26.11.09

Sobre como o calor derrete os miolos da nação

O ar-condicionado do meu quarto quebrou bem no início dessa insana onda de calor, que dura já umas semanas. O aparelho já contava muitos e muitos verões, e resolvi comprar um novo. Como de praxe, fui olhar nas lojas online. Submarino, Americanas.com, PontoFrio. Dos modelos de 7,500 BTUs, só encontro a mesma mensagem: "Produto Esgotado no Momento". Junte-se ao fato que o buraco na minha parede é relativamente pequeno, não são todos os modelos de ar que cabem, só os menores.
Então hoje, quando fez um calor medonho, resolvi procurar nas lojas não-virtuais. Na hora do almoço. Não, não fui bater perna no Centro nem na Av Copacabana. Fui ao xópin Rio Sul. Chegando lá, fui cortando as possibilidades. Nas Casas Bahia, nada, nem um aparelho pra contar história. Na Casa & Video, duas unidades, apenas, de marcas obscuras. Nas Americanas, nada, só vendem pelo site. E a AmbientAir fechou, o que muito me entristeceu.
Nada feito. Resolvi então almoçar. Hora do almoço num xópin center como o Rio Sul é um pesadelo. Um pesadelo com muita gente. Não quis encarar a praça de alimentação, não estava a fim de comer o que quer que fosse em frente a um lugar chamado Giraffas, assim com 2 fs, e com 2 girafas amarelas me olhando. Então subi 2 lances, vi um Garcia & Rodrigues que eu não conhecia, e pensei, vou lá. Bem em frente, um quiosque de café do próprio G&R, chamado Figaro Café. Sentei, olhei o cardápio e pedi quiche de alho poró com salada verde. Quando chegou, veio o quiche mais triste que eu já vi, acompanhado de umas folhas de alface com um molho amarelo.
Dei uma triste beliscada no quiche, que estava péssimo, e pedi a conta. O garçom, solícito, perguntou se havia algum problema.
-- Sim, esse quiche totalmente desmilinguido, e o fato de que isso não é uma salada verde, é só alface.
-- Mas é que a salada é só acompanhamento, é isso mesmo.
Veio a moça que fazia as vezes de maître - exceto pelo fato de que vestia uma blusa de paetês, um short preto, uma meia-calça preta e um sapato preto de salto agulha 10 e plataforma à la globeleza. Eu repeti o que havia dito ao garçom, e disse que estava desapontada, que o prato não fazia jus à fama gastronômica do restaurante.
-- Mas a salada que acompanha o quiche é simples, é só isso mesmo -- ela repetiu.
-- Olha: não existe salada de um ingrediente só.
Fui embora com fome (não cobraram o prato), já atrasada, e com calor, mesmo dentro do ar-condicionado do shopping (provavelmente porque não consegui comprar o meu ar, e estou cada vez menos esperançosa). Parei no Viena, voltei algumas décadas no tempo e pedi um petisco clássico da minha infância: a coxa-creme. Alguém não conhece a coxa-creme do Viena? Não sei como explicar. É a coisa mais entupitiva que se pode imaginar. Exatamente o que eu precisava.
Depois da coxa-creme, parei no McDonald's e comprei uma casquinha. Paguei e fui andando, já para descer e ir embora, quando, ainda de casquinha na mão, reparei que minha bolsa estava aberta e minha carteira tinha sumido. Pânico, pânico. Voltei correndo para o McDonald's.
-- Acho que deixei minha carteira aqui.
-- Deixou sim, senhora, eu acabei de entregar ao gerente.
Procurei o gerente com os olhos, e outro atendente me apontou:
-- Ali no salão.
De fato, lá estava o gerente, com a minha carteira de motorista na mão, procurando, entre os clientes do salão, uma "Dona O-Nome-Do-Meu-Pai". Tipo, suponha que meu pai se chame Walter. Ele estava perguntando quem era a Dona Walter.
Cheguei esbaforida:
-- A carteira é minha.
Ele me olhou, minha habilitação na mão:
-- A senhora é a Dona Walter?
-- Hein?
-- Walter, é o nome que está escrito aqui.
-- Claro que não! Esse é o nome do meu pai! -- e arranquei o documento da mão dele, que ficou meio sem graça e me devolveu a carteira.
Peguei um táxi de volta pro trabalho, depois dessa triste jornada. Dos 4 elevadores, 3 quebrados. Acho que até os elevadores sucumbiram ao calor.
Quando saí para pegar Mathilde na creche, passei no Ponto Frio que fica na esquina da Nova Nelson Mandela e perguntei se tinha ar-condicionado. O vendedor respondeu com aquele ar de quem já respondeu a essa pergunta 150 vezes hoje:
-- Só de 220V. De 110V, só para entrega daqui a vinte dias.
-- Vinte dias? Até lá eu já morri de calor, moço!
-- Pois é, não tem em nenhuma loja. E a indústria não está dando conta de produzir.

