4.4.13

Emocionante



Vergonha, culpa, vulnerabilidade. Temas sobre os quais ninguém quer falar -- e quanto menos se fala, mais fortes esses sentimentos se tornam.
É fascinante o que esta mulher consegue fazer, quanta verdade consegue transmitir em vinte minutos, que é a duração deste vídeo. Vale a pena reservar um tempinho em que você não esteja multitasking loucamente para assistir com atenção.
Eu li o livro dela e me emocionei. E se emocionar com esse tipo de não-ficção... é raro, raríssimo.
Enfim. Minha contribuição de hoje para um mundo melhor.

1.4.13

O Coletivo de Mães -- ou Por que tantas mulheres são tão chatas?


Viajamos no feriado da Páscoa, fomos a um hotel-fazenda não muito longe do Rio.
Minhas amigas zombam de mim porque eu vivo indo a hotel-fazenda com as crianças, mas é verdade que acho um ótimo programa, e principalmente me lembro de adorar essas viagens quando eu era criança. Andar a cavalo, dar comida a galinhas, tomar banho no lago, correr pela grama, ver formiga, minhoca, borboleta e lagarta. Acho bom.
Como era um feriado prolongado, o lugar estava lotado de famílias. Oportunidade perfeita para o surgimento do Coletivo de Mães, uma associação quase imediata que se forma quando as crianças começam a brincar juntas e as mulheres perdem a capacidade de encontrar mais o que fazer além de ficar, digamos, confraternizando com outras mulheres, celebrando o exercício da maternidade, ou coisa que o valha. Pracinhas e pátios de creches na hora da saída das crianças são outras habitats naturais do Coletivo.
Via de regra, é insuportável.
Porque é assim: fala-se apenas sobre criança, marido e criadagem. Não necessariamente nessa ordem. E o tom que impera é o que chamo de "competição de martírio". As mães estão sempre reclamando ou se vangloriando do sacrifício que fazem em nome do tal exercício da maternidade. O filho já pode ter 9 anos de idade, mas a mãe-mártir está ali para te contar que dos zero aos dois anos aquela criança não dormiu mais de quatro horas seguidas, ou que tem alergia a quase tudo, além de intolerância a lactose, fotofobia ou transtorno de déficit de atenção. Se uma diz que os dentes de sua criança estão nascendo e incomodando, a mãe ao lado se apressa em contar como os dentes do filho dela nasceram tão mais cedo que foi uma dificuldade ainda maior. Gostam ainda de brandir aos quatro ventos o quão chatinho o filho é para comer, e como isso exige dela tantas peripécias, idas ao pediatra e complementos alimentares caros. Ao que outra vai responder com alguma coisa ainda mais fantástica, como Meu filho não gosta de beber água, ou sei lá mais o quê. Há sempre também uma história sobre uma doença rara, operação de emergência numa localidade remota, ou picada de bicho peçonhento. E fatalmente, o desfecho sacrificado, mas com final feliz.
A mãe/mulher-mártir pode ter te conhecido há menos de dez minutos, mas não hesita em contar que o marido nunca lembra de pegar as coisas, ou é incapaz de saber onde guardar pomada, chapéu, par de meias extra, protetor solar, descongestionante nasal ou repelente. Gosta também de deixar todo mundo a par que foi ela quem fez as reservas para o hotel, porque esses maridos jamais sabem fazer esse tipo de coisa -- se fizerem, claro que fazem do jeito errado. Esses horríveis pais tampouco acordam à noite quando os filhos choram, vão ao pediatra ou às reuniões da escola -- a menos que seja para falar alguma bobagem ou comentário fora de lugar.
E nessa ladainha o tempo passa, com esses discursos de superação de dificuldades inventadas se autovalidando reciprocamente, numa mistura de grupo de apoio e redenção pela identificação. No fundo ninguém se escuta, apenas registra-se brevemente o assunto para logo em seguida contrapor seu próprio e mais extremo exemplo.
Pode-se dizer, claro, que essa não é minha turma e que preciso frequentar lugares e pessoas com quem possa desenvolver afinidade. É um ponto válido. O que me intriga, sinceramente, é o compartilhamento desse tipo de informação com quem nem se conhece. É a assunção de que os pormenores da saúde e desenvolvimento do seu rebento vão interessar a qualquer um. O que aconteceu com falar mal do governo e comentar sobre filmes e livros? Não sei não. Tudo isso me parece amostra de um egocentrismo exacerbado e inconsciente, que naturalmente se reflete na forma de ser dessas crianças.
Dito isto, registre-se que a viagem foi ótima.

