterra (aquele papinho triste, nossa moeda é mais fraca, sei que o valor de mercado é este, mas veja bem, somos um país de terceiro mundo etc. [não, claro que não uso esses termos, mas o subtexto é por aí]) e consegui uma economia de mil libras esterlinas. O que, no câmbio de hoje, dá R$ 3.132,00. Com esse dinheiro, mes amis, dá para comprar não uma, mas duas passagens Rio-Paris-Rio.
E daí, né?
Pois é.
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9.7.09

Shadenfreude remix


Movimentos migratórios no mundo das editoras. Fofoquinhas do mercado. Eu hoje conversando com meus chefes a esse respeito, lá pelas tantas o überchefe ri e fala de Schadenfreude. Achei tão engraçado. Usei a mesma expressão para falar das mesmas pessoas, aqui no blogue, três anos atrás.

E para quem se interessa de verdade pelo mundinho editorial, vai a dica de uma ótima (e longa) entrevista com o Jonathan Galassi, editor da Farrar, Straus & Giroux, publicada na Poets & Writers. Vale a pena até pular as partes em que ele fala da juventude e carreira pessoal dele para chegar nas ponderações e considerações muito legais sobre agentes, editores, valores de adiantamentos, relacionamentos com autores, com livreiros, e sobre o book business em geral.
Trechinho: "It's a business, and I love the fact that it's a business. I really think it's much better for publishing to be a commercial enterprise. But it's not just a business. It's about selling something that you believe in."
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7.7.09

Minha primeira reunião de pais -- ou: Sobrevivendo no inferno


Cheguei pontualmente na hora (17h30, horário de trabalho), e encontrei uns quinze adultos sentados em semicírculo em cadeirinhas de crianças. Fechando a roda, a dona da escola, a coordenadora pedagógica e a professora do maternal ("tia S.", "tia R." e "tia A." -- que as crianças chamem os adultos de "tio" e "tia" é questionável, mas vá lá. Agora, os adultos ficarem chamando uns aos outros dessa forma é que não dá pra entender.). Ainda chegaram uns retardatários. No total, uns vinte pais -- alguns casais, poucos homens, montes de mulheres. O único pai sem cônjuge estava num acirrado debate ao celular antes da reunião iniciar oficialmente, perguntando a alguém (esposa? empregada? mãe?) se o pinguinzinho de brinquedo do filho dele era mesmo tão desbotado e surrado como aquele que ele estava vendo ali.

-- Será que é esse mesmo o do D.? Não tenho lembrança de estar assim tão surrado. E o chapeuzinho do pinguim? Esse aqui está meio inclinado para o lado. Você lembra se o do D. era inclinado? Eu não lembro de ser inclinado assim. Deve ser de outra criança, este daqui. É, esse chapeuzinho está inclinado. Não, acho que não era assim. Será outro? Vou perguntar aqui.

Olhei pra cima e suspirei. Isto não está acontecendo. Isto não está acontecendo. Estava, é claro.

Começa a reunião. Alguns avisos. Aula de balé e capoeira para quem quiser, a partir dos dois anos. 50 reais, duas vezes por semana.

Pai do D.:
-- Mas se o meu filho for para a capoeira, ele não vai perder algum conteúdo dado em sala?

Olhei para baixo e respirei fundo. O pobre D. tem 1 ano e 8 meses.

Segue a reunião. Mais avisos. A Festa dos Pais, em agosto, será uma homenagem: o tema será anos 60 e 70. Fiquei sem entender se isso é em homenagem aos pais ou aos avós. Acho que nenhum pai ali presente nasceu antes da década de 70. Não explicaram, e ninguém perguntou. Enfim. A festa será num sábado, num Clube, e nós não vamos, mesmo. Exercitando the art of letting go.

Assuntos diversos. O lanche. O problema frutas vs. biscoitos. Mães reclamam que as crianças só querem comer biscoito. Que antes comiam frutas, e agora não mais. Notem que o lanche que é feito na creche é levado de casa. Modos que. Quer que seu filho coma fruta, é só mandar fruta para a creche.

