31.12.10

Votos em fotos

Que em 2011 você possa estar ao lado de quem ama
mas com cuidado para não sufocar ninguém de tanto amor!

Que você possa cantar suas músicas favoritas
na presença de uma boa plateia
de preferência ao lado dos melhores amigos.
Mas se a coisa ficar feia
não hesite em revidar!
Trate bem os animais

Mas principalmente, trate-se bem
pois quando você está de bem com a vida
é possível ser feliz com simplicidade.

Feliz 2011.

23.12.10

Quero uma passagem só de ida para Oslo

Começou o verão, a estação mais superestimada do ano. Não sei que diabo as pessoas veem de tão bom no verão do Rio de Janeiro, cidade onde no inverno a temperatura dificilmente vai a menos de 17ºC, de modos que não se pode nem dizer que a alegria de dezembro e janeiro é um reflexo da tristeza provocada pelo frio de junho e julho.

A única coisa que presta no verão é, como descobriu recentemente a Frida Monix, ir à praia no fim de tarde/noite. Isso é bom mesmo.

Mas fora isso, verão carioca é:
  • Acordar no meio da madrugada para entrar debaixo do chuveiro, tomar uma ducha, e depois voltar pra cama - sem se secar muito.
  • Tomar no mínimo 3 banhos diários.
  • Chegar em casa louca pra tomar banho e constatar que a água fria está morna, porque a caixa d'água passou o dia inteiro cozinhando ao sol.
  • Sair do banho e, ainda enrolada na toalha, enquanto penteia o cabelo em frente ao espelho, sentir o suor já escorrendo pelas costas.
  • Sentir o cabelo grudando na nuca.
  • Ficar meia hora sem fazer nada, com o rosto a 3cm do circulador de ar.
  • Sair na rua e sentir que o ar, de tão espesso, pode ser cortado a faca.
  • Entrar subitamente num banco, só pra sentir o ar condicionado.
  • Sair para tomar um chope à noite e constatar que, à uma da manhã, a temperatura é 35ºC.
  • Aprender o significado da palavra canícula.
  • Constatar que a indústria nacional não dá conta de produzir mais ar-condicionados.
  • Ver a conta de luz chegar à estratosfera.
  • Ir ligando os ventiladores de teto conforme muda de cômodo.
  • Conviver com os bichos do calor: baratas, mosquitos da dengue, bichinhos da luz.

No mais, refresquemo-nos assistindo à inesquecível sequência inicial de Do The Right Thing, de Spike Lee -- a do banho de hidrante:

22.12.10

Doutor Terror


Meu amigo M. é uma dessas pessoas agraciadas com o dom da leveza. Companhia agradabilíssima, ótimo papo, sensibilidade ímpar, ele consegue transitar com leveza pelos assuntos mais pesados. É um cara engraçado, exímio contador de casos, e não por acaso, hoje em dia trabalha com redação de humor.

Alguns anos atrás, M. descobriu que tinha um grave problema neurológico. Alguma coisa como uma bolha no cérebro que se explodisse... bom, já viu. Os amigos ficaram consternados, claro. Entre outras coisas, ele não podia mais jogar futebol ou praticar atividades físicas de maior impacto, nem beber álcool. O tratamento foi longo, e foi um dos momentos em que mais admirei meu amigo, pela maneira com que lidou com um assunto desses. Além de dizer que "a bolha" o havia transformado numa espécie de Renato Villar (ele tem uma cultura televisiva inesgotável), suas narrativas das consultas com o médico eram de chorar de rir: ele só se referia ao neurologista como Doutor Terror, e fazia representações geniais das consultas - que não obstante eram momentos cruciais de sua vida. Como terá deduzido até mesmo o menos perspicaz dos leitores, o Doutor Terror não era um exemplo de otimismo. Tudo para o Doutor Terror era gravíssimo, caso de vida e morte, sua decisão pode alterar o rumo da sua existência, este pode ser o primeiro ano do resto de sua vida, etc. Uma delícia para um cara de então vinte e pouco anos.
.
A situação com "a bolha" se estabilizou, e M. faz até hoje um monitoramento, mas leva uma vida bastante normal. Três anos atrás, casou-se, e em setembro nasceu seu primeiro filho. O menino é uma graça, e se tudo der certo será um bom amigo de Oliver, mas, por uma dessas coisas da vida, o primeiro pediatra que eles arrumaram frequentou a mesma escola de medicina do Doutor Terror. Feito o teste do pezinho, o novo Doutor Terror detectou ali uma forte chance de anomalia gravíssima, que eles se preparassem para uma vida de provações etc. (Eu contando não tem graça, mas a versão dele é ótima.) Acabou que eles refizeram o teste e não havia nada de anormal com o moleque, que está em perfeita forma.

