31.12.07

2008


Que 2008 seja um ano tão inesquecível para vocês quanto será, com certeza, para mim.

Feliz ano novo!

28.12.07

Pequenos prazeres

Ir à praia, cavar um buraco na areia para encaixar a barriga, e, depois de tantos meses, deitar de bruços.
Hmmmm...

26.12.07

Da série As vantagens de ter uma madrinha fotógrafa

Ensaio fotográfico.
38 semanas.
Momento show-off egotrip descontrol.


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Resta um


Parece que só sobramos Mathilde e eu.
Todo mundo já sabe, né? Chegaram a Catarina, a Anais, o pequeno corintiano. Nasceu também o filho da minha professora de Pilates, ela que foi minha companheira de gestação, semana a semana, e estava só uma semana à minha frente. Chegaram todos esses amiguinhos, antes do Natal. E nós aqui, esperando. 38 semanas e meia. Está tudo certo e nos conformes, já há uma semana estamos no clima "a qualquer momento" -- uma situação muito, muito sui generis. De certo modo, fico à espero da dor. Ou "as dores", no plural, como diz a minha avó. Tento continuar com a vida -- ler, ver TV, ir ao cinema, tomar um chope com os amigos, fazer e receber visitas. Mas nada, nada mesmo é como antes. E esta é a fase inicial desse grande, enorme rito de passagem: a despedida da vida como eu a conheci até hoje. ("... And I feel fine")

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18.12.07

Homens na sala de parto

Com o tamanho da minha barriga atualmente, é cada vez mais difícil as pessoas puxarem papos de outros assuntos comigo. As mulheres que já são mães falam muito, naturalmente, de seus partos, como foram, o que aconteceu, etc. E me chama a atenção o fato de que, nesses relatos, o papel do pai é sempre meio caricato. Os maridos acompanham as mulheres às salas de parto, mas o que elas me contam é que eles passam mal, ficam brancos como uma folha de papel, ou então se escondem através de câmaras fotográficas. Ou seja, muitas vezes atrapalham mais do que ajudam.
Eu, que sou um raro espécime feminino que acredita e põe fé no sexo oposto, gostaria de saber dos homens que já passaram por essa experiência: como foi?
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9.12.07

Momento jabá

Estou na campanha. Vote na Escola Portátil, na categoria Segundo Caderno/Música.
www.oglobo.com.br/fazdiferenca
Tá legal, tem uma pentelhação de ter que se cadastrar no site d'O Globo, mas vocês já são todos cadastrados, não é mesmo?
;-)

7.12.07

Dress code hipopotamal umbanda-chic


Amanhã tenho um casamento. Sim, tacitamente sei que pessoas com 36 semanas de gravidez estão dispensadas de ir a casamentos, todo mundo entende e ninguém fica triste. Mas os noivos são pessoas tão queridas que eu realmente quero ir.

Então, bem, tem o óbvio problema da roupa. Traje de festa para uma hipopótama. Que seria contornável se. Se a cerimônia religiosa não fosse em um centro de umbanda. Aonde não se deve ir de preto, vermelho, roxo, marrom. Além disso, é uma cerimônia longa, de 2 horas de duração, que começa às 4 da tarde. E estamos em dezembro. No Rio de Janeiro. If you know what I mean. Ontem fez 35 graus.

Bom, aí pensei em ir com uma roupa bem informal e fresquinha, vestidinho bem verão. E munida de leques e borrifadores de água. Só que. Depois da cerimônia tem uma festa de casamento comme il faut, num clube. Aonde não rola ir de vestidinho e sandalinha. Pelo menos em princípio.

De modos que. Não sei o que fazer. Lembrando que só 2% do meu guarda-roupa me serve atualmente.

Dicas? Alguém?

5.12.07

O duelo da cretinice

Pensando bem, o que esperar de uma empresa que adota uma campanha publicitária tão cretina quanto essa?


Aqui em casa temos opiniões divergentes sobre qual é a empresa mais cretina. Eu acho que é a Telemar (ou Oi, ou seja lá que nome tenha). Marido acha que é a Net. Essas últimas semanas, ele está ganhando, com leve vantagem.

Case history 1: Telemar
Na semana passada fomos acordados às 5 da manhã de domingo com o telefone tocando. Mas curiosamente ele não tocava trim... trim... trim como de costume. Era um triiiiiiiiiiiim constante e infinito. Quando se atendia ele fazia brrrrrrrr. E o pior era que você atendia uma extensão e as outras continuavam triiiiiiiiiinando. Ou seja, para parar o barulho era necessário deixar as 6 extensões da casa fora do gancho (sim, 6 extensões, mas eu não moro em Versalhes, eu só não gosto de ter que dar mais de 2 passos para atender o telefone). Para completar, quem ligava para o nosso número ouvia normalmente o sinal como se estivesse chamando e ninguém atendesse. E nessa hora o telefone não tocava para a gente. Depois que passava a histeria do triiim continuum, colocávamos tudo no gancho só para, em alguns minutos, começar tudo outra vez. Nesse domingo saímos de manhã, e quando voltamos havia 25 mensagens na secretária eletrônica, todas com brrrrrrr. Muito legal. Liguei para lá, expliquei a situação, fiz todos os testes com o atendente, e me deram um prazo de 48 horas para checar o problema. E de fato, no dia seguinte tudo voltou ao normal e acabou o poltergeist.

Case history 2: Net
Recebi uma ligação da Net dizendo que precisavam vir na minha casa instalar um decodificador porque estão decodificando a região. Hmm. Na hora eu não podia falar direito, muito menos agendar uma visita, pedi o telefone para ligar mais tarde agendando. Ela me deu um número começando com 4004 (ligações pagas por quem liga). Eu pedi o 0800 que sei que é obrigatório por contrato, mas a atendente não sabia. Que ótimo. Pesquisei um pouco e aqui vai o Serviço de Utilidade Pública: 0800 701 03 58, número gratuito da Net para assinantes. Bom, claro que não liguei agendando nada, e dali a uma semana mais ou menos me ligou outro cara, com a mesma conversa. Agendei uma visita para 7 de dezembro, mas resolvi checar no site da Net se havia mesmo isso ou se, sei lá, podia ser um golpe. Na página não havia nada. Então liguei para o 0800, e o outro atendente me confirmou que estavam de fato fazendo este procedimento. Perguntou para quando eu tinha agendado a visita, eu disse, e ele me falou que estava checando no sistema mas não constava esse agendamento.
-- Mas eu acabei de marcar com o seu colega, não tem nem dois minutos, vai que ainda não entrou no sistema.
-- Impossível, senhora, é tudo automático, eu estaria vendo aqui agora. Eu posso agendar uma visita agora mesmo.
-- Eu não vou agendar outra visita, é claro que isso vai dar confusão. Vocês ficam batendo cabeça, depois vão acabar me cobrando a visita.
-- Mas não tem nada agendado, e se a decodificação não for feita a senhora vai ficar sem sinal.
-- Isso seria uma bênção. Mas olha, vamos fazer assim, amanhã eu ligo outra vez, e se de fato não houver nada marcado, eu faço outro agendamento.
E assim ficamos combinados.

Então no dia seguinte Marido ligou e marcou a visita para sexta-feira à tarde (entre 12h e 18h), e ficou esperando. Eu cheguei em casa às 19h, e, claro, os cretinos ainda não haviam aparecido. Chegaram umas 19h30 e instalaram uma caixa horrenda em cima da TV, que vem com outro controle remoto. Já me deu um mau humor geral, porque antes não havia caixa alguma e só um controle (o da TV) resolvia tudo. Mas não, agora retrocedeu, tem uma caixa horrenda preta que ainda por cima esquenta. Pra completar, o volume do controle remoto da caixa horrenda não funcionava. E o cretino da Net queria me convencer a usar o controle da TV para volume, e o controle da caixa horrenda para mudar de canal. Recusei terminantemente e bati pé: quero uma caixa horrenda que ao menos funcione. Ele me explicou que existem vários modelos de caixa horrenda (por quê, senhor, por quê!?) e que aquele modelo realmente não funciona o volume (!). E como aquela era a última visita do dia, ele não tinha outras caixas horrendas de outros modelos no carro.
-- Então paciência, você vai ter que voltar outro dia com uma caixa de outro modelo. Afinal eu não queria nada disso, estava quieta em casa quando vocês ligaram duas vezes para marcar essa mudança. Se existem vários modelos, não tem nenhum motivo para eu me contentar com o pior.
-- A senhora precisa ligar para a central para solicitar.
-- Certo, vou fazer isso agora, enquanto você ainda está aqui.
Liguei (para o 0800 que os cretinos instaladores de caixas horrendas também desconheciam) e expliquei a situação. De repente um dos cretinos instaladores de caixas horrendas pede para falar com o atendente. Ao que parece, se aquele pedido fosse interpretado como sendo uma falha dele (que geraria um retorno de credenciado, eis o nome técnico-burocrático), ficaria ruim para o lado dele. Resultado, ficaram os dois batendo boca no telefone na nossa frente. Nisso, já eram oito e tal de sexta-feira, Marido já tinha aberto uma cerveja e eu também precisava de uma, com a maior urgência.
No fim, ficamos com a caixa horrenda ruim e a promessa de que eles iriam nos ligar (hohoho) para agendar a troca. E nos recusamos a assinar qualquer protocolo de serviço.
Claro que não ligaram, então tivemos que mais uma vez recorrer ao 0800 para agendar outra visita, hoje na parte da manhã (até meio-dia). Milagrosamente, o cretino da vez chegou às 8h30, e trocou a caixa por uma que funciona o volume. Mas, hélas, a GloboNews sumiu do canal 40. O pobre cretino ligou inúmeras vezes para várias pessoas diferentes pedindo que lhe dessem um hit (outro termo técnico) para o correto mapeamento de canais. E nada. Enfim ele disse que eu mantivesse a caixa horrenda ligada por mais 30 minutos, sem desligar, e depois verificasse se a GloboNews tinha voltado ao 40. Tipo assim uma simpatia, sabe? Mas e se não voltar?, perguntei. Aí a senhora liga de novo, que vamos voltar aqui.
Ah, que delícia. Skavurzka então significa isso, né?
Aguardem cenas dos próximos capítulos, sendo que ainda precisamos pedir uma troca de ponto, pois a TV vai mudar de cômodo!