Então é essa a situação. Aquece a economia, os ar-condicionados somem no verão (porque já começou o verão, vocês sabem), e nossa potência industrial tropical não consegue repor os estoques.
Só espero que meu ventilador de teto aguente firme.

25.11.09

Da dificuldade da coisas simples

Li este post da Meg, e me lembrei da festinha de 1 ano da filha de uma amiga (que tem outra filha mais velha, de 3), que aconteceu na semana passada, e eu fui com Mathilde.
O convite (lindamente decorado) dizia assim:

Fulana faz 1 aninho, vamos comemorar!
Decidimos comemorar a data de forma bem simples.
Vai ser uma manhã no play para a criançada, pretendo alugar um pula-pula e levar os brinquedos das meninas lá pra baixo.
Graças a Deus, a Fulana é uma criança cheia de saúde e personalidade. E graças a Deus também não lhe falta nada! Tem um armário cheio de roupas que quase não cabe mais nada, um quarto cheio de brinquedos de todas as cores e tipos (tantas e tão generosas são as pequenas que chegaram antes dela).
Por isso queria pedir com toda sinceridade que vocês não comprassem presentes nesta data, queremos apenas a presença de vocês!
Quem quiser chegar mais cedo no dia para ajudar na produção, será muito bem vindo.
Quem ficar se sentindo de mão abanando e quiser trazer um cartão de aniversário bem lindo ou fazer uma contribuição com a animação da festa (trazendo uma brincadeira, uma fantasia emprestada ou um violão pra tocar) fique à vontade também.
O tema da festa é: festinha ecológica!
Sem embalagens, sem descartáveis de plástico, etc.
Queremos que a nossa Fulana viva em um mundo lindo e limpo... pra isso temos que mudar os nossos padrões de comportamento!
Com sinceridade,
Beltrana.

Eu gostei muito do conceito, e sempre tive essa questão com os presentes obrigatórios. Além disso, achei que a mãe, autora do convite, acertou no tom para abordar uma questão nem sempre fácil.
Bom, nós fomos na festa, que foi exatamente como descrito no convite. Tinha ainda uma coisa muito legal: não tinha música (que alívio!) e não tinha ninguém dirigindo as crianças, promovendo brincadeiras assim ou assado. No fundo, quem fez mais o papel de animadora fui eu, porque Mathilde só queria ficar no pula-pula, só queria que eu ficasse lá também, e como tinha outras crianças no pula-pula, promovi umas brincadeiras coletivas que devem me ter feito perder uns dois quilos, no mínimo.
A festa era ecológica (tinha muitas frutas, sucos, água de coco, pães, queijos, geleias), mas não deixou de ter parabéns com bolo de chocolate e brigadeiro. E tinha ainda uma coisa muito bem sacada: almoço para as crianças (arroz, feijão, batata cozida e carne moída), para cada pai servir na hora que achasse melhor (sem o momento "oficial" Hora do Almoço).
Enfim, eu achei um sucesso. Todas as crianças pareceram se divertir muito, cada uma a seu modo. Mathilde saiu carregada, desmaiada de tanto cansaço. Dormiu das 14h às 18h, de tão exausta. (Depois acordou a mil por hora e a esperta aqui é que se deu mal).
Dois dias depois escrevi para minha amiga, a mãe da aniversariante, dizendo o quanto eu tinha gostado da festa, dando parabéns pela iniciativa, etc. etc.
No fundo eu já meio que imaginava que resposta receberia:

"obrigada pela mensagem...
você talvez tenha idéia do trabalho que dá romper com padrões sociais simples...
o custo emocional é bem alto e apesar de você ter gostado... muita gente repudiou com veemencia a minha atitude!
A presença de vocês foi fundamental e me deu a certeza de estar no caminho certo!
Não devia ser tão difícil fazer uma coisa tão simples!"

Não, não devia mesmo. É preciso muita coragem para peitar essas convenções em nome de uma convivência obviamente mais saudável entre as pessoas. Que mundo é esse em que as pessoas se sentem ofendidas quando você pede que não se dê presentes para uma criança de UM ANO, que obviamente não entende ainda o que é isso e não se sente infeliz por não ganhar presentes.
Longe de mim não reconhecer o prazer de presentear. Mas é duro ter que batalhar tanto em nome de coisas tão simples.
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24.11.09

O New Deal na Nelson Mandela

Existe em Botafogo uma rua chamada Nelson Mandela. Só tem dois quarteirões de tamanho, e fica bem perto das saídas do Metrô. Há pouco tempo, presenciei um fenômeno que, acho, poucas pessoas vivenciaram neste século, no Rio: vi uma nova rua ser aberta. É de fato uma nova rua, com calçada, estacionamento, e duas pistas de rolamento. Mas fica paralela à Nelson Mandela, e curiosamente ficou com o mesmo nome, Nelson Mandela, como se fosse a mesma rua. É que entre as duas ruas Nelsons Mandelas teoricamente deveria haver uma praça, mas há coisa muito diferente: uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) construída recentemente, e um terreno baldio cercado que, acho, pertence ao Metrô.
Mas enfim.
O fato é que a Nova Nelson Mandela (que só tem um quarteirão e liga as duas principais ruas de Botafogo, a São Clemente e a Voluntários da Pátria) foi ótima para mim, fica bem no meu caminho entre casa e trabalho, e passo por ela todo santo dia. De um lado da Nova Nelson Mandela colocaram o ponto do ônibus do Metrô, e não tem mais nada além do terreno baldio -- nem mesmo calçada. Do outro lado tem uma calçada nova e um condomínio residencial enorme, que domina a rua de fora a fora. No térreo desse condomínio tem espaço para várias lojas de rua. Mas desde que a rua abriu essas lojas estão fechadas com anúncio de Aluga-se. Até agora não abriu nenhuma. Já ouvi dizer que pertenciam ao Grupo Estação (de cinema), mas que, por ficarem em frente à UPA e ao terreno baldio, eles deixaram de ter interesse e venderam as lojas. Não sei se é verdade. Só sei que, curiosamente, nenhuma loja abriu até o momento, e a nova rua já está lá há meses.


O interessante é que, na frente das lojas, tem umas gradezinhas brancas, e de tantos em tantos metros tem um postezinho entre as grades, com uma luminária. É meio feio, mas podia ser pior. O curioso é que obviamente a grade atrapalha completamente o acesso das pessoas às (futuras) lojas. Então são umas grades que parecem ser de encaixar nos postezinhos com luminárias. E desde que a rua abriu, parece que não chegaram a uma conclusão definitiva sobre essas grades. Tem dias que elas estão lá, tem dias que não estão, e tem muitos dias que elas estão sendo retiradas ou colocadas quando eu passo. Ou é uma grande coincidência, ou essas grades são colocadas e retiradas praticamente o tempo todo.