A mãe-mais-mocréia-de-todas:
-- Ah, mas é complicado, nem sempre dá para lavar, descascar, cortar, sabe como é, né? Eu estava mandando melancia cortadinha, lembra, Fulana? [para a amiga ao lado], mas depois não deu mais certo porque ficava azeda!

A mãe-tímida-com-a-raiz-dos-cabelos-carecendo-de-pintura sussurra para a professora (mas todo mundo escuta):
-- A M. está comendo todo o lanche dela?

Olhei para a janela. Tudo escuro lá fora.

Mais problemas. Crianças que eram muito amigas e agora estão em turminhas separadas, e choram porque sentem falta dos amiguinhos. Dilema. Vamos preparar as crianças que a vida é mesmo feita de mudanças vs. Para que inflingir um sofrimento desnecessário tão cedo.

A mãe-descolada:
-- O E. sente muuuuita falta dos amiguinhos. Por exemplo, eu só consegui que ele parasse de mamar falando que o J. não mamava mais, a C. não mamava mais, e por aí vai. Ele adora esses amiguinhos, e como ele já tem 1 ano e 11 meses, já fala bastante, e vive falando deles.

A mãe-de-oclinhos-e-rabo-de-cavalo ao meu lado:
-- É verdade. Quando a S. mudou de turma, a C. começou a chorar todo dia para vir pro colégio.

Olhei para meus pés. Ainda bem que vesti uma boa meia fina, porque nessa cadeirinha mínima a canela fica muito à mostra.

A professora -- a figura mais sensata e interessante naquele freakshow, felizmente -- conta o dia-a-dia das crianças. Que de manhã, como os alunos vão chegando em horários diferentes, ela faz uma atividade mostrando as fotos de todos na parede e perguntando quem já está ali, e quem ainda não chegou.

Mãe-pequetitinha-e-atrasada, sentada do meu outro lado:
-- Mas a minha filha ainda não fala! Como vocês fazem nesse caso? Ela fica excluída dessa atividade? Imagino que muitos da turma ainda não falem. Ou não?! Só a minha filha é que não fala ainda???!!

Olhei para o relógio. Mathilde, tadinha, já deve estar louca pra ir embora, já passou da hora dela.

A reunião termina um pouco na marra, dado o adiantado da hora. O pai do D. vai lá, claro, falar sobre o pinguinzinho surrado do chapéu inclinado. As mães voam na professora para perguntar se meu filho isso, se minha filha aquilo.

Não sei vocês, mas eu estou terrivelmente pessimista em relação ao futuro da humanidade.

Filha querida, não desanima. Eu vou te levar para ver os patos de novo.

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30.6.09

Audiovisual



Até que demorou. Mas Mathilde finalmente se encantou pelo mundo do audiovisual. Sim, sim, desenho animado.
Tudo começou com uns livrinhos. Mathilde tem livro à beça, e não tem brinquedo no mundo de que ela goste mais do que de ler seus livros. Ela adora sentar no nosso colo e ler junto conosco. E dentre toda sua biblioteca, os favoritos são os livrinhos de uma coleção que comprei um dia, despretensiosamente, de uma personagem até então desconhecida para mim, a Peppa Pig. Mathilde se viciou, e de uns tempos pra cá passou a chamar "Peppaaaaaa!" quando quer que leiamos com ela. Aquela coisa de criança, você lê quinze vezes seguidas o mesmo livro de figuras, com 6 páginas, e ela pede pra ler outra vez. Então fui pesquisar se havia outros livrinhos da Peppa no mercado, e descobri que na verdade a Peppa é um desenho, e os livros, um desdobramento do desenho. Catei no YouTube e achei alguns episódios em português (e outros tantos em italiano, francês, sérvio e polonês -- porque hoje em dia a educação de uma criança não pode ter esses limites, certo?). Pronto. Vício total. Até então ela nunca tinha achado tanta graça em desenhos porque quase não vê televisão. A única da casa fica no nosso quarto, ela acaba tendo pouco contato. Então para ela agora desenho é uma coisa que se vê no computador. E pega a gente pela mão, leva pro computador e pede "Peppa! Peppa!". Só tem 4 episódios em português, e eu já sei todas as falas de cor. Mas pelo menos é um desenho legal.
Esta semana fomos à consulta de rotina no pediatra, que nos recomendou o Pingu. Nossa, adorei, achei muito mais legal.
E vocês com filhos pequenos, quais os desenhos que fazem mais sucessos tanto com pais quanto com filhos?

