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A questão do espaço (ou da falta dele) é central na discussão dos e-books |
E-books para mim são um tema cotidiano. Lido diariamente com a compra de direitos de publicação de livros no Brasil, e já faz algum tempo que essa negociação necessariamente envolve os "e-rights", que são direitos para formato eletrônico. Na editora onde trabalho já vendemos desde 2010 edições eletrônicas de diversos títulos do catálogo, e como acompanho sempre as vendas, sei que os números são pífios, realmente desprezíveis.
Nos Estados Unidos os e-books já representam uma parcela muito expressiva do faturamento das editoras, e se não me engano as vendas dos eletrônicos já superam as vendas das edições em capa dura (porque lá existe um diferença clara entre a edição capa dura, a brochura e o livro de bolso). E nós aqui estamos sempre nos perguntando quando é que esse negócio vai deslanchar no Brasil. Porque, claro, o livro eletrônico representa uma mudança muito expressiva na indústria do livro. Não só você acaba com o enorme problema da logística e o monumental custo do frete, como também você deixa de ser obrigado a apostar numa tiragem específica. Isso é muito relevante, porque o preço de um livro impresso está diretamente ligado à sua impressão e tiragem. Quanto maior a tiragem, menor o custo unitário, menor portanto o preço de capa. Mas... maior o custo de estocagem caso o produto não seja um sucesso.
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A visão do depósito de uma grande editora é sempre impressionante. |
Então tiragem está diretamente vinculada a preço do livro, e tiragem simplesmente
não existe no livro eletrônico. É uma imensa quebra de paradigma, pois ainda hoje toda a indústria é voltada para essas grandes apostas, os blockbusters que saem com uma tiragem inicial enorme, para assim inundar as livrarias com pilhas do livro. Outra coisa que muda com o livro eletrônico é o triste fenômeno do "livro esgotado". Mesmo que a demanda por certo livro tenha deixado de ser expressiva o bastante para justificar uma reimpressão, o livro eletrônico pode sempre ser adquirido, pois seu custo de armazenagem num servidor é desprezível. É aquele conceito da cauda longa, de vender poucas unidades de uma variedade muito grande de produtos.
Por esses motivos e outros eu sou, desde a primeira hora, uma grande entusiasta do livro eletrônico -- obviamente como
mais uma opção de formato, e nunca à custa do fim do livro impresso, que esse eu não acredito que vá ter fim nunca --, e acompanho o debate sobre preços, modelos de pagamento de royalties etc. com muito interesse.
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Este é o modelo que eu tenho do Kindle - um dos mais antigos. |
Sou maior entusiasta ainda do Kindle, o leitor de e-books da Amazon. O Kindle é o melhor leitor de e-books que eu já vi. Ele é confortável de segurar, de ler, fácil de utilizar, mais fácil ainda de comprar qualquer coisa por ele, a interface é amigável etc. No entanto, o Kindle só lê o formato azw, da Amazon. Você não pode comprar um e-book em outro lugar e ler no seu Kindle. (Pode, no entanto, enviar para o Kindle arquivos pessoais, como PDFs e Words, que ele converte e transmite instantaneamente. Eu uso demais essa função (Kindle personal documents) para ler os manuscritos que recebo, e funciona maravilhosamente bem.)
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Tablets também popularizam os e-books |
Tenho também um tablet, um Galaxy Tab rodando sistema Android, e leio muitos documentos nele também, mas ainda acho o Kindle infinitamente melhor como experiência de leitura (pelo tamanho e peso, pela duração da bateria (meses!) pelo fato de não gerar luz própria como o tablet, e porque ele não tem nenhuma outra função que me distraia da leitura).
Eu amo o Kindle, mas tenho muitas restrições ao modelo de negócio da Amazon, que abaixou tremendamente o preço dos livros (físicos e eletrônicos), vendendo abaixo do custo e com isso dizimando a concorrência e alterando a percepção de valor que o livro tem. No frigir dos ovos, sou uma feliz cliente da Amazon, mas entendo que, para o negócio como um todo, é uma empresa predatória e o resultado que se está vendo nos EUA (inclusive um longo processo judicial que está rolando lá contra as grandes editoras que fecharam contratos limitando o desconto que a Amazon poderia dar para e-books) não é nada bom. Essa é uma longa discussão e fica para outro chope.
