Cinco anos de blogue, e esta foi a primeira vez que passei um mês sem postar nada. Como dizia aquele antigo desenho do Pica-pau, em todos esses anos nessa indústria vital, esta é a primeira vez que isso me acontece. Não teve muito motivo para a ausência além daqueles de sempre. A correria, as crianças, etc. Some-se a isso tudo meus 15 dias de férias, e o fato de que fiquei escrevendo um post enorme sobre a falência da Borders, segunda maior cadeia de livrarias dos EUA, ocorrida em julho depois de lenta agonia, mas o post ficou tão grande e complexo, cheio de números e análises, que desisti de publicar. O que me interessa mesmo é falar sobre o futuro do mercado editorial, dentro do qual a ponta que corre mais perigo imediato é, naturalmente, a das livrarias, com o advento e a popularização do e-book, que nos EUA já tomou uma proporção com que o mercado brasileiro ainda nem sonha. E dizer também que eu acho o e-book uma coisa ótima e que faz todo sentido em muitos aspectos, ainda que não vá, é claro, fazer o livro impresso desaparecer.
Mas enfim, o título deste post. Com as férias e a maior convivência (forçada) com as crianças, algumas coisas se tornam mais perceptíveis. Por mais que a gente assuma e reconheça o mito da maternidade, ainda é muito difícil aceitar certas situações. Como a de que você fica de saco cheio dos seus filhos com uma frequência enorme. Principalmente se tem de passar o dia inteiro com eles. É difícil pacas aceitar o fato de que eles também têm dias ruins,
e que isso não tem necessariamente a ver com você, a mãe. Não é pessoal, saca? A gente sabe que lá pelos 4 anos a criança começa a perceber que não é o centro do universo, mas que tal a mãe também se dar conta de que nem sempre é o centro do universo dos filhos.
E tem mais: não adianta, que não seremos sempre a mãe que tem ideias geniais para um fim de semana de chuva, nem a mãe que leva os filhos ao parque num fim de semana de sol e brinca incansavelmente. Isso acontece, é claro, e ainda bem. Mas no mais das vezes, não acontece. Como diz a
ScaryMommy, não adianta querer competir com a mãe que cria sensacionais e deliciosas receitas orgânicas com a ajuda dos filhos, ou com aquela outra que tem um talento ímpar para inventar fantasias e acessórios de origami que deixam os pequenos mesmerizados. Porque essa mãe tampouco é infalível, e deve ter uma lista ainda maior de coisas que faz pessimamente.
O desafio é tentar encontrar o equilíbrio entre concentrar e aprimorar os pontos fortes (no meu caso, ajudar a fazer cartões de agradecimento com cola e purpurina, e depois mandar pelo correio em lindos envelopes customizados; ajudar no dever de casa; andar de bicicleta com criança; brincar de "cadê?/achou!" 750 vezes seguidas) e melhorar os pontos fracos (basicamente, não me comportar como
outra criança de 3 anos e meio nos momentos de crise aguda; gerenciar melhor a frustração e a impaciência quando o bebê de quase 10 meses não quer comer a papinha que você teve o maior trabalho pra fazer, ou quando o bebê não faz qualquer coisa que você quer muito que ele faça, como dormir, por exemplo).
É, a gente se cobra muito, e não tem como ser diferente. Tem que se cobrar e sempre procurar melhorar, sim. Mas temos que ser mais realistas do que achamos que já somos. Lemos tanto sobre os desafios e dificuldades de ser mãe, que achamos já estar mais ou menos preparadas. Mas não estamos. Todas temos problemas para encontrar o limite entre a necessidade e o desejo de ter um tempo para si -- e quase escrevi "real necessidade" e "simples desejo", o que já é uma forma de diminuir a importância do desejo, uma perspectiva por demais apolínea.
Parece que a vida está sempre nos pregando peças, criando pequenas armadilhas para testar a nossa capacidade de crescer e multiplicar.
Pra terminar: hoje foi um daqueles dias em que a inspiração vem e tudo ajuda. Minha avó está com muita saudade de Mathilde, mas ela não queria ir para a casa da Bisa. Então propus que ela se fantasiasse de Chapeuzinho Vermelho, com cestinha e tudo, e fosse levar uns doces para a vovozinha. Sucesso absoluto.
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Pela estrada afora, eu vou bem sozinha... |