22.12.10

Doutor Terror


Meu amigo M. é uma dessas pessoas agraciadas com o dom da leveza. Companhia agradabilíssima, ótimo papo, sensibilidade ímpar, ele consegue transitar com leveza pelos assuntos mais pesados. É um cara engraçado, exímio contador de casos, e não por acaso, hoje em dia trabalha com redação de humor.

Alguns anos atrás, M. descobriu que tinha um grave problema neurológico. Alguma coisa como uma bolha no cérebro que se explodisse... bom, já viu. Os amigos ficaram consternados, claro. Entre outras coisas, ele não podia mais jogar futebol ou praticar atividades físicas de maior impacto, nem beber álcool. O tratamento foi longo, e foi um dos momentos em que mais admirei meu amigo, pela maneira com que lidou com um assunto desses. Além de dizer que "a bolha" o havia transformado numa espécie de Renato Villar (ele tem uma cultura televisiva inesgotável), suas narrativas das consultas com o médico eram de chorar de rir: ele só se referia ao neurologista como Doutor Terror, e fazia representações geniais das consultas - que não obstante eram momentos cruciais de sua vida. Como terá deduzido até mesmo o menos perspicaz dos leitores, o Doutor Terror não era um exemplo de otimismo. Tudo para o Doutor Terror era gravíssimo, caso de vida e morte, sua decisão pode alterar o rumo da sua existência, este pode ser o primeiro ano do resto de sua vida, etc. Uma delícia para um cara de então vinte e pouco anos.
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A situação com "a bolha" se estabilizou, e M. faz até hoje um monitoramento, mas leva uma vida bastante normal. Três anos atrás, casou-se, e em setembro nasceu seu primeiro filho. O menino é uma graça, e se tudo der certo será um bom amigo de Oliver, mas, por uma dessas coisas da vida, o primeiro pediatra que eles arrumaram frequentou a mesma escola de medicina do Doutor Terror. Feito o teste do pezinho, o novo Doutor Terror detectou ali uma forte chance de anomalia gravíssima, que eles se preparassem para uma vida de provações etc. (Eu contando não tem graça, mas a versão dele é ótima.) Acabou que eles refizeram o teste e não havia nada de anormal com o moleque, que está em perfeita forma.

Todo esse nariz-de-cera foi para dizer que ontem conhecemos mais um egresso da escola do terror, divisão pediatria. Oliver teve uma febre de 38.5º, que não passou apesar do antitérmico. Levamos à pediatra, que fez um exame clínico e não detectou nada de errado. "Deve ser uma virose", disse ela. "Mas com um bebê dessa idade, não dá para esperar e observar o que acontece. Como ele é muito pequeno, temos a obrigação de passar um pente fino e checar que tudo está ok." Pente fino significa hemograma completo, exame de urina, raio-X do tórax.
Seguimos para a emergência do hospital, onde pudemos fazer todos os exames de uma só vez e ter os resultados na hora. Foi então que encontramos nossa versão do Doutor Terror -- vamos chamá-lo Dr. Jekyll, porque, cúmulo dos cúmulos, o nome dele é quase esse mesmo, um nome estranho à beça. Depois do cadastro na recepção e da triagem feita pela enfermeira (aferindo temperatura, pulsação etc.), entramos na saleta de exames. Lá estava o Dr. Jekyll -- muito alto (em torno de 1.90m), meio curvado, magro, olhos azuis e nariz adunco, cabelo bem curto. Jovem, não deve ter nem 40 anos. Auscultou Oliver, olhou com aquela lanterninha dentro dos ouvidos, usou o abaixador de língua colorido dos pediatras para ver a garganta, e proferiu a primeira de suas frases memoráveis:
-- "Um bebê dessa idade não tem o direito de fazer febre!" (já repararam que médicos falam "fazer febre", e não "ter febre"?).
E prosseguiu barbarizando, o dedo em riste.
-- "Numa criança de menos de 3 meses, a febre é um alerta máximo".
Eu e marido não tivemos tempo de articular um "Mas doutor...". Ele continuou o ataque.
-- "Vocês sabem que, se der alguma alteraçãozinha nesses exames, a recomendação é internar, com soro intravenoso, não sabem? Hein, hein?"
-- ????!!!!
-- "Ela (a pediatra de Oliver) não disse isso a vocês?"
-- Gasp!
-- "Vamos ter que fazer todos os exames, e o bebê é que vai ter que nos provar que está tudo bem."
Deu-nos as costas e foi andando. Marido e eu trocamos olhares do mais puro espanto.
-- "Não tem o direito!", ele repetia.

Afinal fizemos todos os exames, e não vou me estender relatando os detalhes de uma manhã infernal, em que uma febre de 38,5º se desenvolveu numa verdadeira sessão de tortura, incluindo a luta para tirar, de um bebê de um mês e meio, sangue em quantidade suficiente para todos os exames -- uma cena difícil de aturar até para as mais estoicas das mães.

Quando voltamos a encontrar o Dr. Jekyll, eles nos saudou:
-- Tenho uma ótima notícia. O resultado do hemograma foi um quadro altamente viral.
-- Ahn. (Pausa) Ahn?
-- Não tem bactéria, não é infecção. Só mesmo uma virose. Observação doméstica.

(A propósito: a febre já sumiu, o garoto está ótimo, novo em folha -- que é mesmo o que ele é.)

4 comentários:

Deh disse...

Só uma palavra sobre o "evento": PUTISGRILA.

Isabella disse...

Putsgrila [2].

Pobre Oliver :(
O meu, que nasceu pesando mais de 4kg, precisou durante os dois dias que ficamos no hospital, ter o açúcar do sangue verificado duas vezes ao dia, apesar dos meus protestos e olhares de indignação. Só porque nasceu rechonchudo...

Cláudia disse...

Putsgrila [3].
Susto medonho. Ainda bem que já passou...
Citando o marido: "tem médico que só serve pra legista".

Anônimo disse...

Putsgrila [4]. Que susto, e que horror essa experiência no hospital, aliás, diz o nome pra gente não levar o bebê lá não, anna, ou será que só o médico toca esse terror?
beijos, saúde pra galera toda e ótimo Natal,
clara