18.6.09

O lorde da motocicleta


Todos que trabalham no mesmo prédio que eu já o viram. Não tem como não reparar. Ele vai embora lá pelas 6 da tarde, e a princípio a gente pensa que é um, sei lá, astronauta. Mas é só um motociclista. Só que nunca se viu um tão paramentado. Protetor de cotovelos, calça especial, tênis que fazem nhec-nhec, casaco high tech e um estranhíssimo protetor de pescoço, que mais parece aquelas almofadas em forma de U para dormir em avião. E capacete na mão.
Passado o primeiro susto, da segunda vez que se pega o mesmo elevador que ele já dá pra reparar. Ele é bonito. Beeem bonito. Alto, meio grisalho, cabelo bem aparado. Ar de, sei lá, holandês. Holandês bonito, bem entendido, que não é lá uma coisa assim muito fácil.
Ah bom, então. Ele trabalha no meu ex-andar (como já falei, agora subi na vida [3 andares, precisely] e tenho vista pros barquinhos do Iate). E aí que um dia me vi esperando elevador com ele no hall do andar. E olhamos da janela lá embaixo e vimos aquele trânsito compriiiido da Mena Barreto, uma porção de luzinhas vermelhas andando devagarinho. Fui eu que comecei. Falei qualquer coisa sobre uma moto imensa que estava parada no engarrafamento. Ele respondeu sem hesitar ("Mas não é um triciclo?". Era.) e não parou mais de falar. Fez vários comentários sobre, sei lá, o trânsito, as ruas de Botafogo, o tempo. E eu com meu capacete vermelho na mão. Ele olhou, curioso, mas não perguntou nada. "Bicicleta", eu disse. "Ah", ele sorriu. E o elevador chegou, entramos e logo entraram mais 250 pessoas.
Encontrei o motociclista outras vezes. "Ué, não está mais vindo de bicicleta?", ele perguntou um dia, ao me ver indo embora sem capacete. Expliquei que agora paro na garagem e prendo o capacete na tranca junto da bicicleta. Ele disse que não faz isso na moto porque tem medo que alguém suje ou faça algo com o capacete dele (que pressuponho ser de titânio, urânio enriquecido, kriptonita ou material semelhante). Uma outra ocasião ele comentou que os capacetes de bicicleta são muito frágeis. "Eu já quebrei uns 3 desses". Fiquei sem entender se ele já atropelou 3 ciclistas ou se é ele mesmo um ciclista muito ruim. Achei melhor não perguntar.
Quando comentei com as calegas-de-trabalho sobre meus papos com o motociclista, todas ficaram espantadas em saber que ele é simpático. Porque sua figura paramentada é tão intimidadora, que tenho a impressão de que ele ficou genuinamente grato por ter estabelecido um contato. Falei que parece holandês também porque, além da cara de Van der Sar (só que bonito!), sinto nele um levíssimo sotaque, indefinido. E essa sensação de estrangeiro só se reforça nessa alegria que ele parece sentir por fazer um mínimo contato com alguém. Não tem nada de flerte, é só a alegria do reconhecimento.
E a gente, que anda sempre a fazer troça da alteridade mínima.
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8 comentários:

Marcus disse...

Amei o relato.

Seu talento vai levá-la além da tradução (se é que já não está).

Clara Lopez disse...

Que texto legal, ana, tão bom e tão animador...:) Bom tê-la de volta ao blog.
Beijo, outro na gatinha, e que os bons contatos ocorram sempre,
clara

Isabella disse...

Concordo com o Marcus e com a Clara. :)

E aproveito pra dizer que tudo aqui no TZ é bom demais. Já conheci tanto blog bom graças a você Anna...

Anunciação disse...

Muito boa narrativa;parece que estou vendo.

Ângela Fatorelli disse...

hoje, eu e helena falávamos de seus posts inesquecíveis. dela, o do sorvete talento, meu, do dez em química e zero em design (mais ou menos esse, o título, né?). E esse acaba de entrar na lista.

anna v. disse...

Eba, obrigada a todos. Ruborizei com tantas palavras gentis.
Ângela, esses dois outros posts também estão entre os meus favoritos (ó, a modéstia da pessoa!)

cadeorevisor disse...

Não gosto de moto. Perigoso demais.
Legal as pessoas se conhecerem no hall do elevador. Por aqui é difícil conseguir a retribuição de um "bom-dia".

Beijo,

Pablo
http://cadeorevisor.wordpress.com

anna v. disse...

Pablo,
A meu ver a probabilidade da resposta ao bom-dia depende da ênfase do cumprimento inicial. Um bom-dia alto e claro, quase tonitruante, sempre recebe resposta.