14.9.06

Montreal

Inverno em Montreal

2005. Então combinamos de eu visitá-la nas minhas férias. Ela já morando nos EUA há dois anos, vindo sempre ao Brasil, mas eu ainda não tinha ido para lá conhecer a casinha de doutoranda dela. E não tem jeito, melhores amigas têm mesmo que fazer essas coisas, gastar os tubos só pra passar uns diazinhos juntas.
Então fui. Era novembro. Cheguei no aeroporto de Boston e ficamos uns cinco minutos abraçadas ali no desembarque, quase chorando de alegria. Um exagero, nem tinha tanto tempo assim que ela tinha vindo ao Brasil pela última vez, mas e daí?, é assim mesmo.
E ali mesmo no aeroporto fomos na Herz para alugar um carro. Queríamos o modelo mais simples de todos, mas quando perguntamos se teria algum problema cruzar a fronteira do Canadá com o carro alugado o atendente ficou morrendo de pena e nos deu um upgrade de categoria, sem cobrar mais nada por isso. Disse que era muito perigoso fazer uma viagem dessas com o modelo mais simples. Quando vimos, tinha um Hyundai Sonata nos esperando, e ficamos assim como índios em frente ao espelho, sem acreditar que íamos circular com aquele carrão totalmente desproporcional aos nossos tamanhos (1,50 e 1,59 de altura).

A viagem
Partimos no dia seguinte com destino a Montreal – pois o objetivo era “sair dos Estados Unidos”. Além do fato, claro, de termos uma amiga em Montreal. Saímos de Boston debaixo de chuva. Seis horas de viagem, o plano era chegar no mesmo dia. No meio do caminho, uma parada prevista, em New Hampshire, para encontrar uma amiga minha, americana, que eu não via desde 1992.
Google Maps rules. Uma coisa incrível de precisão, vou te contar, esses americanos têm a vida fácil. 30 miles nessa estrada, vira à esquerda, 2 miles nessa rua, vira a direita etc. Tudo certinho. Só nos demos mal uma vez, pegamos uma entrada errada num balão, aquela coisa que em inglês tem o nome genial de roundabout. E chuva o tempo todo.

Grateful Dead
Chegamos no ponto de encontro, um café em Keene, NH. Pouco depois chegou minha amiga, que para meu alívio, 13 anos depois continuava uma pessoa adorável. Fomos até a casa dela. Que era -- como explicar? -- uma comunidade alternativa. É. Hippie, praticamente. Ela mora com o marido e os três filhos numa espécie de sótão em cima de uma marcenaria. Um lugar precário. Só tem umas poucas casas no local, uma escolinha, e eles criam porcos, vacas, e plantam coisas. Os Estados Unidos são um lugar assim meio sei lá. Muito... interessante. Ela, a amiga americana, tinha umas fotos minhas de 13 anos atrás simplesmente fantásticas. E me contou que nem chegou a completar a high school, porque se apaixonou por um cara e foi com ele seguindo as turnês do Grateful Dead. Que é uma banda que nem nunca fez muito sucesso aqui no Brasil. Então se já é muito difícil entender por que alguém abandona a vida que leva para seguir uma banda, mais difícil ainda é entender por que se faz isso pelo Grateful Dead. Mas ela fez. E passou dois anos seguindo as turnês da banda, e fazendo artesanato para sobreviver. Ela e o namorado, e mais gente que integrava essa comitiva de adoradores do Grateful Dead. Então, amigos, eu vou repetir. D-o-i-s a-n-o-s. (Este nem era o assunto que eu queria falar, mas acabei caindo nele, e essa história é tão inacreditável que eu não resisto.) E nesse tempo ela engravidou e teve um filho, que é o mais velho dos três filhos dela. E só depois que o filho nasceu é que ela parou de achar tanta graça em ficar pra lá e pra cá pelos Estados Unidos com um neném de colo, morando em barracas de camping, e largou o cara e voltou pra casa da mãe.
Isso tudo ela contou pra gente assim, de supetão, e as duas brasileiras só “oh!”, de boca aberta e queixo caído. Depois ela nos serviu abóbora e arroz plantados ali na comunidade, e nós comemos. E nessa hora começou a nevar, então nós fomos embora. Logo logo começou a nevar muito, e se não fosse o (atual) marido dela nos conduzir até a estrada principal, nós estaríamos lá até hoje, possivelmente.

