4.11.12

Uma vida em rascunhos

Bem cedo aprendi a ter muito amor pelo objeto papel. Meu pai e minha mãe jamais permitiram que se jogasse fora uma folha de papel que não fosse usada em ambos os lados. E aquela clássica cena de cinema em que um personagem começa a escrever uma carta (ou um livro), e depois de uma frase amassa o papel para jogar fora até hoje me provoca calafrios. Papel tem de ser usado em sua totalidade. Por isso, ao longo de muitas faxinas em casa, acumulei quantidades absurdas de papel de rascunho, por falta de coragem de jogar fora. Era tanto papel que eu achava que nem em duas vidas inteiras teria oportunidade de usar.

Até que meus filhos aprenderam a rabiscar, desenhar, escrever. É impressionante como eles amam essa atividade - e mais impressionante ainda o quanto gastam de papel para todos os seus desenhos e rabiscos.

Hoje, fazendo uma arrumação na casa, peguei quilos de papel usado por eles, desenhos deixados pelos cantos da casa, e fui separando o que já estava rabiscado (para o lixo) e o que ainda não estava (para recolocar no lugar). E nessa lida passei minha vida em revista observando o que estava no verso dos desenhos.

Tinha ali o Discurso do Método de Descartes, textos clássicos da Escola de Frankfurt, como Adorno sobre a indústria cultural e A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica de Benjamin (com comentários meus na margem da página!), partituras quatro vozes de uma Aleluia e de motetos medievais, prestações de contas de projetos de Lei Rouanet, boletos bancários, cópias xerox de um capítulo intitulado Psychoanalisys and Feminism, páginas em formato A3 (mais valorizadas!) de um livro ilustrado sobre carros.

Vai que eles estão absorvendo um pouco disso tudo. Nunca se sabe.

30.10.12

Oliver 2.0

Meu pequeno, 2 anos hoje.




24.10.12

Berries


video

Ainda sobre Frankfurt: além da maravilhosa cerveja, desfrutei muito das frutas mais adoráveis dos climas temperados: amoras, framboesas e mirtilos (em inglês, o trio de berries: blackberry, raspberry and blueberry). Como meu hotel era muito phyno, o café da manhã era todo cheio de guéri-guéri. De modos que todo dia de manhã eu começava o dia com essa linda cumbuca acima: melões cantaloupe, melancia, morangos e as três berries, encimadas por um iogurte todo orgânico que vinha em pote de vidro retornável (como tudo lá) e um mel direto do favo. Chyk no último. Tão lindo que tirei essa foto, que na verdade virou um vídeo (fruto da minha incompetência iPhônica).

22.10.12

De Frankfurt


Estive em Frankfurt no início de outubro para a maior e mais tradicional feira do mercado editorial. Como percebi que nem mesmo minha mãe entende muito bem o que eu faço (minha madrinha achou que  eu voltaria da viagem com uma porção de livros na mala), e porque sei que os posts sobre mercado editorial costumam dar ibope neste abandonado espaço, eis aqui um curso relâmpago sobre a Feira de Frankfurt.

Diferente das nossas Bienais, Frankfurt é uma feira de negócios, voltada para profissionais, e não para o público. Nos diferentes halls estão os estandes das editoras e o espaço reservado aos agentes literários -- estes não têm estandes, apenas mesas para conduzir as reuniões. Mesmo nos estandes das editoras, que lembram fisicamente os estandes das nossas bienais, o espaço é ocupado por mesas para encontros, pois não há venda de livros (exceto no último fim de semana).
 

Por ser um evento tão tradicional, a agenda de encontros de Frankfurt é marcada com bastante antecedência. A feira é sempre em outubro, e já em junho começa o frenético agendamento dos encontros a cada meia hora, das 9h às 18h. Oficialmente, a feira funciona de quarta a sábado, e quatro dias de trabalho intenso já estariam de bom tamanho, mas com o crescimento do evento passou a ser praxe marcar encontros também na terça e mesmo na segunda, no lobby de um hotel tradicional no centro da cidade, o Frankfurterhof, que fica apinhado de gente e já é uma tarefa hercúlea você conseguir apenas achar a pessoa com quem marcou, que dirá negociar alguma coisa de interessante. Mas enfim, tradições.

E afinal, de que consistem esses encontros a cada meia hora? Normalmente, os editores de aquisições marcam com os agentes e editores (profissionais de "foreign rights", ou direitos estrangeiros) com quem costumam negociar, ou que porventura tenham interesse em conhecer. Grosso modo, estão ali frente a frente um vendedor de direitos de tradução de diversos títulos, e um comprador, responsável por uma editora que costuma comprar títulos estrangeiros para seu catálogo. O comprador chega e diz o que está procurando e o vendedor então sugere alguns títulos de sua lista, que serão então enviados para análise.


Mas ora, essas listas de títulos disponíveis já são mandadas previamente, e quem faz bem seu dever de casa inclusive já seleciona os títulos que lhe parecem mais interessantes (com base numa sinopse sumária) e durante o encontro já diz o que quer ver. Tudo isso é feito por e-mail, então francamente, qual a necessidade de todo esse deslocamento?

É aí que mora a arte do encontro ("apesar de haver tanto desencontro nessa vida", etc.). Porque no geral, quem trabalha no mercado de livro não foi parar ali para ficar rico. Praticamente todo mundo está ali porque gosta de ler. E naquela meia hora, a conversa pode tomar rumos maravilhosamente inesperados. Um comentário despretensioso pode gerar uma associação de ideias que leva a um negócio inusitado. Ou ainda melhor, a conversa pode migrar para o mais genérico, para o assunto "livros", independente de quem tem os direitos, e descobrem-se afinidades comuns, dicas preciosas são dadas.


Além do funcionamento nos horários comerciais, Frankfurt também se estende pela noite, com uma série de jantares e festas, algumas oficiais e já tradicionais das editoras, outras mais indie, com bandas formadas por profissionais do mercado e outras gracinhas. Ou seja, é uma semana exaustiva, mas muito produtiva, e é sensacional sair da rotina para entrar de corpo e alma no mundo dos livros. Ainda mais na Alemanha, um país tão bacana, onde se bebe uma cerveja de trigo inigualável.


Por outro lado, é bom voltar logo e tomar aquele choque de realidade, com os números ingratos do nosso mercado brasileiro (tantos títulos novos lançados por tantas editoras versus tão poucas livrarias). Com a prolongada crise da Europa, o Brasil continua sendo bola da vez, todo mundo quer vender para os editores brasileiros, e a maior competitividade só faz inflacionar os preços tremendamente. E se a gente se deixa levar demais pela agenda alheia, acaba por pagar muito e esquecer como as coisas funcionam por aqui -- e a notícia de que a Amazon pode vir a comprar a Saraiva logicamente não ajuda em nada, muito ao contrário.

E você, já foi a alguma feira de negócios em outro país? Tenho curiosidade para saber como funciona nas outras indústrias.

26.9.12

Divagações sob cera quente

Por algum motivo, sempre que estou fazendo depilação me pego filosofando sobre assuntos de relevância intercontinental e planetária. Por exemplo, sempre penso o que aconteceria se, bem naquela hora em que estou com consideráveis partes do corpo cobertas de cera pelando, disparasse um alarme de incêndio ou houvesse uma tsunami na Baía de Guanabara. Sei lá, qualquer situação de pânico que exigisse uma correria do tipo run for your life. Será que a depiladora arrancaria a cera de qualquer jeito, ou eu teria que sair correndo com a cera grudada? Que droga, hein.

Ou então penso que tortuosos caminhos da estética feminina e da busca pelo belo ideal nos levaram a passar cera quente milímetros acima dos olhos para ter sobrancelhas meticulosamente aparadas, modeladas e "perfeitas". Mais grave ainda: como chegamos ao ponto de ficar incomodadas se as sobrancelhas não estiverem em ordem, ou se o esmalte descascar bem no dia em que fizemos as unhas. O que aconteceu para que essas miudezas se tornassem parte relevante do nosso tão atarefado cotidiano? Fico me perguntando se essa super-atarefação não é uma fuga, se nos ocupamos demasiadamente dessas e outras questões no fundo irrelevantes para não nos defrontarmos com aquilo que realmente importa - e que não queremos confrontar.

24.9.12

Cinquenta Tons de Espanto


A menos que você tenha chegado ontem de um planeta distante, há de saber que o mais recente megafenômeno do mercado editorial é a trilogia Cinquenta Tons de Cinza, da inglesa E.L. James, um romance erótico protagonizado por um homem dominador e uma mulher submissa, vendido como "pornô para mães" e autoproclamado salvador de casamentos.