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3.12.07

Trinta e cinco semanas



Nós no "chá de fralda", realizado no nosso botequim favorito, em Copacabana.
(Porque essa coisa de chá de fralda sem cerveja, só com mulher e com "brincadeiras", ninguém merece.)

Abaixo, o resultado.


Como vocês podem perceber, desisti mesmo da alternativa ecológica...

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28.11.07

Dez em química, zero em design de produto


Na última semana meus pés e minhas mãos incharam. Meus dedos doem quando eu fecho a mão. Ontem levantei da cama com tanta dor nas costas, tanto cansaço e tanto sono, de tantas noites mal-dormidas, que as lágrimas brotaram sozinhas, incontroláveis. Coitado do marido. Blame it on the hormones. Mesmo as gravidezes mais tranqüilas têm esses perrengues. O corpo não agüenta -- não tem como agüentar.

Não é de hoje que tenho críticas ao design do corpo humano. As pessoas insistem em chamá-lo de máquina perfeita, e tal. Eu discordo. Acho que alguns órgãos ficam sobrecarregados. A boca, por exemplo. É um absurdo que se use o mesmo órgão para falar, comer e ainda respirar -- isso para não entrar nas utilidades eróticas. Não seria muito melhor se apenas falássemos pela boca, e tivéssemos outra abertura ali pelo peito só para inserir comida e bebida? Ali já mais perto do aparelho digestivo, sem precisar passar pela garganta, esôfago, essa coisa que confunde com a respiração, às vezes cai no canal errado... Enfim, é uma bagunça. Também é um tremendo erro de projeto que só tenhamos dois olhos, um do lado do outro, na frente da cabeça. É claro que deveríamos ter um olho na nuca, ou melhor ainda, na ponta do dedo indicador. Como é que pode não conseguirmos olhar o nosso corpo todo sem auxílio de espelhos? A troca da dentição é outra coisa muito mal planejada. A gente vive uns 70 anos, passa 7 ou 8 anos com uma dentição e 62 com outra? Eu, hein! É claro que os dentes deveriam mudar ali pela casa dos 30 anos, para ficar mais equilibrado. E por fim, se o coração é um órgão tão importante, por que não temos dois, a exemplo dos pulmões, rins e outros?

Esse assunto me vem à mente com mais freqüência agora que o parto se aproxima. Porque essa é uma parte muito, mas muito mal feita. Vocês já viram aqueles desenhos que mostram por onde passam os bebês para nascer? É óbvio que não cabe direito. É óbvio que é apertado demais. Não faz sentido. O canal vaginal fica, como a boca, superutilizado, com funções demais. Além das funções de excreção, os bebês "entram" e saem por ali, literalmente. Não pode. Tá errado. Por que não somos, sei lá, marsupiais?
Update: A ignorância é uma merda. A Anunciação explicou que, apesar de próximos, o canal por onde bebês entram e saem, e as vias excretoras não são a mesma coisa. Blogue é esse problema. Você sai cagando regra, e se colar, colou.

Então se por um lado a parte química é um arraso, com a incrível sincronia entre os hormônios, libera uma coisa, deixa de produzir outra, tudo automático e involuntário, realmente bacanérrimo, as sinapses, as mensagens que chegam e saem do cérebro, tudo de tirar o chapéu, por outro lado deixa muito a desejar na parte de design.

Queria muito um Procon nessas horas.

PS: Por coincidência, a Maria hoje deu a dica deste site. Agora vão lá e me digam que estou exagerando.
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21.11.07

Somos todos estranhos

É claro que eu ia escrever sobre meu chope com Carrie, a Estranha anteontem. Mas, como ela mesma já disse, somos opostos absolutos (o que é meio mentira, but), de modos que ao passo que eu demoro 2 dias para tomar alguma atitude a respeito do blogue, ela em poucas horas já tinha publicado o post sobre o nosso encontro, um texto fofo daqueles que fazem a gente enrubescer. A Carrie é tipo blogueira profissa. Não admira que tantas pessoas que param lá no SublimeSucubus por acaso não resistam e se viciem, como aconteceu comigo. Porque ela domina a arte de alternar entre o seu famoso "jeito pândego" e a abordagem de assuntos sérios, íntimos até, tocantes. E a gente conversou sobre tanta coisa, e é tão bom quando um first date dá assim tão certo, que se dependesse de mim repetia o chope toda segunda, para fazer uma resenha da semana que passou.
E ela ainda levou presentes para Mathilde, olha que candura.
Em tempo: por conta de links nos blogues da Carrie e da Cam (que se enquadram na categoria blogues que bombam), a média de acessos aqui dobrou. Aí de repente me dei conta: vocês que estão chegando agora, entenderam que minha filha não vai se chamar Mathilde? Pelamor!

19.11.07

Da ausência de loção

Através do Idelber tomei conhecimento da surreal troca de e-mails entre um jornalista da Veja e o biógrafo do Che Guevara, Jon Anderson. O ápice é, de fato, a ameaça do brasileiro: por sua postura anti-ética (mandar a correspondência a outros jornalistas, já que Veja não respondia), Anderson, que escreve para a New Yorker, não seria nunca mais mencionado nas páginas de Veja.
Pausa para risos constrangidos -- ou desbragados.
Isso me faz lembrar um caso similar -- mas muito, muito mais caricato e absurdo -- de correspondência internética publicada: a briga entre Mario Marques e Daniella Thompson por causa de uma discografia publicada sem o devido crédito na biografia do Guinga escrita por Marques. (Não vou nem comentar a estranheza que me causa escrever a biografia de alguém que está em plena atividade profissional.)
Quem nunca leu não deve perder. Quem já leu pode reler. Diversão garantida. A correspondência está toda aqui (em inglês -- mas é que traduzindo perde toda a graça). Depois me diga qual o seu trecho favorito. O meu é "Why am I hungry? Today my dad read this at internet. This is so sad to me, right?"
:-)

Momento Sissi


A dona deste blogue está "Sissintindo" a tal.

Imaginem que A. me contou que este humilde sítio, com esses humilíssimos escritos, foi de certa forma responsável pela existência deste outro sítio, que -- vejam a diferença -- é obra de um escritor de verdade. Que ele descobriu o blogue por causa de um post que falava do seu livro (o segundo; o primeiro é igualmente bom) e ficou fã. Pois taí um caso de fãzice recíproca. Mas o mais curioso foi que, segundo A., Anna V. virou mesmo um personagem, citada em conversas dos almoços domingueiros. Então, depois de saber que Anna V. era flamenguista, que Anna V. tinha certos cuidados com a língua portuguesa, que Anna V. tinha viajado, que Anna V. era isso e aquilo, A. ficou curiosa e chegou até aqui para ler, já desconfiada e com um palpite. "Só precisei ler dois parágrafos para saber que era você", ela me disse. Uma dessas frases que fazem com que a gente sorria e agradeça por ter amigos tão bons há -- quantos, A.? -- 17 anos (!). De modos que o blogue fica um cadinho menos anônimo, mas muito mais feliz.
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17.11.07

Diga trinta e três

Melhor imagem para a chegada do oitavo mês


Trinta e três semanas.
Mais uma ultra. Com doppler.
Tudo normal.
Vimos o rostinho dela. Mãos, pés, dedinhos.
Já está de cabeça pra baixo, como uma boa menina.
Nada de cordão enrolado. Muito bem.
Continua me chutando incrivelmente.
Pesa algo entre 2kg e 2,3kg.

Carrinho √
Mochila da DadGear.com √
Pintura do quarto (branco) √
Ar condicionado e ventilador de teto √
Berço √
Cômoda √
Consulta com a pediatra que vai fazer o parto √

Não vou fazer a lista de coisas ainda por fazer porque... vou te contar. Não, a gente jamais estará preparada para tudo.

Semana passada almocei com T., sinônimo de papos longos e ótimos, sempre sobre assuntos os mais diversos, passando por livros, cinema, psicanálise, nossas vidas, e quase sempre terminando no assunto Flamengo.

Mas antes disso tudo ele me fez a pergunta, sem rodeios: o que você está aprendendo com a gravidez? Eu nunca tinha pensado nesses termos, mas a resposta veio automática e de chofre: Limites. Estou aprendendo a aceitar os novos limites que me surgem quase todos os dias. Porque somos educados (especialmente "educadas") para definirmos nossos próprios limites e fazemos nossas próprias opções, sem depender de ninguém. Quer largar a faculdade e fazer outra coisa? Pode. Quer enveredar pela carreira acadêmica? Pode. Quer largar o emprego e viajar pelo mundo? Pode. Quer treinar para daqui a um ano correr uma maratona? Pode. Quer escalar o Morro da Urca? Pode. Quer pular de pára-pente? Pode. Quer mudar de opção sexual? Pode. Quer fazer uma tatuagem? Pode. Quer casar? Separar? Pode. Basta ser capaz -- e, claro, basta arcar com as conseqüências.*

E agora já não. Quero andar até ali, e não posso. Se for sair na chuva, muito cuidado para não escorregar. Vai subir aqui? Dá a mão, deixa que eu ajudo. Vai subir na escada para pegar um livro na estante? Tá louca? Deixa que eu pego. Isso é muito pesado. Isso é muito grande. Isso é muito longe.

Sim, são todas limitações físicas, e as limitações que vêm depois que o filho nasce são de outra natureza -- e muita maiores. Mas essa relação de controle que achamos que temos com nosso corpo, e de repente perdemos, é um tremendo aperitivo para o que vem por aí. Então agora dependo das pessoas para coisas básicas, e o desafio é não achar que isso seja uma derrota. É lembrar que isso é temporário, plenamente justificável e, mais difícil, que eu devo até mesmo achar meios para sentir prazer com isso, aproveitar a mordomia, diriam alguns mais descansados.

E enquanto escrevia isso, li o que a Cam postou sobre a mesma coisa, e a vontade é de pegar um avião até Bras-ilha, abraçá-la e dizer que ela não está só. Mas, hélas, não posso mais pegar avião.

*Não, claro que não vivemos na sociedade perfeita e liberal, claro que somos socialmente constrangidos a muitos padrões de comportamento, claro que é restrição em cima de restrição interiorizada, et caetera. Comme même.