Ponto final

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Entreguei a tradução.
Mandei o arquivo para a editora à 1:10 da madrugada de domingo pra segunda.
Nem acredito. 660 laudas.
Sim, ainda falta o copidesque, a revisão técnica, a revisão da revisão etc. Mas, caramba, ficou assim um vazio em minha vida.

É um livro muito bom, que gostei de traduzir. Passado o susto inicial, a responsa de traduzir o texto de um super professor seriíssimo de Oxford e talz, e todo aquele vocabulário britânico que eu não conhecia, foi uma experiência muito boa, e aprendi muito com o autor.
E, entre outras coisas, o bom de traduzir livro sério é que posso escrever outrem e alhures sem constrangimentos.
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27.6.09

As pessoas são muito loucas

A frase acima é uma espécie de slogan aqui em casa. Uma das frases favoritas de Marido e minha. Serve para expressar nosso sentimento de estranheza perante, como dizer?, "o mundo em geral".
O post do Starbucks me fez lembrar da frase. Assim como no sábado passado, quando fui com Mathilde à praia ("A paia! A paia!"). Estava um dia perfeito de inverno carioca, céu azul sem uma nuvem sequer, temperatura ideal. Mathilde enlouquecida brincando na piscina armada pelo barraqueiro. Comprei um saco de Biscoito Globo para nós duas. Ela, típica bonne vivante [não é revelador que esta expressão só exista no masculino?], sentou-se numa cadeira de praia dessas que ficam para alugar e apontou para a cadeira do lado dizendo "mamamamãe", o que significa mais ou menos uma ordem para que eu me sente ao lado dela. Obedeci. Ela se deu por satisfeita e ficou comendo o biscoito apreciando o movimento no calçadão.
Enquanto isso, outras crianças mais ou menos da mesma idade brincavam na areia. Algumas, totalmente vestidas, apenas sem sapatos. Outras, de roupa de banho. Mas o mais curioso eram as mães. A menina louca para entrar na piscina, e a mãe "Fulaninha, não encosta nessa água, que você está gripada!". Dois irmãozinhos brincando na mangueira de onde jorrava água da bomba, e a mãe "Fulano! Beltrano! Saiam daí! Vocês vão se molhar!". Um garoto um pouco mais velho (uns 4 anos) estava de camiseta de manga comprida, e enfiou os dois braços na piscina enquanto os pais se distraíram com a irmã menor. Coitado, só faltou apanhar, porque a blusa ficou encharcada.
Então a nova moda parece ser essa. Levar as crianças para a praia e não deixar que elas se molhem.
Tenho certeza de que tem alguma parte dessa história que ainda não me contaram. Algum sentido tem que haver.
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Deslumbre

Parece que abriu uma loja Starbucks no shopping center do bairro. Percebi porque comecei a ver, na rua, umas pessoas com copos da Starbucks na mão. De repente passei a reparar. Muitas pessoas. E percebi que entraram numas de exibir seu copo de isopor da Starbucks. Tipo, depois de vazio, continuar andando com o copo na mão. Quem sabe se não guardam em casa para usar novamente no dia seguinte.
Me senti em Moscou quando abriu o primeiro McDonald's.

Este mundo não me pertence mesmo.
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26.6.09

Música, apenas

M. sapecou algumas fotos ótimas do concerto!

O show de segunda foi um enorme sucesso. A Cecília Meireles lotada, numa segunda à noite. E o concerto, lindíssimo. Fiquei muito feliz.

E enquanto ouvia a música, voltei a pensar em algo que já vinha matutando desde há algumas semanas, quando fui ao um concerto da Rio Folle Journée* com M., na mesma Sala Cecília Meireles.** Que é sobre assistir concertos de música clássica e música instrumental. Gosto tanto porque são ocasiões em que não há nada competindo com a música. Não há filme. Não há história. Não há mise en scene. Não há luzes piscando. Não dá pra dançar. Não dá pra conversar. Não há letra para entender. Nada para tirar sua atenção. Não há opção a não ser ouvir. Apenas.

