22.10.12

De Frankfurt


Estive em Frankfurt no início de outubro para a maior e mais tradicional feira do mercado editorial. Como percebi que nem mesmo minha mãe entende muito bem o que eu faço (minha madrinha achou que  eu voltaria da viagem com uma porção de livros na mala), e porque sei que os posts sobre mercado editorial costumam dar ibope neste abandonado espaço, eis aqui um curso relâmpago sobre a Feira de Frankfurt.

Diferente das nossas Bienais, Frankfurt é uma feira de negócios, voltada para profissionais, e não para o público. Nos diferentes halls estão os estandes das editoras e o espaço reservado aos agentes literários -- estes não têm estandes, apenas mesas para conduzir as reuniões. Mesmo nos estandes das editoras, que lembram fisicamente os estandes das nossas bienais, o espaço é ocupado por mesas para encontros, pois não há venda de livros (exceto no último fim de semana).
 

Por ser um evento tão tradicional, a agenda de encontros de Frankfurt é marcada com bastante antecedência. A feira é sempre em outubro, e já em junho começa o frenético agendamento dos encontros a cada meia hora, das 9h às 18h. Oficialmente, a feira funciona de quarta a sábado, e quatro dias de trabalho intenso já estariam de bom tamanho, mas com o crescimento do evento passou a ser praxe marcar encontros também na terça e mesmo na segunda, no lobby de um hotel tradicional no centro da cidade, o Frankfurterhof, que fica apinhado de gente e já é uma tarefa hercúlea você conseguir apenas achar a pessoa com quem marcou, que dirá negociar alguma coisa de interessante. Mas enfim, tradições.

E afinal, de que consistem esses encontros a cada meia hora? Normalmente, os editores de aquisições marcam com os agentes e editores (profissionais de "foreign rights", ou direitos estrangeiros) com quem costumam negociar, ou que porventura tenham interesse em conhecer. Grosso modo, estão ali frente a frente um vendedor de direitos de tradução de diversos títulos, e um comprador, responsável por uma editora que costuma comprar títulos estrangeiros para seu catálogo. O comprador chega e diz o que está procurando e o vendedor então sugere alguns títulos de sua lista, que serão então enviados para análise.


Mas ora, essas listas de títulos disponíveis já são mandadas previamente, e quem faz bem seu dever de casa inclusive já seleciona os títulos que lhe parecem mais interessantes (com base numa sinopse sumária) e durante o encontro já diz o que quer ver. Tudo isso é feito por e-mail, então francamente, qual a necessidade de todo esse deslocamento?

É aí que mora a arte do encontro ("apesar de haver tanto desencontro nessa vida", etc.). Porque no geral, quem trabalha no mercado de livro não foi parar ali para ficar rico. Praticamente todo mundo está ali porque gosta de ler. E naquela meia hora, a conversa pode tomar rumos maravilhosamente inesperados. Um comentário despretensioso pode gerar uma associação de ideias que leva a um negócio inusitado. Ou ainda melhor, a conversa pode migrar para o mais genérico, para o assunto "livros", independente de quem tem os direitos, e descobrem-se afinidades comuns, dicas preciosas são dadas.


Além do funcionamento nos horários comerciais, Frankfurt também se estende pela noite, com uma série de jantares e festas, algumas oficiais e já tradicionais das editoras, outras mais indie, com bandas formadas por profissionais do mercado e outras gracinhas. Ou seja, é uma semana exaustiva, mas muito produtiva, e é sensacional sair da rotina para entrar de corpo e alma no mundo dos livros. Ainda mais na Alemanha, um país tão bacana, onde se bebe uma cerveja de trigo inigualável.


Por outro lado, é bom voltar logo e tomar aquele choque de realidade, com os números ingratos do nosso mercado brasileiro (tantos títulos novos lançados por tantas editoras versus tão poucas livrarias). Com a prolongada crise da Europa, o Brasil continua sendo bola da vez, todo mundo quer vender para os editores brasileiros, e a maior competitividade só faz inflacionar os preços tremendamente. E se a gente se deixa levar demais pela agenda alheia, acaba por pagar muito e esquecer como as coisas funcionam por aqui -- e a notícia de que a Amazon pode vir a comprar a Saraiva logicamente não ajuda em nada, muito ao contrário.

E você, já foi a alguma feira de negócios em outro país? Tenho curiosidade para saber como funciona nas outras indústrias.

9 comentários:

Marcus Pessoa disse...

Adorei o post, e bateu até uma invejinha branca. Como deve ser bacana esse trabalho.

Eu fiquei bastante assustado com esse negócio da Amazon querer comprar a Saraiva. Não estão pra brincadeira. Vão querer chegar ditando ordens.

Camila disse...

Poxa, se eu soubesse da sua vinda, teria te convidado pra um café. Ainda que fosse no aeroporto...

anna v. disse...

Marcus, a perspectiva de esse negócio se consolidar é assustadora. O mercado vai ficar horrivelmente concentrado e sem concorrência.

Camila, você mora em Frankfurt? Ano que vem tem mais, guarda o convite!

Bjs

Daniel Banho disse...

Desculpem a minha ignorância de leigo na área, mas com a Saraiva controlando a sua fatia do mercado não há concentração e falta de concorrência. Já com a Amazon no seu lugar, sim? Não entendi.

Abraços

Daniel Banho disse...

PS: não foi ironia; realmente sou leigo e gostaria de entender melhor o ponto de vista de quem é da área.

Clara Lopez disse...

Muito bom post, anna, e que bom poder viajar nesse nível de cidade a trabalho, mas sei que vc deve ralar à beça :) Daniel, minha impressão é que a coisa muda pela magnitude da Amazon, no sentido do publico que abarca e do dinheiro de que dispõe, mas anna é que pode dizer melhor,
abraço,
clara

anna v. disse...

Daniel, justamente, a Saraiva já controla uma fatia enorme de mercado, e ter a Amazon como concorrente seria uma sacudida e tanto. Se a Amazon entra já englobando aquela que seria sua maior concorrente, o horizonte é de um quase monopólio. A Submarino provavelmente deixaria de existir, a LaSelva já vai muito mal das pernas, e então teríamos Cultura e Livrarias Curitiba lutando ali mais embaixo, mas a fatia que elas representam não é tão expressiva.

Camila disse...

Moro sim, Anna! E a Buchmesse de 2013 vai ser muito especial, com o Brasil como país homenageado.

Cláudio Luiz disse...

loooooosho!
Se lhe interessa mesmo, naquele tão prometido chopp, conto como foi a minha experiência tanto como visitante como participante de uma feira internacional. Não conto agora porque eu não devia nem estar aqui lendo o maravilhoso blog.