Mas o que não se pode negar é que a experiência de consumidor na Amazon é sensacional. Não só eles vendem tudo sem criar qualquer obstáculo -- basta ter qualquer coisa minimamente semelhante a um cartão de crédito, emitido em qualquer país -- como têm um sistema de recomendações muito eficiente, e ainda por cima o atendimento ao consumidor é, literalmente, uma coisa do outro mundo.
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Jeff Bezos, dono da Amazon, virou uma espécie de vilão do mercado editorial americano |
Dito isso, o que eu realmente queria contar é que ontem, pela primeira vez, eu resolvi comprar um livro eletrônico brasileiro. Curiosa para ler os assim-chamados "melhores jovens escritores brasileiros", fui ao site da Saraiva, a maior rede de livrarias do Brasil, e comprei a edição e-book da
Granta 9, tão comentada por aí. Sabia que não poderia ler no Kindle, mas podia ler no tablet. A compra em si não foi complicada. Já sou cliente da Saraiva.com, a operação foi simples. Depois de comprar, descobri que teria de baixar, no computador, o programa Saraiva Digital Reader.
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Ô programinha ruim! |
Ok, cliquei no botão para iniciar o download, e descobri que trata-se de um programa de 62Mb! Baixei, e descobri que também é preciso se cadastrar num troço chamado Adobe Digital Edition (ou outro nome semelhante, já não lembro mais). Assim o fiz, me loguei e consegui fazer com que o arquivo da Granta aparecesse na minha Biblioteca dentro do Saraiva Reader. Porém (ah, porém) quando abri o e-book, era chocante: uma massa de texto que ia de um extremo a outro da tela, em Times New Roman corpo 12 e entrelinha simples. Absolutamente ilegível, sem formatação, um mico total. Mas tudo bem, pensei, no tablet não vai ficar assim tão ruim. Então tive de baixar o aplicativo do Saraiva Digital Reader também no tablet (15Mb), e foi aí que a coisa realmente ficou complicada. Porque o aplicativo baixou e abriu numa boa, mas para ler a bendita
Granta eu precisava entrar com meu login e senha, uma operação simples, mas que não funcionou de jeito maneira. Eu colocava o e-mail e a senha, clicava em Entrar, ele dizia "Verificando...", e voltava para a mesma tela pedindo e-mail e senha. Não dizia que estava incorreto ou inválido, simplesmente voltava, não entrava.
Oh céus, pensei, vai começar. Entrei no SAC da Saraiva pelo chat e fui atendida em uns poucos minutos. Expliquei o problema à atendente, que me pediu o meu CPF. Depois que informei, ela disse: tem 2 endereços de e-mail cadastrados à sua conta: xxx@ig.com.br e xxx@yahoo.com. Achei aquilo surreal, pois esse e-mail do ig está inativo há pelo menos dez anos, e de lá para cá fiz dezenas de compras pelo site da Saraiva com o outro e-mail. Expliquei isso para ela, que respondeu: estou solicitando a exclusão deste e-mail velho. Posso ajudar em algo mais? - Como assim?, teclei. Claro que pode, pode ajudar a resolver o problema que eu lhe informei, ora, e que nada tem a ver com endereços de e-mail. Ao que ela retornou com a incrível solução de solicitar outra senha para a minha conta! E assim fez, a despeito dos meus protestos, de tal forma que eu não conseguia mais entrar na minha conta nem pelo tablet e nem pelo site, porque a senha de praxe não valia mais, e a nova não chegava no meu e-mail. Passaram-se horas, e a senha não chegou. Liguei para o SAC da Saraiva (o número de São Paulo, com DDD, porque o 0800 para outras cidades não funciona) e expliquei tudo ao atendente, que então me disse que solicitaria novamente o envio de uma senha.