Antes de prosseguir, o disclaimer. Este assunto me assombra e provoca imensa dor-de-cotovelo, porque este projeto passou por mim, tive oportunidade de participar do leilão e declinei (porque achei uma porcaria). Ou seja, faltou-me enxergar o fenômeno, quando meu trabalho é justamente identificar e adquirir best-sellers. Haja assombração, com sei-lá-quantos milhões de livros vendidos mundo afora.

Eu fico verdadeira assombrada com a proporção que estes livros tomaram. Primeiro, por ser literariamente tão ruim. A escrita é um horror; os personagens, um pesadelo; o enredo, uma abominação. Não por acaso, a história começou como fan-fic do Crepúsculo. (Fan-fic é a ficção feitas pelos fãs, quando os próprios leitores começam a escrever continuações para as séries de que gostam.) Na sua origem, a trilogia foi autopublicada, sem trabalho de editor, o que certamente quer dizer alguma coisa a respeito do papel dos editores neste mundo. Então, ok, a questão não é o texto nem a qualidade literária.

E segundo, o que me causa mais espanto, por as pessoas ficarem entusiasmadas sexualmente com o que o livro traz. Por acharem o protagonista, um megaempresário milionário de 27 anos, tão incrivelmente sedutor. Por se identificarem, em proporções tão avassaladoras, com esse fetiche de algemas e chicotes - o nome correto do que existe no livro é BDSM, que qualquer um pode recorrer à Wikipedia para entender do que trata. Por acharem a protagonista feminina alguém digno de empatia ou quiçá identificação.

Já li muito a respeito e conversei com várias pessoas que leram os 3 livros e gostaram, mas nenhuma conseguiu me explicar convincentemente por que gostou ou ao menos como conseguiu vencer as mais de mil páginas.

Eu continuo assombrada.



12.9.12

Abismo de gerações

Não sei bem como isso foi acontecer. Mas o caso é que, no trabalho, me tornei, sem perceber, a pessoa mais velha do departamento. Bom, ok, nós somos apenas 4 pessoas, mas enfim. Como dizia aquele desenho, em todos esses anos nessa indústria vital, essa é a primeira vez que isso me acontece.

Essa questão da idade naturalmente não nos afeta no dia-a-dia, ela se faz presente é nos pequenos detalhes. Outro dia fiz referência a uma (para mim) clássica propaganda da American Express em que um feliz proprietário do cartão, frente a uma circunstância por certo alvissareira, dizia "Paris hoje? ... Ok!", dando a entender que com American Express essas coisas são possíveis e não precisa hesitar mais de dois segundos. Ninguém conhecia.

Ontem, 11 de setembro, de novo aconteceu. De alguma forma surgiu o papo o-que-você-estava-fazendo-quando-soube-dos-atentados. A minha resposta foi: estava dançando num clube de salsa em Havana, Cuba. As respostas dos meus colegas: "Meu pai foi me buscar no colégio e me contou"; e a pior: "Estava assistindo TV Globinho quando entrou um Plantão da Globo".

Ai ai.

20.8.12

O samba não pode parar

Foi o fim de semana mais animado, em termos de eventos, dos últimos anos.

Numa performance pra Milton Ribeiro nenhum botar defeito, fomos a quatro concertos em três dias, no Theatro Municipal.

Na quinta, comemoração de aniversário da rádio JBFM. Teve a Orquestra Sinfônica Brasileira acompanhando Zélia Duncan, Djavan e Caetano Veloso, três músicos que admiro bastante. Mas apesar do elenco estelar, não achei o concerto brilhante. Não rolou muito entrosamento e o único que parecia estar um pouco mais à vontade, Caetano (que completou 70 anos este mês), foi surpreendido por um Parabéns pra Você constrangedor da orquestra, logo seguido por um coro de toda a platéia, quase morri de vergonha alheia.

Na sexta juntamo-nos à horda de violonistas que acorreu ao Municipal para ver o Manuel Barrueco tocar o Concerto de Aranjuez com a mesma OSB. Para quem não tem o prazer de conhecer, este é "o" concerto clássico e consagrado para violão e orquestra. Foi um bom programa, mas melhor ainda foi sair para jantar depois com G. e S., tomar uns vinhos e falar sobre assuntos de variadas gamas, desde as fofices das crianças até as malices da greve das universidades federais. Enfim, o bom e velho exercício da amizade.

Aqui temos John Williams tocando Aranjuez

No sábado teve dose dupla. Às 16h encontramos todos os mesmos violonistas da véspera para ver o Duo Assad tocando uma peça (Phases) do Sergio Assad com a Orquestra Petrobras Sinfônica. O regente convidado era um polonês, que abriu a noite com uma peça de seu conterrâneo Lutoslawski e encerrou com Quadros de uma exposição de Mussorgski. Às 20h30 fomos conhecer a Filarmônica de Minas Gerais, orquestra jovem e promissora, que tocou danças do Ginastera, o Concerto para mão esquerda de Ravel (e os dois concertos para piano e orquestra de Ravel estão entre as minhas peças favoritas de todo o repertório clássico) com um solista americano que eu não conhecia, Leon Fleisher, e depois do intervalo a Sinfonia Fantástica de Berlioz, que achei chata e infindável (55 minutos!).

Eis aqui uma outra interpretação do concerto para mão esquerda de Ravel, composto, se não me engano, para o pianista Paul Wittgenstein (irmão do filósofo Ludwig), que perdeu o braço direito lutando na Primeira Guerra Mundial

Mas tudo isso é para contar-lhes que no sábado, entre o programa das 16h e o das 20h30, marido levou-me para conhecer o Samba do Ouvidor, do qual eu até então só ouvira falar. É uma tremenda roda de samba que acontece em alguns sábados (a periodicidade é incerta, ao que parece) na rua do Ouvidor, perto da Praça Quinze. Fui acometida de uma tremenda nostalgia, uma enorme saudade do tempo em que frequentávamos tantas rodas de samba por aí, sem hora para voltar, e sem ligar para o fato de ficar horas em pé tomando cerveja sem um banheiro decente por perto, achando tudo ótimo. Adorei ali aquele samba, em que vi tantas caras conhecidas -- literal e figurativamente, desde pessoas que realmente conheço até tanta gente que não sei quem é, mas cujos rostos anônimos remetem a tantos outros frequentadores de rodas de samba desde os tempos imemoriais, gente que gosta mesmo dessa música, conhece e canta junto, mesmo que não seja carnaval, nem verão, nem esteja sol nem calor.

No meio de tanta sinfonia, foi aquele samba que me deu mais alegria.


18.8.12

St. Patrick's


Não pude evitar a tristeza com a notícia do fechamento do Colégio St Patrick's do Leblon, onde estudei dos 6 aos 13 anos. Tenho ótimas lembranças de lá: aprender frações com barras de chocolate, campeonato de tabuada, jogo de queimado no recreio, aulas de flauta doce e de teatro. Foi lá minha primeira e única experiência de sair na porrada (rolando pelos corredores), com uma colega de sala, por causa de um jogo numa das olimpíadas do colégio. Lembro muito da professora de inglês, inesquecível Teacher Teresinha, com quem devo ter convivido por sete anos ininterruptos, pois que ela dava aula para todas as séries. Não me lembro de gostar particularmente dela, mas hoje sou-lhe imensamente grata, porque no St Patrick's, por ser um colégio irlandês (a dona, Miss Maureen, era irlandesa legítima, falava com aquele sotaque de quem chegou ontem ao Brasil), tinha um ensino de inglês reforçadíssimo: cinco aulas por semana, desde a primeira série. Com isso nunca precisei frequentar cursos de inglês, e o que aprendi lá é a base do inglês que falo. (Até hoje, sempre que algum anglófono me pergunta onde aprendi a falar inglês tão bem, encho a boca para dizer: St Patrick's School.) E claro, a professora de música, Maria José, já então uma senhorinha, que na época eu achava que tinha cem anos, e que nos fazia cantar maracatus, cantos folclóricos, e Villa-Lobos. Um professor de Geografia na quinta série, que me apresentou ao conceito de divisão entre países capitalistas e socialistas (era 1987 e isso existia). Acho que esse professor se chamava Pedro Paulo, e um dia ele levou uma vitrola para a sala de aula e nos pôs a ouvir "Índios" do Legião Urbana, e colocou um cocar na cabeça (!). E foi ainda esse sujeito que me ensinou o que eram "corporações multinacionais" quando passou um trabalho em que precisávamos colar numa cartolina embalagens de produtos de multinacionais, como Nestlé e Coca-cola. Fiquei tão impressionada.

Foi lá também que, em 1988, todos os alunos foram convocados para a sala da televisão para assistir ao Aurélio Miguel recebendo a medalha de ouro na Olimpíada de Seul.

