7.7.09

Minha primeira reunião de pais -- ou: Sobrevivendo no inferno


Cheguei pontualmente na hora (17h30, horário de trabalho), e encontrei uns quinze adultos sentados em semicírculo em cadeirinhas de crianças. Fechando a roda, a dona da escola, a coordenadora pedagógica e a professora do maternal ("tia S.", "tia R." e "tia A." -- que as crianças chamem os adultos de "tio" e "tia" é questionável, mas vá lá. Agora, os adultos ficarem chamando uns aos outros dessa forma é que não dá pra entender.). Ainda chegaram uns retardatários. No total, uns vinte pais -- alguns casais, poucos homens, montes de mulheres. O único pai sem cônjuge estava num acirrado debate ao celular antes da reunião iniciar oficialmente, perguntando a alguém (esposa? empregada? mãe?) se o pinguinzinho de brinquedo do filho dele era mesmo tão desbotado e surrado como aquele que ele estava vendo ali.

-- Será que é esse mesmo o do D.? Não tenho lembrança de estar assim tão surrado. E o chapeuzinho do pinguim? Esse aqui está meio inclinado para o lado. Você lembra se o do D. era inclinado? Eu não lembro de ser inclinado assim. Deve ser de outra criança, este daqui. É, esse chapeuzinho está inclinado. Não, acho que não era assim. Será outro? Vou perguntar aqui.

Olhei pra cima e suspirei. Isto não está acontecendo. Isto não está acontecendo. Estava, é claro.

Começa a reunião. Alguns avisos. Aula de balé e capoeira para quem quiser, a partir dos dois anos. 50 reais, duas vezes por semana.

Pai do D.:
-- Mas se o meu filho for para a capoeira, ele não vai perder algum conteúdo dado em sala?

Olhei para baixo e respirei fundo. O pobre D. tem 1 ano e 8 meses.

Segue a reunião. Mais avisos. A Festa dos Pais, em agosto, será uma homenagem: o tema será anos 60 e 70. Fiquei sem entender se isso é em homenagem aos pais ou aos avós. Acho que nenhum pai ali presente nasceu antes da década de 70. Não explicaram, e ninguém perguntou. Enfim. A festa será num sábado, num Clube, e nós não vamos, mesmo. Exercitando the art of letting go.

Assuntos diversos. O lanche. O problema frutas vs. biscoitos. Mães reclamam que as crianças só querem comer biscoito. Que antes comiam frutas, e agora não mais. Notem que o lanche que é feito na creche é levado de casa. Modos que. Quer que seu filho coma fruta, é só mandar fruta para a creche.

A mãe-mais-mocréia-de-todas:
-- Ah, mas é complicado, nem sempre dá para lavar, descascar, cortar, sabe como é, né? Eu estava mandando melancia cortadinha, lembra, Fulana? [para a amiga ao lado], mas depois não deu mais certo porque ficava azeda!

A mãe-tímida-com-a-raiz-dos-cabelos-carecendo-de-pintura sussurra para a professora (mas todo mundo escuta):
-- A M. está comendo todo o lanche dela?

Olhei para a janela. Tudo escuro lá fora.

Mais problemas. Crianças que eram muito amigas e agora estão em turminhas separadas, e choram porque sentem falta dos amiguinhos. Dilema. Vamos preparar as crianças que a vida é mesmo feita de mudanças vs. Para que inflingir um sofrimento desnecessário tão cedo.

A mãe-descolada:
-- O E. sente muuuuita falta dos amiguinhos. Por exemplo, eu só consegui que ele parasse de mamar falando que o J. não mamava mais, a C. não mamava mais, e por aí vai. Ele adora esses amiguinhos, e como ele já tem 1 ano e 11 meses, já fala bastante, e vive falando deles.

A mãe-de-oclinhos-e-rabo-de-cavalo ao meu lado:
-- É verdade. Quando a S. mudou de turma, a C. começou a chorar todo dia para vir pro colégio.

Olhei para meus pés. Ainda bem que vesti uma boa meia fina, porque nessa cadeirinha mínima a canela fica muito à mostra.

