5.10.09

Há 33 anos

Nasci na madrugada do dia 5 de outubro de 1976, no hospital Pró-Matre, centro do Rio. O parto (cesariana) não foi feito pelo médico que acompanhou toda a gestação, um bom amigo da minha mãe (que foi, inclusive, meu primeiro ginecologista), porque a mulher dele se matara pouco tempo antes, e ele estava afastado. Nasci com peso e tamanho normais, mas com o nariz amassado. Parece que fiquei com o rosto imprensado, dentro da barriga da minha mãe, e o nariz ficou torto para um lado. Imagino a cara de decepção dos amigos e parentes na maternidade -- e, por que não?, de meus pais também -- ao ver aquele bebezinho de nariz torto. Conforme as horas passavam e o nariz não endireitava, a apreensão foi crescendo. Minha mãe pensava: "Meu Deus, será que vou passar a vida inteira olhando para esse narizinho torto?". No dia seguinte minha avó materna mandou buscar um cirurgião plástico bam-bam-bam para olhar o caso e ver o que poderia ser feito. Pelo que me contaram, ele chegou, olhou para mim durante alguns segundos, murmurou algo sobre "perda de tempo" e foi embora com cara de poucos amigos. E de fato, pouco tempo depois meu nariz desentortou naturalmente.
Meus pais passaram o final da gravidez numa casa alugada na ilha de Paquetá. Para quem não conhece, Paquetá fica na baía de Guanabara, e é conhecida como "ilha dos amores". O único acesso é de barco, e há um serviço de barcas com vários horários diários. Uma das particularidades de Paquetá é que lá não há carros, a não ser ambulâncias. Todo o transporte é, até hoje, feito de bicicleta ou charrete. Esse lugar bucólico foi meu primeiro lar. A ideia de morar em Paquetá só pode ter sido do meu pai. Paquetá era um destino frequente nos fins de semana da infância dele, com meus avós e minha tia. Tinha praia de baía (sem ondas), era calmo e agradável. Um hit suburbano, e minha família paterna era tipicamente suburbana. Duvido que minha mãe, nascida e criada no Leblon, a uma quadra da praia, tenha sido a autora da ideia.
Mesmo para os padrões dos anos 70, ir morar em Paquetá com um recém-nascido era uma ideia pra lá de alternativa. Mas meus pais estavam vindos de uma temporada morando em Boston, e achando o Rio de Janeiro muito confuso, sujo e barulhento. Minha mãe morava em Boston desde 72, e tinha se formado recentemente numa faculdade lá. Meu pai foi para lá atrás dela, e nunca soube direito o que ele fazia nos EUA. Pequenos trabalhos, eu acho. Sei que passava a maior parte do tempo na biblioteca pública, lendo e escrevendo. Sei também que voltou para o Brasil antes dela. Quem também morava em Boston na época era minha madrinha, estudante de fotografia. Por isso há tantas fotos lindas da minha mãe naquela época, tocando em casas noturnas, na faculdade, pelas ruas. A cobaia de uma fotógrafa talentosa. É também por meio dessas fotos que sei que meu pai tinha cabelo comprido e uma barba escura e espessa. Todos eram magros, jovens, belos e macrobióticos. O movimento hippie acontecia mesmo por ali.
Quando minha mãe se descobriu grávida, resolveu que era hora de voltar para o Brasil. Ela e minha madrinha arranjaram carona num cargueiro, um favor do comandante do navio ao pai da minha madrinha -- sempre essas altas conexões. Trouxeram toda a bagagem de anos morando nos EUA nesse navio. Mais de 20 volumes, inclusive duas bicicletas e um par de caixas de som de mais ou menos 1,20m de altura por uns 70cm de largura, que minha mãe tem até hoje em casa. A família foi esperar no porto. Um dos meus tios trabalhava na época com transportes de máquinas industrias, então providenciou um caminhão de 20 eixos para levar a mudança das duas. (Um caminhão para carregar retorescavadeiras e betoneiras, obviamente um exagero completo.)
A vida em Paquetá não foi fácil, e não durou muito. Quando eu contava cinco meses, mudamos para o Rio. Meu avô pediu de volta um apartamento alugado no Leblon, onde minha tia havia morado muitos anos antes, com a família. Cooptaram a empregada da vizinha da minha avó, uma moça de 17 anos chegada havia pouco do Ceará, que adorava crianças. Ela foi trabalhar na casa da minha mãe, onde continua até hoje. É minha segunda mãe, minha irmã mais velha, e a pessoa a quem eu confiaria minha filha, em caso de necessidade.
Fomos morar no Leblon, então. Que, na época, não era o metro quadrado mais caro do Rio de Janeiro, e nem o cenário das novelas do Manoel Carlos. Ganhamos uma máquina de lavar, para minhas fraldas de pano. Depois que cresci mais um pouco, minha babá cearense me levava à praia todo dia de manhã cedo, e à pracinha na parte da tarde. A casa era mobiliada basicamente por doações de parentes. Lembro bem de um sofá de jardim (de ferro) que ficava na sala. Pelas fotos, vejo a mesinha do telefone (o único da casa, com um fio comprido para chegar nos quartos), três tijolos de cada lado, com uma tábua em cima. Meu pai morou pouco tempo conosco. Não tenho lembranças dessa época. Antes dos meus dois anos ele já vivia em sua própria casa, em Copacabana. Ele minha mãe continuaram se dando muito bem, de modo que não tenho memórias traumáticas de separação.

(Continua)
.

6 comentários:

Marcus disse...

Feliz aniversário.

Bonitas reminiscências.

Conheço Paquetá; foi um dos primeiros lugares que eu fiz questão de ir, quando visitei o Rio a passeio. Lembra um pouco Mosqueiro, uma ilha aqui perto de Belém que na minha infância tinha o mesmo sabor bucólico, com a diferença que a ilha e o rio que a circunda são enormes em comparação com Paquetá e aquela parte da baía da Guanabara.

Faltou dizer que instrumento musical a sua mãe toca, ou tocava. Violão? Além dessa fase em Boston, ela toca ou tocou profissionalmente?

Carla disse...

Parabéns duplos.
Um deles pelo aniversário.
O outro por escrever um post tão, tão, tão bonito. É quase como se a gente estivesse lá, na sua infância.

Clara Lopez disse...

Anna, fiquei muito emocionada com seu relato, lindíssimo, maravilha pura... Como você escreve bem, e a referência à moça do ceará que cuidou de vc me tocou muito porque quando estive morando em fortaleza tb uma moça me ajudou muitíssimo num período barra pesadíssima da minha vida, então já vi sua moça como a minha moça, e tudo isso pq seu relato é lindo, passa verdade e densidade e agradeço demais vc compartilhá-lo conosco.

Parabéns, claro, pelo aniversário, tudo de ótimo para você, para mathilde e para a família toda :)
beijo,
clara

Anunciação disse...

Parabéns,feliz aniversário,vida longa.E que coisa legal esse post!

Cam Seslaf disse...

Parabéns muito atrasados pelo aniversário, mas parabéns reiterados pelo post delicioso. Continua logo!

Anônimo disse...

Quero ler parte 2! parabéns!!!

S.