E naturalmente, foi nesse colégio que fiz meus primeiros amigos (e primeiros desafetos), que percebi que as pessoas se dividem em grupinhos, que valoriza-se quem é bonito, que tem gente mais rica que outros, que aprendi sobre lealdade e traição.

Desde que mudei de escola, nunca mais voltei a entrar naquela casa verde do Leblon. Mesmo assim, lembro do Colégio St Patrick's pelo menos uma vez por ano, no dia 17 de março. É o dia de São Patrício, o padroeiro da Irlanda e da escola. E nesse dia, eu sempre procuro vestir uma peça de roupa verde, como manda a tradição.

Hoorray, Hoorray, Hoorray, It's Saint Patrick's Day!

1.8.12

Por que os e-books no Brasil não vão decolar enquanto a Amazon não começar a operar

A questão do espaço (ou da falta dele) é central na discussão dos e-books
E-books para mim são um tema cotidiano. Lido diariamente com a compra de direitos de publicação de livros no Brasil, e já faz algum tempo que essa negociação necessariamente envolve os "e-rights", que são direitos para formato eletrônico. Na editora onde trabalho já vendemos desde 2010 edições eletrônicas de diversos títulos do catálogo, e como acompanho sempre as vendas, sei que os números são pífios, realmente desprezíveis.
Nos Estados Unidos os e-books já representam uma parcela muito expressiva do faturamento das editoras, e se não me engano as vendas dos eletrônicos já superam as vendas das edições em capa dura (porque lá existe um diferença clara entre a edição capa dura, a brochura e o livro de bolso). E nós aqui estamos sempre nos perguntando quando é que esse negócio vai deslanchar no Brasil. Porque, claro, o livro eletrônico representa uma mudança muito expressiva na indústria do livro. Não só você acaba com o enorme problema da logística e o monumental custo do frete, como também você deixa de ser obrigado a apostar numa tiragem específica. Isso é muito relevante, porque o preço de um livro impresso está diretamente ligado à sua impressão e tiragem. Quanto maior a tiragem, menor o custo unitário, menor portanto o preço de capa. Mas... maior o custo de estocagem caso o produto não seja um sucesso.

A visão do depósito de uma grande editora é sempre impressionante.

Então tiragem está diretamente vinculada a preço do livro, e tiragem simplesmente não existe no livro eletrônico. É uma imensa quebra de paradigma, pois ainda hoje toda a indústria é voltada para essas grandes apostas, os blockbusters que saem com uma tiragem inicial enorme, para assim inundar as livrarias com pilhas do livro. Outra coisa que muda com o livro eletrônico é o triste fenômeno do "livro esgotado". Mesmo que a demanda por certo livro tenha deixado de ser expressiva o bastante para justificar uma reimpressão, o livro eletrônico pode sempre ser adquirido, pois seu custo de armazenagem num servidor é desprezível. É aquele conceito da cauda longa, de vender poucas unidades de uma variedade muito grande de produtos.
Por esses motivos e outros eu sou, desde a primeira hora, uma grande entusiasta do livro eletrônico -- obviamente como mais uma opção de formato, e nunca à custa do fim do livro impresso, que esse eu não acredito que vá ter fim nunca --, e acompanho o debate sobre preços, modelos de pagamento de royalties etc. com muito interesse.

Este é o modelo que eu tenho do Kindle - um dos mais antigos.

Sou maior entusiasta ainda do Kindle, o leitor de e-books da Amazon. O Kindle é o melhor leitor de e-books que eu já vi. Ele é confortável de segurar, de ler, fácil de utilizar, mais fácil ainda de comprar qualquer coisa por ele, a interface é amigável etc. No entanto, o Kindle só lê o formato azw, da Amazon. Você não pode comprar um e-book em outro lugar e ler no seu Kindle. (Pode, no entanto, enviar para o Kindle arquivos pessoais, como PDFs e Words, que ele converte e transmite instantaneamente. Eu uso demais essa função (Kindle personal documents) para ler os manuscritos que recebo, e funciona maravilhosamente bem.)

Tablets também popularizam os e-books

Tenho também um tablet, um Galaxy Tab rodando sistema Android, e leio muitos documentos nele também, mas ainda acho o Kindle infinitamente melhor como experiência de leitura (pelo tamanho e peso, pela duração da bateria (meses!) pelo fato de não gerar luz própria como o tablet, e porque ele não tem nenhuma outra função que me distraia da leitura).

Eu amo o Kindle, mas tenho muitas restrições ao modelo de negócio da Amazon, que abaixou tremendamente o preço dos livros (físicos e eletrônicos), vendendo abaixo do custo e com isso dizimando a concorrência e alterando a percepção de valor que o livro tem. No frigir dos ovos, sou uma feliz cliente da Amazon, mas entendo que, para o negócio como um todo, é uma empresa predatória e o resultado que se está vendo nos EUA (inclusive um longo processo judicial que está rolando lá contra as grandes editoras que fecharam contratos limitando o desconto que a Amazon poderia dar para e-books) não é nada bom. Essa é uma longa discussão e fica para outro chope.
Mas o que não se pode negar é que a experiência de consumidor na Amazon é sensacional. Não só eles vendem tudo sem criar qualquer obstáculo -- basta ter qualquer coisa minimamente semelhante a um cartão de crédito, emitido em qualquer país -- como têm um sistema de recomendações muito eficiente, e ainda por cima o atendimento ao consumidor é, literalmente, uma coisa do outro mundo.


Jeff Bezos, dono da Amazon, virou uma espécie de vilão do mercado editorial americano
Dito isso, o que eu realmente queria contar é que ontem, pela primeira vez, eu resolvi comprar um livro eletrônico brasileiro. Curiosa para ler os assim-chamados "melhores jovens escritores brasileiros", fui ao site da Saraiva, a maior rede de livrarias do Brasil, e comprei a edição e-book da Granta 9, tão comentada por aí. Sabia que não poderia ler no Kindle, mas podia ler no tablet. A compra em si não foi complicada. Já sou cliente da Saraiva.com, a operação foi simples. Depois de comprar, descobri que teria de baixar, no computador, o programa Saraiva Digital Reader.

Ô programinha ruim!
Ok, cliquei no botão para iniciar o download, e descobri que trata-se de um programa de 62Mb! Baixei, e descobri que também é preciso se cadastrar num troço chamado Adobe Digital Edition (ou outro nome semelhante, já não lembro mais). Assim o fiz, me loguei e consegui fazer com que o arquivo da Granta aparecesse na minha Biblioteca dentro do Saraiva Reader. Porém (ah, porém) quando abri o e-book, era chocante: uma massa de texto que ia de um extremo a outro da tela, em Times New Roman corpo 12 e entrelinha simples. Absolutamente ilegível, sem formatação, um mico total. Mas tudo bem, pensei, no tablet não vai ficar assim tão ruim. Então tive de baixar o aplicativo do Saraiva Digital Reader também no tablet (15Mb), e foi aí que a coisa realmente ficou complicada. Porque o aplicativo baixou e abriu numa boa, mas para ler a bendita Granta eu precisava entrar com meu login e senha, uma operação simples, mas que não funcionou de jeito maneira. Eu colocava o e-mail e a senha, clicava em Entrar, ele dizia "Verificando...", e voltava para a mesma tela pedindo e-mail e senha. Não dizia que estava incorreto ou inválido, simplesmente voltava, não entrava.
Oh céus, pensei, vai começar. Entrei no SAC da Saraiva pelo chat e fui atendida em uns poucos minutos. Expliquei o problema à atendente, que me pediu o meu CPF. Depois que informei, ela disse: tem 2 endereços de e-mail cadastrados à sua conta: xxx@ig.com.br e xxx@yahoo.com. Achei aquilo surreal, pois esse e-mail do ig está inativo há pelo menos dez anos, e de lá para cá fiz dezenas de compras pelo site da Saraiva com o outro e-mail. Expliquei isso para ela, que respondeu: estou solicitando a exclusão deste e-mail velho. Posso ajudar em algo mais? - Como assim?, teclei. Claro que pode, pode ajudar a resolver o problema que eu lhe informei, ora, e que nada tem a ver com endereços de e-mail. Ao que ela retornou com a incrível solução de solicitar outra senha para a minha conta! E assim fez, a despeito dos meus protestos, de tal forma que eu não conseguia mais entrar na minha conta nem pelo tablet e nem pelo site, porque a senha de praxe não valia mais, e a nova não chegava no meu e-mail. Passaram-se horas, e a senha não chegou. Liguei para o SAC da Saraiva (o número de São Paulo, com DDD, porque o 0800 para outras cidades não funciona) e expliquei tudo ao atendente, que então me disse que solicitaria novamente o envio de uma senha.
Essa nova senha chegou às 19:15 (a compra do e-book foi às 10:46), de modo que só hoje pude experimentá-la no tablet, o que obviamente não resolveu nada, o problema continuou igualzinho.
Peguei um café, me muni de toda a paciência disponível no meu ser, e liguei de novo para o SAC (tentei de novo o 0800, mas é porque eu sou teimosa, só o número comum de São Paulo é que funciona mesmo). Expliquei tudo de novo ao atendente, que então sugeriu que eu desinstalasse o aplicativo do tablet e instalasse novamente. Não acreditei que isso fosse dar certo, porque afinal o aplicativo funcionava (eu conseguia ler as amostras grátis que vêm instaladas, por exemplo), mas não quis ser antipática e fiz o que ele sugeriu. Que, claro, não funcionou. Então a única opção que o atendente me deu foi mandar um e-mail para o digital@livrariasaraiva.com.br, porque o atendimento para e-books é feito exclusivamente por e-mail. Mandei um e-mail hoje às 10:30, que me foi respondido às 18:13, pedindo screenshots da tela com o problema. Atendi prontamente, e de fato logo recebi uma resposta, sugerindo que eu clicasse num ícone tal e mandasse o aplicativo "atualizar". E voilà, não é que funcionou?! Então, cerca de 35 horas depois de comprar um e-book, pude abri-lo no tablet.