Maus momentos
Seguimos sempre para o norte, para o alto e avante, rumo ao Canadá, e ficava cada vez mais frio, e caía mais e mais neve. Foi ficando tudo branco... branco... branco... Até que escureceu. Eram três da tarde, estava um breu, nevava furiosamente e nós ainda estávamos longe da fronteira. Quem dirigia era eu. E como aquela foi a primeira nevasca do ano, a estrada não estava preparada (ou seja, não haviam passado caminhões como os da foto ao lado, que removem a neve e jogam sal na estrada). Onde não tinha neve, tinha gelo. Então todos os carros passaram a andar muito devagar, um atrás do outro, sem perder a trilha deixada pelos pneus do carro da frente, caso contrário, derrapagem certa. Não foram bons momentos. E conseguimos manter alguma serenidade nem sei bem como, porque não sabíamos dirigir na neve.
Claro que resolvemos parar na primeira cidade que aparecesse, mas naquela velocidade e com a adrenalina àquelas alturas, a primeira cidade demorou muito para aparecer. Mais perdidas do que achadas, saímos da highway na primeira Exit que surgiu e depois de rodar por uns lugares ermos topamos com uma placa que dizia Main Street, e resolvemos que ficaríamos ali aquela noite, nem que aquilo fosse a Baixada Fluminense do estado de Vermont. Haha. Era Montpellier, capital do estado e possível cidade-cenário de todos os filmes natalinos-família-feliz norte-americanos. Mais à frente, The Montpellier Inn. Vacancy. E nessas horas não tem jeito, o que você diz é mesmo Thank you, Lord.

Quebec
No dia seguinte chegamos em Montreal. E que cidade bacana. E que pessoas fantásticas. E como é tão diferente dos EUA. Não sei na parte anglófona do país, mas ali no Quebec é mesmo um outro lance. E essa é a primeira lição. Nunca dizer canadense se você pode dizer quebequense. E quem me ensinou que o termo correto em português era quebequense foi uma nativa, que participa de um programa de pós-graduação em biologia feito em parceria com a Universidade Federal... do Pará. Então essa fofa quebequense fala português perfeito, mas com sotaque do Pará. E não é Belém. O trabalho de campo que ela faz é numa cidade que eu nunca tinha ouvido falar e nem lembro mais o nome, perto de Santarém. Ela levou de lembrança um CD da Banda Calypso. Pois é.

Passamos dias ótimos em Montreal, e se não fosse pelo frio absurdo teríamos aproveitado mais. Em Montreal descobri como é bom tomar um grog, uma das bebidas favoritas do comissário Maigret – e que até então eu só tinha ouvido falar nos livros dele mesmo (receitas aqui).

Montreal. A cidade velha. O porto. O museu da cidade. Os mercados de comidas naturais. Os pinheiros de natal à venda junto das outras plantas. Os cafés. Os parques, muitos parques. A neve, muita neve. Maple syroup ou sirop d’erable. O metrô, estação Jean-Talon. As comunidades de imigrantes. As lojas descoladíssimas. A loja do Exército da Salvação onde comprei minhas botas-barbarella por 7 dólares canadenses.
Tanta coisa boa pra se falar de Montreal.



5 comentários:

D'Noronha disse...

shock!

Camilo disse...

Em qualquer lugar,
sempre tem um idiota disposto a cagar.
(e rimou. putz!)

Fezoca disse...

seu queixo iria cair quadruplamente se voce viesse pra California. ainda ha muitos, muitos fans do Dead por aqui, apensar do grupo nao ser mais o mesmo sem o Jerry Garcia. o oeste do Canada eh igualzinho aos EUA, so que mais frio [e bota mais frio nisso!]. beijos,

fabricio lima disse...

lancei no meu blog a ideia de criarmos uma associação de blogueiros do amapa. o que vc acha dessa ideia?
http://jeitotucuju.zip.net

Ana Lucia disse...

Anna não tinha visto o teu relato de viagem, que ficou maravilhoso. O frio tá chegando por aqui, em outubro lá vem neve. Eu até que gosto :-) Beijos.