Todo esse nariz-de-cera foi para dizer que ontem conhecemos mais um egresso da escola do terror, divisão pediatria. Oliver teve uma febre de 38.5º, que não passou apesar do antitérmico. Levamos à pediatra, que fez um exame clínico e não detectou nada de errado. "Deve ser uma virose", disse ela. "Mas com um bebê dessa idade, não dá para esperar e observar o que acontece. Como ele é muito pequeno, temos a obrigação de passar um pente fino e checar que tudo está ok." Pente fino significa hemograma completo, exame de urina, raio-X do tórax.
Seguimos para a emergência do hospital, onde pudemos fazer todos os exames de uma só vez e ter os resultados na hora. Foi então que encontramos nossa versão do Doutor Terror -- vamos chamá-lo Dr. Jekyll, porque, cúmulo dos cúmulos, o nome dele é quase esse mesmo, um nome estranho à beça. Depois do cadastro na recepção e da triagem feita pela enfermeira (aferindo temperatura, pulsação etc.), entramos na saleta de exames. Lá estava o Dr. Jekyll -- muito alto (em torno de 1.90m), meio curvado, magro, olhos azuis e nariz adunco, cabelo bem curto. Jovem, não deve ter nem 40 anos. Auscultou Oliver, olhou com aquela lanterninha dentro dos ouvidos, usou o abaixador de língua colorido dos pediatras para ver a garganta, e proferiu a primeira de suas frases memoráveis:
-- "Um bebê dessa idade não tem o direito de fazer febre!" (já repararam que médicos falam "fazer febre", e não "ter febre"?).
E prosseguiu barbarizando, o dedo em riste.
-- "Numa criança de menos de 3 meses, a febre é um alerta máximo".
Eu e marido não tivemos tempo de articular um "Mas doutor...". Ele continuou o ataque.
-- "Vocês sabem que, se der alguma alteraçãozinha nesses exames, a recomendação é internar, com soro intravenoso, não sabem? Hein, hein?"
-- ????!!!!
-- "Ela (a pediatra de Oliver) não disse isso a vocês?"
-- Gasp!
-- "Vamos ter que fazer todos os exames, e o bebê é que vai ter que nos provar que está tudo bem."
Deu-nos as costas e foi andando. Marido e eu trocamos olhares do mais puro espanto.
-- "Não tem o direito!", ele repetia.

Afinal fizemos todos os exames, e não vou me estender relatando os detalhes de uma manhã infernal, em que uma febre de 38,5º se desenvolveu numa verdadeira sessão de tortura, incluindo a luta para tirar, de um bebê de um mês e meio, sangue em quantidade suficiente para todos os exames -- uma cena difícil de aturar até para as mais estoicas das mães.

Quando voltamos a encontrar o Dr. Jekyll, eles nos saudou:
-- Tenho uma ótima notícia. O resultado do hemograma foi um quadro altamente viral.
-- Ahn. (Pausa) Ahn?
-- Não tem bactéria, não é infecção. Só mesmo uma virose. Observação doméstica.

(A propósito: a febre já sumiu, o garoto está ótimo, novo em folha -- que é mesmo o que ele é.)

16.12.10

Brâmane de livro

Não costumo achar muita graça nessa moda de listas de melhores isso ou aquilo. Mas esta semana, lá na casa das Fridas, tinha um post perguntando "Qual é o seu clássico", e me deu vontade de reproduzir aqui uma série de perguntas roubada de uma newsletter que assino (sobre livros e mercado livreiro americano) chamada ShelfAwareness. É uma coluna semanal chamada "Book Brahmin", em geral com algum escritor. As perguntas são sempre as mesmas, que vou responder abaixo e gostaria de saber as respostas de quem se animar, na caixa de comentários.

Na sua mesa de cabeceira neste momento
Beijo, de Roald Dahl (Editora Barracuda) - ganhei de aniversário de minha amiga T. É um livro de contos sinistros do autor de A incrível fábrica de chocolates. Estou gostando, mas nada de tão especial.

Seu livro favorito quando você era criança
Todos da Turma dos Sete, de Enid Blyton; Flicts, do Ziraldo.