Meu primeiro (e último?) e-book nacional foi para conhecer mais da nova literatura nacional 
Bem.
A Granta é uma coletânea de textos de diferentes autores. E a primeira coisa que eu reparei no meu tão batalhado e-book é que não consegui encontrar um sumário. (Minto: a primeira coisa foi o alívio de ver que era o livro formatado, como o impresso, e não aquele Times entrelinha simples que vi no computador.) Tampouco achei onde clicar para ir para o final do livro, ver se o sumário estaria no fim. Não vi uma barra de progresso, mostrando em que ponto do livro você está. Depois, para meu grande espanto, vi que fazendo aquele movimento de afastar os dedos em cima da tela, o texto não muda de tamanho, não aumenta nem diminui. E o pior é que não consegui achar uma barra de configurações onde regular isso. Fiquei algum tempo incrédula, até que por fim esbarrei sem querer no topo da tela, e finalmente ali apareceu a barra onde tem tudo isso: sumário, progresso do livro, tamanho da fonte, marcadores, anotações, está tudo lá, só fica muuuuito escondido. Mas ele dá pau quando mando aumentar o tamanho da letra e mudo de página. Travou três vezes por esse motivo. E a conversão para e-book não é bem feita: o número das páginas cai em cima do texto.
Tendo passado por esse périplo, mesmo com final modestamente feliz, não sei se voltarei a comprar outro e-book tão cedo na Saraiva. Dizem que o aplicativo da Cultura é ainda muito pior, e são essas as duas principais redes de venda de e-book do país. A diferença em relação ao que a Amazon oferece por um preço menor é tão gritante, que não me admira absolutamente que os números de venda de e-books ainda patinem no Brasil. A baixa qualidade dos produtos e soluções (o Saraiva Digital Reader não é um bom leitor de e-books), a falta de preparo do atendimento ao consumidor, e os preços surrealmente altos dos e-books (eu tinha curiosidade de comprar o e-book dessa biografia do Getúlio Vargas lançada pela Cia das Letras, mas ele custa incríveis R$36,50 na Saraiva, que está vendendo a edição impressa, em promoção, por menos: R$35,80) selam, na minha opinião, o destino desse formato ao fracasso.
Dá para entender por que a Amazon quer tanto vir para o Brasil. Ela tem, aqui, todo um universo a explorar.
Repara nos preços

E para os heróis que chegaram ao fim deste longuíssimo texto: vocês já compraram algum e-book, na Amazon ou no Brasil? Como foi a experiência? Se não comprou, o que pensa do assunto?Comenta aí, vai.

18.7.12

DietAndroid

Fazer dieta nos dias de hoje tem lá sua graça.
Descobri um aplicativo que conta calorias, o MyFitnessPal. Mas o mais legal é que você pode fotografar o código de barras da embalagem de uma comida (um pacote de biscoito, por exemplo), que o danado do app identifica e diz quantas calorias tem numa porção. E aí você clica e adiciona à lista das coisas que comeu no dia.
Quando me contaram não acreditei. Mas quando fiz o teste com um pacote de pão de forma não é que ele acertou direitinho?
Um dia chegaremos no estágio abaixo, e aí vai ser realmente bacana.


16.7.12

Minha avó


Hoje fez aquela friaca carioca: 17ºC. Enquanto andava na rua, tiritando, vi uma senhorinha esperando para atravessar o sinal, usando saia um pouco abaixo dos joelhos, sem meia calça.

Foi o que bastou para eu me lembrar da minha avó materna, que se fosse viva estaria com 99 anos. Ela só usava saia e vestido, não importava o tempo. Tinha muitas meias de lã, para o tempo frio. Não há registro de minha avó de calça comprida. Old fashioned? Bem, mesmo com quatro filhos, vovó sempre trabalhou fora (era secretária), dirigia bravamente seu fusca bege ("Pata de Elefante") e tinha o hábito (para não dizer vício) de jogar pôquer com as amigas, uma ou duas vezes por semana, depois que se aposentou. Para alguém nascido em 1913, esses são traços que impressionam, e podem levar a crer que era uma mulher "à frente se seu tempo". Mas não. Ela não valorizava nenhuma dessas coisas, agia tão naturalmente que a gente entendia tudo isso (dirigir, trabalhar fora, jogar pôquer) como coisas corriqueiras da vida.

E tinha senso de humor, minha avó. Era daquelas que não perdem a piada. E se prestava às maiores brincadeiras dos filhos, já adultos. Como se fantasiar à moda da filha caçula (minha mãe), quando esta morava nos EUA, colocar peruca, minissaia e botas, só para tirar uma foto e mandar pelo correio. Pura galhofa. Ou quando meu tio morava na Alemanha, os demais irmãos fizeram uma produção para fantasiá-la de beata e tirar uma foto dela na frente da igreja Santa Mônica, logo ela, a maior ateia da paróquia. Como ninguém tinha bíblia, ela segurava um dicionário enrolado em xales e terços. Mandaram a foto pelo correio, dizendo a meu tio que não se preocupasse, que ela tinha encontrado a religião tardiamente na vida e estava até muito feliz. Tudo isso vovó fazia, só por diversão.

Tem dias que uma coisa à toa provoca a maior saudade.

9.7.12

Praça Paris

Foto O Globo

Tem sido nosso programa das manhãs de domingo há várias semanas: vamos de carro até a Glória, caminhamos até a Praça Paris, que tem estado um luxo, super bem cuidada, com guardas gentis e educados, gramados bem aparados e sem aquela chatice de não-pode-isso-não-pode-aquilo. Ali as crianças correm no gramadão, jogam bola, pintam e bordam até cansar. Tem ainda o espaço dos chafarizes (funcionando) onde as pessoas caminham e fazem cooper.

Quando eles cansam, voltamos andando pela Feira da Glória, uma feira livre toda-toda, frequentada por gente chyk e elegante, compramos frutas e verduras, e paramos para um obrigatório pastel com caldo de cana, antes de pegar o carro e voltar pra casa.

Como por muitos anos a Praça Paris foi sinônimo de abandono, as pessoas se surpreendem ao ouvir que ela voltou a ser uma opção de lazer bacana, com crianças ou não. Enfim, fica a dica, como se diz hoje em dia.

(Fico até meio assim de recomendar qualquer coisa aqui no blogue, porque minhas recomendações anteriores todas degringolaram: a Estante Virtual que funcionava tão bem para qualquer um vender seus livros diretamente agora só aceita pagamento por PayPal - antes da mudança eu vendia em média uns 3 livros por mês. Depois da mudança, que ocorreu em janeiro, só vendi um. E em mais de 60 transações com os compradores depositando o dinheiro na minha conta diretamente, nunca tive problema. O Trocando Livros mudou o design e ficou ainda mais difícil de encontrar qualquer coisa, também nunca mais usei e meus livros nunca mais foram solicitados. O programa de reciclagem da Light que dá desconto na conta de luz, mudou o esquema, eles passaram a ser excessivamente criteriosos na triagem, os horários ficaram mais restritos e os preços caíram tanto que passou a não valer mais o trabalho.)

