28.1.08

Dr House e Comissário Maigret

Jules Maigret (uma de suas muitas caras possíveis) e Gregory House

Com um bebê de menos de um mês, a gente não sai muito de casa. Apenas para alguns compromissos e alguns passeios. Veja a diferença. Compromissos são: tomar vacina no posto de saúde, ir ao pediatra, fazer o teste do pezinho, ir ao dentista com a mamãe (porque durante a gravidez o cálcio foi pras cucuias e mamãe terá que fazer um lento, doloroso e caro tratamento dentário). Passeios são: passear no jardim da Casa Rui Barbosa, tomar café da manhã no Parque Lage. Et caetera.

Então, em casa. Por incrível que pareça, há momentos em que não estou no papel de restaurante (leiteria, melhor dizendo), nem no papel de lava-jato, nem no papel de rede de balanço. Desses momentos, metade eu tiro pra dormir. A outra metade é que são elas. Tem coisas de trabalho que eu já consigo fazer, e faço com o maior prazer. Tem blogues para ler. Já até li um livro inteiro. De 500 páginas! E aí, tem a televisão, essa estranha máquina.

Vou te contar, TV a cabo é uma droga. Uma porcaria de investimento. É caro e não tem nada que preste. Já concluí que, se você não sabe a priori o que quer ver, a que horas, e em qual canal, não é zapeando (verbo ridículo) que vai descobrir, por acaso, alguma coisa boa. Mas então, você paga para assistir aos canais. E mesmo assim tem que assistir a muita propaganda. Intrigam-me especialmente a quantidade de anúncios de pasta de dente protagonizados por dentistas (sempre com menção a um número de CRO, para dar credibilidade) e os anúncios de perfumes, que são sempre mucho locos e sempre com algum sotaque esquisito (tipo The new fragrance by Cawolina Hewwewa). Algum dia, no século passado, ouvi dizer que quando a TV a cabo chegasse no Brasil seria ótimo, porque uma vez que os assinantes já pagam pela programação, não haveria necessidade de comerciais. Devo ter alucinado. Porque além dos comerciais, ainda tem milhares -- milhares! -- de horários pagos em que ficam vendendo enceradeiras, grills e colares de pérolas em programas inacreditáveis. É que nem spam de Rolex e Viagra: se tem tanto é porque alguém compra. E eu pagando por isso tudo.

Mas não era isso que eu queria dizer. Sou uma pessoa feliz, vou falar de coisas boas. Coisas que eu gosto de ver na TV. Coisas de que aprendi a gostar. Na verdade, uma coisa, no singular: House. É verdade, fui me afeiçoando aos poucos àquele ambiente do hospital-escola em New Jersey, àquele protagonista sarcástico e miserável (a pior tradução disponível para miserable, o adjetivo mais usado para caracterizá-lo), à equipe, que inclui um médico com sotaque britânico (na verdade, australiano), ao amigo oncologista, que eu fiquei por muito tempo com aquela estranha sensação de-onde-eu-conheço-este-ator?, até que me lembrei que ele era o rapazote oh-capitain-my-capitain (o que morre no final) de Sociedade dos Poetas Mortos.

Ou seja, viciei. Já sei que quinta às 23h tem episódio inédito (quarta temporada), e que todo dia às 13h tem algum episódio de temporadas antigas (que eu não vi, então pra mim dá no mesmo). Marido viciou igualmente. E é por isso que a gente só tem almoçado depois das 14h.

Esta semana me bateu um insight. Gosto tanto do doutor House porque ele me lembra muito uma de minhas paixões literárias: o Comissário Maigret. O leitor provavalmente dirá: "Quem?!". Já me acostumei. É impressionante como as pessoas conhecem pouco a obra de Georges Simenon, o criador do Maigret. O homem escreveu 192 romances (75 dos quais protagonizados pelo Comissário Jules Maigret) e 162 novelas (28 com Maigret) (segundo o site Tout Georges Simenon). E mesmo assim, os romances policiais que povoaram a adolescência de todos nós foram os da Agatha Christie. Que são ok, mas olha, os do Simenon são muito melhores. E na comparação dos personagens, vamos e venhamos, Poirot é um chato, aristocrata esnobe. Maigret é muito mais interessante.

Maigret, assim como House, é imprevisível, e aí reside seu maior charme. Ambos são grandes autoridades em suas especialidades, espécies de lendas vivas com as quais qualquer iniciante (médico ou policial) quer trabalhar. Mas quando isso acontece, os novatos ficam sempre frustrados, pois a conduta de House e de Maigret nunca corresponde à expectativa -- é pior. House mente para os pacientes, Maigret tortura suspeitos com interrogatórios intermináveis. Ambos erram -- e não ligam muito para isso. House é viciado em Vicodin. Maigret bebe, inclusive durante o trabalho. Não, ele não bebe vinho. Bebe principalmente chope, que manda vir da brasserie da esquina (chope quente, pois). Gosta também de calvados e de grogue -- este último, uma bebida espetacular para o frio. Eu adoro especialmente quando um jovem policial, no meio da investigação, sem nenhuma pista, pergunta: E agora, comissário, o que vamos fazer?, e ele responde, Não tenho a menor idéia, vamos tomar um chope, e depois pode ir para casa. E por falar em casa, o comissário mora com Madame Maigret no Boulevard Richard Lenoir, em Paris. (O casal não teve filhos.) E trabalha na Polícia Judiciária, cuja sede fica no Quai des Ofèvres, defronte o Sena. (Pergunte-me se não estive nesses lugares em março de 2007, quando fui a Paris.)