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10.11.07

As desaparecidas

Baco, Ceres e Cupido


Algumas vezes conversei com a minha mãe sobre os anos 70 e como era a percepção dela dos piores anos da ditadura militar. Se ela conhecia pessoas envolvidas na luta armada (sim), se chegou a se envolver efetivamente (não), e como era o clima naquela época. Ela conta que hoje em dia não podemos imaginar o que era o clima de paranóia e perseguição daquela época, em que todos poderiam estar visados, por engano ou não. Em que, mesmo não tendo feito nada de "errado", continuava-se sempre com medo. Mas o que acontecia, e esta é a lembrança mais forte dela, era que as pessoas simplesmente sumiam. Um dia estavam lá, depois nunca mais ninguém sabia. Ficava aquela dúvida sobre se tinham fugido, emigrado, caído na clandestinidade ou sido presos. As pessoas desapareciam, simplesmente.

Lembrei disso por conta da minha aula de ioga para gestantes. Lá também as pessoas desaparecem. Você convive com aquelas mulheres, conversa, troca experiências, compara barrigas, enfim se apega. E de repente, elas simplesmente desaparecem. Claro que, conscientemente, sabemos que desaparecem porque pariram, mas de certa forma não deixa de ser, também, porque foram presas pelo sistema. Caíram numa espécie de prisão. De amor.

Muitas histórias eu poderia contar sobre essa aula de ioga para gestantes, e as particularidades da convivência com uma porção de grávidas. Mas agora conto só uma curiosidade: a aula acontece em um prédio comercial, e eu faço no horário noturno, quando há menos movimento no edifício. Mas aparentemente nos mesmos dias e horário há, em outro andar, aulas, ou palestras, ou cursos, não sei, da Associação Brasileira de Sommeliers (sei porque já vi a apostila nas mãos das pessoas, ao lado das garrafas de vinho). E às vezes subo no elevador com esses aprendizes de sommeliers. Mas o mais engraçado é na hora da saída. Um elevador com cinco ou seis grávidas imensas pára no 3º andar, onde entram três ou quatro criaturas meio bêbadas. Que, naturalmente, acham que estão tendo alguma espécie de alucinação com aquela visão. Baco, deus do vinho, encontra Ceres, deusa da fertilidade, em um elevador no Flamengo.
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6.11.07

Camerata

Não que eu tenha nenhum mérito especial neste caso, mas dá o maior orgulho trabalhar com essa turma.

2.11.07

Chegou

Não, não foi Mathilde que chegou.
Foi ele, o insuportável, o abjeto, o execrável CALOR.
Se eu não morasse há 31 anos no Rio de Janeiro provavelmente estaria culpando a gravidez e a "calefação portátil" que carrego na barriga por essa sensação tão ruim. Mas não é culpa dela, coitada, é essa a infelicidade de habitar os trópicos, o ar quente e espesso, o vento morno, a umidade, a vontade de não se mexer, de não fazer nada. O horror, o horror.

Off-topic: e o Flamengo, hein? Eu tento não ser otimista, mas tá difícil. :-)

27.10.07

Meu mouse pad (e detalhes desnecessários sobre gravidez)


Momento show-off: meu mouse pad de tapete persa. Que é legítimo. M. trouxe direto do Irã. Achei completamente tudo de bom. Sobretudo as franjinhas.

Então tá, é só isso.

(Pois é. Dez dias sem nenhum post e de repente 4 num dia só. É que hoje tirei o dia para arrumar a casa. Coisas de rotina, roupas, louças, jornais da semana, papéis etc. O lance é que agora fico tão cansada com isso. Toda hora tenho que parar e sentar. Aí já viu: computador. Talvez porque esta semana, com as nanoférias, tenha sido 100% sedentária, fiquei mais cansada. Porque assim como o Fantasma é o espírito-que-anda, eu sou a gestante-que-malha. E esta semana que passou não fiz pilates, nem ioga, nem hidroginástica. Nada. A não ser os exercícios para o períneo, que quem é grávida conhece. E pra quem não é grávida eu explico. É mais ou menos assim. Você tem de ao banheiro fazer xixi umas 86 vezes por dia. Inevitável. Então em cada uma delas você fica prendendo e soltando o xixi. Que é para dar tônus muscular ao períneo, fundamental para um bom parto normal e esperança para não precisar de uma episiotomia. Ah, ok, ok, chega por hoje, já entendi.)
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S.O.S. fraldas


Anna V. um dia sonhou salvar o planeta, salvar os animais, passar a vida num bote na Antártida entre os baleeiros e as baleias, brandindo um cartaz escrito Stop killing the whales!, ou pendurada numa grande chaminé de usina poluente acenando com Save the planet! para as câmeras.

O tempo passou, e Anna V. achou que talvez valesse mais a pena tentar salvar a sua própria espécie. Fez trabalhos voluntários, passou um tempo lendo para os cegos, pensou em se filiar a um partido de esquerda junto de um amigo (que também não se filiou e hoje é médico e dono de uma franquia de laboratório onde Anna V. faz todos os exames de Mathilde).

Mais tempo passou, e Anna V. concluiu que se conseguisse salvar a si mesma já era um feito e tanto.

Porém, alguém um dia disse que o menino é o pai do homem -- donde infere-se que a menina é a mãe da mulher --, e resquícios de todas essas épocas ainda vivem dentro da versão atual de Anna V. Por exemplo, Anna V. está adorando a moda das bolsas de pano para supermercado, tem várias e usa sempre, de modo a minimizar o consumo das sacolas de plástico.

Anna V. leu por aí que as fraldas descartáveis são grandes vilãs do meio ambiente. Ficou apavorada de saber que um único bebê gasta não sei quantas mil fraldas por ano, gerando mais de 100 quilos de plástico, e que cada uma delas leva não sei quantos mil anos para se decompor.

Anna V. sabe que existem as fraldas de pano (que ela, por exemplo, usou quando bebê), mas acha que a chegada de Mathilde já está de bom tamanho no que diz respeito a "mudança de estilo de vida". Além do quê, fraldas de pano provocam assaduras, vazam e precisam de alfinetes. Anna V. tem calafrios só de pensar. Então Anna V. foi pesquisar opções, como fraldas biodegradáveis, ecofraldas, fraldas meio-termo (parcialmente reaproveitáveis), mas só achou coisas assim fora do Brasil. Perguntou aos amigos ecologistas, escreveu até para o André Trigueiro, que sabe ser um jornalista sinceramente comprometido com a causa. Mas até ele escreveu dizendo que não sabia de nada parecido aqui no Brasil -- e que, caso eu descobrisse, contasse para ele.

Sem outras opções, vendo a data do chá-de-fraldas se aproximar, Anna V. recorre a seus fiéis leitores em busca de alternativas.

Alguém?

Em tempo: Anna V. resolveu inovar no quesito bolsa-para-carregar-tralha-de-bebê. Acha que esses modelos a tiracolo, normalmente de vinil, são muito bonitinhos mas ordinários e pouco práticos. Resolveu procurar uma mochila, o que, claro, achou nos EUA. Aliás, várias mochilas, inclusive designer diaper bags. (Anna V. tem um certo medo dos americanos, que produzem sites tão específicos como www.diaperbags.com e www.diaperbagboutique.com) Anna V. acabou de encomendar um modelo da DaisyGear. Não resistiu ao vídeo de demonstração (!) com todas as funcionalidades da mochila porta-fraldas.

De facto, uma ideia nada óptima

Não entendo, mas não entendo mesmo as mudanças propostas nesta próxima reforma da língua portuguesa, tão alardeada por aí. As alterações serão todas de caráter meramente ortográfico, e sinceramente irrelevantes no que toca a melhoria da compreensão entre nós, lusófonos. Ou seja, o que se propõe como mudança não nos aproxima em nada.
Pensa bem: quando você pega um jornal ou um livro português para ler, não é porque assembleia não tem acento que você deixa de entender. Nem porque húmido lá é com h, e nem porque académico tem acento agudo.
São duas coisas que podem te deixar boiando: a construção sintática e o vocabulário. E, claro, nada disso pode ser contemplado em reforma alguma.
Eu ia me estender nessa discussão, mas vou sintetizar citando Lobo Antunes, na epígrafe de Memória de Elefante:
"Há sempre uma abébia para dar de frosque, por isso aguentem-se à bronca."
E aí, foi por causa da falta do trema em aguentem-se que você não entendeu?
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A última viagem a dois

Foto daqui

E então, o jovem e inocente casal consegue espremer uns poucos dias de férias e resolve viajar para a praia, longe do telefone, dos emails e das aporrinhações cotidianas. Vão durante a semana, na baixíssima temporada, época de praias vazias e pousadas idem. Chegam no início da noite de segunda e, coincidência feliz!, encontram um casal de amigos na mesma situação, e na mesma pousada. Na terça o tempo está mais ou menos, mas ainda conseguem ir à praia e pegar um solzinho. Mas já na noite de terça começa a chuviscar, reflexo tardio de uma grande tempestade que toma toda a região Sudeste, apenas. E na quarta chove o dia inteiro. E na quinta também, e eles voltam pra casa antes até do previsto.

Mas apesar da descrição um pouco desolada, os dois se divertiram e gostaram de ficar juntinhos nessas que foram as últimas microférias a dois, em muitos e muitos anos.
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18.10.07

Dentro de mim há um mundo


La Femme Enceinte, Patrick Ciranna

Passamos do sétimo mês.