Seus cinco autores favoritos
Só cânone: Rosa, Machado, Drummond, Nelson, Simenon. Esses são os de ficção, que mais naturalmente associamos ao conceito de "autor". Mas também considero grandes estilistas das palavras outros caras mais vinculados a outras áreas do saber: Freud, Sartre, Nietzsche. São imensos escritores, e acho que suas obras só chegaram aonde chegarem por obra e graça do talento literário.

Livro que você não leu mas fingiu que leu
A biografia da Hannah Arendt que a tia do meu marido me emprestou. Era interessante e tal, mas não consegui ler (era enorme, meio árido, e eu não estava no espírito para aquela leitura), e depois que eu devolvi - e disse que gostei, claro - ela ficou um tempão comentando e puxando assunto comigo sobre o livro.

Livro que você divulga com fervor messiânico
Pilares da terra, de Ken Follett; Dois irmãos, de Milton Hatoum; e Equador, de Miguel Sousa Tavares.

Livro que você comprou só por causa da capa
Diálogos com Leucó, de Cesare Pavese. Acho que foi o deslumbramento com o início da coleção Prosa do Mundo da Cosac Naify, tudo de capa dura e sobrecapa, e talz.

Livro que mudou a sua vida
Nietzsche. Genealogia da Moral e Além de Bem e Mal. Porque, né.

Frase favorita tirada de um livro
"Perdoa-me por me traíres", de Nelson Rodrigues. É não só uma frase como o nome da peça, e é um achado em termos de economia de palavras e carga dramática. Quanta coisa está dita nessas poucas palavras.

Livro que você mais gostaria de ler de novo pela primeira vez
Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Porque nunca um livro me emocionou tanto.


(E por falar em livros, dei uma atualizada nos títulos do sebinho, aqui ao lado.)

13.12.10

Tinker Bell é o cacete!

Não sei se foi em todo o Brasil, mas alguns anos atrás, perto do dia 31 de outubro, surgiram no Rio de Janeiro diversos cartazes colados pela cidade com os dizeres "Halloween é o cacete! Viva a cultural nacional!". Eram assinados por um tal MV-Brasil, e na época fizeram sucesso, popularizando o slogan -- que até hoje é lembrado, apesar de os cartazes terem sumido.

Eu acho Halloween uma besteira, quem quiser que comemore, mas muito mais me incomoda ver por todo canto "Sale", "Delivery" e desodorante com hair minimizer ou xampu com memorizer. Eu hein. Não sou contra os estrangeirismos. Só abomino as apropriações indébitas.

Agora que tenho uma filha de quase 3 anos tem me incomodado sobremaneira o estrangeirismo nos nomes dos personagens de desenhos animados. Por terem se tornado marcas registradas, essas criações hoje precisam ter, por contrato, o mesmo nome no mundo inteiro. Já era revoltante o suficiente que existissem os Backyardigans (que noutros tempos teriam sido A Turma do Quintal sem maiores problemas) ou o High School Musical. Mas esses, enfim, já chegaram aqui com esses nomes, assim como Charlie & Lola ou nossa querida Peppa Pig. Mas agora, o que é pior, estão alterando nomes já consagrados no Brasil!

Eu deveria ter desconfiado quando o Ursinho Puff virou Pooh. Mas enfim, Puff, Pooh, é quase a mesma coisa. E o Tigrão, o Leitão, o Coelho e o Ió permaneceram inalternados. Mas só me dei conta do processo quando percebi que a boa e velha Fada Sininho do Peter Pan virou... Tinker Bell!

Tudo faz parte dessa nova, digamos, tendência de criar "coletivos" de personagens. Primeiro foram As Princesas. Elas surgiram como um grupo autônomo, apesar de Branca de Neve, Cinderela, Bela Adormecida, Ariel e Bela nunca teram habitado a mesma história, o mesmo século, ou o mesmo reino. O sucesso foi tão estrondoso que depois surgiram As Fadas. Diferente d'As Princesas, As Fadas não existiam antes em outras histórias (não é a reunião da Sininho com a Fada Madrinha da Cinderela e da Fada Azul do Pinóquio, o que seria engraçado); são todas personagens recentes, amigas da Sininho e habitantes do reino das fadas. Sem entrar no mérito de serem todas fadinhas gostosas, bem torneadas, aventureiras, inteligentes, românticas etc, o relevante aqui é que, agora que assumiu um novo status, tem sua própria turma de amigas e estrela filmes próprios, Sininho agora se chama Tinker Bell! E nos desenhos, seus amigos a chamam de Tinkie - isn't that cute?

