No meio dessa confusão típica dos finais de ano, caiu-me nas mãos Bumerangue: uma viagem pela economia do novo Terceiro Mundo, livrinho muito recomendado por gentes boas. É uma grande reportagem sobre o mundo pós-crise econômica de 2008, que ajuda a entender um pouco melhor a confusão em que estamos todos. Para mim, que faço o tipo leiga-esforçada em assuntos econômicos e financeiros, foi bastante útil.
Pra início de conversa, o texto é ótimo, a tradução idem (do Ivo Korytovski, tradutor de quem sou grande fã desde que descobri que o dicionário dele incluído no Babylon era simplesmente muito melhor do que os Michaelis da vida, porque é um dicionário de tradução para quem é do ofício, e me foi maravilhosamente útil nas minhas duas empreitadas tradutorísticas). Segundo, é super atual, tem dados e informações de 2011, já que o livro saiu nos EUA em outubro e aqui em novembro.
O livro tem 5 capítulos (e um prefácio super encorajador, intitulado "É pior do que se pensa"), que são o resultado das viagens do Michael Lewis por alguns dos países-ícones da crise: Islândia, Grécia, Irlanda, Alemanha e Estados Unidos. Um turismo de crise econômica, por assim dizer. Mas o resultado é precioso, principalmente por mostrar o absurdo de certas situações que, por uma simples questão de status quo dos donos do discurso, passam a vigorar como normais.
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Deprimente manifestação popular na Islândia. Daqui. |
Na Irlanda, onde o crash foi causado pelo mercado imobiliário, os bancos emprestavam dinheiro a construtoras que levantavam condomínios, hotéis e edifícios comerciais em regiões para as quais não havia qualquer demanda. Houve uma inflação geral do preço dos imóveis, e as pessoas contraíam dúvidas para financiar a compra de suas casas, dívidas que se tornaram impagáveis depois que a bolha estourou, a recessão galopou, os bancos se ferraram e o governo decidiu abrir a torneira de dinheiro para evitar o colapso - pegando emprestado dos bancos da União Europeia. Lewis vai a uma sessão do parlamento irlandês, conversa com políticos, e também com o incrível aposentado que jogou ovos podres numa reunião de investidores de um dos bancos picaretas (leia aqui, em inglês). E nesse capítulo eu não pude deixar de pensar no Rio de Janeiro, onde o valor dos imóveis mais que triplicou em 6 anos e um apartamento de 3 quartos em Botafogo (ex-bairro operário, sempre engarrafado e com uma praia que não dá para ir), sem grandes luxos, não sai hoje por menos de 1 milhão de reais. Tenho visto tantos anúncios de página inteira nos jornais de grandes empreendimentos imobiliários em lugares inusitados como Itaboraí, Itaguaí e Itacuruçá, e pelo menos agora posso dizer, sem medo, que acho isso muito estranho.
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Na Irlanda pelo menos tem a melhor cerveja preta do mundo |
Sobre os Estados Unidos, a parte mais reveladora é a entrevista com o Schwarzenegger, ex-governador da Califórnia, durante um passeio de bicicleta pela orla (!), a 100 km/h. Descontada a situação pra lá de bizarra, a análise sobre os vícios da política americana é muito interessante.
Enfim, são só 224 páginas que voam, e na Saraiva.com sai por R$19,90. Dá uma boa organizada nas ideias, e serve para fazer um bonito na mesa do bar!