E aí eles arrebentam o chão (novo) para fincar ou tirar os postezinhos com luminárias. Depois consertam o chão. O fato é que tem sempre homens trabalhando em frente às (futuras) lojas. E na semana passada, por incrível que pareça, vi homens marretando a parede externa de uma das lojas! Destruindo completamente. E esta semana já estava construído de novo. Foi então que me dei conta: estão fazendo um New Deal nessa rua! Lembram, aquela história de que, durante a Depressão nos EUA, contratavam pessoas para abrir um buraco na rua, e depois contratavam outras para fechar o buraco, sem qualquer finalidade, apenas para gerar emprego. Só pode ser isso. Meu deus! Nunca na história deste país...

PS: Por falar em Nelson Mandela, li e recomendo Conquistando o Inimigo (de John Carlin, Ed. Sextante, 2009), livro teoricamente sobre a Copa do Mundo de Rúgbi de 1995, primeiro ano de Mandela na presidência da África do Sul -- mas no fundo sobre Mandela e seu imenso talento político. É um livro arrepiante, e tão bom que, imaginem, me fez ir ao YouTube procurar uns vídeos de rúgbi.

Outro PS: Essas fotos são exatamente do local a que me refiro, mas não são minhas. Dei uma busca e achei essas justamente num site de imobiliária! É de uma das lojas para alugar (R$ 8.000,00 por mês, for the records).
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22.11.09

Portátil

Como faço todo ano, divulgo aqui que estão abertas as inscrições para a EPM - Escola Portátil de Música, ano letivo de 2010.
São 26 cursos diferentes, de instrumento, teóricos, práticos, tendo como professores os melhores instrumentistas do Rio de Janeiro - sem favor - no ramo da música popular. O foco é o choro (não se diz chorinho, vocês sabem), e do choro se parte para tudo quanto é gênero que compõe a música popular instrumental brasileira.
As aulas acontecem nas manhãs de sábado, na Uni-Rio (Urca), e os preços são bastante em conta. No site tem todas as informações.

Eu já fui aluna da EPM por alguns anos, e, como praticamente todo mundo que passou por lá, me tornei catequista da causa. O clima na EPM é tão bom, você se sente tão à vontade, tão privilegiada de estar ali fazendo parte de uma coisa tão, tão bacana, que é difícil não querer incutir essa vontade nas pessoas que a gente gosta.
Pode ir assistir, também. Todo sábado 12h30 tem ensaio do Bandão, aberto ao público. Veja só como é:



A qualidade do video é ruim, mas dá para ter uma ideia. E se alguém tiver notícia de outro conjunto que soe melhor reunido uns 40 pandeiros, 80 violões, 20 cavaquinhos, 10 bandolins, 30 flautas, 6 trompetes, 2 trombones, 1 tuba, 10 saxofones, 15 clarinetas e 4 contrabaixos acústicos, me avise, porque eu juro que não conheço.
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16.11.09

Era uma vez um blogue chamado Terapia Zero

Morrendo de saudades de ser blogueira...

O furor autobiográfico vai dar um tempinho. Voltamos com a parte 5... no ano que vem, quando completar 34!

No mais, Mathilde é uma figura que nem lhes conto. Não sei bem como se dá essa passagem, mas chega um momento em que a gente começa a obedecer os filhos. Mas ela é tão bem humorada, e agora me mata de rir quando faz uma imitação perfeita... de mim. A "cara de mamãe" é uma testa franzida e um olhar meio oblíquo de reprovação "nível 1" (para faltas menores e quase desprezíveis). Ela faz só para rir junto. É uma pândega, essa minha filha.

No mais 2, vamos para a França em dezembro, 10 dias sem Mathilde. Dicas de regiões para se conhecer em pleno inverno? A princípio Alsácia, mas abertos a opções. Dicas sobre como aguentar a saudade do cotoquinho falante de 85 cm? Cartas para a redação.