Essa nova senha chegou às 19:15 (a compra do e-book foi às 10:46), de modo que só hoje pude experimentá-la no tablet, o que obviamente não resolveu nada, o problema continuou igualzinho.
Peguei um café, me muni de toda a paciência disponível no meu ser, e liguei de novo para o SAC (tentei de novo o 0800, mas é porque eu sou teimosa, só o número comum de São Paulo é que funciona mesmo). Expliquei tudo de novo ao atendente, que então sugeriu que eu desinstalasse o aplicativo do tablet e instalasse novamente. Não acreditei que isso fosse dar certo, porque afinal o aplicativo funcionava (eu conseguia ler as amostras grátis que vêm instaladas, por exemplo), mas não quis ser antipática e fiz o que ele sugeriu. Que, claro, não funcionou. Então a única opção que o atendente me deu foi mandar um e-mail para o digital@livrariasaraiva.com.br, porque o atendimento para e-books é feito exclusivamente por e-mail. Mandei um e-mail hoje às 10:30, que me foi respondido às 18:13, pedindo screenshots da tela com o problema. Atendi prontamente, e de fato logo recebi uma resposta, sugerindo que eu clicasse num ícone tal e mandasse o aplicativo "atualizar". E voilà, não é que funcionou?! Então, cerca de 35 horas depois de comprar um e-book, pude abri-lo no tablet.
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Meu primeiro (e último?) e-book nacional foi para conhecer mais da nova literatura nacional |
Bem.
A
Granta é uma coletânea de textos de diferentes autores. E a primeira coisa que eu reparei no meu tão batalhado e-book é que não consegui encontrar um sumário. (Minto: a primeira coisa foi o alívio de ver que era o livro formatado, como o impresso, e não aquele Times entrelinha simples que vi no computador.) Tampouco achei onde clicar para ir para o final do livro, ver se o sumário estaria no fim. Não vi uma barra de progresso, mostrando em que ponto do livro você está. Depois, para meu grande espanto, vi que fazendo aquele movimento de afastar os dedos em cima da tela, o texto não muda de tamanho, não aumenta nem diminui. E o pior é que não consegui achar uma barra de configurações onde regular isso. Fiquei algum tempo incrédula, até que por fim esbarrei sem querer no topo da tela, e finalmente ali apareceu a barra onde tem tudo isso: sumário, progresso do livro, tamanho da fonte, marcadores, anotações, está tudo lá, só fica muuuuito escondido. Mas ele dá pau quando mando aumentar o tamanho da letra e mudo de página. Travou três vezes por esse motivo. E a conversão para e-book não é bem feita: o número das páginas cai em cima do texto.
Tendo passado por esse périplo, mesmo com final modestamente feliz, não sei se voltarei a comprar outro e-book tão cedo na Saraiva. Dizem que o aplicativo da Cultura é ainda muito pior, e são essas as duas principais redes de venda de e-book do país. A diferença em relação ao que a Amazon oferece
por um preço menor é tão gritante, que não me admira absolutamente que os números de venda de e-books ainda patinem no Brasil. A baixa qualidade dos produtos e soluções (o Saraiva Digital Reader
não é um bom leitor de e-books), a falta de preparo do atendimento ao consumidor, e os preços surrealmente altos dos e-books (eu tinha curiosidade de comprar o e-book dessa biografia do Getúlio Vargas lançada pela Cia das Letras, mas ele custa incríveis R$36,50 na Saraiva, que está vendendo a edição impressa, em promoção,
por menos: R$35,80) selam, na minha opinião, o destino desse formato ao fracasso.
Dá para entender por que a Amazon quer tanto vir para o Brasil. Ela tem, aqui, todo um universo a explorar.
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Repara nos preços |
E para os heróis que chegaram ao fim deste longuíssimo texto: vocês já compraram algum e-book, na Amazon ou no Brasil? Como foi a experiência? Se não comprou, o que pensa do assunto?Comenta aí, vai.