O ar-condicionado do meu quarto quebrou bem no início dessa insana onda de calor, que dura já umas semanas. O aparelho já contava muitos e muitos verões, e resolvi comprar um novo. Como de praxe, fui olhar nas lojas online. Submarino, Americanas.com, PontoFrio. Dos modelos de 7,500 BTUs, só encontro a mesma mensagem: "Produto Esgotado no Momento". Junte-se ao fato que o buraco na minha parede é relativamente pequeno, não são todos os modelos de ar que cabem, só os menores.
Então hoje, quando fez um calor medonho, resolvi procurar nas lojas não-virtuais. Na hora do almoço. Não, não fui bater perna no Centro nem na Av Copacabana. Fui ao xópin Rio Sul. Chegando lá, fui cortando as possibilidades. Nas Casas Bahia, nada, nem um aparelho pra contar história. Na Casa & Video, duas unidades, apenas, de marcas obscuras. Nas Americanas, nada, só vendem pelo site. E a AmbientAir fechou, o que muito me entristeceu.
Nada feito. Resolvi então almoçar. Hora do almoço num xópin center como o Rio Sul é um pesadelo. Um pesadelo com muita gente. Não quis encarar a praça de alimentação, não estava a fim de comer o que quer que fosse em frente a um lugar chamado Giraffas, assim com 2 fs, e com 2 girafas amarelas me olhando. Então subi 2 lances, vi um Garcia & Rodrigues que eu não conhecia, e pensei, vou lá. Bem em frente, um quiosque de café do próprio G&R, chamado Figaro Café. Sentei, olhei o cardápio e pedi quiche de alho poró com salada verde. Quando chegou, veio o quiche mais triste que eu já vi, acompanhado de umas folhas de alface com um molho amarelo.
Dei uma triste beliscada no quiche, que estava péssimo, e pedi a conta. O garçom, solícito, perguntou se havia algum problema.
-- Sim, esse quiche totalmente desmilinguido, e o fato de que isso não é uma salada verde, é só alface.
-- Mas é que a salada é só acompanhamento, é isso mesmo.
Veio a moça que fazia as vezes de maître - exceto pelo fato de que vestia uma blusa de paetês, um short preto, uma meia-calça preta e um sapato preto de salto agulha 10 e plataforma à la globeleza. Eu repeti o que havia dito ao garçom, e disse que estava desapontada, que o prato não fazia jus à fama gastronômica do restaurante.
-- Mas a salada que acompanha o quiche é simples, é só isso mesmo -- ela repetiu.
-- Olha: não existe salada de um ingrediente só.
Fui embora com fome (não cobraram o prato), já atrasada, e com calor, mesmo dentro do ar-condicionado do shopping (provavelmente porque não consegui comprar o meu ar, e estou cada vez menos esperançosa). Parei no Viena, voltei algumas décadas no tempo e pedi um petisco clássico da minha infância: a coxa-creme. Alguém não conhece a coxa-creme do Viena? Não sei como explicar. É a coisa mais entupitiva que se pode imaginar. Exatamente o que eu precisava.
Depois da coxa-creme, parei no McDonald's e comprei uma casquinha. Paguei e fui andando, já para descer e ir embora, quando, ainda de casquinha na mão, reparei que minha bolsa estava aberta e minha carteira tinha sumido. Pânico, pânico. Voltei correndo para o McDonald's.
-- Acho que deixei minha carteira aqui.
-- Deixou sim, senhora, eu acabei de entregar ao gerente.
Procurei o gerente com os olhos, e outro atendente me apontou:
-- Ali no salão.
De fato, lá estava o gerente, com a minha carteira de motorista na mão, procurando, entre os clientes do salão, uma "Dona O-Nome-Do-Meu-Pai". Tipo, suponha que meu pai se chame Walter. Ele estava perguntando quem era a Dona Walter.
Cheguei esbaforida:
-- A carteira é minha.
Ele me olhou, minha habilitação na mão:
-- A senhora é a Dona Walter?
-- Hein?
-- Walter, é o nome que está escrito aqui.
-- Claro que não! Esse é o nome do meu pai! -- e arranquei o documento da mão dele, que ficou meio sem graça e me devolveu a carteira.
Peguei um táxi de volta pro trabalho, depois dessa triste jornada. Dos 4 elevadores, 3 quebrados. Acho que até os elevadores sucumbiram ao calor.
Quando saí para pegar Mathilde na creche, passei no Ponto Frio que fica na esquina da Nova Nelson Mandela e perguntei se tinha ar-condicionado. O vendedor respondeu com aquele ar de quem já respondeu a essa pergunta 150 vezes hoje:
-- Só de 220V. De 110V, só para entrega daqui a vinte dias.
-- Vinte dias? Até lá eu já morri de calor, moço!
-- Pois é, não tem em nenhuma loja. E a indústria não está dando conta de produzir.
Então é essa a situação. Aquece a economia, os ar-condicionados somem no verão (porque já começou o verão, vocês sabem), e nossa potência industrial tropical não consegue repor os estoques.
Só espero que meu ventilador de teto aguente firme.
Eu sou o que sou
4 horas atrás