30.10.09

33 anos - parte 4

A vida escolar transcorreu sem muitos problemas, ou pelo menos foi isso que ficou na minha memória. Logo fiz amigas no colégio, grandes amigas mesmo, daquelas de ir dormir na casa umas das outras. Hoje não tenho mais contato regular com ninguém do tempo do St. Patrick's. Esporadicamente encontro uma pessoa ou outra, mas nada muito relevante. Uma das minhas melhores amigas teve uma filha aos 13 anos, outra é atuamente diretora de novelas da Globo, uma terceira tem um salão de beleza no Leblon. Eu tirava boas notas, e não me preocupava muito em estudar em casa. Fazia os deveres, e só. Teve a época da tabuada, claro, que foi um pouco marcante. Minha mãe e meu pai, que se empolgou imensamente com a brincadeira, acreditavam piamente no aprendizado por meio da repetição, e viviam me perguntando, o dia todo, nos momentos mais inusitados: três-vez-oito? cinco-vez-sete? seis-vez-nove? Minha prima, uma série à minha frente, me ensinou a mágica da tabuada de nove: fazer duas colunas de algarismos, uma crescente, e outra decrescente, de 0 a 9 (0-9/1-8/2-7/3-6), e voilà.
Meu pai me ensinou a andar de bicicleta sem rodinha em plena rua, no Leblon. Hoje seria impensável, mas minha lembrança é nítida. Na calçada das ruas principais do bairro, ele correu atrás de mim segurando a parte de trás da bicicleta enquanto eu gritava para não soltar, mas quando vi, já tinha soltado há muito tempo e eu estava pedalando sozinha, sem rodinha. Ele me levava também para soltar pipa no Aterro do Flamengo, e organizava jogos de pique-bandeira ali na rua também, na General Urquiza, com outras crianças que moravam na área. Foi meu pai também quem me ensinou a jogar damas, e depois xadrez. (Numa olimpíada de colônia de férias, minha única medalha de ouro foi em damas!) Além disso, me dava muitos livros para ler. Acho que ninguém ficou tão feliz quanto meu pai, que é escritor, com a minha precocidade em aprender a ler. Outro dia achei uma carta que ele me mandou quando eu tinha 4 ou 5 anos. Ele estava em outra cidade, e me mandou pelo correio (envelope no meu nome!) uma carta batida à máquina dizendo o quanto ele estava contente porque agora eu já podia ler. Eu gostava de ler, e lia bem. Sempre me voluntariava para ler em voz alta na escola, e achava que os meus colegas liam horrivelmente mal -- ou pelo menos muito pior do que eu. Meu pai me ajudou a escrever um livro, "O Leão Triste", que demos de presente para minha prima no aniversário dela. Era uma colagem de figuras (leões, naturalmente) com desenhos e algum texto, escrito por nós dois. Não lembro qual era a história do leão triste, apenas do título. Minha prima também se lembra, mas acho que não tem mais o exemplar.
Não fui a criança mais atlética do mundo -- nem a menos. Continuava no balé. Fiz natação um tempo. Depois fiz ginástica olímpica no Flamengo, e mais tarde vôlei, no mesmo clube. Nunca era a melhor nem a pior. Na escola jogava queimado quase todo dia no recreio. Gostava da aula de educação física, mas, talvez por ser filha única, odiava quando meu time perdia. Foi assim que me envolvi na primeira e única porrada da minha vida, ainda na primeira série, numa aula de educação física, com uma menina feia, gorda e chata que ficou sacaneando meu time depois que perdemos. Foi também numa aula de educação física, no primário, que passei por uma das situações mais constrangedoras de que tenho lembrança. O St. Patrick's não tinha quadras cobertas para prática de esportes. Apenas um pátio, onde era o recreio e também as aulas de ed. física. Quando chovia, íamos para um auditório no último andar, que tinha um palco e um espaço grande e vazio onde, quando necessário, colocava cadeiras dobráveis. Num desses dia de chuva, durante a aula de ed. física, o professor propôs um jogo qualquer, com duas equipes. Não lembro os detalhes, exceto que era uma coisa meio complicada, sai dessa fila, levanta, pega uma bola, coloca em tal lugar, volta, passa o bastão para o próximo da fila, algo assim. Nem todo mundo entendeu as regras direito. As duas equipes ficavam sentadas no chão, e só uma pessoa de cada equipe ficava em pé, por vez, correndo para fazer as tais coisas com bolas, bastões, etc., até passar para o companheiro seguinte da equipe. Bem. A uma certa hora, num time estava A., que era minha melhor amiga, mas meio lesada das ideias, e no outro time outra menina, também limitada e insegura. As duas se confundiram e erraram tudo o que tinha para fazer, de uma maneira realmente patética. Todo mundo riu, e elas ficaram com vergonha. Mas a vergonha delas foi rapidamente desviada para mim, que ri tanto que fiz xixi na calça. Muito xixi. Tipo, havia uma poça de xixi em volta de mim. Eu não sabia o que fazer, onde me enfiar. Não queria levantar da minha poça de xixi, fiquei ali chorando até todo mundo levantar e voltar para a sala de aula. Eu nem voltei pra aula, fui pra casa mais cedo, totalmente humilhada pela minha própria incontinência urinária. Essa coisa de rir muito e fazer xixi na calça me acompanhou até a adolescência. Passei por situações muito desagradáveis por causa disso, mas nenhuma tão pública e tão traumática quanto essa da aula de educação física, que foi na primeira ou segunda série (ou seja, eu tinha algo em torno de 7 ou 8 anos). Deve ser algo genético. Minha mãe tinha o mesmo problema. Para ela o momento mais traumático foi quando, adolescente, com uma prima, conseguiram burlar a segurança de um hotel para falar com o Anthony Perkins (ou Jean-Paul Belmondo, agora não lembro, mas era um astro de cinema que elas idolatravam), que estava hospedado ali. Inacreditavelmente, conseguiram chegar na porta do quarto onde o ator estava hospedado, só para ter um ataque de riso, durante o qual minha mãe fez uma cascata de xixi e teve que sair correndo. Mas enfim, ainda acho que meu caso foi pior.
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23.10.09