Não sei se é assim com todas, mas não me sinto mãe, ainda. Sinto-me grávida, o que é diferente. A gravidez fica no registro do provisório, enquanto a maternidade se inscreve sob o signo da permanência. Não à toa, ninguém é grávida ou está mãe; é sempre o contrário. Mas o estar grávida é sem dúvida um momento especial. A convivência privilegiada que temos com essa outra pessoa durante os meses da gestação é muito marcante. O mudo espanto diante do fato de verificar que meu corpo comporta um outro corpo humano, esse eu acho que não vai passar nunca. Mas como tenho que seguir vivendo apesar desse surrealismo mais-velho-que-a-terra, aproveito para explorar a intimidade entre os corpos, o meu e o dela. E entre as almas também. Não existe, de fato, intimidade maior do que essa. Mathilde e eu estamos juntas o tempo inteiro, 24/7. Conversamos, nos tocamos mutuamente, interagimos. Nem um segundo de separação. O que ajuda a entender por que o parto é um trauma tão profundo, e não somente para quem está nascendo. A intimidade é muito gostosa, acaba por criar esse vínculo afetivo ancestral sem paralelo nas demais relações humanas. E para não deixar dúvidas, carregamos no umbigo esse vínculo pelo resto da vida ("o umbigo, a marca indelével de nossa antiga conexão com a mãe" -- dá-lhe, Sigmund!). Por isso tudo não tenho, até agora, pressa para passar à próxima fase deste jogo. A próxima fase vai chegar, de qualquer jeito, e vai durar para sempre. Esta fase agora, eu não sei se nem quando vai voltar.
Voltando ao mundo real, a infecção urinária sumiu, e eu continuo me sentindo muito bem, fazendo todas as ginásticas. Mathilde está ótima. Até meu peso está ok, a despeito dos litros de sorvete que tomei neste último mês. (As voltas que o mundo dá: mês passado recebi efusivos parabéns por ter engordado apenas 900g em 30 dias. Este mês o ganho de 1,2kg também foi considerado bom. Entenderam? Viu, Carrie? 2,1kg a mais em 60 dias, e isto é bom. O mundo das grávidas é um universo totalmente paralelo.)
De umas semanas para cá parece que Mathilde tomou Biotônico Fontoura ou algo assim. Passou a se mexer com muito mais força. Deve estar crescendo muito -- a outra opção é eu carregar no ventre uma matricida em potencial.
O quarto dela começa a acontecer. Passou de escritório a depósito de tralhas, mas tenho fé de que vai ficar muito bom.
Abaixo, a decoração da parede, feita especialmente para ela.

16.10.07

Pontos corridos


A torcida do Flamengo é única. Não apenas por seu indiscutível gigantismo, ou porque seja mais apaixonada do que as outras (todas são iguais nesse sentido). O que torna a torcida rubro-negra diferente é sua paixão por si mesma. Não há uma torcida que se orgulhe mais de suas virtudes, que tenha certeza absoluta de sua superioridade eterna e incomparável – não apenas numérica. A torcida do Flamengo age como se fosse uma força da natureza – como se a vitória em campo dependesse dela. Não porque seja melhor que as outras – mas porque acredita piamente em seus super-poderes. Acredita realmente que faz a diferença – e, não raro, faz.
(Gustavo Poli, no blog Coluna 2)

T. disse bem: O Flamengo hoje é uma torcida que tem um time, e não o contrário. Tudo isso (post, comentário), é claro, veio a reboque da fantástica vitória sobre o São Paulo, líder do campeonato, algumas rodadas atrás, quando houve o recorde de público. Movidos por um instinto maníaco, vários amigos meus foram a esse jogo, já antecipando um momento histórico (para mim, uma premonição completamente sobrenatural). Não fui, não apenas por causa dessa barriga avantajada de que preciso tomar conta, mas por não achar, já há meses, nenhuma graça nesse campeonato brasileiro.
Não tenho nenhum estímulo para torcer em uma competição em que todos já sabem quem será o campeão, praticamente está definido quem vai à Libertadores (há um resquício de emoção neste aspecto) e as principais apostas ficam sendo quem vai se classificar para a Copa Sul-Americana (a segunda divisão da Libertadores) e, principalmente, quem vai cair para a segundona. Ah, francamente, me poupem. Eu valorizo o meu ato de torcer.
Na época da mudança para pontos corridos, apoiei entusiasticamente a decisão. É, sem dúvida, o formato mais justo, ganha quem foi melhor durante todo o campeonato. Parece lógico e eu costumo apreciar as decisões lógicas. Mas, 5 anos depois, a questão é: e daí? Ficou melhor? Não. Ficou um saco. Futebol não tem a ver com justiça nem com lógica, é a óbvia conclusão. Futebol não é vôlei nem basquete. É o jogo do improvável, até do impossível. Resta como ótima lembrança o Brasileirão de 2002, o último antes dos pontos corridos, quando o Santos, que se classificou em 8º e último lugar, pelo saldo de gols (!), venceu angariando a torcida do país todo (inclusive a minha), com aquele time dos moleques (Robinho e Diego).

Pra terminar: o Flamengo resolveu homenagear a sua torcida e aposentar a camisa 12. Pfff. Ô marketing dos infernos...

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14.10.07

Sobre a pressão para ter filhos

Egon Schiele, "A família"


Outro dia fui almoçar com S. e E. Fomos ao Amir, o tal árabe da Praça do Lido de que eu já tinha ouvido falar tanto e nunca experimentado. Superou todas as expectativas, é mesmo espetacular.
Os dois são um casal nota dez, e são amigos próximos, principalmente ela. Do tipo, dificilmente passamos mais de 2 semanas sem nos falar. Ela tem 33 anos, ele é mais novo, acho que tem 28 ou 29, por aí.

Bom. Saindo do almoço, caminhando pela Av. Copacabana, ele me diz, como quem procura adesões: "Estou fazendo uma campanha para convencer S. a ter um cachorro." Eu tenho um problema em controlar minhas reações. Mandei na lata: "Um cachorro?! Ah, não acredito, pelo amor de deus, gente!" Felizmente meu problema de controle reacional não é tão grande, pois me controlei e não disse o que no fundo pensei: "Por que vocês não deixam de embromação e têm logo um filho?"

(E antes que me apedrejem: eu adoro cachorros, e por isso mesmo acho que duas pessoas que moram em apartamento e trabalham fora o dia todo não devem ter um.)

Ainda bem que não falei sobre isso dos filhos. Essa pressão é o que há de mais desagradável, e duvido que haja um casal com 30 anos ou mais que não tenha passado por essa situação diversas vezes. O mais comum é que a pressão não venha tanto dos amigos, mas sim das pessoas da geração anterior, pais, tios, amigos dos pais, até vizinhos etc. É foda. No fundo é compreensível que haja o questionamento ("como é, não vão procriar?"), mas, como tudo na vida, essa pressão pode ser exercida com mais ou menos noção. E aí a resposta pode vir também com mais ou menos educação.

Eu evito ao máximo tocar neste assunto, mesmo com meus amigos mais próximos, como S. e E. A minha gravidez faz com o tema venha à tona com um pouco mais de naturalidade, mas mesmo assim é delicado. Como diz H., "tocar nesse assunto é atiçar a ira dos Deuses do Constrangimento e eles costumam não brincar em serviço". É verdade. Além do mais, com o passar dos anos, mais e mais pessoas do seu círculo de amizade vão tendo filhos, e a peer pressure silenciosa é mais estrondosa.

Além da pressão natural do grupo, há, sim, a malfadada e maldita pressão do relógio biológico -- a evidência irrefutável que não se pode pleitear uma igualdade total entre os sexos. Homens podem ter filhos aos 80 anos, DNA do seu DNA. Mulheres não podem mais aos 50. Se isso não é injusto, eu não sei o que é injustiça. O diabo é ter que decidir mais ou menos até os trinta-e-poucos se você quer, algum dia, ter filhos ou não. Sim, a medicina evolui, é cada vez menos difícil engravidar com mais de 40, etc. e tal. Oquei. Ao mesmo tempo, imagino que aos 50 anos, já estando há uns quase 30 anos no mercado de trabalho, eu queira estar "em outra", curtindo a vida de outra forma. E nessa hora, lidar com os problemas de uma criança de dez... não sei. Esses são, claro, needless to say, meus questionamentos pessoais. Que afloram conforme chega a hora de me despedir da minha vida como ela é.
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Muito prazer, Obelix


Não, eu não descobri o segredo da elegância da gestante moderna. Sim, minha barriga é enorme e linda, ela só não se adequa muito bem às roupas que eu tenho. Em geral, me sinto mesmo uma barriguda mocoronga todos os dias. E a minha resistência às lojas de roupa para gestante é imensa, porque as coisas são carésimas e a perspectiva é de usá-las durante dois meses, no máximo. (Essa resistência se esvaiu um pouco quando minha avó me deu de aniversário uma bermuda da Mom's, simplesmente genial, linda e deliciosa. Mas atenção, se esvaiu só um pouco).

A atual moda das batas e blusas larguíssimas com calça legging veio bem a calhar. Batas e blusas até que tenho em bom sortimento. O problema é com a parte de baixo. As calças incomodam, mesmo aquelas que são de elástico. Porque colocar o elástico no meio da barriga incomoda. Embaixo da barriga também. Sobra então, tchã-rã, a opção acima da barriga. É isso, ameega, quero lançar para este verão a moda Obelix (trancinhas opcionais). Não de calças, porque não há gancho que chegue. Mas de saias, por que não? Tenho feito isso direto com as minhas saias mais compridas. Uma vez que passam pelo quadril e pela barriga, vão lá para logo abaixo do sutiã, com uma blusa larga por cima, é clara.

Chique no último.

8.10.07

Como renovar a sua biblioteca


Faça uma festa de aniversário e convite muitos amigos queridos.
Poderia fazer mais posts, como "Como renovar seu guarda-roupa", "Como renovar o guarda-roupa de sua filha ainda não nascida" ou "Como renovar seus acessórios", mas não o faço porque sei o que dá ibope mesmo é falar de livros. E esta foto é que ficou legal.
Interessante notar a crise da indústria fonográfica: pela primeira vez, não ganhei nenhum CD de presente.
Outra observação digna de nota foi que ganhei 3 camisolas lindas, de 3 mulheres que são mães e me disseram exatamente a mesma coisa: "é só o que você vai usar durante o primeiro mês".
O fato é que fiz 31 anos na sexta-feira, e já me peguei usando o vocativo "meu jovem" -- olha que coisa estranha.
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1.10.07