28.3.13

Agoniza mas não morre


Sim, este blogue é como o Samba.
Ao contrário do que possa pensar, ele não morreu. Uma mistura de falta de tempo, assunto e disposição foi a responsável pelo intervalo que teve mais ou menos a duração do verão.
Então tá, para os que ainda ficaram por aqui, voltaremos à nossa programação normal.
Vamos viajar no feriado da Páscoa, agora. Mas como meu lado obsessivo-organizado adora meses que começam numa segunda-feira, em abril prometo voltar a escrever aqui. Já tenho um monte de posts na cabeça.
Até lá, deixo os amigos com essa foto muy artística tirada ontem de manhã na Praia de Botafogo (tenho tentado correr no Aterro para me exercitar). Achei curioso os pombos todos enfileiradinhos.

4.11.12

Uma vida em rascunhos

Bem cedo aprendi a ter muito amor pelo objeto papel. Meu pai e minha mãe jamais permitiram que se jogasse fora uma folha de papel que não fosse usada em ambos os lados. E aquela clássica cena de cinema em que um personagem começa a escrever uma carta (ou um livro), e depois de uma frase amassa o papel para jogar fora até hoje me provoca calafrios. Papel tem de ser usado em sua totalidade. Por isso, ao longo de muitas faxinas em casa, acumulei quantidades absurdas de papel de rascunho, por falta de coragem de jogar fora. Era tanto papel que eu achava que nem em duas vidas inteiras teria oportunidade de usar.

Até que meus filhos aprenderam a rabiscar, desenhar, escrever. É impressionante como eles amam essa atividade - e mais impressionante ainda o quanto gastam de papel para todos os seus desenhos e rabiscos.

Hoje, fazendo uma arrumação na casa, peguei quilos de papel usado por eles, desenhos deixados pelos cantos da casa, e fui separando o que já estava rabiscado (para o lixo) e o que ainda não estava (para recolocar no lugar). E nessa lida passei minha vida em revista observando o que estava no verso dos desenhos.

Tinha ali o Discurso do Método de Descartes, textos clássicos da Escola de Frankfurt, como Adorno sobre a indústria cultural e A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica de Benjamin (com comentários meus na margem da página!), partituras quatro vozes de uma Aleluia e de motetos medievais, prestações de contas de projetos de Lei Rouanet, boletos bancários, cópias xerox de um capítulo intitulado Psychoanalisys and Feminism, páginas em formato A3 (mais valorizadas!) de um livro ilustrado sobre carros.

Vai que eles estão absorvendo um pouco disso tudo. Nunca se sabe.

30.10.12

Oliver 2.0

Meu pequeno, 2 anos hoje.




24.10.12

Berries



Ainda sobre Frankfurt: além da maravilhosa cerveja, desfrutei muito das frutas mais adoráveis dos climas temperados: amoras, framboesas e mirtilos (em inglês, o trio de berries: blackberry, raspberry and blueberry). Como meu hotel era muito phyno, o café da manhã era todo cheio de guéri-guéri. De modos que todo dia de manhã eu começava o dia com essa linda cumbuca acima: melões cantaloupe, melancia, morangos e as três berries, encimadas por um iogurte todo orgânico que vinha em pote de vidro retornável (como tudo lá) e um mel direto do favo. Chyk no último. Tão lindo que tirei essa foto, que na verdade virou um vídeo (fruto da minha incompetência iPhônica).

22.10.12

De Frankfurt


Estive em Frankfurt no início de outubro para a maior e mais tradicional feira do mercado editorial. Como percebi que nem mesmo minha mãe entende muito bem o que eu faço (minha madrinha achou que  eu voltaria da viagem com uma porção de livros na mala), e porque sei que os posts sobre mercado editorial costumam dar ibope neste abandonado espaço, eis aqui um curso relâmpago sobre a Feira de Frankfurt.