33 anos - parte 3

Primeira parte
Segunda parte

Aos 6 anos tive que deixar o Patronato da Gávea, que só ia até o C.A., e entrei no Colégio St. Patrick's, depois de fazer prova para a primeira série. Não era uma grande prova, como hoje existem os "vestibulinhos" para entrada no ensino fundamental. Lembro de fazer essa prova sozinha, na sala da coordenadora ou coisa do tipo, uma folha com questões em letras violeta e ainda exalando cheiro de álcool do mimeógrafo. Tudo aquilo era novidade para mim, que não estava acostumada a testes, provas, etc. Não sei por que meus pais escolheram o St. Patrick's, um colégio irlandês, bem tradicional (ecos bostonianos, talvez?). Não conhecíamos ninguém que estudasse lá. Aposto minhas fichas no quesito praticidade. O St. Patrick's era na mesma rua onde eu morava, a meros 3 quarteirões de distância. Era (ainda é) um colégio médio em tamanho. Na época tinha duas turmas de cada série, com cerca de 25 alunos cada uma; ia do C.A. à oitava série, e hoje em dia tem segundo grau (ensino médio, que seja). A dona do colégio era uma senhora irlandesa, temidíssima, Mrs Maureen, que falava com um sotaque carregado, como se tivesse chegado ontem de Dublin. Ou Belfast. Parece que ainda é viva, volta e meia alguém me diz que a viu fazendo compras num supermercado do Leblon. Se for verdade, Mrs Maureen deve ter uns 120 anos, por aí.
O diferencial "irlandês" do St. Patrick's era o ensino de inglês. Desde a primeira série tínhamos aula de inglês cinco vezes por semana. O colégio tinha também turmas especiais para estrangeiros, com todas as matérias em inglês. Mas essas turmas eram de manhã, eu estudava à tarde e não tinha contato com os angloparlantes. A professora de inglês dos cinco dias por semana era a mesma da primeira à oitava série: Teacher Terezinha. Tanto convívio era fatal, e na terceira série todo mundo já detestava a professora e seu ritual diário: Good afternoon, class; Good afternoon, Teacher; How are you today?; I'm fine, thank you, and you, Teacher?; I'm fine, thank you, class. A turma falava em uníssono. Ainda no quesito Irish Pride, comemorávamos o St. Patrick's Day todo 17 de março. Até hoje sempre me lembro da data.
Como de costume, a primeira série foi o início de uma vida institucionalizada, de rotinas, horários, deveres de casa. No primeiro dia de aula, eu com meu novo uniforme, de blusa branca de botões com um trevo bordado no bolso do lado esquerdo, saia de pregas verde, meia branca e sapato preto tipo boneca, fiquei fascinada com a possibilidade de comprar lanche na hora do recreio. Aquilo era uma novidade completa. Fui, com a maioria das crianças, para o refeitório comer o lanche fornecido pela escola (groselha, biscoitos de maizena), mas fiquei pasma com os alunos que compravam misto quente e coca-cola (garrafinha caçula) na cantina. Levar dinheiro para escola! De qualquer forma, eu levava dinheiro muito raramente, e quando isso acontecia quase sempre era para comprar biscoitos de polvilho ou paçoca. No dia-a-dia, ficava mesmo com a groselha e os biscoitos maria -- e achava aquilo muito bom.
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14.10.09