A hora da música lenta

Vi que o The Police vem fazer show no Brasil em dezembro. Um gancho tênue para mais post sem pé nem cabeça.
Nos meus anos de pré-adolescência, ali na segunda metade da década de 80, freqüentava muitas festinhas de aniversário. Matinês. Muitas vezes nos salões de festas dos prédios, outras em boates que exploravam esse filão pré-púbere -- e quem cresceu na Zona Sul carioca há de se lembrar de lugares hoje falecidos, como a Mikonos, a Vogue e a Circus. As festinhas eram das 16h às 22h, mais ou menos. Eram servidos uns salgadinhos, refrigerantes, uma coisa meio efêmera chamada Keep Cooler, e o grande sucesso, coquetel de frutas, aquela coisa horrível, rosa e doce. E ali ficávamos nós em grupinhos de meninos e meninas, arrumadinhos, com saias balonês e gel no cabelo (gel com purpurina, claro), fofocando e dançando músicas da Blitz e do Rick Astley, além da trilha sonora de Footlose.
Mas inesquecível mesmo nessas ocasiões era a sessão de músicas lentas. Nenhuma festinha, fosse em play ou boate, estava livre desse momento em que os coraçõezinhos se apertavam. E aí eu lembro de 3 canções imbatíveis e obrigatórias: Your Latest Trick (Dire Straits), Holding Back the Years (Simply Red) e Every Breath You Take (The Police). Bastava começar uma dessas para causar aquele frisson, com as meninas dizendo "ai, eu aaamo essa música!". Eu, que nunca fui de estraçalhar corações, dancei muitas vezes essas músicas, com os rapazes. Bem ou mal, sempre tive amigos meninos (mais uma vez a teoria do filho-único-criatura-social). Outras tantas vezes, tomei chá de cadeira. Your Latest Trick, com aquela clássica introdução no sax, foi "a" música com meu primeiro namorado -- e atire a primeira pedra quem não tinha aquele LP de capa azul, Brothers in Arms (released in 1985, 29 million copies sold worldwide, diz a Wikipedia).
Mas voltando ao Police. O fato é que hoje em dia, na minha aula de hidroginástica, a trilha sonora é quase sempre a mesma: um disco com vários antigos sucessos cantados pelo mesmo grupo (sei lá qual), ao vivo. Sabe aquele clima "O som do barzinho", em que um mesmo cara faz milhares de covers? É isso, só que em versão "O som do estádio". E aí no repertório tem Every Breath You Take, e pela primeira vez parei para prestar atenção na letra da música. Putz, é claro que não tinha como dar certo essa história de amor. O cara é um total obsessivo, um control freak, que persegue a moça onde quer que ela vá, chegando ao auge de usar a metáfora das respirações - Every bretah you take / Every move you make / Every step you take / I'll be watching you. Finalmente entendi por que a banda se chama A Polícia. É o Grande Irmão romântico. E a gente se esgoelava, Oh, can't you seeeeeee / You belong to meeeeee. Pré-adolescer não é fácil.
Achei, claro, os vídeos das músicas, seguem aqui embaixo.
Momento intimidade: e pra você, quais foram as músicas lentas mais marcantes?





29.9.07

Mais angústias gestacionais


Perspectiva para o nono mês

Angústia 4: Redução da velocidade
Estou readaptando meus tempos. Porque minha vida se locomove principalmente a pé. Sempre andei muito, e para me deslocar no dia-a-dia uso muito mais ônibus e metrô do que carro. Pesquisa do DataAnnaV estima em 15 a 20% a redução de velocidade de caminhada agora, na 26ª semana da gestação. Sem contar que às vezes quando ando muito a barriga dói, então tenho que parar no meio da rua e esperar um pouco. Na prática isso significa que, quando tenho hora marcada para alguma coisa, chego antes. Porque saio de casa com uma antecedência tão grande, que me adianto loucamente. Como dizia o Picapau, em todos esses anos nessa indústria vital, esta é a primeira vez que isso me acontece.


Foto do Staphylococcus

Angústia 5: Doenças
O último exame de urina apontou uma infecção urinária. Staphylococcus Aureus, a simpática bactéria que me habita. O médico receitou um antibiótico. Juro que não lembro a última vez que tinha tomado um antibiótico na vida. Sou do tipo que não toma nem aspirina nem atroveran, a não ser muito raramente. Talvez tenha um tylenol em alguma gaveta em casa, mas não posso jurar. Sou do chá de alho com mel e limão para as coisas da garganta, emplastro de inhame para ziqueziras de pele, e chá de pouco-caso para todo o resto. O resultado é que esqueço de tomar o remédio (a cada 8 horas) e fico griladíssima com toda essa química alopática. Porque na prática o Staphylococcus é só um nome num pedaço de papel, porque eu não sinto absolutamente nenhum incômodo, nenhuma dor, nada.

Angústia 6: Depilação
É engraçado ter que perguntar ao marido se preciso ou não depilar a virilha.
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27.9.07

Ganhar o dia

Como já disse aqui antes, quem é filho único, como eu, desenvolve na infância uma série de defesas contra a solidão. Uma dessas defesas são os primos. Conheço um cara que é filho único, filho de pai e mãe filhos únicos. Parte-me o coração pensar numa vida sem tios e primos. Eu compensei casando logo com um sujeito que tem três irmãos e resolvendo o problema para os meus filhos.
A minha família é grande e eu tenho muitos primos, de todas as idades, de primeiro, segundo, terceiro, quarto graus. Mas desses muitos, tem sempre aqueles que são mais especiais, mais próximos em idade e afinidade, e que ainda moraram bem pertinho a infância toda. Aqueles primos com quem eu viajava nas férias e nos fins de semana, dormia na casa deles, inventava as brincadeiras mais malucas, essas coisas. Aqueles primos que continuaram mais do que próximos na vida adulta, com os mesmos interesses, os mesmos círculos de amizade. Primos que não chamo pelo nome, só de "Primo Querido" e de "Pri".
Então ontem, quando o dia se anunciava totalmente marromenos, liga o Primo Querido para dizer que Mathilde vai ter um/a priminho/a quatro meses mais jovem. E estamos as duas, eu e ela, sorrindo até agora.
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Fon-fon

Quase gabaritei minha prova do Detran, para renovação da carteira de motorista. Acertei 29 de 30 questões.
Além de dar nomes às operações da Polícia Federal, elaborar as questões de múltipla escolha do Detran é outra profissão deveras divertida. Há sempre umas opções impagáveis.

Em uma via onde há uma escola, no horário de saída das crianças o condutor deve:
A. Acelerar
B. Buzinar para que as crianças saiam do caminho
C. Fazer uma conversão para a direita
D. Parar o veículo e esperar a passagem das crianças

Ao perceber falhas na sua atenção, o condutor defensivo deve agir da seguinte forma:
A. Ultrapassar outros veículos com atenção
B. Beber água e continuar a viagem
C. Parar o veículo e procurar descansar
D. Aumentar a velocidade para chegar rápido

Eu recomendaria para os momentos de lazer o simulado no site do Detran, mas depois que descobri o Google Fight vi que perda de tempo pouca é bobagem - e que, afinal, todos precisamos de novos vícios.
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Estabelecendo critérios

Todo mundo concorda que não existe post mais chato do que aquele do cara que fica se justificando porque está sem tempo de atualizar o blog?
Ótimo.

17.9.07

Bienal do Livro

Este ano não vai dar para ir. Olhando aqui no meu passaporte vi que meu visto da Funai expirou e estou impossibilitada de comparecer a programas de índio de qualquer espécie.
Peraí que vou guardar o cocar no armário.
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Update: foi o que eu quis dizer...
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11.9.07

11/09, o dia em que ouvi o discurso do comandante

Havana, setembro de 2001
Aproveitando o gancho do 11 de setembro.

M. acabou de voltar de uma viagem de trabalho a Teerã. Pois é, todo mundo fica hein? Teerã? Mas é isso mesmo, Teerã, Pérsia, Irã.
Aí ele contou a seguinte historinha: que Maomé, o profeta, tinha três esposas, porque era o que a lei permitia. Mas aí uma delas morreu, e ele quis casar de novo, para repor a falecida. Mas era proibido. Então ele disse que teve uma visão segundo a qual cada homem podia na verdade ter quatro, e não três esposas. Uma visão? Sei. E aí está, provavelmente, a origem do tapetão. Persa.

E só pra constar: em 11/09/01 eu estava em Havana. E passei a manhã num museu de belas artes, e à tarde fui a um lugar de dançar salsa, que só funcionava assim, à tarde, e que nem tinha turistas, era todo mundo cubano. E dancei muito mesmo. Na hora quase da saída (tipo 8 da noite), me falaram que tinha tido um atentado terrorista em Nova York. Eu disse "puxa", mas claro que não dava para ter a dimensão da coisa. Então fui para a casa onde estava hospedada tomar banho e me arrumar porque à noite tinha uma festa (mais salsa). Mas antes de entrar no banho eu vi na TV o discurso do Fidel Castro sobre os atentados. Peguei no meio, já tinha algumas horas. Mas fiquei sentada na cama, enrolada na toalha, hipnotizada pela fala dele. Eu queria tomar banho, mas não conseguia sair da frente da TV. Impressionante. Mesmo. E depois, de madrugada, depois da festa, no táxi de volta, o rádio do carro transmitia, claro, a reprise do discurso. Perguntei para o taxista quais eram as novidades, se já sabiam quantos mortos etc. Mas ele fez "shhh" e disse: "agora ele vai falar sobre como o povo cubano é solidário ao povo americano neste momento". E bingo, ele falou exatamente isso. Fiquei achando que o discurso vinha sendo repetido em loop na rádio, e que o taxista tinha meio que decorado tudo. Mundo bizarro.
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Angústias gestacionais

Porque a gravidez não é feita só de coisas maneiras.


Tarsila do Amaral, "O Sono", 1928.

Angústia 1: Sono.

Já estou tendo que puxar pela memória a lembrança de uma noite super bem dormida. Não é simples em um par de meses colocar pra escanteio o hábito adquirido da vida inteira que é dormir de bruços. De barriga pra cima também não consigo, então tem que ser de lado mesmo. Aí acordo de madrugada para fazer xixi, e cadê que pego no sono de novo? Difícil, viu? O mais triste é que dormir sempre esteve entre as minhas atividades preferidas. Tenho vontade de socar aquelas pessoas que dizem que dormir é uma perda de tempo. Sempre senti imenso prazer em dormir, sou daquelas que dormem fácil até o meio-dia, e durmo também em qualquer meio de transporte, em questão de minutos. Quando estava na faculdade, tinha que descer do ônibus no último ponto antes do Aterro. Haha, várias vezes dormi no ponto, acordei no meio do Aterro e tive que descer no aeroporto Santos Dumont pra pegar um ônibus de volta - e adeus primeira aula. Agora, ruim mesmo é pensar que isso não tem data pra acabar.

Parque do Flamengo. Foto daqui.