Isso me deixa não só revoltada como desgostosa. Fora o inconveniente de ter de explicar a Mathilde que sim, aquela é a Fada Sininho, apesar de a chamarem de Tinkie (e pra confundir ainda mais, minha mãe a chama de Fada Tlin-Dlin, que era o nome brasileiro nos anos 50), fica o pesar por tanta riqueza que se está perdendo com essa estúpida padronização mundial de nomes.

Tradução de nomes de personagens ficcionais não é coisa simples nem corriqueira. Envolve muita ciência e uma boa dose de brilhantismo. Vasta literatura já foi escrita em torno dos nomes, no Brasil, dos personagens e lugares de Harry Potter ou do Senhor dos Anéis. Mas o mais triste é ver como se perde a chance de adicionar uma certa brasilidade a esses universos imaginários. Se fossem lançados hoje em dia, teríamos o Uncle Scrooge e não o Tio Patinhas. Goofy, e não Pateta. Magica De Spell em vez da genial tradução Maga Patalógica, um trocadilho sensacional com "patológica". Imagine os Beagle Boys, e não os Irmãos Metralha! Ainda no universo de Patópolis (Duckburg) há ótimas soluções de tradução: Mancha Negra (Phantom Blot), o brasileiríssimo João Bafo-de-Onça (Black Pete), Huguinho, Zezinho e Luizinho (Huey, Dewey e Louie), Peninha (Fethry Duck), Margarida (Daisy) etc.

Mas não só aos personagens Disney se resumem as boas traduções. Os Looney Tunes estão entre os meus favoritos neste quesito. A começar pelo melhor de todos: Pernalonga - no original, Bugs Bunny. Ora, Bunny = coelho e Bug é ao mesmo tempo "inseto" e o verbo perturbar, incomodar (justamente como um inseto zumbindo no ouvido). O Pernalonga é precisamente isso: um coelho que enche o saco. Daí que os tradutores decidiram abrir mão da parte do coelho (Bunny) e focar no inseto que perturba, o pernilongo, ao mesmo tempo remetendo a uma característica física do personagem, que são as pernas compridas. Absolutamente genial! Já o Porky Pig também perdeu a referência ao porco para virar apenas Gaguinho. Hortelino Troca-Letras é outro que teve o nome brasileiro completamente desvinculado do original americano (Elmer Fudd) para ser fiel a uma característica do personagem. Personagens como Frajola e Piu-Piu (Sylvester e Tweety) tiveram seus nomes trazidos para a realidade brasileira. Outros foram simplesmente adaptações inteligentes: Road Runner> Papa-Léguas; Speedy Gonzalez> Ligeirinho.

Lamento imensamente que isso não mais ocorra com os desenhos animados de hoje em dia. Acho triste que, por razões comerciais, minha filha tenha entre seus ídolos bichos chamados Tasha, Austin, Tyrone, Pablo e Uniqua (que aliás nem bicho é - acho eu). Mais triste ainda é que essa verdadeira arte da tradução dos nomes tenha caído em desuso. Saudades de Penélope Charmosa, Dick Vigarista e Rabugento.

10.12.10

27.11.10

O Circo chegou


Vejo toda essa comoção em torno da ação da polícia na Vila Cruzeiro e Complexo do Alemão como um grande circo. Um espetáculo midiático como outros que já ocorreram por aqui. A diferença positiva desta vez é que todo o show vem a reboque de uma política de segurança já em implantação há alguns anos, as UPPs. Que têm problemas, claro, que têm de ser pensadas para além de sua implantação, que merecem um olhar crítico, mas que, daqui do minha pequena ilha da fantasia em Botafogo, me parece a melhor política de segurança que o Rio tem em décadas. E pelo simples motivo de ser uma ação contínua, e não pontual. Por isso é que o grande ataque desta semana, o "Dia D" (e que incrível cara de pau do jornal O Globo de colocar ontem no texto da primeira página uma comparação com o desembarque das tropas aliadas na Normandia!), não me comove. Os 450 policiais vão e vêm, bem como os 800 soldados do exército. Nada disso vai mudar a situação significativamente enquanto o Estado não for uma presença constante e rotineira na vida de todas as pessoas.
Mas que diabo, estou a falar obviedades.