Diferente das nossas Bienais, Frankfurt é uma feira de negócios, voltada para profissionais, e não para o público. Nos diferentes halls estão os estandes das editoras e o espaço reservado aos agentes literários -- estes não têm estandes, apenas mesas para conduzir as reuniões. Mesmo nos estandes das editoras, que lembram fisicamente os estandes das nossas bienais, o espaço é ocupado por mesas para encontros, pois não há venda de livros (exceto no último fim de semana).
 

Por ser um evento tão tradicional, a agenda de encontros de Frankfurt é marcada com bastante antecedência. A feira é sempre em outubro, e já em junho começa o frenético agendamento dos encontros a cada meia hora, das 9h às 18h. Oficialmente, a feira funciona de quarta a sábado, e quatro dias de trabalho intenso já estariam de bom tamanho, mas com o crescimento do evento passou a ser praxe marcar encontros também na terça e mesmo na segunda, no lobby de um hotel tradicional no centro da cidade, o Frankfurterhof, que fica apinhado de gente e já é uma tarefa hercúlea você conseguir apenas achar a pessoa com quem marcou, que dirá negociar alguma coisa de interessante. Mas enfim, tradições.

E afinal, de que consistem esses encontros a cada meia hora? Normalmente, os editores de aquisições marcam com os agentes e editores (profissionais de "foreign rights", ou direitos estrangeiros) com quem costumam negociar, ou que porventura tenham interesse em conhecer. Grosso modo, estão ali frente a frente um vendedor de direitos de tradução de diversos títulos, e um comprador, responsável por uma editora que costuma comprar títulos estrangeiros para seu catálogo. O comprador chega e diz o que está procurando e o vendedor então sugere alguns títulos de sua lista, que serão então enviados para análise.


Mas ora, essas listas de títulos disponíveis já são mandadas previamente, e quem faz bem seu dever de casa inclusive já seleciona os títulos que lhe parecem mais interessantes (com base numa sinopse sumária) e durante o encontro já diz o que quer ver. Tudo isso é feito por e-mail, então francamente, qual a necessidade de todo esse deslocamento?

É aí que mora a arte do encontro ("apesar de haver tanto desencontro nessa vida", etc.). Porque no geral, quem trabalha no mercado de livro não foi parar ali para ficar rico. Praticamente todo mundo está ali porque gosta de ler. E naquela meia hora, a conversa pode tomar rumos maravilhosamente inesperados. Um comentário despretensioso pode gerar uma associação de ideias que leva a um negócio inusitado. Ou ainda melhor, a conversa pode migrar para o mais genérico, para o assunto "livros", independente de quem tem os direitos, e descobrem-se afinidades comuns, dicas preciosas são dadas.


Além do funcionamento nos horários comerciais, Frankfurt também se estende pela noite, com uma série de jantares e festas, algumas oficiais e já tradicionais das editoras, outras mais indie, com bandas formadas por profissionais do mercado e outras gracinhas. Ou seja, é uma semana exaustiva, mas muito produtiva, e é sensacional sair da rotina para entrar de corpo e alma no mundo dos livros. Ainda mais na Alemanha, um país tão bacana, onde se bebe uma cerveja de trigo inigualável.


Por outro lado, é bom voltar logo e tomar aquele choque de realidade, com os números ingratos do nosso mercado brasileiro (tantos títulos novos lançados por tantas editoras versus tão poucas livrarias). Com a prolongada crise da Europa, o Brasil continua sendo bola da vez, todo mundo quer vender para os editores brasileiros, e a maior competitividade só faz inflacionar os preços tremendamente. E se a gente se deixa levar demais pela agenda alheia, acaba por pagar muito e esquecer como as coisas funcionam por aqui -- e a notícia de que a Amazon pode vir a comprar a Saraiva logicamente não ajuda em nada, muito ao contrário.

E você, já foi a alguma feira de negócios em outro país? Tenho curiosidade para saber como funciona nas outras indústrias.

26.9.12

Divagações sob cera quente

Por algum motivo, sempre que estou fazendo depilação me pego filosofando sobre assuntos de relevância intercontinental e planetária. Por exemplo, sempre penso o que aconteceria se, bem naquela hora em que estou com consideráveis partes do corpo cobertas de cera pelando, disparasse um alarme de incêndio ou houvesse uma tsunami na Baía de Guanabara. Sei lá, qualquer situação de pânico que exigisse uma correria do tipo run for your life. Será que a depiladora arrancaria a cera de qualquer jeito, ou eu teria que sair correndo com a cera grudada? Que droga, hein.