Angústia 2: Sábado

Sábado, no meio do feriado, acordamos tarde, tomamos café tarde, e tínhamos os dois, como sempre, coisas de trabalho a fazer, mas nenhum saco para tal. Como estava um dia radiante, daqueles que só o inverno/primavera do Rio pode apresentar, nenhuma nuvem no céu ridiculamente azul, fomos caminhar no Aterro. E aquele parque do Flamengo é simplesmente uma coisa divina, os turistas que vêm ao Rio normalmente não visitam, preferem ser assaltados ou achacados naquela esculhambação que é a subida pro Corcovado, mas ó, dica mesmo é caminhar no Parque do Flamengo, uma jóia de paisagismo by Burle Marx que devemos à Lota Macedo Soares, socialite, namorada da poetisa americana Elisabeth Bishop e amiga do Carlos Lacerda. Dizem que quando o Lacerda estava fazendo o Aterro (pistas expressas ligando a Zona Sul ao Centro), ela mandou na lata: "Deixe na minha mão que eu vou fazer daquilo um Central Park no Rio". Então obrigada, Lota, porque aquilo é chique no último, as árvores não se repetem, são diferentes umas das outras, e é uma quantidade de pássaros e bichos, e é tanto verde, e tanto azul da Baía de Guanabara, com os pontinhos brancos das velas dos barcos, que eu fico meio sem ar. Então andamos e andamos, e acabamos resolvendo almoçar no Centro, num boteco/restaurante português incrível, e ficamos lá um tempão, nas mesinhas improvisadas no meio da rua do Ouvidor, perto da Praça XV, na calmaria do Centro no feriado, batendo papo, lendo e tomando chope com batatas portuguesas, até pegar o metrô de volta pra casa. Então um sábado assim, sem preocupações, quando de novo?


Angústia 3: Umbigo

Quando será que a maneira mais fácil de eu mesma ver o meu umbigo vai voltar a ser olhando de cima pra baixo, e não pelo espelho?

10.9.07

Obituário


A morte do Pavarotti me fez perceber que já não me é mais possível acompanhar o balanço entre mortos e vivos nesse mundo tão superpovoado de celebridades. Se, na semana passada, me perguntassem se o Pavarotti estava vivo ou morto, teria que chutar. Da mesma forma como não tenho certeza se os outros dois tenores da famosa trinca, Carreras e Domingo, já morreram ou não. E a Montserrat Caballé, será que já foi ou ainda não? Não sei. E nem preciso ir longe, ao mundo da ópera internacional. Esses atores velhinhos, Gianfrancesco Guarnieri, Claudio Correa e Castro, Nair Bello, já morreram? O Raul Cortez, que nem era assim muito velho, eu sei que morreu. E o Paulo Autran, velhíssimo, continua na ativa, assim como a Tônia Carrero, do alto dos seus 125 anos, ou por aí.

Houve uma época em que eu trabalhei num site de música, como jornalista. Eram bons, ótimos tempos, e eu era mais ou menos setorista de MPB, samba, choro, música instrumental brasileira. E aí quando aparecia um intervalo, uma folga, um dia menos puxado, lá ia eu fazer obituários. Acho que todo jornalista já passou por isso. Significa fazer a matéria grande que é publicada quando algum famoso morre. Só que, é claro, você tem que fazer antes dele morrer, senão não dá tempo. Aí sempre começa mais ou menos assim, "Morreu esta manhã/hoje à tarde/ontem o cantor/compositor/instrumentista Fulano de Tal, autor/intérprete de clássicos como Tal e Qual. Fulano, X anos, [causa da morte]." E em seguida vinha efetivamente o trabalho de pesquisa. Em geral eu pegava, claro, os mais velhinhos. Fiz do Braguinha, que só foi morrer há bem pouco tempo. Fiz do Dorival Caymmi, que ainda está vivo (né???). Fiz até do João Gilberto, porque nunca se sabe nada sobre ele, vai que está doentíssimo? Fiz do Baden Powell na época que ele entrava e saía do hospital e, aleluia, esse foi usado. Mas, claro, a maior parte das mortes te pega de surpresa. Lembro que morreu o Luiz Bonfá, o-autor-de-Manhã-de-Carnaval, de repente, e não tinha nenhum material sobre ele. Mas isso não é o pior, material a gente arruma fácil. O pior mesmo é fazer a "repercussão": ligar para pessoas para pegar depoimentos. Isso é muito chato, porque na metade das ligações você acaba dando a notícia da morte para a pessoa, que fica então emocionalmente abalada e não consegue dar nenhum depoimento decente. É aquele constrangimento, você no telefone esperando por uma boa frase, ao menos uma, e a pessoa chorando do outro lado da linha. Nessa época também houve o acidente do Herbert Vianna. Por sorte havia outro jornalista que era o setorista de rock brasileiro, mas numa tragédia dessas, todo mundo tem que unir esforços. E aí o Herbert ficou muito mal, morre-não-morre, notícias desencontradas, e enquanto a coisa não se define você não pode, é claro, ligar para ninguém para pegar depoimentos. Eu também fui ao velório da Maria Rita, mulher do Roberto Carlos, evento que está na minha lista de top 5 coisas mais chatas que eu já fiz na vida. (Mas nessa época nem foi pro site de música, foi pra outro veículo de comunicação.)
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6.9.07

Pedagogia da chinelada

Marido e eu costumávamos ver, de quando em vez, o programa da SuperNanny na TV, morrendo de rir das crianças absolutamente descontroladas e tirânicas perante os pais inertes e bananas. De uns tempos pra cá, é claro, nossa percepção sobre o programa e sobre as atitudes dos pais mudou um bocado.
Então quero saber: Você acha que palmada educa? Uma surra de vez em quando é necessária? Castigo é mais eficiente?
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1.9.07

Renanzinho

Ontem nasceu o filho de um casal de amigos. Mandaram e-mail com a notícia, e o link da maternidade, para vermos a foto do bebê. Não sei se vocês já foram a esses sites das maternidades. Eles têm a relação dos nomes dos bebês (ao lado dos nomes dos pais) nascidos naquele dia, você clica e vê a foto.

Não deixa de ser curioso ver os nomes da moda. Na relação de ontem estavam:

Meninas: Amanda, Gabriela, Giovana, Joana, Luiza, Maria Eduarda, Maria Eduarda (de novo), Maria Julia, Maria Julia (de novo), Milena, Olivia, Rafaella.

Meninos: Antonio Pedro, Heron, Ian, Marcus Vinicius, Pedro Henrique, Renan.

Renan!!! Agora eu queria entender como é que, na atual conjuntura, alguém batiza o filho de Renan! Posso até imaginar que os pais escolheram esse nome há muito tempo, que seja uma homenagem a alguém da família, e tal, mas diante das últimas notícias, de todo esse escândalo, era pra ter mudado de idéia correndo, não?

(Observação: parece que a última tendência para nome de homem é: nome composto, ou nome terminado em "n". Que coisa.)
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29.8.07

Lição do dia


A amendoeira da foto fica bem em frente ao meu prédio, ao meu quarto, à minha janela. Ela é linda e majestosa, sua copa imensa funciona como um guarda-chuva e como um guarda-sol, ajuda muito a manter uma temperatura agradável na minha casa. Além disso, vive cheia de passarinhos de todo tipo, que dão um tom bucólico a este canto de Botafogo.

Anteontem vi os avisos, na rua e aqui no prédio, sobre a retirada da amendoeira. Provavelmente porque a calçada aqui é muito estreita e as raízes dela já destruíram boa parte da calçada, ameaçando o meu prédio e o prédio ao lado.

Fiquei tão triste, mas tão triste, que não conseguia parar de chorar. Marido chegou em casa mais tarde e ficou muito impressionado. Eu nem quis jantar nem nada. Chorei pela morte da amendoeira, pela falta que a sombra dela vai me fazer, pelo fato de que Mathilde não vai chegar a conhecer a amendoeira.

A lição do dia é: nunca subestime o poder dos hormônios numa gestante.

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Mathilde

Minha filha já tem nome. Ele é curto e simples, do tipo que todo mundo entende, e nem pode ter dúvida de grafia. Meus dois sobrenomes são bem portugueses, os do meu marido também. E daí? Daí que quando a gente fala o nome dela inteiro, não há quem não diga que é um nome de nobre. Portuguesa. Assim, Marquesa da Beira Alta, ou Duquesa de Beja. Se fosse homem, o primeiro nome seria igualmente português, e soaria como nome de donatário de capitania hereditária.
Mas enfim, esse aqui é um blogue anônimo, certo? E é um blogue que brinca com temáticas... freudianas (terapia zero, deitar no divã, Anna O.), baseado no fato de eu nunca ter feito análise nem terapia nenhuma na minha vida. E como sabem os que acompanham há mais tempo, por força das voltas que o mundo dá, acabei caindo de cabeça num trabalho justamente sobre Freud. E Freud teve seis filhos, três homens e três mulheres. A mais velha de todos se chamava Mathilde. E é assim, seguindo a temática do blogue, que eu vou identificar essa pequena, que ruma célere para a 22ª semana de gestação e já se mexe aqui dentro, que é uma beleza.
Então, vocês entenderam, aqui é Mathilde, mas não é Mathilde, ok?
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Substituição


... no time dos blogueiros grávidos.

Sai a Maria, agora oficialmente mãe do Max, o bonitão de Boden (criança que já nasce com epíteto é fogo!), entra a Cam, esperando a chegada da pequena "Rúcula" para o Natal -- quase junto dessa dupla aqui, prevista para a primeira semana de janeiro.

Estou gostando muito dos post dela sobre o assunto, porque minha intimidade com o tema bebês é mesmo zero. Como ela, eu também acho que nunca segurei um recém-nascido na vida -- sempre fico esperando aquela fase meio subjetiva, quando eles já estão "mais durinhos". As dúvidas são muitas e imensas, mas eu vou com sede ao pote no quesito informação. Por sorte arranjei um médico muito bacana, e as aulas de ioga para gestantes, que têm 45 min. de parte teórica e 1h de parte física, são muito esclarecedoras. As aulas teóricas são divididas em "módulos temáticos" (parto, pós-parto, amamentação etc.), e eu já as apelidei de "pequenas pílulas do mais absoluto terror". O mais estranho é que a gente gosta...

22.8.07

esquiz(o)- + -frenia, prov. por infl. do fr. schizophrénie (1911) 'id.'; cp. ing. schizophrenia (1912) 'id.'