Melhor então falar sobre os filmes que tenho visto em casa, durante esse meu período de resguardo. Nos últimos anos fui tão pouco ao cinema, e tenho tão pouco hábito de ver filmes em casa (seja no DVD, no computador ou na TV), que não falta filme para eu correr atrás. Nas últimas semanas vi Bastardos Inglórios, Gran Torino e até o filme sobre a criação do Facebook (A Rede Social), que me pareceu uma loucura total, porque acho surreal que uma bobagem como Facebook valha esse tipo de dinheiro. (Call me old fashioned, paciência.)

Mas, fazendo um paralelo com o primeiro parágrafo deste post, o que vi também na semana passada foi a trilogia O Poderoso Chefão.


(Parêntese para clamar pela desnaturalização desse título brasileiro, essa absurda tradução para The Godfather. O Poderoso Chefão é o tipo de título traduzido que achamos que existe em Portugal e damos gordas gargalhadas com a falta de noção reinante. Mas não. Lá o filme se chama O Padrinho, é claro! E aqui, O Poderoso Chefão. Chefão, amigos, prestem atenção, que aumentativo mais ridículo para um título de filme desse calibre!)

Mas tergiverso. Não sei bem por que resolvi pegar o filme, acho que li algo sobre como foi o único caso em que um filme e sua sequência ganharam ambos o Oscar de melhor filme. Já tinha visto a Parte I há muitos anos, mas não lembrava de nada, a não ser de algumas cenas isoladas, como a morte de Don Corleone na plantação de tomates. Então sentei com vontade para encarar as 3 horas de filme, e para mim não resta dúvida de que se há um filmaço na trilogia, é o primeiro. Lançado em 1972, com Marlon Brando roubando totalmente a cena como Don Vito Corleone. Na verdade, basta a primeira sequência do filme para te deixar boquiaberto. É uma tomada longa, em que um personagem secundário conta uma história triste para o Don Corleone e pede sua ajuda para fazer justiça. Tudo é carregado no chiaroscuro, e a câmera vai abrindo até aparecer a mão do Marlon Brando, e em seguida todo ele, visto de trás. Uma beleza.

Mesmo assim, tem umas partes que eu, na minha suprema ignorância cinematográfica, achei meio longas demais (como a temporada que o Al Pacino passa na Sicília, ou a terrível sequência do produtor de Hollywood com o Robert Duvall).

O Poderoso Chefão II, de 1974, sofre muito com a ausência de Marlon Brando. Confesso que, nas 3 horas e meia do filme, acabei me aborrecendo um pouco com o personagem principal (Al Pacino) e sua eterna angústia e rancor em relação ao mundo. A sorte é a parte em flashback, que conta um pouco da história do jovem Vito Corleone, interpretado por Robert DeNiro, um bálsamo. Sim, naturalmente é ótimo um filme que sugere mais do que mostra, e que te dá coisas para pensar depois que termina a projeção, mas quando o filme acabou fiquei cheia de perguntas por responder (afinal, qual era o grande lance da presença do irmão do Frank Pentangeli no julgamento do Michael? como o jovem Vito sobreviveu sozinho em Nova York com 9 anos de idade em 1901? e principalmente, como ele passou de jovem trabalhador de mercearia a capo? só fazendo pequenos roubos com o Clemenza?! Fantucci não trabalhava sozinho, como pode não ter havido reação a seu assassinato?). Achei este o mais cansativo dos três filmes.



O Poderoso Chefão III, de 1992, é quase uma paródia. A crítica incensa a parte 2 como obra de arte e essa parte 3 como desprezível, mas eu confesso que esta última me entreteve mais. Tem a participação da Sofia Coppola como atriz, que é tão ruim, mas tão ruim, que chega a ser divertido. Tem também o Andy Garcia, que é tão caricato que a gente até esquece do filme e se concentra só em observar como ele é bonito. E, claro, tem o Al Pacino, que em 1992 já era um ator pra lá de consagrado, e portanto interpreta, basicamente, seu papel de... Al Pacino.

O curioso é ver como, ao longo da trilogia, a família Corleone vai se vendo obrigada a se atualizar em sua atuação mafiosa. Jogos, armas e putas, depois drogas, depois a política e a lavagem de dinheiro - e sempre a venda da proteção e a exigência da lealdade. Sim, os banhos de sangue se repetem em cada um dos três filmes (tem sempre um momento "acerto de contas", com vários assassinatos simultâneos), mas os métodos vão se sofisticando com o tempo.