Além de tudo isso, é claro, House faz principalmente trabalho de detetive. Sua obsessão por invadir a casa dos pacientes para analisar o ambiente, em busca da origem dos sintomas (e é engraçado que os coitados de sua equipe tenham sempre que invadir, ninguém nunca pode ceder as chaves voluntariamente), é muito boa. Maigret também tem essa mania de entrar sem pedir licença. Quebram protocolos. Ao longo dos episódios, ambos têm o dom de enfurecer os parentes das vítimas, os mesmos que no final virão lhes agradecer de joelhos. House anda com sua inseparável bengala, Maigret -- que faz o tipo "armário", alto, forte, largo -- não vive sem o cachimbo, na melhor tradição dos detetives do início do século XX.

Mas isso é fato: Maigret é um personagem do século que passou. Seus romances foram escritos entre 1931 e 1972. Seu cinismo e sarcasmo, portanto, não podem nem ser comparados ao de House, um personagem a) americano b) de TV c) do século XXI. Mas que os dois têm seu parentesco, ah isso têm.

[Para ler Simenon, recomendo as ótimas edições Pocket da L&PM em co-edição com Nova Fronteira (que publica o autor no Brasil desde priscas eras). São mais de 20 títulos, a preços entre R$ 12 e R$ 17, por aí. Gosto especialmente de Maigret e o homem do banco, Maigret e seu morto, Uma sombra na janela, Memórias de Maigret (mas este, só para quem já o conhece bem).]

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10 comentários:

Helê disse...

Bem-vinda ao clube, Anna! Eu já fiz alguns posts sobre o House e sou muito fã. Se vc assinar um termo de compormisso posso te emprestar o box da 1a temporada, hahaha! Fiquei interessada no Maigret, vou procurar.
Beijo,
Helê
PS: Espero que esse comentário entre, pq o outro que fiz, no 'coração de mãe', dançou. Além de elogiar eu dizia pra vc que o melhor é que é pra sempre ;-)

anna v. disse...

Helê! Eu quero, eu assino! Já sei, você me empresta o box da 1ª temporada, e eu te empresto uns livros do Maigret (que também só saem aqui de casa em circunstâncias especialíssimas). Que tal?

Anunciação disse...

Adoro os dois.House eu não assisto muito pq não tenho tv paga e quase nunca me lembro do horário e da emissora(acho que é a record).Eu me realizo com o comportamento dele;fico imaginando se eu pudesse fazer aquelas doidices que ele faz.Como está baby?

Lord Broken Pottery disse...

Anna,
Li com muita curiosidade seu texto. Também estou numa fase bem House. Assisto diariamente, às 20h00, considerando o melhor que existe para ser visto na tv. Gosto do ator, conheço o britânico Hugh Laurie desde o tempo em que fazia uma série humorística maravilhosa junto com o Stephen Fry, sucesso enorme em UK: Fry and Lore. Também sou apaixonado pelo Maigret e quis ver qual a associação que você fazia entre eles. Me pareceu adeqüada, embora um pouco estranha. Acho o Maigret bem resolvido, mais feliz. É claro que os dois são muito seguros, sabem o que fazem. No fundo, embora trate de medicina, House é um programa de investigação. Tanto House como Maigret são grandes detetives, e os dois têm um humor peculiar, delicioso.
Beijo grande

Deh disse...

Aaah, por algum motivo obscuro eu não assisto House. Sei lá, provavelmente porque venho pro computador ou vou ver alguma bobagem terrível em outro canal. Mas a parada dos comerciais é de dar raiva mesmo, a TV se tornou minha amigona nesses tempos de licença e amamentação massiva, acabei me viciando em barbaridades como The OC, coisas do tipo Extreme Makeover...e ficava sempre pensando na parada das "dentistas" falando com aquela espontaneidade zero: "Como você sente seus dentes hoje? Não tão limpos?". Que porcaria, eu tô pagando caro pra ver isso...
Maigret, minha mãe AMA Maigret. Francófila que é, ela não deixa passar batido quando dá pra assistir...
Beijo!

Cam Seslaf disse...

HAHAHAHA! Eu também VICIEI em House agora! Fico rezando para ela não querer mamar às 13:00, hahahaha!

anna v. disse...

Anunciação, imagino que os profissionais da área de saúde devem vibrar com as atitudes pouco convencionais do House... A bebê está uma cousa de fofa.
Lord, não sabia do programa com o Stephen Fry, já achei umas coisas no Youtube, obrigada pela dica. E sobre o Maigret, você tem razão, a felicidade de viver é uma diferença grande entre os dois.
Deh, caramba, acho que você se viciou em drogas pesadas! :-) Eu nunca assisti aos filmes do Maigret, serão bons?
Cam, deve ser hormonal, haha. Beijos.

Arnaldo disse...

Anna,

Também viciei no House. Como na minha TV a cabo não passa o House, peguei, na locadora, as 3 temporadas completas e assisti num esquema de maratona. É, de fato, viciante. Até escrevi um post sobre isso.

Ana disse...

Anna,
também me chamo Ana, tb viciei no House, tb iniciei meu marido, e por conta dos episódios das 13h, almoçamos antes e ficamos na frente da TV até o final do episódio... aguardo ansiosa pela 5a. temporada...

anna v. disse...

Oi, xará. E quando será que vem essa quinta temporada? Não aguento mais tanta reprise!