10.11.07

As desaparecidas

Baco, Ceres e Cupido


Algumas vezes conversei com a minha mãe sobre os anos 70 e como era a percepção dela dos piores anos da ditadura militar. Se ela conhecia pessoas envolvidas na luta armada (sim), se chegou a se envolver efetivamente (não), e como era o clima naquela época. Ela conta que hoje em dia não podemos imaginar o que era o clima de paranóia e perseguição daquela época, em que todos poderiam estar visados, por engano ou não. Em que, mesmo não tendo feito nada de "errado", continuava-se sempre com medo. Mas o que acontecia, e esta é a lembrança mais forte dela, era que as pessoas simplesmente sumiam. Um dia estavam lá, depois nunca mais ninguém sabia. Ficava aquela dúvida sobre se tinham fugido, emigrado, caído na clandestinidade ou sido presos. As pessoas desapareciam, simplesmente.

Lembrei disso por conta da minha aula de ioga para gestantes. Lá também as pessoas desaparecem. Você convive com aquelas mulheres, conversa, troca experiências, compara barrigas, enfim se apega. E de repente, elas simplesmente desaparecem. Claro que, conscientemente, sabemos que desaparecem porque pariram, mas de certa forma não deixa de ser, também, porque foram presas pelo sistema. Caíram numa espécie de prisão. De amor.

Muitas histórias eu poderia contar sobre essa aula de ioga para gestantes, e as particularidades da convivência com uma porção de grávidas. Mas agora conto só uma curiosidade: a aula acontece em um prédio comercial, e eu faço no horário noturno, quando há menos movimento no edifício. Mas aparentemente nos mesmos dias e horário há, em outro andar, aulas, ou palestras, ou cursos, não sei, da Associação Brasileira de Sommeliers (sei porque já vi a apostila nas mãos das pessoas, ao lado das garrafas de vinho). E às vezes subo no elevador com esses aprendizes de sommeliers. Mas o mais engraçado é na hora da saída. Um elevador com cinco ou seis grávidas imensas pára no 3º andar, onde entram três ou quatro criaturas meio bêbadas. Que, naturalmente, acham que estão tendo alguma espécie de alucinação com aquela visão. Baco, deus do vinho, encontra Ceres, deusa da fertilidade, em um elevador no Flamengo.
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14 comentários:

Clara Lopez disse...

Ana, nós somos quase vizinhas,qualquer dia vou te ver carregando a Mathilde pela galeria do
São Luiz ::))
um abraço,
clara lopez

Alba Regina disse...

meu pai era militar. seria bom q alguém algum dia escrevesse a história vinda do outro lado. nego adora bater. mas não gosta de ouvir. papo cansativo este de ditadura militar quase no final da primeira década do séc. xxi ... socorro hein?! ;)

Lord Broken Pottery disse...

Anna,
Foi exatamente como disse a sua mãe. Eu lembro da minha, preocupada, quando saíamos à noite. O medo e a violência eram diferentes. O perigo maior, aquilo com que precisávamos tomar cuidado, era com o que dizíamos. Você podia ser preso, e sumir, por ter criticado, num bar, por exemplo, a ditadura na frente de um policial disfarçado. Era esse o maior medo dos pais. E eu nunca vou cansar desse papo, por ter memória, por respeitar os que foram mortos, assassinados por divergir. O outro lado eu conheço bem.
Grande beijo

Magui disse...

Para mim , o pior da ditadura foi ter que agüntar a bossa nova pq o rock foi proibido.Já pensou a tortura?

Anônimo disse...

Da ditadura, lembro do medo, tudo às esconsas, meio escondido, e a galera aprontando todas, onde pudesse. Também lembro do inenarrável: Caetano voltando do exílio e cantando Janelas abertas nº 2 na janela do João Caetano (ou seria Municipal?) para os que não tinham conseguido entrar, eu entre eles. Havia luto e medo, sim, mas havia esperança também, e energia e projetos e coisas pela quais lutar e ética (queríamos tantas mudanças). Foi um período intenso, em todos os sentidos.
um abraço,
clara lopez

Beatriz Galvão disse...

ow, eu so tenho 15 anos, entretanto, assim como ana, tenho muita curiosidade em relação aos acontecimentos da ditadura.Uma interrogação que todo santo dia fere minha mente e minha eufórica vontade de mudança é porque todos(salvo raras exceções)os militantes políticos da época se tornaram verdadeiros "fanfarrões". Jsé Dirceu e Dilma Vana Rousseff são exemplos da transformação explicável, mas inaceitável, dos objetivos de indivíduos como eles. Espero q aguém tenha paciência para responder ... =* Obrigada.

anna v. disse...

Clara, é mesmo? Ali na galeria tem uma Kopenhagen também, não é? Vamos tomar um café lá qualquer dia.
Alba, não entendi. Tá cheio de história do outro lado, não? E apesar do post não ter sido pensado para enveredar para este lado, acho esse papo sempre necessário.
Lord, pois é, acho isso também.
Magui, na boa, tortura é o que a gente tem que escutar hoje.
Beatriz, na faculdade de jornalismo tem uma piadinha infame sobre a boa escrita jornalística, que diz: "TODA generalização é burra. Não generalize NUNCA". Hehe.

Carrie, a Estranha disse...

Engraçado como q para os militares o papo tá sempre esgotado. Mas quase ninguém fala que fez parte da ditadura. A sociedade civil como um todo que apoiou das mais diversas formas o golpe - até q ele começasse a prender seus filhos e torturar. E agora ninguém fala. E ainda vem com essa desculpinha de que "nossa, q antigo".

Por que eu não nasci na Argentina, Deus?!

Muito bom o post, Anna! Hilário o final.

Bjs

Fernanda disse...

Já trabalhei neste prédio, no andar da turma do vinho. Já vi esta cena acontecer...

anna v. disse...

Carrie, na Argentina também é foda, viu? Quando estive lá vi um livro infantil "A ditadura militar explicada às crianças", que vou te contar. Um horror mesmo.
Fernanda, eu tenho vontade de dizer aos sommeliers que somos de uma seita de barrigudas que se reúne ali semanalmente para planejar a dominação gravídica do mundo.

Monix disse...

Ei! Eu também já trabalhei nesse prédio - e fazia ioga para gestantes lá também. Sabe que eu andava tão lesada na época (até parece que agora sou menos lesada, hahaha) que nunca me toquei dessa cena dos bêbados e as grávidas no mesmo elevador?
bjs

anna v. disse...

Nossa, esse prédio bomba, hein?!

Má com acento mesmo disse...

Eu faço curso da ABS só que as classes são ministradas em um shopping. Imagine os mesmos semi-bêbados do seu elevador tentando pegar escada rolante.
E eu também tinha medo na época da ditadura. Não só do bicho papão, mas do Figueiredo também.

beatriz galvão disse...

ana, acho q vc não percebeu que eu fiz uma observação. Dá uma olhada lá no centro do comentário: "(salvo raras exceções)". Eu achei que o assunto central do post fosse ditadura, embora você esteja numa fase final de gravidez. Peço desculpas se eu não soube reconhecer tal fato.

Mesmo assim sou grata por aqueles que não estão com seu traseiro burguês sentado numa poltrona e vendo a desgraça do trabalhador humilhado pelo sistema que a ditadura conseguiu assegurar instalação no Brasil.

Pena que o pessoal daquela época que foi militante político de verdade não tenha mais a mesma audácia, ou a tenha enterrado em algum lugar distante. Quem sabe não a deixaram no exílio, né?
Paciência... :cansei dela.