7.7.12

Tira tudo

Fui fazer depilação hoje no lugar de sempre, e enquanto esperava para ser atendida, uma moça no balcão pagava pelos serviços recebidos a nada módica quantia de 180 reais. Como o máximo que jamais paguei ali foi menos de 80 reais para perna inteira, virilha, axila, buço e sobrancelha, não consegui evitar olhar a moça de alto a baixo para tentar adivinhar o que tanto ela tinha depilado. (Continuei sem saber.)


4.7.12

O melhor do verão carioca


O melhor do verão carioca acontece em junho-julho, quando o calendário insiste em afirmar categoricamente que é inverno.

O melhor do verão carioca é esse céu absurdamente azul, essa temperatura que chega fácil aos 32º por volta do meio-dia, mas que cai no fim da tarde e te permite dormir de cobertor.

O melhor do verão carioca é o mar cristalino e calmo como uma piscina, é aquele primeiro mergulho ao chegar à praia, quando tudo é silêncio embaixo da água, e quando se emerge o primeiro som é o das ondas quebrando na areia.

O melhor do verão carioca é ficar deitada na canga olhando para o céu incomensuravelmente azul, não aquele azul esturricado de janeiro, que de tanto sol chega a desbotar, mas esse azul mais consistente, mais denso, azul-dia-de-sol-de-inverno, olhar para cima e ter seu campo de visão totalmente tomado por esse azul, até ser invadido por umas gaivotas que planam, calmas, sábias, porque sabem que bater as asas é supervalorizado, o que conta mesmo é planar aproveitando o vento, e quando as gaivotas chegam, planam, e vão, você acha que está vivendo dentro de um filme francês nouvelle vague.

O melhor do verão carioca é ficar sozinha na sua canga para praia do Leme, lendo a edição pocket da maravilhosa biografia de Clarice Lispector (que inclusive morou no Leme), mas de vez em quando parar para ouvir as conversas das outras pessoas, pessoas que, vejam, vão à praia numa quarta-feira!, e lamentar, de coração, que Nelson Rodrigues não tenha vivido para escrever sobre os relacionamentos na era da internet.

O melhor do verão carioca é tirar férias na primeira semana de julho.

23.6.12

Quando a realidade supera a ficção

E no jantar hoje com os velhos amigos, lembrou-se de uma história vivida há uns seis anos pelo meu marido, história daquelas que todo mundo se recorda e passa adiante, mas dos detalhes ninguém lembrava, até que chegamos em casa e vi que, em prol da posteridade, tínhamos, alvíssaras, o registro escrito.
Fica então, para os leitores do blog, "O Caso Unibanco".


O motivo para ir ao banco já era péssimo: um cheque do condomínio havia voltado. Sim, porque sou síndico do prédio. E como o prédio é pequeno (só seis apartamentos), não há nem o benefício da isenção do pagamento do condomínio. Em suma, uma desgraça. E aquele era o primeiro cheque eu passara como síndico. Ou seja, grandes, enormes chances de os incompetentes do banco não terem trocado o cartão de assinatura, do síndico antigo para o novo. Por isso tudo, já cheguei na agência pronto para soltar os cachorros.
Mas mal passei a porta giratória, deparei com uma situação que em muito superava o maior escândalo que eu podia cogitar fazer em uma agência bancária. Uma senhora aos berros desacatava o gerente de uma forma inédita:
—Você é um engomadinho! Fica aí atrás dessa mesa, com seu terno e gravata, mas não passa de um engomadinho!
Tive que sentar para assistir ao espetáculo.
Aos poucos fui me inteirando. A tal senhora era dona de uma padaria ali perto, e havia ido à agência sacar um dinheiro. Mil e duzentos reais. Munida do cartão e da senha, foi ao caixa eletrônico. Mas o caixa eletrônico só permite saques até seiscentos reais. Mais do que isso, é preciso ir à boca do caixa. E foi o que ela fez. Mas quando chegou lá, a pessoa do caixa disse que ela não poderia sacar, porque o cartão não estava no nome dela. E mandou para o gerente. Que por sua vez disse que não havia nada a fazer. Só o titular da conta pode efetuar os saques na boca do caixa.
— Mas minha senhora, veja, o titular da conta é o senhor Carlos Alberto, que...
— O Carlos Alberto não manda nada! Quem manda sou eu! O dinheiro é meu! E eu quero sacar!
— Mas o titular precisa vir à agência, eu não posso fazer nada...
— Você é um engomadinho! Eu vou chamar o meu filho. E olha, o meu filho não é calmo assim como eu, não!
Nisso ela encontrou uma platéia, e passou a se dirigir aos espectadores:
— Eu quero tirar o meu dinheiro, e esse engomadinho não deixa. Esses bancos são todos uns ladrões.
E voltando as baterias para ele:
— Eu quero fechar a minha conta!
Aproveitei a brecha para, meio sem graça, falar com o gerente, o engomadinho. Que me fez uma cara meio que buscando solidariedade e disse:
— Olha, eu não vou poder te atender agora, como você está vendo. Mas quem vai resolver o teu caso é o Luís, aquele ali. Vai lá e fala com ele.
Então deixei meu lugar na platéia da dona da padaria e fui falar com o Luís. Que por sua vez estava atendendo uma senhora de idade, de aparência humilde, e ao mesmo tempo falava ao telefone e digitava coisas no computador. Fiquei em pé, ao lado, esperando.
Passaram-se, sem exagero, dez minutos. Do mais absoluto silêncio. Durante todo esse tempo, permaneci em pé, e, inacreditavelmente, o Luís não proferiu uma só palavra – nem com a senhora que estava sentada na frente dele, nem com sei lá quem que estava do outro lado da linha telefônica. A única coisa que ele fazia era digitar furiosamente o teclado do computador. A senhora também não disse nada. Tive que quebrar aquele clima:
— Luís?
Ele tira os olhos do monitor e me olha. Incrivelmente, parece me reconhecer. Mesmo assim, afasta um pouco o bocal do telefone (não que eu achasse que houvesse alguém do outro lado, mas enfim) e me diz:
— Vai demorar.
Aí não deu mais.
— Não, você vai ter que me atender agora. Escuta, o cheque que eu passei voltou.
— Ah, eu sei. Fui eu mesmo que mandei devolver.
— Mas por quê??
— A assinatura estava diferente.
— Como assim? Fui eu que assinei!
— Ah, é? Tudo bem. Vou liberar, é só pedir para que a pessoa reapresente o cheque.
Não sabia ele que, àquela altura, os operários da obra estavam no prédio, parados, aguardando o material de construção – que não chegou porque o cheque voltou!
— Não vai dar, Luís. Eu preciso que esse dinheiro entre na conta da loja, porque está atrasando a minha obra.
— Faz um DOC.
— Mas entra imediatamente na conta da outra pessoa?
— Bom, pode demorar até o fim do dia...
— Então não pode ser. Vou fazer pelo método lusitano. Saco o dinheiro aqui e deposito no Bradesco. E depois peço para me devolverem o cheque.
— Tá legal, pode ser. É só ir no caixa.
Olhei para a fila, apenas três pessoas. Beleza.
Enquanto me encaminhava para a fila, ainda ouvi o prosseguimento do ataque de fúria da dona da padaria.
— Porque nós temos um parente que é juiz federal! Então ninguém da minha família fica mais de um dia preso, seja lá por que motivo for! Você está entendendo?
Dois caixas para atendimento ao público. Uma mocinha atendia os clientes especiais. O outro, um rapazinho, atendia o resto dos mortais. A fila andou razoavelmente rápido até o cara que estava na minha frente, que foi atendido pelo rapazinho. Obviamente, o caso dele não era simples. Tinha que descontar um cheque. Mas antes o caixa precisava ligar para a pessoa, para confirmar que o cheque estava sendo descontado (!!).
— O nome dela é Isabela, você pode ligar para a escola em que ela trabalha. Pede pra falar com a Isabela, professora de inglês. Tá aqui o telefone.
Para minha surpresa, o caixa respondeu:
— Ok, vou ligar.
E foi!
Enquanto isso, a outra caixa, dos clientes especiais, com uma pilha monumental de contas a pagar.
Daqui a pouco volta o rapazinho:
— Olha, eu liguei pra lá, mas não tinha nenhuma Isabela professora de inglês. Disseram que tinha uma Isabela lá, mas professora de educação física.
— Não é possível. Eu tenho certeza que ela está lá, e é professora de inglês... Ah, já sei! É que tem outra Isabela que trabalha lá, e é professora de educação física. Faz o seguinte: liga de novo e fala que é a Isabela professora de inglês, que ela está lá, tenho certeza.
E o cara foi!!!
Neste ponto começam os rumores na fila, atrás de mim.
— É brincadeira, hein.
— Só um atendente para a fila, e ainda vai telefonar.
— Esses bancos são todos uns f-d-p...
Nisso vagou a caixa dos clientes especiais, e me chamou. Graças.
— Quero sacar mil e setecentos reais. Aqui o cartão.
— Ok. Por favor assine aqui.
Daqui a pouco volta ela:
— Olha, a assinatura não está batendo.
Nesse momento tive certeza de que os idiotas não haviam trocado os cartões de assinatura quando houve a mudança de síndico.
— Ah, não, de jeito nenhum. Pode falar aí com o Luís...
E o Luís já acenou para a moça, dizendo que estava tudo certo. E ela se rendeu e começou a contar o dinheiro.
Enquanto isso finalmente o outro caixa conseguiu falar com a Isabela-professora-de-inglês, que felizmente autorizou o saque do cheque. E o cara foi embora, e finalmente a fila ia andar e o cara que estava atrás de mim, já resmungando há tempos, seria atendido.
Não fosse pela senhora que se precipitou na frente dele, furando a fila, com uma pilha de contas de meio metro de altura.
Diante do olhar estupefato do cara da fila, ela não se dignou nem a olhar na cara dele. Simplesmente parou no caixa com suas mil contas, virou meio de lado e murmurou, entredentes:
— Sessentaecinco anos, sessentaecinco anos.
— Ah, não, a senhora não vai entrar na minha frente, não, com esse monte de contas.
— Meu filho, não cria caso. Sessentaecinco anos.
Mas ele resolveu criar caso.
— De jeito nenhum. A senhora tem direito de entrar na frente para pagar as suas contas. E eu duvido que essas contas todas aí sejam no seu nome. Quero ver, me mostra essas contas!
Muito surpresa, ela puxou uma conta e mostrou.
— E as outras, quero ver as outras contas! Não é possível que todas essas contas sejam suas.
Ela se enfezou.
— Eu não tenho que mostrar nada! Isso é o meu direito! Eu tenho sessentaecinco anos!
A esta altura, claro, uma outra platéia já se havia formado para assistir a mais esse espetacular embate. O mais atônito era o rapazinho do caixa, que não tinha a menor idéia de como proceder.
— Seu direito é pra pagar as suas contas. Não a de todos os seus parentes e vizinhos!
— Você não tem nada com isso, não se meta.
— Olha aqui, minha senhora, eu não gosto de fazer isso, não costumo fazer, mas a senhora está pedindo. Olha aqui. Eu... eu... eu sou deficiente físico!!!
E puxou a perna da calça, revelando uma perna mecânica, para delírio dos espectadores, que boaquiabertos só puderam dizer:
— Oh!
Dona Sessentaecinco anos baqueou. Por essa ela não esperava, realmente. Mas mesmo assim não se deu por vencida:
— E essas contas?! Deixa eu ver se essas contas são todas suas!
— Mas eu estou na fila normal!
Peguei meu dinheiro e saí correndo. Mas ainda deu tempo de ouvir o revide do engomadinho:
— Olha aqui, a senhora está me ofendendo! Está me chamando de engomadinho, me insultando, e eu estou aqui apenas fazendo o meu trabalho...
Saí de lá achando que encarar uma obra no condomínio como síndico era a melhor coisa do mundo.