*Sempre tento ir nesses eventos. Rio Folle Journée, Rio Restaurant Week, Festival de Cinema do Rio. Porque são tantas as desvantagens de se morar numa megalópole, que me sinto na obrigação de aproveitar as vantagens.
**Este ano toda a programação de clássicos está sendo na Sala porque o Municipal está em reformas. Como vocês sabem, 2009 é o centenário da inauguração do Municial. Aí hoje vi na televisão do elevador do trabalho que a previsão de término da obra é dezembro. Não é sensacional? No ano inteiro do centenário o Teatro vai ficar... fechado! Como é que ainda me surpreendo com essas coisas?
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22.6.09

Hoje 20h30


Estarei lá.

18.6.09

O lorde da motocicleta


Todos que trabalham no mesmo prédio que eu já o viram. Não tem como não reparar. Ele vai embora lá pelas 6 da tarde, e a princípio a gente pensa que é um, sei lá, astronauta. Mas é só um motociclista. Só que nunca se viu um tão paramentado. Protetor de cotovelos, calça especial, tênis que fazem nhec-nhec, casaco high tech e um estranhíssimo protetor de pescoço, que mais parece aquelas almofadas em forma de U para dormir em avião. E capacete na mão.
Passado o primeiro susto, da segunda vez que se pega o mesmo elevador que ele já dá pra reparar. Ele é bonito. Beeem bonito. Alto, meio grisalho, cabelo bem aparado. Ar de, sei lá, holandês. Holandês bonito, bem entendido, que não é lá uma coisa assim muito fácil.
Ah bom, então. Ele trabalha no meu ex-andar (como já falei, agora subi na vida [3 andares, precisely] e tenho vista pros barquinhos do Iate). E aí que um dia me vi esperando elevador com ele no hall do andar. E olhamos da janela lá embaixo e vimos aquele trânsito compriiiido da Mena Barreto, uma porção de luzinhas vermelhas andando devagarinho. Fui eu que comecei. Falei qualquer coisa sobre uma moto imensa que estava parada no engarrafamento. Ele respondeu sem hesitar ("Mas não é um triciclo?". Era.) e não parou mais de falar. Fez vários comentários sobre, sei lá, o trânsito, as ruas de Botafogo, o tempo. E eu com meu capacete vermelho na mão. Ele olhou, curioso, mas não perguntou nada. "Bicicleta", eu disse. "Ah", ele sorriu. E o elevador chegou, entramos e logo entraram mais 250 pessoas.
Encontrei o motociclista outras vezes. "Ué, não está mais vindo de bicicleta?", ele perguntou um dia, ao me ver indo embora sem capacete. Expliquei que agora paro na garagem e prendo o capacete na tranca junto da bicicleta. Ele disse que não faz isso na moto porque tem medo que alguém suje ou faça algo com o capacete dele (que pressuponho ser de titânio, urânio enriquecido, kriptonita ou material semelhante). Uma outra ocasião ele comentou que os capacetes de bicicleta são muito frágeis. "Eu já quebrei uns 3 desses". Fiquei sem entender se ele já atropelou 3 ciclistas ou se é ele mesmo um ciclista muito ruim. Achei melhor não perguntar.
Quando comentei com as calegas-de-trabalho sobre meus papos com o motociclista, todas ficaram espantadas em saber que ele é simpático. Porque sua figura paramentada é tão intimidadora, que tenho a impressão de que ele ficou genuinamente grato por ter estabelecido um contato. Falei que parece holandês também porque, além da cara de Van der Sar (só que bonito!), sinto nele um levíssimo sotaque, indefinido. E essa sensação de estrangeiro só se reforça nessa alegria que ele parece sentir por fazer um mínimo contato com alguém. Não tem nada de flerte, é só a alegria do reconhecimento.
E a gente, que anda sempre a fazer troça da alteridade mínima.
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