26.2.07

God Save the Queen


Não há como sair de A Rainha sem pensar como os personagens ali retratados, todos vivos e reais (com trocadilho), terão reagido. Se nós, meros plebeus habitantes deste distante país tropical, lembramos tão nitidamente da morte da Lady Di, eles, que estavam no centro da ação, certamente lembram com detalhes o que passaram naqueles dias turbulentos em que, de uma forma ou de outra, tudo mudou na Inglaterra. E esse é logo um dos primeiros trunfos do filme: contar uma história que todo mundo viveu, de que todos se lembram, e que é muito recente.
Outro trunfo, não poderia deixar de ser, é a linguagem. Há o delicioso sotaque britânico, coalhado de expressões tão surreais quanto anacrônicas, como "The Royals" (a família real), ser ou não "HRH" (Her Royal Highness -- I suppose...), que é música para os ouvidos (muito melhor do que o sotaque feioso daqueles operários dos filmes --sensacionais-- no Mike Leigh). E há ainda a circunspecção e o estoicismo que ficaram marcados como sendo a famosa fleuma britânica, e que são demonstrados pela linguagem, pelos não-ditos, pelas metáforas, pelos eufemismos, pelo gestual. Por isso tudo já vale a pena ver o filme.
Mas mais que tudo, vale pela personagem da Rainha. E aí, eu que não sou especialista, não sei dizer o quanto o mérito é da atriz, o quanto é do diretor, o quanto é do texto. Mas no conjunto, funciona. A bem da verdade, a Rainha é o único personagem verdadeiramente complexo do filme. Ela é uma incógnita, ela é muitas, ela é fascinante.
Os outros personagens me incomodaram bastante, porque todos podem ser resumidos em uma só palavra, e nada mais cansativo do que personagens "fáceis". O príncipe Philip é mau (muito mau, um vilão, totalmente sem noção de nada). Charles não se pode definir com outra palavra que não seja "fraco". E Tony Blair sai como um herói. Como todo herói, passa pelo seu momento de transformação, e, sábio que é, consegue enxergar o lado daquela que antes era sua antagonista. O truque é que, quando Blair "se apaixona" pela Rainha (como bem diz sua mulher Cherie), todos nós nos apaixonamos também, e adoramos mais ainda o prime-minister por aquele misto de admiração e compaixão que nos envolveu a todos. E esse esquematismo dos personagens é o ponto baixo do filme.

(Pra quem já viu o filme) E tem aquela coisa com o veado -- no sentido de cervo --, que na hora eu impliquei porque achei uma metáfora muito óbvia. Mas depois concluí que era implicância boba, porque é bonito mesmo.

6 comentários:

kellen disse...

eu vi esse filme no avião, vindo pra cá. e concordo com vc, a personagem da rainha é fascinante.

Carrie, a Estranha disse...

Muito boa a sua crítica. Vi o filme e concordo com todas essas coisas que vc relembrou tão bem.

bjs

Lord Broken Pottery disse...

Anna,
Também escrevi sobre o filme. Concordo com o que você diz. Para mim o filme cresce quando sai do documental para a ficção. Bacana imaginar a vida da rainha. Achei o Oscar da rainha merecido. Ainda não tinha visto uma rainha recebendo Oscar.

Jussara disse...

Anna, me explica, plis, a metáfora com o cervo.... não captei...achei o filme chato e não prestei mta atenção. :(

anna v. disse...

Bom, Jussara. O cervo era a própria majestade daquelas pradarias de Balmoral. Até a rainha ficou perplexa com a altivez do bicho. E todos atrás dele. A Rainha chegou a acreditar que ele escaparia, quando ela manda ele fugir e ele foge. Mas no fim ele é abatido -- por alguém da "nova ordem", um investidor do mercado de capitais -- e ela faz questão de ver com os próprios olhos, como alguém que parecia tão seguro virou carniça nas mãos do predadores.
Pô, você dormiu no fime... tsk.
;-)

Jussara disse...

Ahahaha, agora que vc falou ficou tãão claro. Não dormi, não, mas dei umas "viajadas" legais,rs; é o tipo de filme que eu preferiria ver no dvd. Fui ao cinema querendo ver um, mas acabei vendo esse, sabe como é? aí fiquei meio assim,assim; mas é um bom filme :).
Obrigada pela explicação.