E é justamente isso que parece não acontecer com a questão do tráfico no Rio de Janeiro. As milícias sugerem de fato uma "evolução" do crime mafioso, por não se prenderem a um só produto - ainda por cima ilegal - e por serem mais maleáveis, adaptáveis. Esse modus operandi dos traficantes, com bunkers e territórios demarcados, me parece cada vez mais inviável de sustentar, por ser caro, pesado, pouco prático. Imagino o que será a nova tendência.

16.11.10

Brincando com Beethoven

Não se preocupem. Não vou encher a paciência dos meus 21 leitores falando que Mathilde está com uma tosse terrível que não vai embora e faz com que ela e eu passemos a noite em claro. Tampouco vou ficar aqui escrevendo que Oliver teve suas primeiras cólicas - porque afinal todo mundo sabe o sofrimento que é isso, e esse blogue não é fã de textos autocomiserativos. E muito menos vou ficar aqui me remoendo com o fato de que o pai dessas crianças adoráveis está viajando desde terça passada e só volta de vez no próximo domingo, o que faz com que as coisas fiquem beeeem mais difíceis.
Não, nada disso.
Vou deixá-los com uma das coisas mais incríveis que já vi no YouTube. Um menino de 3 anos regendo Beethoven. E a-do-ran-do. Todo mundo já viu aqueles fedelhos de 2 anos tocando Mozart no piano ou Paganini ao violino, né? Crianças-prodígio abundam, desde que o mundo é mundo. Mas um minimaestro eu confesso que nunca tinha visto. E vejam até o final, pois tem um grand finale.



http://www.youtube.com/watch?v=0REJ-lCGiKU

11.11.10

Agora sim

A foto dos irmãos, registro do primeiro encontro dos dois.

Oliver custou um pouco para chegar, mas quando veio, veio com tudo. A coisa toda aconteceu logo depois da publicação do post abaixo. Ali diz que a hora do post é 18:52, mas esta foi a hora em que comecei a escrever. Depois chegou gente aqui em casa, e só fui terminar e publicar perto das 10 da noite, pouco antes de ir dormir. Até encontrei a Frida Helê no GTalk, ela perguntou como andavam as coisas, eu respondi: acabei de publicar um post, agora vou dormir, nada de novo no front, etc. e tal.

A partir daí, no entanto, os acontecimentos se precipitaram.

Foi Mathilde quem deu início a tudo, e acho que ficaremos sempre na dúvida sobre o que aconteceu, se ela de certa forma "sentiu" que o irmão estava chegando naquela hora, ou se não passou de mera coincidência.

Por acaso, naquele dia (sexta, 29/10) M. veio dormir aqui em casa. (M. trabalha na casa de minha mãe há 34 anos (começou com a função de ser minha babá), e quando Mathilde nasceu ela passou 3 meses morando conosco, para nos ajudar. Desde então, sua ligação com a minha filha é uma coisa linda de se ver, de tão intensamente amorosa.) M. e Mathilde estavam brincando loucamente em casa até bem tarde, só depois das 22h é que a pequena foi dormir, e pouco depois eu também me recolhi. E então aconteceu que por volta das 23h M. veio nos dizer que Mathilde estava febril. E estava mesmo. Ardendo em febre, acima de 39°, enquanto que menos de uma hora antes estava absolutamente normal. Demos um antitérmico, e ela começou a se debater e gritar, como se estivesse sentindo muita dor. Gritava Mamãe! Mamãe!, mas não falava mais nada que fizesse sentido, apenas berrava e levava as mãozinhas à testa, como se estivesse com dor de cabeça. Mas não respondia quando perguntávamos onde doía, apenas balbuciava qualquer coisa e gritava Mamãe! Mamãe!

Eu, que me acho uma pessoa tranquila e desencanada (bah, e quem não se acha?), fiquei nervosa. Chorei com ela no colo. Nunca tinha visto Mathilde daquele jeito, demonstrando tanta dor e sofrimento. A muito custo, conseguimos que ela dormisse, na nossa cama, lá pela meia-noite.
À 1:00 da manhã eu ainda não tinha dormido, estava deitada, quando senti um jato de água quente entre as pernas. Não senti dor nenhuma, e como não era uma quantidade muito grande de água, achei que tinha perdido líquido, mas não cogitei que fosse a bolsa rompendo. Era.

