10.4.08

A praia enquanto vista


P. e C. vieram aqui em casa outro dia e desataram a contar mil e uma histórias das suas buscas por um apartamento para comprar no Rio de Janeiro. É uma tragicomédia atrás da outra, desde o corretor muito gordo que hesite em entrar no elevador do prédio antiguinho até as grandes pegadinhas dos classificados ("cozinha original" significa cozinha decrépita; "necessita reforma", é melhor nem tentar, "sem vista para comunidade", essa só os cariocas entendem).

Eu por algum motivo estranho e desconhecido, gosto de acompanhar as novidades do mercado imobiliário. É um mercado superaquecido no Rio de Janeiro -- que aliás deve ser a cidade mais cara do Brasil. Sei que é muito mais caro do que São Paulo, e não consigo imaginar que outra cidade poderia valorizar mais um metro quadrado. Uma bolha que daqui a pouco estoura, os preços estão surreais demais.

Enfim, a questão é que sempre vejo os muitos anúncios de lançamentos imobiliários nos jornais. Primeiro, morro de rir com os nomes que nunca são em português (uma rápida folheada e lá estão Riserva Uno, O2 Corporate & Offices, Uplife Barra Bonita, Vitá Araguaia, Weekend Bandeirantes, Ecolife Recreio, Villa Carioca, Peninsulaway Residence, Smartlife Botafogo, Magnifique Botafogo, Les Palais Botafogo e aquele que para mim é o campeão da ausência de noção: London Green (Park & Style) Barra da Tijuca).

Depois dos nomes, o que me chama atenção é que não existe mais anúncio de imóvel com as plantas dos apartamentos. Até outro dia mesmo era assim, mas agora não tem mais nenhum com planta. Todos só querem enfatizar uma coisa: os serviços. E não é aquela coisa da minha época, de play, piscina e salão de festas. O negócio agora é parque aquático com não sei quantas piscinas, bar na piscina, quadras de esporte, cinema privativo, local de ensaio para garage band de adolescentes (!), brinquedoteca, academia de ginástica, parques com paisagismo e não sei o que mais inventam. Um clube, é o que gostam de dizer. Sendo que, claro, tudo com direito a 3 ou 4 vagas.

Sim, desde criança escuto aquele yada yada de que os ricos se prendem em seus condomínios. Mas o que eu percebo agora é que coisas como vista para a praia ou para a Lagoa são para ser consumidas assim mesmo: como vistas, e só. A pessoa que compra um apartamento num super condomínio desses da Barra simplesmente não vai à praia da Barra, mesmo que ela se derrame deslumbrante pela sua janela todo dia pela manhã. Ser próximo da praia significa, no máximo, que você vai ter uma brisa com cheiro de maresia à noite.

Duas gerações atrás, meu avô praticava natação na Lagoa Rodrigo de Freitas e ia à praia em Botafogo ou no Flamengo, nas lindas praias da Baía de Guanabara. Hoje nada disso é mais possível porque são águas podres, simplesmente. E, o que é mais incrível, achamos isso normal e nos despencamos para o Leme, para Copa, Ipanema, Leblon, Barra ou para a Prainha. Próximo está o dia em que essas praias oceânicas também estarão tão imundas que ficarão infreqüentáveis.

Onde será que os filhos de Mathilde vão pegar sol?

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6 comentários:

F. disse...

Anna, você já está se preocupando com os seus netos?! O que não faz a maternidade... Sobre os preços do mercado imobiliário do Rio, eu me assustei quando mudei para aí, em 2005. Pagava o equivalente a 700 dólares num dois quartos sem garagem na Lagoa e achava caro. Era o dobro do que eu pagava num dois quartos com garagem em SP (tudo bem, não tinha a Lagoa na esquina). Bom, agora estou em Luanda, como você sabe. Outro dia me pediram 10 mil dólares/mês num quarto-sala só porque o prédio é novo e o elevador funciona. E ainda teria de adiantar um ano de aluguel! Pior: a vista era um cortiço vertical angolano. Tipo "vista comunidade", mas sem bala perdida.
Tô achando o Rio superbarato.

Ângela Fatorelli disse...

você não imagina o quanto eu me incomodei quando pararam de dar papeizinhos no sinal com as plantas dos apartamentos. se tem uma coisa que eu amava era fazer desenhinhos de armarinhos e mesinhas e estantezinhas. mas hj em dia não cabe mais nada nesses caixinhas mesmo, né?
eu, que morro de medo de vizinho, em um condominio desse, ia pirar.
bem, nao tenho medo de vc como vizinha, bien sür ;)))
sua menina ta uma coisinha linda. qq dia eu apareço (ó a piada carioca aí, gente!) pra dar um oi.
Ah, netos, eu quero. meu filho é bonito e inteligente, quer ir armando o casório? eu sou super favorável a casamentos arranjados, facilita muito a vida.

Marcus disse...

"Local de ensaio para garage band de adolescentes"? Tucanaram o rock de garagem!

anna v. disse...

F., sim, eu li no seu blogue sobre essa loucura dos preços em Luanda. Simplesmente ridículo, não tem outra palavra.
Ângela, também tenho medo só de pensar em vizinho em condomínio. E já topei o casamento arranjado entre nossos filhos. Vamos assinar um termo de compromisso?
Marcus, isso mesmo, tucanaram, e há muito tempo! hehe

Ângela Fatorelli disse...

as soon as possible. menina, pense na quantidade de livro que este casal terá de herança! hahahaha, tadinhos, toda mudança será um pesadelo! e nesses apartamentos nao vçao caber! e perceba: tem de tudo, mas biblioteca, NUNCA TEM.

Rafaela disse...

Anna, realmente é cada nome que inventam. Eu estou procurando um ap de 2 quartos no Recreio, mas os preços são absurdos!
justamente por tantas coisas que colocaram ...nenhum deles tem o tal play e salão de festas..na realidade é um club com merdadinhos, padarias e restaurantes tudo dentro. Eu não quero isso, com uma cidade tão linda pra que ficar dnetro da minha propria cidade.
Fora o valor do condomínio que é mais absurdo ainda!!!
Beijos
rafaela