17.11.08

Minha jangada vai sair pro mar


Peguei hoje um temporal na rua. Eu voltando pra casa, saí do metrô direto para o dilúvio. Nem sei como consegui sair do metrô, porque as pessoas ficavam na saída da estação, bem em frente à escada rolante, olhando para fora, para a chuva, como se nunca tivessem visto um fenômeno semelhante. Cariocas são assim, ficam sempre atônitos olhando para a chuva, como se olhar fosse fazer parar a tempestade.
Saltei na estação Botafogo. Não sei se o amigo leitor conhece o venerável bairro carioca de Botafogo, mas se não conhece, posso adiantar que é a freguesia que mais rapidamente alaga de que se tem notícia. Talvez a Ásia das monções possa lhe fazer frente neste quesito - apenas "talvez". Em dez minutos de chuva já não se distingue mais a calçada do asfalto, tudo é uma imensa bacia hidrográfica com lixo boiando. Os carros passam criando marolas e tratando de molhar as poucas partes ainda não encharcadas dos pedestres.
Comprei um guarda-chuva no camelô, mas só por uma questão pro-forma, de modo a manter um mínimo de dignidade e não ficar completamente ensopada.
E lembrei, claro, desta música ótima, que conheci com a gravação da Monica Salmaso no disco "Iaiá".

Cidade lagoa
(Sebastião Fonseca e Cícero Nunes)

Essa cidade que ainda é maravilhosa
Tão cantada em verso e prosa
Desde o tempo da vovó

Tem um problema vitalício e renitente
Qualquer chuva causa enchente
Não precisa ser toró

Basta que chova mais ou menos meia hora
É batata, não demora
Enche tudo por aí

Toda cidade é uma enorme cachoeira
Que da praça da Bandeira
Vou de lancha a Catumbi

Que maravilha nossa linda Guanabara
Tudo enguiça, tudo pára
Todo trânsito engarrafa

Quem tiver pressa seja velho ou seja moço
Entre n’água até o pescoço
E peça a Deus pra ser girafa

Por isso agora já comprei minha canoa
Pra remar nessa lagoa
Cada vez que a chuva cai

E se uma boa me pedir uma carona
Com prazer eu levo a dona
Na canoa do papai


6 comentários:

Marcos Nardon disse...

Anna V., que bom que está seu post sobre o temporal! Ele me evocou duas lembranças, que vou dividir com você. A Cidade lagoa, conheci primeiro com Jards Macalé, numa interpretação caricata, muito boa; depois veio a danada da maravilhosa Mônica Salmaso e (sorry, Jards...) ficou pra valer.
"Reflexões metafísicas sobre o temporal", acho que era esse o título de crônica do Carlos Heitor Cony, que saíra do seu escritório no prédio da Manchete e tomou seu carro para ir para casa, na Lagoa. Pois bem, assim como ele pegou seu carro, o temporal pegou os dois; e o congestionamento pegou a cidade toda. Para sorte do Cony, declara ele, tinha deixado à mão as fitas cassette da Valquíria, talvez minha ópera predileta (tá bom, tá bom, ópera não, mas drama musical...). E ouviu-a toda no congestionamento! Quatro horas de congestionamento entre Flamengo e Lagoa!
Mas isso tudo, Anna V., é só pra concluir que há temporais que vêm para bem! Cony ouviu a Valquíria, e o imagino plácido em seu carro, com a chuva a desabar, o trânsito a não fluir, e a poderosa orquestração como companhia. Bem dizia o Arthur da Távola: "Música é vida interior, e quem tem vida interior não sofre de solidão!"

anna v. disse...

Marcos Nardon, muito boa essa história. Como se vê, é um problema mesmo antigo e sem solução. Podem haver temporais que vêm para bem, mas pode acreditar que não foi o meu caso nessa última chuva...

osvjor disse...

bem lembrado, excelente música, gravada pelo Moreira da Silva antes de Macalé e Monica Salmaso. Apesar da Monica ser realmente uma deusa, ainda fico com a interpretação do Macalé, acho que casa mais com a música. mas por favor não contem pra ela...

o temporal me jogou no caos também, foi um inferno. a única coisa bonita foi a visão do Aterro com o vento forte batendo nas árvores e carregando a chuva. parecia um furacão...

anna v. disse...

Osvjor, até o Aterro encheu dessa vez, não foi? Vi uma foto no jornal. Mas também acho lindo ver chuva (de um lugar seco, claro).

osvjor disse...

sim, Anna, pela primeira vez vi o Aterro alagar, de uma ponta a outra, as duas pistas formaram uma só lagoa... quem tava de fora não entrava, quem tava de dentro não saía...

Gi disse...

Anna, eu estava na casa do meu namorado e até hoje estamos sem telefone. Simplesmente mudo e a "Oi-telemar" não faz nada, não resolve. Olha, morei 27 anos em Botafogo em frente ao shopping Rio Sul, conhece? Por ali não alaga muito, porque sei lá.. mais perto de túnel, o túnel que vai pra Copa. Sobreo "Frescão": bem-vinda a ele! Já me salvou de várias.