14.6.12

Momento ternurinha do dia


Mathilde (4 anos e 5 meses) ensinando Oliver (1 ano e 7 meses) a jogar Angry Birds no celular.
Com a maior paciência.

E a mãe pensa: onde é que vamos parar?!

11.6.12

Mulheres, uni-vos e cortai-vos os cabelos!

Tenho cabelos cacheados, e passei a maior parte da vida querendo que eles fossem longos e lindos. Demorei quase 30 anos para finalmente admitir que meus cabelos jamais ficariam assim:


Então em 2006, pouco antes de me tornar Mulher de Trinta, acabei com aquela miséria e mandei cortar, bem curto. Foi uma sábia decisão, da qual jamais me arrependi. Acabou aquele problema de acordar com o famoso bad hair day, acabou a busca pelos produtos ideais, acabou o martírio da queda incontrolável dos cabelos. Enfim, acabou um monte de sofrimentos. A única coisa que criou foi a necessidade de cortar regularmente, à qual eu não estava habituada. Passaram-se os anos, eu feliz com meus cabelos curtos, mas nos últimos meses acabei negligenciando a coisa e ele foi crescendo, crescendo, até que - horror, horror! - já dava para prender num minúsculo e ridículo rabitcho de cavalo.
Mas a média de satisfação capilar estava sendo de 5 dias péssimos, 1 médio e 1 bom, o que, convenhamos, não é lá essas coisas. Então aproveitei o feriado prolongado e na sexta-feira mandei cortar novamente. Ó alívio, ó satisfação, ó júbilo! A proposta é mais ou menos essa:


E, como aconteceu lá em 2006, depois que cortei fiquei reparando nas mulheres na rua: é impressionante como poucas brasileiras usam os cabelos curtos. É fácil de observar a diferença quando viajamos para o exterior, principalmente para a Europa. Lá, é quase tão raro encontrar uma mulher de cabelos compridos quanto um homem de longas melenas. Mas aqui não, a proporção de cabelões é enorme, e o pior de tudo é que, no dia-a-dia, 90% desses cabelões que vemos na rua não estão na sua melhor forma.
Ou seja: a mulherada sua para manter seus cabelos compridos, mas na verdade eles só ficam no auge da sua forma capilar muito raramente, em ocasiões especiais e à custa de muito tempo e dinheiro investido nos salões. O que mais se vê é aquele cabelo mal-ajambrado, preso de qualquer jeito com uma famigerada xuxinha ou um tenebrosa piranha, ou ainda uma caneta Bic emergencial para segurar mal e porcamente um arremedo de coque que se desfaz cinco minutos depois.
Porque a dura e triste realidade, amiga leitora, é que seu cabelo nunca vai ser assim:


As mulheres esclarecidas já percebemos, há algum tempo, que os ideais de beleza e magreza da indústria da moda são inatingíveis - e mesmo discutíveis quanto ao seu teor de beleza, porque, deus meu, veja se isso é algum modelo de coisa remotamente bela:

Mas enfim, já percebemos que não queremos pesar 40kg e ter olhar de peixe morto, e no entanto parece que acreditamos piamente nas possibilidades da indústria dos produtos de cabelo. E não, amiga, esse resultado NÃO é possível para a imensa maioria de nós.


Só que sempre existe aquela vizinha/colega de trabalho/prima/recepcionista que tem o cabelo perfeito, que fica lindo de qualquer jeito. Sim, essas criaturas existem, bem como aquelas excomungadas que comem e não engordam. Elas nos levam a crer que "Yes, we can". Mas a indústria das dietas e dos produtos de cabelo estão aí, gigantescas, para provar que essas tipas são a imensa minoria. No frigir dos ovos, "No, we can't".
Parando para pensar, poucos são os assuntos aos quais as mulheres dedicam tanto tempo, energia, atenção e dinheiro quanto cabelos. Somos capazes de gastar fortunas, ir ao salão uma vez por mês e passar muuuitos minutos diários nos dedicando a eles. E tudo para quê, minha gente? Para esse resultado meia-bomba que está aí nas ruas para quem quiser ver.
Entendo que numa ocasião super especial valha a pena ir ao salão e ficar, por algumas horas, com aquele cabelo deslumbrante, mas pensa bem: a relação custo benefício vale?
É por isso que eu digo, grito até, aos quatro ventos, tal qual rainha de copas: cortem! cortem-lhe os cabelos! Não fique com o fio reto sem graça a vida inteira. Ouse, seja radical, aproveite as múltiplas possibilidades dos curtos, descubra-se. Corte os cabelos!



31.5.12

Dia das Mães 2 x 1 anna v.

Quem acompanha o blog há mais tempo sabe do meu desconforto e falta de saco para a festa do dia das mães da creche dos meus filhos. Em 2010 sofri e jurei que nunca mais. Acabei capitulando em 2011, quando me dei mal novamente. Aí este ano, lá pelo final de abril chegou a temida circular falando sobre a festa das mães. E ali dizia que este ano a festa seria temática, e o tema era "Anos 60" (alou? nenhuma mãe de criança de creche viveu os anos 60). Com isso, as crianças estariam vestidas com figurinos de anos 60 (para as meninas, saia rodada, laço de fita, óculos escuros), e os pais podiam também se vestir de acordo.

Ahmn... Não, obrigada.

Resolvi que não ia participar este ano, e comuniquei via agenda, o que provocou comoção na creche, com a dona me ligando para perguntar "Mas por quêeeeee???", me obrigando a mentir, olha que horror, dizendo que era uma viagem há muito tempo combinada, etc. Mas não falei nada com Mathilde, e pedi que, na creche, ela continuasse participando dos ensaios para a coreografia da sua turminha.