Ou então penso que tortuosos caminhos da estética feminina e da busca pelo belo ideal nos levaram a passar cera quente milímetros acima dos olhos para ter sobrancelhas meticulosamente aparadas, modeladas e "perfeitas". Mais grave ainda: como chegamos ao ponto de ficar incomodadas se as sobrancelhas não estiverem em ordem, ou se o esmalte descascar bem no dia em que fizemos as unhas. O que aconteceu para que essas miudezas se tornassem parte relevante do nosso tão atarefado cotidiano? Fico me perguntando se essa super-atarefação não é uma fuga, se nos ocupamos demasiadamente dessas e outras questões no fundo irrelevantes para não nos defrontarmos com aquilo que realmente importa - e que não queremos confrontar.

24.9.12

Cinquenta Tons de Espanto


A menos que você tenha chegado ontem de um planeta distante, há de saber que o mais recente megafenômeno do mercado editorial é a trilogia Cinquenta Tons de Cinza, da inglesa E.L. James, um romance erótico protagonizado por um homem dominador e uma mulher submissa, vendido como "pornô para mães" e autoproclamado salvador de casamentos.

Antes de prosseguir, o disclaimer. Este assunto me assombra e provoca imensa dor-de-cotovelo, porque este projeto passou por mim, tive oportunidade de participar do leilão e declinei (porque achei uma porcaria). Ou seja, faltou-me enxergar o fenômeno, quando meu trabalho é justamente identificar e adquirir best-sellers. Haja assombração, com sei-lá-quantos milhões de livros vendidos mundo afora.

Eu fico verdadeira assombrada com a proporção que estes livros tomaram. Primeiro, por ser literariamente tão ruim. A escrita é um horror; os personagens, um pesadelo; o enredo, uma abominação. Não por acaso, a história começou como fan-fic do Crepúsculo. (Fan-fic é a ficção feitas pelos fãs, quando os próprios leitores começam a escrever continuações para as séries de que gostam.) Na sua origem, a trilogia foi autopublicada, sem trabalho de editor, o que certamente quer dizer alguma coisa a respeito do papel dos editores neste mundo. Então, ok, a questão não é o texto nem a qualidade literária.

E segundo, o que me causa mais espanto, por as pessoas ficarem entusiasmadas sexualmente com o que o livro traz. Por acharem o protagonista, um megaempresário milionário de 27 anos, tão incrivelmente sedutor. Por se identificarem, em proporções tão avassaladoras, com esse fetiche de algemas e chicotes - o nome correto do que existe no livro é BDSM, que qualquer um pode recorrer à Wikipedia para entender do que trata. Por acharem a protagonista feminina alguém digno de empatia ou quiçá identificação.

Já li muito a respeito e conversei com várias pessoas que leram os 3 livros e gostaram, mas nenhuma conseguiu me explicar convincentemente por que gostou ou ao menos como conseguiu vencer as mais de mil páginas.

Eu continuo assombrada.



12.9.12

Abismo de gerações

Não sei bem como isso foi acontecer. Mas o caso é que, no trabalho, me tornei, sem perceber, a pessoa mais velha do departamento. Bom, ok, nós somos apenas 4 pessoas, mas enfim. Como dizia aquele desenho, em todos esses anos nessa indústria vital, essa é a primeira vez que isso me acontece.

Essa questão da idade naturalmente não nos afeta no dia-a-dia, ela se faz presente é nos pequenos detalhes. Outro dia fiz referência a uma (para mim) clássica propaganda da American Express em que um feliz proprietário do cartão, frente a uma circunstância por certo alvissareira, dizia "Paris hoje? ... Ok!", dando a entender que com American Express essas coisas são possíveis e não precisa hesitar mais de dois segundos. Ninguém conhecia.

Ontem, 11 de setembro, de novo aconteceu. De alguma forma surgiu o papo o-que-você-estava-fazendo-quando-soube-dos-atentados. A minha resposta foi: estava dançando num clube de salsa em Havana, Cuba. As respostas dos meus colegas: "Meu pai foi me buscar no colégio e me contou"; e a pior: "Estava assistindo TV Globinho quando entrou um Plantão da Globo".

Ai ai.