1:30 comecei a sentir uma dor mais forte embaixo da barriga. Doze minutos depois, de novo. Comecei a acompanhar no relógio, e avisei o marido, que tampouco tinha dormido. Depois da quarta vez não tive mais dúvida e não quis mais esperar. Liga pro médico e vamos pra maternidade. Nesse meio tempo, Mathilde meio que acordou, e gemeu mais um pouco, voltando a dormir. Eu já cambaleava quando deixamos Mathilde com M. e descemos para pegar o carro.

Quando ligamos para o médico (2:00) descobrimos que ele já estava na maternidade. Primeira reação: ainda bem! Não vou precisar esperá-lo chegar. Segunda reação: put*a m*erda, ele já está fazendo outro parto! De fato ele já estava lá com outra paciente, mas num trabalho de parto demoradíssimo, que se arrastava por horas e estava longe de acabar. (Uma parturiente que não queria tomar anestesia. Eu hein. A criança só foi nascer às 6 da manhã, e passou os dois dias seguintes chorando furiosamente. O andar todo ouvia.)

No carro a caminho da maternidade, um toque especial. O rádio, sempre sintonizado na MEC FM, tocava o Concerto para Cravo de Manoel de Falla, uma peça que marido e eu ouvíamos muito no início do nosso namoro, e que eu não ouvia há uns dez anos, no mínimo. A propósito, uma música linda.


Chegamos à maternidade umas 2:30 da manhã. Fui para uma salinha de exame, e uma plantonista esquisita, com cara de punk dopada e que certamente estava dormindo numa sala de repouso até 2 minutos antes, constatou 3cm de dilatação e fez comentários no mínimo curiosos enquanto eu berrava de dor. ("Ih, meu bem, tá doendo tanto assim quando eu encosto aqui? Nossa, que estranho!" -- uma coisa super apropriada a se dizer.)

Fui colocada num elevador, e as enfermeiras me conduziram até um vestiário, onde tirei a roupa e pus um avental. Nesse ponto, estava sentindo uma dor inenarrável. Fui para a sala de pré-parto, onde encontrei marido (que ficara na recepção resolvendo burocracias de internação) e, para grande felicidade, o doutor M. A felicidade só não foi maior porque descobri que a louca que já estava em trabalho de parto desde o meio-dia não queria anestesia (por quê, Senhor, por quê?!), portanto a equipe médica toda já estava lá, exceto o anestesista. As contrações já estavam acontecendo a intervalos muito pequenos, eu me sentia num estado quase permanente de dor incrível, o corpo todo retesado procurando alguma espécie de alívio, que não vinha.

Então, entra o anestesista.

A partir desse ponto, tudo muda radicalmente de perspectiva. De "pára o mundo que eu quero descer; não aguento mais; alguém me mata, por favor", passamos para "ah, que legal, meu filho vai nascer; vamos lá, pessoal; nossa, que maneiro isso tudo". Depois me disseram que quando há rompimento da bolsa a dor é muito maior, é o chamado "parto seco". Com Mathilde a bolsa não rompeu, e a água de certa forma ameniza a dor das contrações. Quando ela nasceu, lembro de ter sentido muita dor, mas não lembro de ter sido tão intensa assim. Por outro lado, dizem que a gente só decide ter um segundo filho porque a memória seletiva trata de apagar a lembrança da dor do primeiro.

(Parêntese para a inevitável digressão sobre o assombro das mulheres que têm uma penca de filhos sem anestesia, desde que o mundo é mundo. Fico pensando naquelas que, por circunstâncias diversas, têm seus filhos sozinhas, em lugares isolados, ou no meio do mato. Isso, minha gente, é empoderamente feminino. Uma mulher capaz de dar à luz sozinha é capaz de qualquer coisa. Mesmo.)

Depois foi muito rápido. Logo nos mudamos para a sala de parto porque a dilatação já estava em 9cm (o máximo é 10). A parte da expulsão (o clássico momento "Força!" que o cinema tanto gosta de usar para representar um parto) foi tão rápida que quando colocaram o bebê no meu colo, às 4:10 da manhã de sábado, dia 30/10, eu lembro de ter ficado atordoada: como assim? já?!

E foi assim que, no segundo turno da eleição 2010, eu não votei para presidente.

29.10.10

Eu quero votar pra presidente, meu filho!

Isso foi mais ou menos o que eu fiquei dizendo a Oliver durante a última semana. Queria que ele nascesse logo para que no domingo eu já tivesse tido alta e pudesse exercer o tal do dever cívico. Mas de nada adiantou. 40 semanas hoje, e nada de esse menino dar as caras. Agora estou dividida entre querer que ele nasça entre amanhã (ou hoje ainda, que dá tempo!) e domingo, e querer que espere até segunda, virando o mês e emplacando a data-código-binário 01.11.10.