Minha rebeldia com o status quo acabou se tornando mais difícil do que eu previa. Conforme o dia foi se aproximando e Mathilde me contava sobre os ensaios, passei a me questionar sobre a decisão. Afinal, não estaria eu pensando apenas em mim, e não nela? Não faltaram pensamentos a respeito de traumas futuros, pensamentos estes que tento contemporizar, afinal de contas a mãe ou pai que pretender criar seus filhos sem um trauma sequer está fadada ao mais completo fracasso e à frustração eterna.

Quando entendi que ela estava sim animada com a perspectiva da festa, mas não incrivelmente excitada e expectante, tive a ideia de compensar a falta do evento em grande estilo: fizemos uma viagem, só nós duas. E uma super viagem, diga-se de passagem, apesar de apenas um fim de semana.

Pesquisei na internet sobre hotéis para se ir com crianças, e escolhi o Parador Maritacas, que fica entre Mendes e Vassouras, no sul fluminense. Partimos no sábado bem cedinho, chegamos em pouco mais de duas horas (porque sou uma anta na estrada, vou devagaríssimo com medo de errar -- na volta deu 1h45 de viagem), demos a maior sorte com o tempo bom e tivemos um fim de semana espetacular. Principalmente, quality time, como dizem. Mathilde é ótima companhia, o lugar é super lindo, lá tinha uma porção de crianças, recreação super completa com uma equipe de monitores bem legais (quem quiser pode largar as crianças de manhã com eles e pegar a carcaça exausta à noite, tem mil programações).

Para completar, levei a música que ela cantaria na festa da escola em MP3 no celular, e coloquei lá para ela fazer a coreografia, dançamos juntas uma porção de vezes dentro do nosso quarto.

No mais, desejo um feliz todo-e-qualquer-dia a todas as mães, porque a gente sabe que não depende de data.


26.5.12

O site de música mais legal dos últimos tempos

E o Terapia Zero sai de sua longa hibernação para falar de música!

Há dois personagens da história mais ou menos recente da música brasileira que sempre me fascinaram: Ernesto Nazareth e Guiomar Novaes. A razão do meu fascínio é que, em tudo que se lê e pesquisa sobre suas respectivas épocas, eles são citados constantemente, como referências absolutas. Nazareth, no início do século passado, tanto como compositor quanto como intérprete inigualável e formatador do tango brasileiro, e por extensão da polca, do choro e muito mais. Guiomar para o ambiente da música clássica da primeira metade do século XX, adorada por dez em cada dez pianistas clássicos. Há até mesmo a famosa citação de Claude Debussy sobre Guiomar ao vê-la participando de um concurso de piano em Paris -- quando ela tinha treze anos, dizendo que ela tinha a rara qualidade dos artistas, "os olhos ébrios de música", e que tinha sido a única coisa interessante que ele viu naquele concurso de jovens talentos.

E apesar das muitas gravações disponíveis de Guiomar Novaes, que permitem que se conheça sua personalidade artística, sempre senti falta de conhecer mais sobre a mulher por trás do mito. Afinal, quem era essa moça, filha da burguesia do interior paulista, 17ª de 19 irmãos (!!!) nascidos em São João da Boavista? Então quando soube do lançamento do livro Guiomar Novaes do Brasil: A Trajetória da Pianista em Nova York, de Luciana Medeiros e João Luiz Sampaio, corri para ter um exemplar (porque é um desses projetos patrocinados, lançado por uma pequena editora - Kapa Editorial -, o tipo do livro que some pouco após o lançamento e depois você só em encontra em sebos por preços proibitivos. Mas por enquanto ainda se acha, e custa R$80).

Confesso que fiquei decepcionada com o livro. Para começar, é um livro de luxo, formato grande, capa dura, edição bilíngue, todo em papel cuchê, repleto de fotos, e inclui 2 CDs de Guiomar tocando com a New York Philharmonic, regida pelo Bernstein (que estou ouvindo enquanto escrevo). Naturalmente essa opção pela edição luxuosa, "coffee table", não é, em si, um problema. O que me incomoda é que toda essa beleza externa na minha opinião serve para mascarar as deficiências do livro. O texto é fraco (na verdade nem cheguei a ler até o fim, pois perdi o interesse) e não revela quase nada sobre quem foi essa mulher. É quase uma compilação de fatos que a levaram aos EUA em 1915, depois de uma primeira temporada na Europa - a segunda foi abortada por causa da Primeira Guerra Mundial. Muita descrição e pouca análise. Mesmo dando o desconto necessário para o fato de o livro se concentrar na trajetória dela em Nova York, como diz o título, achei um desperdício. Ainda falta uma verdadeira biografia de Guiomar Novaes. Ou talvez exista e eu é que não conheço. Se alguém souber, por favor me fale.


Mas tudo isso sobre a Guiomar foi só uma digressão. Eu queria mesmo era falar sobre o Nazareth, e finalmente explicar o título deste post. É que estou fascinada pelo site www.ernestonazareth150anos.com.br, feito para comemorar o sesquicentenário do compositor, que será em 2013 (no site tem uma contagem regressiva: hoje faltam 298 dias). Não é segredo que tenho uma tendência forte à acumulação, organização e compilação de coisas. Todos os testes de autoconhecimento que já fiz ressaltam esse meu apreço pelo arquivo, pelos projetos grandiosos para organizar dados, etc. E de fato, cada vez que me aparece um desafio desses pela frente, fico entusiasmada. Então me encantou esse site, que é certamente obra de gente que não bate bem (no bom sentido).

Porque não seria nada de mais dizer que no site tem uma lista com todas as composições do Nazareth (mais de 200). Mas a coisa começa a ficar mais interessante quando se descobre que tem também todas as partituras disponíveis para download. E vira realmente espetacular quando se revela o fato que essas partituras têm duas versões: original para piano e adaptada para regional. Para quem não se tocou do que isso significa: dessa forma, qualquer grupo instrumental pode tocar as músicas, e não apenas os pianistas (Nazareth só escreveu para piano). Esse detalhe, sozinho, significa muito em termos da possibilidade de disseminação e popularização das composições.


Mas o motivo que me fez escrever que este é o site de música mais legal dos últimos tempos é o link "Discografia". Ali você consegue ouvir, em streaming, todas as gravações feitas de todas as obras. Em todos os tempos. São mais de 2 mil gravações, brasileiras e estrangeiras, antigas e modernas, em tudo quanto é transcrição, adaptação e instrumentação diferente. É por isso que acho que isso é coisa de gente com um parafuso a menos.

Independente da sanidade mental, eu tenho me deliciado descobrindo quantas músicas boas ele escreveu e especialmente comparando as interpretações de artistas diferentes para a mesma música. É uma aula e uma demonstração cabal das múltiplas interpretações de um mesmo texto musical. Ok, tá certo que no YouTube  isso existe de montão: pequenas colagens de vários intérpretes tocando a mesma obra ou trecho. Mas nunca tinha visto nada dessa escala, com tantas opções para você navegar como quiser.


E caramba, quanta música boa tem o Nazareth! Eu que estudei piano durante tantos anos tinha 2 álbuns de partituras dele, cada um com umas 30 peças, por aí. Não é nem um terço da produção. A maioria das pessoas só o conhece como autor de Odeon, Apanhei-te Cavaquinho e Brejeiro, e quem sabe um pouco mais de história da música lembra do fato de ele ter morrido louco, afogado tentando fugir na Colônia Juliano Moreira, um sanatório. Na verdade, Nazareth tinha sífilis (como Nietzsche, com quem também compartilhava o bigode, e de quem todo mundo também se lembra disso: morreu louco, conversava com cavalo etc.). É impressionante como essas "excentricidades" acabam sendo preponderantes no imaginário popular em detrimento da obra. No fim das contas, é isso que se grava, esse exótico "morreu louco".

É impossível medir a importância do Nazareth para a música popular brasileira. Sabe-se que ele era um cara popular em seu meio e sua época, que as pessoas vinham de todas as partes só para vê-lo tocar na sala de espera do cinema Odeon (e de outros onde ele tocou), inclusive Villa-Lobos, Radamés Gnattali e até o Rubinstein, na época uma grande estrela do pianismo internacional. Sabe-se que ele, como qualquer pianista, foi muito influenciado pelo repertório clássico (e ouvir suas valsas com atenção é entender como uma escola clássica e uma alma popular se encontram tão harmonicamente), e há grandes e intensas discussões musicológicas e psicológicas sobre o quanto ele seria "traumatizado" por não ser um pianista e compositor clássico. Há um famoso episódio em que Nazareth vai ao Theatro Municipal assistir a um concerto de, adivinhem!, Guiomar Novaes, e sai de lá aos prantos, em meio a um surto, se lamentando por não ter ido estudar na Europa e não tocar como ela.