Eu enfim consegui parar para ler Virgínia Berlim, e gostei, e quero escrever a respeito.
... Mas...
como os (des)caminhos da minha vida profissional trilham os rumos da esquizofrenia, eu no momento tenho que mergulhar em assuntos tais como

a) o relacionamento entre Freud e suas filhas
b) vida e obra de Canhoto, cavaquinista e líder do Regional do Canhoto, conjunto instrumental de extrema importância para a música brasileira nos anos 50 e 60
c) o bicentenário de nascimento do Almirante Tamandaré, Patrono da Marinha do Brasil

o que me deixa ligeiramente incapacitada de escrever o texto que eu quero.
[É por isso que eu continuo matando tantos mosquitos com minha raquete.]
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17.8.07

Profissões

O Inagaki escreveu um post sobre os vídeos da internet, os que são verdadeiros, os que são forjados, e o ceticismo necessário para os youtubes da vida.
Então por favor, vocês aí que sabem tudo de internet, me diga que isto aqui é uma armação, que não é verdade...

http://br.youtube.com/watch?v=fIYWVhOFqL4

16.8.07

Schadenfreude (de novo)

Já escrevi aqui uma vez sobre Schadenfreude, o sentimento de prazer com a desgraça alheia para o qual os alemães dedicaram uma palavra.

Também já escrevi mais de uma vez (aqui, aqui) sobre a guerra particular contra os mosquitos que travamos em casa.

Pois é com imenso júbilo que posso, agora, juntar esses dois assuntos! Volto a falar sobre Schadenfreude para contar da minha alegria com o presente que F. me deu, uma raquete elétrica mata-mosquitos (essa da foto). Serve para aplacar o complexo sádico que habita cada um de nós. Você aperta um botão, a raquete se eletrifica, você encosta no mosquito, faz uma fagulha, bzzzz, e ele vai rodopiando para o chão. Estou feito criança, louca para que apareça mais uma vítima para o meu brinquedinho!


15.8.07

Momento de grande emoção

Hoje, pela primeira vez, uma moça me cedeu o lugar no metrô.
E quando ela saiu do vagão, notei que sua mochila tinha o escudo do Flamengo.
É a nação rubro-negra me dando alegrias, já que os molambos em campo não conseguem.
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13.8.07

Um pouco mais sobre livros e autores

Federico Zandomeneghi, La Lecture

O meu depoimento sobre o mercado editorial repercutiu por aí, foi citado por blogues profissa como o Sérgio Rodrigues e o Alex Castro e trouxe uma quantidade inédita de acessos para este blogue pé-de-chulé. Fui até espinafrada por alguns comentaristas, o que é a glória suprema.
Muita gente comentou que a publicação por uma grande editora traz um reconhecimento de fato. Não nego, apenas relativizo. O Alex fala em "diferença de percepção", o Sérgio cita a "chancela oficial" e sua importância considerável. Têm razão os dois. Apenas, isso não se traduz necessariamente em vendas -- muito menos em uma carreira literária que se possa considerar como tal.

Ivan Kramskoy, Sophia Kramskaya Reading

O Alex citou ainda a Ana Maria Gonçalves e seu ótimo Um Defeito de Cor, catatau de mil páginas publicado pela Record (que eu li, adorei e recomendo fortemente). Eu também pensei nela quando estava escrevendo o post. Pensei nela quando escrevi sobre a questão dos objetivos de cada um: o que se quer? Ser lido ou viver de literatura? Pelo que me parece, a Ana Maria Gonçalves resolveu, há algum tempo, ser escritora profissional. Abandonou a carreira na publicidade e foi à luta. O que ela mesma escreve no seu post #100 é exemplar: o trabalho que teve pesquisando as editoras, o trabalho que teve preparando uma apresentação para o seu livro, etc. Vale a pena ler. O resultado foi o melhor possível. O livro teve boa repercussão, foi indicado a prêmios, e a autora até já foi à Flip. Caso em que a editora, no dizer do Branco Leone aqui nos comentários, foi "parceira" do autor e contribuiu decisivamente para o seu sucesso.

J.-J.-J. Tissot, Reading a Book

Eu realmente não sei quem são os escritores brasileiros que hoje em dia poderiam viver somente de seus direitos autorais -- se é que os há. Talvez os megabestsellers Paulo Coelho e Verissimo, mas vale notar que mesmo esses dois mantêm colunas em jornais e revistas, o que lhes garante uma remuneração mensal fixa. Talvez a Ana Maria Machado, que tem mais de cem livros infantis publicados (além de uma obra adulta que nunca chegou a decolar) e presença assegurada na lista de adoção de paradidáticos de todo o país, inclusive nas compras dos governos estaduais, municipais e federal, compras essas que giram quase sempre na casa das dezenas de milhares de exemplares. O fato é que esses caras nunca param de trabalhar muito. E aqueles que ainda não chegaram nesse top, mais ainda. Escritor tem que publicar em jornal, revista, site, dar aula, fazer palestra, coordenar coleção em editoras, participar de feira, escrever ensaio, escrever prefácio, fazer guia de leitura, traduzir livro, adaptar clássicos para o público infantil, enfim, muita coisa além de escrever suas próprias obras. João Ubaldo Ribeiro é um que sempre toca neste ponto: o escritor precisa trabalhar para ganhar a vida, e as pessoas não param de assediá-lo pedindo-lhe que escreva pequenos artigos, comente livros ou participe de eventos, sempre de graça, ou por um "valor simbólico". Como ele diz, não dá para ir à padaria e comprar um litro de leite com um punhado de "símbolos".

Georges Lemmen, Man Reading

Isso é muito significativo do pouco valor que se dá ao trabalho do escritor. Uma coisa do tipo "ah, você senta aí e escreve em dez minutinhos", "é só um textinho muito simples". Acho que em nenhuma outra categoria profissional tanta gente cogita pedir a um profissional que trabalhe de graça, como se não exigisse nenhum esforço. Talvez por isso também tanta gente ache que pode ser escritor. Ou melhor, que pode ser um autor. Saber escrever não basta. Ter um bom estilo, colocar corretamente uma palavra atrás da outra, uma frase depois da outra não faz de ninguém um autor. E quanta gente passa a vida batalhando, sem se dar conta disso.
(Pê ésse: e eu rogo a deus-nosso-senhor-em-sua-imensa-glória que não me perguntem qual é a receita, o que é que precisa para ser um autor.)

11.8.07

Divagações sobre o mercado editorial


Já tem quase 2 semanas que meu exemplar de Virgínia Berlim (livro novo do Biajoni) chegou pelo correio, mas ainda não comecei a ler. Não é um bloqueio, é que não tenho conseguido ler nada, sei lá por quê. Estou com uns três livros começados e parados no meio na cabeceira. Isso pode ser normal para muita gente, mas pra mim é uma tremenda anormalidade. O único que consegui terminar nos últimos tempos foi Urubu, do Henfil sobre o Flamengo, e mesmo assim porque é um livro só de charges (maravilhoso, aliás). Aí comecei a ouvir a trilha sonora que vem com a Virgínia, mas só ouvi a primeira faixa, porque os aparelhos de som aqui de casa estão rebelados e se recusam a me dar a honra de ouvir qualquer coisa.
Mas acompanho, meio de longe, a discussão que muito me interessa, sobre literatura independente que passeia pelos blogues do Bia, do Branco Leone, do Valter Ferraz, e por aí afora. Com o meu ponto de vista de quem trabalhou vários anos numa editora de grande porte, acho curioso que tanta gente boa tenha tanta vontade de ser editado por uma dessas ditas grandes casas editoriais. Porque, pela minha experiência, isso não ajuda em nada. Não sei se tem a ver com um desejo muito forte de reconhecimento, de ser notado pelo meio editorial, supostamente por especialistas (nhé!, duplo nhé!). Mas rola esse fetiche da distruibuição nacional, de ter os livros expostos em livrarias, essas coisas que não passam disso mesmo: fetiches. O resultado prático disso é o que vocês já podem imaginar: nenhum. Um autor brasileiro desconhecido que tem um livro lançado por uma grande editora não vende. As pessoas não compram, ora. Sei lá por quê, com certeza há vários motivos na psique do consumidor brasileiro de livros (essa figura misteriosa). Mas já vi investimentos razoáveis em marketing, anúncios, até resenhas boas, nada disso faz as vendas decolarem. Nada. E acredite, todos se frustram. A editora, o autor, o livreiro, todo mundo. Com esforço, consegue-se até colocar os livros nas livrarias (sempre em consignação, porque é só assim que esse mercado surreal funciona), mas em 99% das vezes, três ou quatro meses depois os livreiros devolvem quase tudo, causando aquele desconforto de ter que enviar ao autor uma prestação de contas em que há muito mais devoluções do que vendas.


