11.9.06

Beethoven e o vassoureiro

E quando a gente tenta colocar um pouco de poesia na nossa vida, vem a realidade com sua pata enorme e esmaga.
Sábado em casa, e você lutando contra um freela que já há muito se arrependeu de ter pego, porque é enorme, porque é chato, porque não termina nunca (a velha teoria do papel-macho + papel-fêmea, que quando se juntam se reproduzem), porque o prazo está chegando. Etcétera. Você se sente assim como a Lu, procurando pretextos para, toda hora, fazer uma pausa. Hmm, acho que vou tomar um café com leite. Vou ligar para minha mãe. Vou checar os e-mails. Vou regar as plantas. Vou ler aquela parte do jornal. Vou fazer um chá. Só quando você cogita a possibilidade "vou tirar as roupas do varal" é que você se dá conta de que isso está ridículo. Nenhum freela chato pode ser pior do que tirar as roupas do varal. (Isto é um dogma.)
E o freela avança mais um pouco. E você lê, lê, mas quase não registra o que está lendo. E agora faltam só trezentas páginas.
Até que finalmente você se dá a pausa que realmente merece: vou tocar um pouquinho. Ah, agora sim. Dá pra passar uma hora fácil ali. E sempre com a sensação de que está fazendo algo de produtivo, e não perdendo tempo. Então você começa a se envolver com a música, finalmente consegue parar de pensar nas trezentas páginas que faltam, consegue parar de sentir culpa por não estar lá sentada avançando mais algumas laudas.
E oh, você chega no segundo movimento, aquela coisa espetacular, em que sua maior preocupação é cantar bem a melodia da mão direita

depois de ter passado pela pirambeira que é primeiro movimento, depois daquela canseira, você está finalmente em transe, a mente vazia -- ou melhor, cheia, mas só de coisas boas, quando de repente vem da rua (até aquele momento completamente silenciosa, como em geral é a sua rua) um som inequívoco.
-- Vassoureeeeiro! Vassoureeeeiro!
Você desperta do transe. O som vai ficando mais alto.
-- Vassoureeeeiro! Vassoureeeeiro!
Você não pode acreditar. Não, não tem um vendedor de vassouras passando na rua justo agora.
-- Vassoureeeeiro! Vassoureeeeiro!
Mais alto e mais alto. Você não consegue mais ignorá-lo. Você mal consegue se ouvir agora. Pára de tocar. Levanta e vai até a janela. Lá está o rapaz, carregado de vassouras. Ele te vê na janela, seu olhar se enche de esperança.
-- Vassoura, madame?
Você sorri.
-- Não, obrigada.
E de volta para o freela.

(A história é verídica, mas no fundo foi só um pretexto para experimentar esse GoEar, uma espécie de YouTube só de música. Se não der certo clicando no player, tem o link: http://www.goear.com/listen.php?v=931f36d)

3 comentários:

Ângela disse...

hohoho, eu acredito no dogma do varal. de fato, se vc vai até o varal, repasse o frila. Ou faaaaaz.

Lu Thomé disse...

Não tem jeito, Anna. Escapei no sábado... Continuei fingindo a existência de todo o trabalho no domingo. E na segunda-feira, a culpa me pegou de um jeito... Para terminar, encarei a noite inteira na frente do notebook. Algemada. E sem louça suja ou varal.
Beijos!

D'Noronha disse...

A história tá muito boa e bem contada.
A bela sonata n° 8 em dó menor só através do link.

grande abraço.