Mas enfim, seguimos na luta. Fiz exames hoje (a trinca ultra-cardio-doppler) e está tudo ótimo, basta apenas que sua-majestade-o-bebê decida que chegou a hora.


Quero votar pra presidente porque é claro, é sempre tão importante votar pra presidente. Mas acima de tudo, quero que esse segundo turno maldito termine logo, o que será um grande alívio. Depois de ter votado em Marina no primeiro turno, vou votar na Dilma no segundo, mantendo uma tradição de votar no PT para a presidência desde a primeira oportunidade(que para mim foi em 1994).


Não tenho qualquer dúvida em votar na Dilma e não no Serra, mas não partilho a empolgação de tantos amigos, e lamento que o segundo turno tenha chegado a radicalismos tão bisonhos (tipo "Serra é uma ameaça à democracia" - ora, me poupem). Na verdade, escolho a continuação da gestão petista como escolhi algumas coisas para a obra recente aqui em casa: custa caro pra caramba, mas, bem, vamos pagar, porque em última instância, vai ser melhor. Então voto porque acho que vai ser melhor pro país, porque acho inegáveis os avanços do governo Lula e quero que eles continuem, mas sabendo que o preço do meu voto são minhas ilusões perdidas, acrescidas de juros de uma porção de coisas com as quais discordo e que fazem parte da linha de governo petista. A balança pendeu para um lado, então vamos em frente. (A menos que. Vocês sabem. Venham "as dores".)


Enquanto isso, nos últimos dois dias me senti menos disposta, mais exaurida. Tudo é um esforço. Dormir, andar, brincar, comer, beber, jogar conversa fora. A pele esticada a níveis inimagináveis, os órgãos todos apertados, a respiração curta. Como já escrevi antes, o design do corpo da mulher deixa muito a desejar nessa hora. A natureza é sábia uma ova. (Essa frase só pode ser de autoria de um homem.)


Comecei a ler Comer, Rezar, Amar, dentro da minha auto-imposta obrigação de ler os best-sellers por interesse profissional. Literatura feminina que vendeu mais de 4 milhões de livro no mundo e virou filme com a Julia Roberts, não exatamente o tipo de livro que se possa desprezar, para quem trabalha nesse mercado. Mas estou achando meio chato. Gostei da primeira parte, o "Comer", que se passa na Itália. Mas agora que estou no "Rezar", na Índia, a coisa empacou de vez. E mal cheguei à metade do livro (que é grande para os padrões bestsellerísticos). Ainda falta todo o "Amar", na Indonésia. A autora é prolixa demais, rola uma blablabla sem fim que eu não estou podendo.


Então fui à locadora (sim, eu ainda sou do tipo que vai à locadora!) esta semana, e peguei Linha de Passe, do Walter Salles, e A Fita Branca, do Michael Haneke. Gostei dos dois. Linha de Passe não é tão impactante, não é opulento, mas é sincero e funciona bem na transmissão de um momento na vida dos personagens, todos tão verossímeis. Já A Fita Branca (que peguei porque amei Caché, do mesmo diretor) é mais confuso, literalmente - o filme é p&b e por vezes não consegui distinguir alguns personagens. Tem um monte de crianças super parecidas, com roupas semelhantes, e os adultos também se parecem, de modos que ficou difícil às vezes entender quem estava fazendo o quê. Mas gostei do filme, tem aquele climão bergmaniano norte-europeus-moralistas-de-fachada-mas-no-fundo-ultra-reprimidos-e-problemáticos. É daqueles filmes dos quais, nas CNTP, a gente sai direto para o chope, para discutir e conversar a respeito - uma das coisas boas da vida.


No mais, estamos sem TV, só na base dos DVDs. Marido teve um raro acesso de fúria com a Net e cancelou o serviço, a despeito de todo aquele chororô e atendimento VIP (com direito a enormes descontos) que rola depois que você decide cancelar. A tudo ele resistiu estoicamente ("eles acham que é assim, te oferecem 50% do preço por seis meses, como se fosse uma cenoura na frente do cavalo"), e eu dou todo o apoio. Como nosso humilíssimo prédio não possui antena, não pega nem a TV aberta - de modos que nossos planos para hoje à noite são assistir ao último debate pelo rádio. Ou não.

Outras notícias em breve. A menos que. Vocês já entenderam.