S.O.S. doação de livros

Temos uma porção de livros estrangeiros novos lá no trabalho, enviados por editoras ou agentes literários como opções para publicação, que decidimos não publicar. As editoras/agentes não pedem os exemplares de volta. Nós também não queremos ter a despesa de enviar pacotes para o exterior o tempo todo, sem necessidade. Assim, ficamos com esse problema. Centenas de livros novinhos (não só lançamentos recentes como em excelente estado de conservação) ocupando espaço.
Eu tinha arranjado de doar para uma ONG aqui do Rio, mas hoje fiquei sabendo que eles deram para trás e não apareceram para buscar os quase 200 livros já separados e encaixotados, e nem vão mais aparecer.
De modos que:
alguém conhece alguma instituição que se interesse?
São livros em inglês, em sua grande maioria.
Talvez cursos de inglês, ou cursinhos, ou bibliotecas comunitárias?
Sei lá. Alguma ideia?
A única condição é ir buscar (em Botafogo, RJ).
Tem ficção, não ficção, juvenil, infantil...
Quem tiver alguma sugestão, por favor indique nos comentários.
Obrigada.
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13.10.09

F*ck the fashion

12.10.09

33 anos - parte 2

Continuação daqui.

Todas as minhas memórias, portanto, são de viver numa casa só de mulheres, nós 3 sempre, eu, mamãe e a babá/empregada. Meu pai aparecia de vez em quando, nem muito ausente, nem muito presente. Minhas avós estavam sempre mais próximas, em especial a mãe do meu pai, que, acho, procurava suprir as lacunas deixadas por ele. Além disso, era eu sua neta única, condição que durou muitíssimo tempo. Já para minha avó materna fui a 9ª dos 12 netos e 13 bisnetos que ela conheceu enquanto viveu (até 2003, pouco antes de completar 90), portanto já era mesmo de se esperar um tratamento, digamos, menos "exclusivo".
Por volta dos 3 anos fui para a escolinha, o Patronato Operário da Gávea, que na verdade não fica na Gávea, e sim no Jardim Botânico, bem perto da Lagoa. Houve épocas em que meu pai me levava todos os dias de ônibus, e em outras épocas era a babá. Depois passei a ir de condução, como se chamava na época. Era uma Caravan com uma dúzia de crianças amontoadas na caçamba -- precursora das vans que existem hoje. Acho que gostava do Patronato. Lembro da hora de dormir, quando cada criança tinha sua própria esteira, e eu, mesmo já grande, ainda precisava da minha chupeta para dormir. Esse vício eu só larguei aos 6 anos, com muita dificuldade. Eu me envergonhava, queria largar, mas não conseguia. Queria dormir na casa de meus primos, na casa das amigas, e tentava, sem a chupeta. Mas na hora de dormir, não havia jeito. Alguém ia sempre me buscar, já tarde da noite. Um sofrimento.
Em casa, no meu quarto, uma das paredes era liberada para escrever e pintar. Era a alegria dos meus primos, quando iam lá em casa, aquele recanto de liberdade infantil. Meus primos maiores escreviam lá no alto, muito acima do meu alcance. Eu passava as tardes rabiscando a área abaixo de um metro de altura. O mais curioso é que foi ali, naquela parede, que aprendi a ler e escrever. Foi durante umas férias de verão, e eu era muito novinha, uns 4 anos. Quando as aulas recomeçaram, eu deveria ir para o Jardim II, mas como já estava lendo, e bem, me pularam para o C.A. E foi assim que me tornei, para sempre, a caçula da turma.
