Não pude ver Brasil x Argentina ontem. Porque àquela hora, meus caros, eu estava no Pan.
Não, não fui às competições torcer pelo Brasil.
Estive na Vila Pan-Americana (localizada entre o fim do mundo e lugar nenhum) acompanhando um grupo do projeto cultural em que trabalho.
Que fiasco.
Primeiro, nos deram um trabalhão para preencher todos os cadastros de todo mundo que entraria na Vila. Segurança rigorosíssima! Nome completo (inclusive de solteira), CPF, RG (com data de emissão e órgão emissor), endereço, nome do pai, nome da mãe, cidade de nascimento, estado de nascimento, país de nascimento, cidade de residência permanente. Para os carros, além da placa era preciso dizer modelo, cor, ano, chassi e renavan (!!). Na hora é claro que nada disso funcionou. Entramos com crachás sem nome, de modo que poderíamos ser quaisquer pessoas, em qualquer número, que não faria nenhuma diferença. Os carros não puderam ficar lá, na última hora, cada um que se virasse para estacionar onde pudesse, ali no meio de deus-me-livre.
Lá dentro, o clima era de (des)organização de Rock In Rio: uns quiosques bonitinhos disfarçando a total falta de infra-estrutura. Saca banheiros químicos? Agora imagina um banheiro químico coletivo, um trailer químico. Sem água na pia (aquilo era pia? não! tipo um tanque) para lavar as mãos. Fui tentar o trailer masculino, que tinha água -- até demais, uma descarga disparou e ninguém consertou. Saca aquelas pocinhas de água parada no meio do chão de terra coberto de pedrinhas? Saca aquele clima que toda hora falta luz e algum sistema sai do ar? Assim é a "Zona Internacional" da Vila do Pan. O nome é perfeito: é uma zona mesmo, cheia de brasileiros, argentinos, uruguaios, chilenos, porto-riquenhos, mexicanos, canadenses, jamaicanos, americanos etc. Não é a parte residencial, claro, mas é bem ao lado, onde tem as bandeiras e tal.
Colocaram um telão gigantesco para a final da Copa América. Mas depois de montado, descobriram que não havia sinal (!) e o megatelão simplesmente não funcionou (!!). Resultado: uma aglomeração de gente se espremendo em frente ao estande dos Correios, onde havia um aparelho de TV pequeno e cheio de chuvisco (!!!). Mico total. E, claro, o show estava marcado para a hora do jogo, e não quiseram mudar, apesar dos nossos protestos. Naturalmente, não tinha quase ninguém assistindo. Preguiça, preguiça...
É preciso deixar claro que não tenho nenhuma simpatia por esse evento esportivo meia-bomba. Bom mesmo é Olimpíada, Copa do Mundo e talz. Ganhar na ginástica sem os chineses, as romenas e as ucranianas, convenhamos, até eu. Vôlei sem a Itália, sem a Rússia? Pfff.
Mas isso não seria o mais grave se não fosse o desavergonhamento do transtorno na cidade, dos 3 bilhões de investimento que de concreto vão deixar para o Rio um estádio, o Engenhão. Metrô até a Barra? Promessa. Parque aquático? Promessa. Trem bala? Promessa. Em vez disso, o fornecimento de alguns remédios pelos postos de atendimento da Prefeitura foi suspenso "até depois do Pan". Os táxis da cidade estão rodando com Bandeira 2 até o fim do Pan. Nas linhas Vermelha e Amarela uma faixa está separada para uso exclusivo do Pan, e quem por elas trafegar é multado. Danem-se os moradores da cidade que precisam passar por ali. Abram alas para as delegações.
Para saber mais:
http://averdadedopan2007.blogspot.com/