Com tudo isso, com um personagem dessa magnitude e riqueza, não há, que eu saiba, uma biografia de Ernesto Nazareth. Existe um livro chamado O Enigma do Homem Célebre: Ambição e Vocação de Ernesto Nazareth, de Cacá Machado, que eu já li e achei chatérrimo, que não se presta a ser uma biografia real. Neste livro, o autor compra a versão de que Nazareth é a inspiração para o conto "Um homem célebre", de Machado de Assis (leiam, é uma delícia), cujo protagonista é Pestana, um compositor de polcas ultra populares que no fundo é atormentado por não conseguir compor peças clássicas. Além disso, o livro do Cacá Machado é muito técnico, tem análises musicológicas profundas que me derrotaram.

E então eu já entro em um novo tópico, que é a carência de biógrafos profissionais no Brasil. Li recentemente a biografia do Steve Jobs escrita pelo Walter Isaacson e fiquei boquiaberta. É um livro muito bom, excelentemente pesquisado e soberbamente escrito, leitura fácil e agradável mesmo para quem não tem nenhum interesse especial pelo tema nem pelo biografado. É um contraste com o que existe aqui, com as figuras e personagens do Brasil.

Tiro o chapéu para o Ruy Castro, que escreveu ótimos livros sobre Nelson Rodrigues, Carmen Miranda, Garrincha, a Bossa Nova, e para o Fernando Morais, cujas biografias de Olga Benário e Assis Chateaubriand são verdadeiros clássicos. Na área da música, tiro o chapéu também para o Sergio Cabral pai, que não é um biógrafo da estatura dos outros, mas fez um trabalho incrível de preservação de memória e de ocupar essa lacuna inexplicável, com seus livros sobre Pixinguinha, Tom Jobim, Ary Barroso, Elizeth Cardoso e Nara Leão. Existem, claro, outras boas biografias musicais, como a do Mário Reis escrita pelo Giron, a do Dorival Caymmi escrita pela neta Stella, do Cauby Peixoto escrita pelo Rodrigo Faour, do Vinicius de Moraes escrita pelo José Castello, e o excepcional trabalho feito pelo João Máximo e Carlos Didier em Noel Rosa, uma biografia, criminosamente esgotado e difícil de achar. Há outros bem mais limitados, como as biografias da Elis Regina, da Clara Nunes e da Maysa. E com tantos exemplos, acho que é pouco, muito pouco. E imagino que a causa seja a falta mesmo de investimento editorial. Porque o cara vai precisar mergulhar na vida de um personagem, no espírito do tempo em que o biografado viveu, passar meses, um ano, trabalhando obsessivamente naquele assunto, entrevistando montes de gentes, pesquisando à beça. E para isso, precisa ser remunerado durante esse período de gestação, coisa que as editoras dificilmente fazem.

Bom, acho que já deu para me lembrar como é escrever em blog. :-)


26.3.12

E quando menos se espera...

... acaba o mês e o blogue ficou de novo abandonado.
Mas olha: ainda não comprei o tablet, mas já me decidi pelo Galaxy. Inclusive comprei um smartphone (ui!), um Samsung Galaxy S2 e estou achando o máximo.
Sobre as dúvidas a respeito da falta de entrada USB, agora que conheci o mundo do bluetooth (com uma década de atraso, mais ou menos, e sem ter a mais vaga ideia do motivo por que tem esse nome, dente azul) descobri que de fato não tem necessidade de cabo nenhum.
E aí o smartphone tem um fone de ouvido ótimo e muitos gigabytes de memória para armazenar arquivos, então passo um monte de discos para MP3 e, com todas as minhas caminhadas diárias (de casa para a escola das crianças, de lá para o trabalho, de lá para casa almoçar, e de volta ao trabalho, e depois de volta ao lar), dá para ouvir praticamente um disco por dia!
No mais, tenho vários assuntos e muito sono no momento, de modos que... chope urgente!

2.3.12

Compartilhar com parcimônia

Esta semana saí do Google+, a rede social do Google. Quer dizer, não sei se é isso, um rede social. Enfim, só tinha entrado mesmo porque várias pessoas me mandaram uns convites. Mas nunca captei realmente o espírito da coisa. Achava muito chato a coisa de agrupar seus conhecidos em "círculos" para então compartilhar as coisas com mais facilidade. No fundo, nunca compartilhei nada por meio dessa ferramenta, a verdade é essa.

Olha, realmente essa coisa do compartilhamento sistemático não faz sentido pra mim. Nessas horas me sinto meio velha. Mas fico pensando que não tenho assim tanta informação para compartilhar com tanta frequência. Posso ter amor, amizade, compaixão e solidariedade para compartilhar, mas não tenho, digamos, tantos links, tantos videos ou tantas fotos para ficar sistematicamente atualizando as pessoas sobre o status da minha simplória existência. Claro que às vezes dá vontade, sim, de compartilhar algo com alguém. Outro dia, por exemplo, fiquei chocada com este bizarro livro de receitas. Aí mandei para um amigo que eu sabia que ia gostar. Mas só isso. Uma pessoa que eu sabia que ia curtir, em especial. Não doze, nem oitenta, nem duzentas e quinze pessoas.

Tampouco tenho Facebook (nunca tive), o que me transforma numa espécie de pária social. Mas não é por aversão ao conceito, muito menos por uma suposta superioridade moral ou vontade de ser diferente. É simplesmente uma questão de prioridades. Acho que Facebook é legal, manter as pessoas em contato etc. Mas não quero gastar ainda mais tempo online do que já gasto. Só isso. Tenho tantas coisas para fazer com as crianças, tantos filmes para ver, tantos livros para ler, que me parece loucura inventar um "hobby" que me deixe com ainda menos tempo para essas coisas.

Então, para não dizer que não falei de flores, vou compartilhar uma coisa aqui com meus incríveis leitores. Na verdade, é uma dica para os pais de crianças pequenas, que sei que respondem por boa parte do meu leitorado. Seguinte: se você não aguenta mais ver Galinha Pintadinha, já sabe as falas de Enrolados de cor (meu caso) e quer que seu filho ou filha se divirta com algo diferente, aí vai uma ótima opção:


1.3.12

R-e-g-o-z-i-j-a-i

De repente reparei que meu post sobre Downton Abbey começa com um erro de digitação. Em vez de "regozijai", escrevi "regojizai".
Também pudera.
Regozijo, apesar do significado alvissareiro, está para mim no top 5 das mais feias palavras da língua portuguesa.

Aliás ontem n'O Globo (adoro escrever assim com esse n'O) tinha um artigo do Roberto da Matta que terminava com a seguinte frase:

Estou seriamente pensando em me encontrar com o Dalai Lama, pois ser juiz neste nosso Brasil republicano bem vale uma viagem ao Tibete.

Não seria nada de mais se alguém da editoria de opinião não tivesse escolhido justamente esta frase para ser o "olho" do artigo, aquela frase em destaque que fica no meio do texto, num box, em letra maior. Um recurso comum da diagramação de jornais. Só que, por motivos que não consigo imaginar, o olho ficou assim:

ser juiz neste nosso Brasil republicano bem vale uma viajem ao Tibete

Repararam? Viajem, amigos, uma viajem! E no texto está certo, só nesse destaque é que ficou errado. Grosseiramente errado.

Na página ao lado, no principal artigo de opinião do jornal, o que sai encimado por um indubitável "Nossa opinião" (em contrapartida à "Outra opinião", que vem logo abaixo), achei um "grande números". No Segundo Caderno, uma crítica da Barbara Heliodora saiu com "vendávies" em vez de "vendáveis".

Ao que eu me pergunto: PQP, cadê o revisor?! Ninguém mais dá a mínima bola para essa porcaria? Ninguém lê a p*rra do jornal antes de mandar para a gráfica? Eu fico assim, passada.

No carnaval, a Prefeitura do Rio encheu os postes da cidade de galhardetes sobre o carnaval de rua. Um deles propagandeava que em 2012 haveria pela cidade não sei quantos banheiros químicos, "250% a mais em relação à 2010". Isso mesmo, a craseado. Caramba, quem é que aprova essas peças? Quem é o infeliz do funcionário público cujo salário eu pago e que dá um visto dizendo que está tudo bem uma propaganda oficial que diz "em relação À 2010"? E cá entre nós, por que 2010? Talvez devesse ser 2011 e este foi mais um erro de revisão...