A professora -- a figura mais sensata e interessante naquele freakshow, felizmente -- conta o dia-a-dia das crianças. Que de manhã, como os alunos vão chegando em horários diferentes, ela faz uma atividade mostrando as fotos de todos na parede e perguntando quem já está ali, e quem ainda não chegou.

Mãe-pequetitinha-e-atrasada, sentada do meu outro lado:
-- Mas a minha filha ainda não fala! Como vocês fazem nesse caso? Ela fica excluída dessa atividade? Imagino que muitos da turma ainda não falem. Ou não?! Só a minha filha é que não fala ainda???!!

Olhei para o relógio. Mathilde, tadinha, já deve estar louca pra ir embora, já passou da hora dela.

A reunião termina um pouco na marra, dado o adiantado da hora. O pai do D. vai lá, claro, falar sobre o pinguinzinho surrado do chapéu inclinado. As mães voam na professora para perguntar se meu filho isso, se minha filha aquilo.

Não sei vocês, mas eu estou terrivelmente pessimista em relação ao futuro da humanidade.

Filha querida, não desanima. Eu vou te levar para ver os patos de novo.

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11 comentários:

Helê disse...

Força no megahair, amiga. Depois piora, depois melhora - com sorte vc acha uma mãe pra debochar de tudo contigo mais tarde. É como cólica, chato mas depois vc tira de letra, e acontece com menos frequência.

Clara Lopez disse...

Ana, seu texto é impagável, reunião de pai sempre foi um tormento para mim tb, logo que L chegou aqui (ela já tinha oito anos) eu levava e buscava na escola (mesmo sendo aqui em frente), e já ali, junto com aquele monte de pais, vi que era uma estranha no ninho e que achava aquilo insuportável.
No começo, tb ia às reuniões de pais, até que um dia dei um basta e vi que não teria condições físicas e/ou psíquicas de suportar aquele horror. Nunca mais fui.
Vc ainda tem um longo caminho, minha amiga, e desejo a vc paciência, muita tolerãncia, e talvez um curso de meditação zen.
beijo,
clara

Clara Lopez disse...

Ah, e ela está elegantíssima na foto...:)
clara

Ângela Fatorelli disse...

por isso não vou a nenhuma reunião de pais. sei q estou errada, mas não dou conta. quando precisei, conversei com as professoras ou coordenadoras, whatever.

Chris disse...

Olá!
Cheguei aqui através do Scarlet Letters (sou leitora anônima, infelizmente) e, menina, me ví na primeira reunião de pais, da escola da Ciça... mesmíssima coisa, há algum tempo atrás. Acho que essas reuniões são tão bizarras...
Adorei seu blog, voltarei sempre!
Ah, se serve de consolo, depois dois dois anos e meio as coisas ficam mais fáceis ;)

Isabella disse...

Que preguiça, Anna...as reuniões da escola da minha filha são menos traumatizantes, lá é apenas pai/mãe e professor e só se fala o necessário. Eu entro e saio num segundo até porque não tem muito o que conversar nesta idade...sem neuras. E não tem nada disso de tio ou tia.
O seu texto é ótimo e ilustra bem a situação, adorei. Beijos,

Vivi disse...

Amei o texto !! vou recomendar pras minhas amigas - com certeza vou me sentir do mesmo jeito quando chegar a hora !!! rsrsrs
minha bebê vai fazer 5 meses no domingo - vou conhecendo e aproveitando as experiências de Mathilde !!!
Exercitando the art of letting go - vai virar meu mantra !!!
bjs

MegMarques disse...

hahahahahaha, eu te disse, não disse?!

anna v. disse...

Obrigada, irmãs, pelo consolo, pelos conselhos.
Snif.

S. disse...

acredite, ainda vai piorar muuuuuito (S. tem 12 anos). e tem mais: quanto mais "alternativa" a escola, pior. nas nossas mudanças ela já foi pra 5 escolas diferentes, a melhor no quesito reuniões foi a de freira (uma das piores no quesito escola): não tinha, ahahahah. ainda vai ter as festinhas, se prepare!

Anunciação disse...

Leve,leve a menina pra ver os patos e aproveite vc também pra se distrair.E haja paciência.