Mais ou menos nessa época minha avó (paterna) me colocou no balé. Na escola de dança Dalal Achcar, onde estudava a nata da fina flor da sociedade carioca. E eu. Minha avó me apanhava de carro duas vezes por semana, me levava para a aula, esperava lá, e me trazia de volta para casa. É engraçado, minha avó sempre teve essa coisa bem suburbana de querer parecer fina. Se vestir super bem para ir me levar ao balé. Querer que eu estudasse na escola de balé mais grã-fina. E eu curtia isso muito. Por exemplo, ela tinha carro, o que para mim era o máximo. Nem minha mãe nem meu pai tinham carro, a gente fazia tudo de ônibus. Minha avó tinha um Voyage dourado, que eu achava chiquérrimo. Já a mãe da minha mãe tinha um Fusca bege (apelidado pela família de "Pata de Elefante"), que eu achava de uma pobreza tamanha. Minha tia adora contar uma história (de que eu não me lembro, claro) segundo a qual eu teria dito, com cara de nojinho, que em Fusca eu não entrava -- isso para mostrar como minha outra avó tinha me transformando numa mini-perua-wannabe. (Parênteses para registrar o fato curioso de minhas duas avós -- nascidas em 1913 e 1924 -- terem trabalhado fora a vida inteira, e dirigido seus próprios carros. Não era comum para a geração delas, e sem dúvida fui muito influenciada por essa postura de vida.) Mas enfim, o balé era legal, e eu continuei até uns 12 ou 13 anos, quando mudei para jazz e depois para o sapateado. Tenho ótimas lembranças do balé, inclusive de ter dançado uma temporada do "Quebra-Nozes" no Teatro Municipal no final de 1984 ou 85, por aí, como parte do corpo de baile infantil. Era um trabalho, e eu gastava a maior onda por ter essa responsabilidade.
Na verdade eu já tinha outros trabalhos. Remunerados. Aos 4 anos comecei a fazer as primeiras gravações de jingles e comerciais de rádio. Aquela coisa, "Papai, não corra na estrada!", etc. E cantava também. Aos 6 eu já estava na panelinha oficial do coro infantil das gravadoras. Minha mãe tinha os contatos no meio musical, viu que eu era afinada, e me pôs pra dentro. As gravações foram uma constante ao longo de toda a minha infância. Até os 15 anos eu ainda fazia uns coros. Era sempre a mesma turminha, para todos os discos. Xuxa, Balão Mágico, Trem da Alegria, Os Trapalhões... you name it. Mesmo outros artistas, como Beth Carvalho, Milton Nascimento, até mesmo Roberto Carlos, às vezes uma faixa precisava de um coro infantil, então lá ia eu. Era o má-xi-mo. Não só pelo lado profissional, mas porque eu matava aula na escola, e quando voltava mostrava todas as músicas em primeira mão para meus amiguinhos. E, céus, como eu gastava onda com isso, ensinando "Ilariê" para todo mundo na hora do recreio, meses antes de o disco sair.

(Continua)
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