Não é novidade: fazer e escrever livro no Brasil é um péssimo negócio. Autores, editores e livreiros vivem de um mercado sem lógica. Para cada sucesso há incontáveis fracassos. Incontáveis e injustificáveis. Livros muito bons, com ótimo apelo comercial e qualidade literária passam nas mais brancas nuvens e dois anos depois do lançamento são vendidos a quilo ao papeleiro, porque nem as lojas americanas nem as superbancas de jornal se interessaram em adquirir aquele título para revender a 9,90.
Então eu queria entender melhor por que tantos autores-blogueiros, por exemplo, gostariam tanto de ter os seus livros publicados por uma editora grande. Em que isso contribui, exatamente? Eu não consigo achar que ter o seu livro exposto numa boa livraria por alguns dias (porque as livrarias são pouco mais do que hotéis onde os livros dormem um dia ou dois) faça muito mais pelo seu sucesso literário do que divulgá-lo na internet, por exemplo. O que se quer? Ser lido ou fazer da literatura o seu ganha-pão?
É bem fácil pichar as editoras, por vários motivos. Porque pagam pouco aos autores. Porque não investem em tiragens maiores que diminuem o preço unitário. Porque preferem comprar qualquer porcaria estrangeira a valorizar um novo talento nacional. Mas vamos esclarecer alguns pontos.
Primeiro, em relação aos 10% sobre o preço de capa pagos a título de direito autoral, que são a praxe do mercado. As pessoas parecem pensar que a editora fica com os outros 90% de lucro. Não funciona assim. As editoras vendem para as livrarias com descontos em torno de 40 a 60% (quanto maior a rede, maior o desconto). (Curiosidade: no mercado fonográfico, o percentual do direito autoral é pago sobre o preço efetivo de venda, da gravadora para a loja, e não o preço "de capa" = preço final do consumidor. Em outras palavras, para os músicos é muito pior.) Então o livro que custa R$ 30 foi vendido para a livraria por, em média, R$ 15. Uns 20% representam os custos de produção (maior por exemplo se for um livro traduzido) e industriais: outros R$ 6. Cerca de 10% vão em impostos, mesmo com todas as isenções e descontos dados pela Lei do Livro: mais R$ 3. Outros R$ 3 são os 10% do direito autoral. Quanto sobrou para a editora, de lucro: R$ 3. Os mesmos 10% do autor. Esses números, claro, podem variar, mas a realidade é mais ou menos essa, ou seja, não é um super negócio. Agora, se o livro for um sucesso, nas reimpressões você diminui muitíssimo o custo industrial, não tem mais custo de produção e aí sim o lucro pode ser expressivo.
Segundo, sobre as tiragens. De fato, numa tiragem grande o preço unitário cai muito. Mas se você investe numa tiragem maior que o usual (a tiragem mínima para uma grande editora é 3.000 exemplares. Pode até rolar 2.000, mas não é muito comum), está apostando que o único motivo para um livro vender mais ou menos é o preço. Sem contar que o preço unitário diminui, mas o preço final aumenta, é claro, é mais dinheiro saindo do bolso. Sim, é possível fazer essas apostas. Mas se você faz 1, 2, 3, 5 vezes e não dá certo, é de se esperar que na 7ª tentativa você queira arriscar menos. Muitas e muitas vezes eu defendi tiragens maiores para alguns títulos, algumas vezes isso aconteceu, o preço caiu, e em quase todas significou mais prejuízo para a empresa... Seria bacana se as pessoas pudesse visitar os depósitos das editoras. É tanto livro bom, bonito, e legal, e nenhum pedido para nenhum deles...

Terceiro, sobre a preferência pelos estrangeiros. Neste ponto eu estou do lado dos críticos. Acho lamentável pagar US$ 5000 de adiantamento pelo livro de estréia de um jovem talento neverheardabout gringo ("a fresh new voice", dizem os catálogos) do que R$ 1000 para um autor que vai estar louco para falar com jornalistas, ir a programas de TV e fazer lançamentos. Aí acho que é complexo de vira-latas mesmo. Mas tem uma coisa que a maioria das pessoas não sabe, que é sobre as consignações. As livrarias no Brasil hoje só trabalham com consignações. Elas não compram os livros das editoras. Elas pegam em consignação, e só quando pedem a reposição é que acertam o que foi vendido. O acerto da consignação é um dos maiores dramas de toda e qualquer editora, porque demora-se séculos para ver o dinheiro daquele livro que não está mais fisicamente no seu estoque mas também ainda não foi vendido pela livraria (ou até pode ter sido vendido, mas o acerto com a editora ainda não foi feito). Cada editora grande tem milhões de reais (mesmo) imobilizados nesses livros consignados e que ainda não foram acertados. Se um título não vender, a livraria devolve tudo quando achar que não vale mais a pena mantê-lo, naquelas quantidades, no seu estoque. Ou seja, o risco é mesmo todo do editor, e não do livreiro. Ainda acontece a situação bizarra de a editora conseguir colocar toda uma tiragem em consignação no mercado e receber pedidos de reposição antes do acerto. Neste caso, é preciso reimprimir, sem ter ainda recebido nenhum tostão das livrarias. Muitas vezes a devolução que vem depois pode ser maior, e aí você reimprime um livro e depois recebe de volta praticamente as duas tiragens inteiras...


Relendo o post, parece que fico como defensora das editoras, e cruz-credo, não é nada disso. Mas tampouco acho que vê-las como as grandes vilãs do processo ajuda a solucionar alguma coisa. A culpa é mais nossa - autores, leitores, cidadãos, whatever - ou então não existe culpa de ninguém.

Óbvios ululantes (que eu custei a ver)

1. A grávida é, antes de tudo, uma gorda.
Sim, gente, é lindo, é o máximo, é mágico estar grávida, etc. e tal, mas não tem como fugir dessa verdade. A grávida é uma gorda. E olha, é desconfortável ser gorda. Ou melhor, se tornar gorda num espaço pequeno de tempo. Engordar entre 1kg e 1,5kg por mês durante uns 7 meses é barra pesada. E não digo isso com aquela paranóia boba de não voltar a emagrecer. É claro que voltarei depois ao meu peso, não é essa a aflição. O problema é que é simplesmente desconfortável ser tão pesada. A gente desequilibra às vezes, as costas doem, é mais desconfortável ficar em pé, às vezes já me sinto andando como uma pata... em suma, é meio chato. E olha que até agora engordei "só" 5 kg (com 19 semanas).
(Vamos esclarecer que quem vos fala não é nem nunca foi uma sílfide. Desde que me entendo por gente travo batalhas com a balança. Quando me perguntam, costumo dizer que não estou de dieta, eu sou de dieta. Sou sócia vitalícia do Vigilantes do Peso, porque minha tendência para engordar é igualmente vitalícia.)

2. O universo das grávidas é grande demais.
Ou seja: a afinidade com outras grávidas não é instantânea nem automática. Descobri isso na sala de espera do meu obstetra. Aquele papo "Quantas semanas?" "Ai, mexe muito?" "O meu vai se chamar Pedro, e o seu?" "Vou tentar parto normal" etc. só é interessante quando a interlocutora é interessante (olhaí o óbvio ululando). Quando é uma mulher chata, é insuportável. Pra vocês terem uma idéia, na última consulta eu resolvi esperar do lado de fora quando a salinha de espera encheu muito. Simplesmente não agüentei aquele titititi com aquelas mocréias. Por outro lado, o mesmo papo na minha aula de yoga para gestantes funciona bem, é mais interessante, acrescenta alguma coisa, é uma troca bacana de informações.
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7.8.07

Mostra Bergman

Cenas de Vergonha (Skammen no original)


Houve uma época em que eu quase pude me considerar cinéfila. "Quase" porque eu estava sempre cercada de pessoas que eram realmente cinéfilas, e na comparação faziam com que eu me pusesse no meu devido lugar. Hoje passo longe disso, muito longe. Procuro ver os filmes brasileiros, sempre um novo almodóvar ou woodyallen quando há, e é isso. Lamentável, mas é verdade.

Mas o tal tempo em que eu era uma quase cinéfila foi lá pelos idos de 1995, 1996, por aí, por total influência da faculdade de comunicação (aí incluídas tanto as aulas quanto as amizades). E uma das experiências mais marcantes desse período foi a Mostra Bergman, que passou uma quantidade imensa de filmes nos cinemas do grupo Estação, que ficavam perto da faculdade. Foi lá que eu vi "Persona", que me impressionou muitíssimo, "Sonata de Outono", "Gritos e Sussurros", "O Ovo da Serpente", "O Sétimo Selo", "Fanny e Alexander". Lembro até de me despencar para o MAM num fim de semana chuvoso para ver o primeiro filme dele, "Crise", que na época não achei assim nada de mais se comparado a esses outros. E foi nessa Mostra também que eu vi o filme que me deixou paralisada, e sobre o qual nunca vejo ninguém falando: "Vergonha". Esse foi, mais que todos, uma enorme porrada. O filme que me deixou muda o resto da noite, e bucólica o resto da semana. No fundo acho que o filme me fez mal, eu saí do cinema literalmente com náuseas, mas, mais que qualquer outro, me fez perceber o poder das imagens na película. Como disse muito bem o Milton Ribeiro "o cinema pode ser algo mais interessante do que tu pensas". Foi exatamente assim que me senti (sem essa segunda pessoa do singular, claro).


(Para os que não viram (eu não sei exatamente se recomendo, dado o abalo que me provocou -- tanto que nunca quis rever), "Vergonha" é sobre dois músicos que vivem no interior e o efeito da guerra na vida deles.)

São filmes como esse que passam essa coisa meio estranha de se sentir humano demais, de se identificar com uns personagens que falam sueco e vivem no meio de uma escandinávia rural num tempo indeterminado, vivendo coisas que eu nunca vi nem senti nem vivenciei, mas que mesmo assim me falam tão perto, tão na alma.

Arte, talvez?

6.8.07

De volta ao samba

Aula de educação física de uma escola em Cuba. Foto tirada por mim em 2001.

Quase uma semana sem internet em casa, toneladas de trabalho no escritório e a impossibilidade de fazer hora extra graças ao programa intensivo malhação-gestante (hidroginástica, pilates, yoga) me fizeram abandonar não só este blogue como a leitura de todos os outros. Isso muito me entristece. Mas agora é passado, estamos de volta ao samba, como diria o Chico. Sempre haverá aqueles que reclamam dessa coisa de só comentar no blogue alheio quando há novidades no seu, mas, fazer o quê?, são as circunstâncias.

O Pan terminou e eu nem pude lamentar aqui a ausência de uma típica figura carioca nas duas semanas dos jogos: o voluntário do Pan. Os voluntários do Pan foram onipresentes nesses dias, com seus casacos azul-claros, crachás e sorrisos no rosto. Para onde quer que se olhasse, lá estavam os voluntários do Pan, sempre em bandos, tais como turistas japoneses.

Mais arroz-de-festa que os voluntários do Pan, só os atletas cubanos. Sim, amigos, é verdade, eu vi muita gente com agasalho da delegação de Cuba andando por aí. Ou eram os atletas passeando pelo Rio ou, mais provável, eles venderam ou trocaram seus agasalhos por quaisquer dez-merréis.

Tampouco pude comentar a tempo sobre os incríveis atletas do pingue-pongue, todos japoneses ou chineses, ainda que os jogos sejam supostamente pan-americanos. Aliás, queria saber quem foi o gênio do lobby que conseguiu emplacar o pingue-pongue como esporte olímpico. Francamente, como é que pode o pingue-pongue ser e o futebol de praia não? Ou para ser coerente, se o pingue-pongue se presta para fins olímpicos, na pretensiosa denominação de "tênis de mesa" (hahaha), por que não o totó, a.k.a. "futebol de mesa"? Aposto que seria muito mais emocionante.