
Depois, comecei a reparar na presença cada vez mais constante dos livros deste autor nas cabeças das concorridíssimas listas de mais vendidos de ficção do NY Times, da Publishers Weekly, da Amazon e de qualquer veículo dos EUA, onde é pública e notória a aversão e resistência ao consumo de literatura traduzida de outra língua. Na França, na Espanha, Holanda, e em toda a Escandinávia, a mesma coisa.
Até mesmo seus amigos do mercado editorial estavam todos lendo e amando. O quadro se completou um dia em que navegava pelo site das Americanas.com e vi uma daquelas promoções meio esquisitas que eles costumam fazer com coleções de livros. No caso, eram os três livros da trilogia, numa caixa, por pouco menos de 75 reais. O que dava 25 pratas por livro (contra cerca de R$40, que é o preço normal), cada um deles um belo tijolo, literalmente um maior que o outro (528, 608 e 688 páginas, respectivamente). Comprei mesmo por impulso: não tinha lido nenhum, e comprei 3 de uma vez. E para entrar na categoria "Frete grátis a partir de $99", ainda coloquei, como sempre, uns Simenons no pacote. Marketing de vendas, bravo.

Os homens que não amavam as mulheres é um livraço. Talvez o melhor da trilogia. Ali somos apresentados aos personagens que vêm cativando os leitores do mundo todo: Mikael Blomkvist, o sedutor jornalista de meia-idade que se engaja em lutas politicamente corretas, e Lisbeth Salander, a heroína mais improvável dos últimos tempos: hacker de primeira linha, pequena, magrela, patologicamente antissocial, totalmente imprevisível.
Os dois se metem numa complicada história de desaparecimento de uma adolescente, ocorrido décadas antes, no interior da Suécia, e acabam se envolvendo na vida de uma família tradicional sueca. Uma família rica, dona de indústrias, e cheia de esqueletos no armário, daquele jeito estranho que só as famílias suecas conseguem ser, conforme aprendemos nos filmes do Bergman.
Paralelamente à investigação, vamos conhecendo um pouco da história de vida de Salander, um enredo que só vai piorando ao longo do livro, de forma realmente dramática. E por mais antipática que ela seja, é impossível não ficar a seu lado, não torcer por ela, não vibrar quando ela consegue dar uma enorme volta naqueles que a prejudicam, e não soltar pelo menos um "ah, não!" quando ela dá um tremendo fora naqueles que realmente a querem ajudar.
Além disso tudo, tem o dia-a-dia da revista Millennium, uma publicação de grandes reportagens especiais, jornalismo investigativo. Os outros personagens que trabalham na revista são ótimos. Na ficção, Blomkvist é um dos donos da Millennium, assim como, na vida real, Larsson era editor e sócio da Expo, uma revista exatamente como a Millennium, famosa por sua cobertura aprofundada e crítica de casos de neonazismo, racismo, exploração de mulheres etc. Não é difícil deduzir que Blomkvist é o alter ego ficcional de Larsson.

A menina que brincava com fogo é o menos bom dos livros. Não é que seja fraco, mas você vem direto da leitura do volume 1, empolgadíssima, e o livro acaba não correspondendo à expectativa. Foi o único que me peguei achando longo. Nele, temos menos Blomkvist e mais Lisbeth Salander, e uma grande história de acerto de contas com o passado. Mesmo assim, tem cenas memoráveis e personagens idem -- gostei em especial do boxeador chamado Paolo Roberto, um alívio no meio de tantos nomes como Eriksson, Ekström, Fräklund, Bohman, Berman, Berger, Blomgren, Bjurman, Björck, Svensson, Sandström, Strängnäs, Norrköpig, juntando aí topônimos e antropônimos, que de fato se confundem às vezes no meio da leitura (isso é alguém ou algum lugar?).
Acabei dando um grande intervalo antes

A história por trás dos livros é quase tão interessante quanto as aventuras de Blomkvist e Salander. Larsson morreu repentinamente, aos 50 anos, e não faltaram suspeitas de que tenha sido morto em retaliação pelas matérias que fez publicar na sua revista Expo. Mas o grande babado mesmo ficou por causa da herança. Quando morreu, Larsson morava havia anos com Eva Gabrielsson, mas não eram oficialmente casados. Por isso, todo o dinheiro dos direitos autorais foi para os herdeiros oficiais, o pai e o irmão do autor. Não é pouca grana. Na minha edição da Companhia das Letras há um selo dizendo "Trilogia Millennium - 15 milhões de exemplares vendidos no mundo". A Wikipedia informa que em março de 2010 já eram 27 milhões de livros vendidos em 40 países. Façam as contas. Gabrielsson briga na justiça, e pelo que li, conseguiu que a mídia internacional tomasse seu partido.
A co

Last but not least: a ótima notícia é que a Companhia das Letras lançou edições "econômicas" dos três volumes, em torno de R$30 cada um (as capas coloridas espalhadas por este texto). Estranhamente, aqui no Brasil acho que nunca vi nenhum dos volumes entrar na lista dos mais vendidos, enquanto no resto do mundo é uma verdadeira febre. De qualquer forma, eu aderi e adorei, e recomendo a todos.
(Pára com acento diferencial = desobediência civil, com convicção)