23.10.06

O mistério da Fórmula 1 (ou: a divisão social do esporte)

Alonso e Massa no GP do Brasil. Foto: EFE
Foge à minha compreensão a popularidade da Fórmula 1 no Brasil. Eu acho que é o único esporte de grande público que os entusiastas não podem praticar. E na minha mente binária, um esporte é tão mais popular quanto mais pessoas podem vivenciá-lo.
É como se houvesse um divisão social do esporte. Na base, os esportes de todas as classes, como futebol, atletismo. Em seguida, os esportes, digamos, classe média, como vôlei, basquete, que são coletivos e exigem uma infra um pouco maior. No topo, esportes de elite, tais como tênis, golfe, pólo. E acima de todos esses, a F1, que me parece ser só para milionários.
Eu considero corrida de carro um esporte absolutamente tedioso, mas isso sou só eu, é claro, está aí o resto do mundo para me desmentir. Basta ver como os ingressos para a corrida de domingo se esgotaram rapidamente, e a cobertura maciça da imprensa.*
De todo jeito, me intriga que as pessoas achem tão emocionante um esporte que dura horas e em que você vê uns carros coloridos dando dezenas de voltas em uma pista toda torta, de propósito. (Haha, estou me sentindo como aquelas pessoas que dizem não gostar de futebol porque não vêem graça em ficar olhando "22 homens correndo atrás de uma bola".) Mas na F1 não dá nem para enxergar quem está dentro do carro. Além disso, para uma pessoa leiga (e de má-vontade) como eu, o fator humano conta pouco, não dá para saber até onde vai a perícia do piloto, e até onde vai a engenharia das equipes mecânicas. Que aliás não devem ser muito competentes, porque esses carros vivem dando problema, vivem quebrando, furando pneu, vivem deixando todo mundo na mão.
E por cima de todas essas coisas, ainda tem a própria razão de ser do esporte: ver quem corre mais de carro -- além de ser uma coisa besta, nada poderia ser menos recomendado, vide a quantidade de mortes no trânsito por excesso de velocidade. (Eu aliás não consigo entender por que se fabricam carros de passeio que chegam a 250km/h, se em nenhuma estrada do país é permitido ultrapassar 110km/h. Na minha santa inocência, deveria haver um dispositivo que impedisse o carro de passar de 110. Mas isso é uma idéia estapafúrdia, só pode ser. Ou então é influência maligna da F1.)
Então eu fico pensando por que será que o público se identifica tanto com a Fórmula 1. Não posso acreditar que seja, como diz aquela propaganda, só porque "brasileiro é louco por carro". Isso é balela. Poderia ser pela presença histórica de pilotos brasileiros campeões, desde Fittipaldi, passando pelo Piquet e o Senna. Ou justamente por conseguirmos entrar numa elite tão elite. Mas se fosse isso, depois do fracasso Rubinho-mala-sem-alça era pra todo mundo ter limado esse esporte pra sempre. Ainda mais que sempre os brasileiros estão defendendo montadoras estrangeiras (também, claro, queria o quê, uma equipe Gurgel?! Ha).
Bom enfim, este post acaba em cadência suspensiva, não tem conclusão. Você aí que é fã desse estranho esporte, me explica qual é a magia da coisa, que eu até hoje não captei.

*A melhor eu ouvi na rádio CBN, no domingo, algumas horas antes da corrida. Repórter, em Interlagos: "Uma certa confusão aqui nos bastidores, com a passagem de Michael Schumacher. Ele chegou com sua camiseta, calça jeans apertadinha e botas de vaqueiro. Mas na verdade não foi nada de mais, ele estava apenas voltando do banheiro. Enquanto o alemão foi se aliviar, os mecânicos da Ferrari só ficarão aliviados depois da corrida, é claro". Juro.

7 comentários:

Celso disse...

Esse texto sobre a fórmula 1 é sensacional, parabéns!
Eu tb acho a influência perniciosa para o nosso trânsito, pois uma vez eu vi dois ônibus apostando corrida no Aterro do Flamengo, e estavam lotados de passageiros. Uma loucura.
Não vejo graça alguma neste esporte chato, caro e sem sal.
Bj.
Celso

bibiana disse...

eu acredito que é justamente por ser um esporte da elite da elite, e o único que ainda vinga no Brasil, que é tão apreciado. o Brasil, quando pode (e nesse caso pode), adora aparecer. veja: no futebol (leia-se: seleção brasileira, é claro) e na F1 é assim. as pessoas tem que mostrar o quanto têm de dinheiro, pois elas podem participar, torrar seu dinheiro que não tem onde enfiar, e depois contar vantagem... a F1 já teve graça, quando o Senna corria. depois, pff, perdeu totalmente!

Celso disse...

Eu acho que a F1 teve mais graça na época do Piquet. Uma questão de preferência. Mas, de qualquer forma, é um esporte chatíssimo.

osvjor disse...

só posso dizer que nessa levada vc nunca vai conseguir ser fã desse esporte mesmo....

anna v. disse...

pô, mas eu queria mesmo entender qual é a grande graça. parece que as pessoas só gostam mesmo dos pilotos, não do esporte. bem, pelo menos não estou sozinha :-)

bibiana, tentei deixar comentários lá no teu blog, mas é quase impossível, né? tipo, tem que ter mil cadastros estranhos. tem outra forma?

Anônimo disse...

Já teve mais graça ... alguém comentou sobre Piquet & cia, existia alguma poesia nesse tempo mas sei lá porque hoje em dia eles lotam um autodromo para ver uma corrida de computadores, sei lá !

Camilo disse...

Já gostei de Fórmula 1 e andava de kart qdo tinha grana. Coincidentemente ou não, deixei de gostar após a morte do Senna.
Hoje, Massa por Massa prefiro a Grazi Massafera.