9.10.06

A arte de não falar sobre certos assuntos

Quem já leu os Discursos Parlamentares do Carlos Lacerda deve ter reparado que umas das técnicas de oratória que ele usava com mais habilidade era a de falar sobre as coisas a respeito das quais ele não ia falar. Era mais ou menos assim: "Não vou falar sobre como o meu adversário usou essas políticas para explorar os setores da sociedade etc. etc. etc.". Ou: "Eu poderia atacar Fulano de Tal dizendo que ele na verdade fez tal coisa e mais aquilo outro com todos os detalhes, mas não vou me rebaixar a tal ponto". Simples assim. Começava com "Não vou falar" e falava tudo.
Pois justamente eu me senti com vontade de "não falar" sobre o tal texto da Ivana Bentes, que já recebi várias vezes por e-mail, escrito por ela por encomenda do caderno Mais! da Folha de SP e depois rejeitado pelo jornal (leia aqui). Depois comecei a ver vários blogs republicando o texto, e fazendo um grosso coro de apoio à pesquisadora da UFRJ. Estou perplexa. Porque achei o texto ruim demais. Patético, primariamente panfletário, mal escrito toda vida, caricato, debochado. Francamente, parece coisa de aluno de primeiro período de comunicação. Alguém achou de verdade que a Folha (ou qualquer outro jornal grande) publicaria esse texto? Eu hein. Não entendi nada. Só sei que eu não publicaria, nem se eu editasse um jornalzinho do Centro Acadêmico.

Outra coisa sobre a qual eu gostaria de "não falar" lacerdianamente é sobre a eleição do Clodovil com uma quantidade imensa de votos. O que eu depreendo deste fato é que teve essa parte do eleitorado que tentou dar uma resposta de repúdio à classe política, elegendo uma espécie de Macaco Tião, um voto de protesto, um voto cacareco, de sacanagem, de brincadeira. Mas o senso de humor desses eleitores está sendo desviado (com trocadilho, hoho) num momento inoportuno. Esse voto de protesto, de sacanagem, tem uma conseqüência concreta, a de colocar Clodovil no congresso nacional e desmoralizar ainda mais a instituição.
Por outro lado, o deputado-mais-votado-do-Brasil Paulo Maluf está aí para mostrar que nãããão, não há um consenso nessa história de repúdio à classe política. 700 e tal mil pessoas clicaram em Paulo Maluf, amigos. E por que motivos? Será porque ele é um político "profissional" e "experiente" (o que quer que isso possa ser)? Será porque as pessoas o julgam... competente?! Para um cargo legislativo??!! Será porque ele faz conchavos com prefeitos que induzem massas a votar num candidato indicado? Mas nada disso me convence, porque 700 e tal mil é muita gente.
E sobre Fernando Collor de Mello sendo eleito para o Senado, na vaga de Heloisa Helena... Sobre isso realmente "não vou falar" nada, a não ser: ainda bem que não acredito na existência de uma "força superior" regendo o universo. Porque se eu acreditasse, teria que concluir que essa tal força tem um senso de humor muito peculiar.

6 comentários:

Surya disse...

Eu também achei o texto ruim! A minha reação foi duvidar da autoria, já li textos bons dela, mas até agora ninguém mencionou essa possibilidade...

anna v. disse...

Hmm, não sei, Surya. Fui aluna dela na faculdade, e não tenho exatamente ótimas lembranças de sua atividade acadêmica, não...

Alba Regina disse...

meu pai era um expert em carlos lacerda. antes de morrer deixou um roteiro completo para um documentário sobre ele. foi recusado. enfim, um grande orador. era ele abrir a boca e tudo ao redor desaparecer. queria ver ele agora... tipo num debate com o lula. mas gente assim ... quebraram a forma... vou lá ler o texto. beijo!

Camilo disse...

Eu realmente não vou falar o que penso das pessoas que votaram em Maluf, Clô, Collor, Enéas... Não ficaria bem num blog respeitável como o Terapia Zero.

Ângela disse...

é dela sim. recebi da própria :P

anna v. disse...

e o que vc achou, ângela?