5.1.07

O homologador


Quarta-feira, segundo dia útil de 2007. Chovia quando fui fazer a homologação da minha demissão, no sindicato. Um prédio comercial decrépito na Presidente Vargas. Décimo terceiro andar. Uma salinha igualmente decrépita, pequena. Um balcão. Colado no balcão, um cartão datilografado, com a letra que eu reconheci como igual à da minha Olivetti Lettera 82 de saudosa memória, instruía os antigos funcionários da Manchete/Bloch Editores a se dirigirem a outro endereço na Rua México. Duas pessoas sentadas pareciam esperar atendimento. Mas pelo visto não era isso, porque chegamos, fomos atendidos logo e as duas pessoas continuaram lá, mudas. Talvez trabalhassem na sala decrédita ao lado e estivessem apenas batento um papo que foi interrompido pela nossa chegada.
O mobiliário devia regular pela minha faixa etária, exceção feita ao aparelho de TV pendurado no girovisão, ligado, com som, transmitindo o Video Show, aquele quadro de jogos apresentado pela Angélica. Fora isso, arquivos de metal carmomidos por todos os lados. Livros encadernados, com lombadas despencadas. Cadeiras giratórias com cara da década de 70. Um único computador, no fundo da sala. Duas (duas!) máquinas de escrever em cima de mesas. Provavelmente para fazer cartões como o dos antigos funcionários da Manchete/Bloch Editores. (Mas nenhuma das duas era uma Olivetti Lettera 82, que eu reconheceria, claro.)
Fui com a gerente de RH. Ela conhecia todo mundo e entabulou muitas conversas. Foi saudada por todos. Achei bom estar ali naquele lugar estranho com uma pessoa que pelo menos era querida pelos que deveriam nos atender. Atrás do balcão, quatro funcionários. Todos homens. Praticamente só falamos com um, o chefe, um senhor de cabeça branca e bigodinho (também branco) à la Amigo da Onça. Cabelos (não muitos) penteados pra trás. Brilhantina. Ele de fato falou muito. Falou mal de muita gente. Gastou uma onda danada. Um gordo com cara de cinquentão tinha uma atadura na mão esquerda e ficava numa mesa ao fundo lendo um jornal de esportes. Talvez nem tenha reparado a nossa presença. O mais novo dos quatro deveria ter uns 45, e era quem olhava coisas no computador perto da janela. Ele só veio até nós uma vez, e, sem dizer palavra, me deu um papel -- devidamente carimbado. Mas o mais curioso era um senhor sentado a uma mesa colada no balcão, de modo que você entrava na sala mínima e ficava muito perto dele, só com o balcão no meio. Ele sentava-se muito retinho, com as duas mãos sobre a mesa. Uma posição tão antinatural. Parecia ter mais de 70 anos. Usava óculos escuros. Não consegui me desvencilhar da idéia que ele era cego, ou quase. Mas ele conversou conosco, amigavelmente, ainda que quase sempre por monossílabos e meneios de cabeça. Interagiu. E o mais incrível, ele trabalhou -- mais que os outros. O trabalho dele era pegar as quatro vias da rescisão e carimbá-las. Um carimbo na frente, outro carimbo diferente no verso. Ele era, afinal, o homologador.

4 comentários:

Marcus disse...

Parece uma viagem no tempo. Uma coisa meio Nelson Rodrigues. Cool.

MegMarques disse...

Eu ia fazer o mesmo comentário do Marcus: ler o seu post foi como uma viagem no tempo.
lembrei de quando era criança e ia de vez em quando ao escritório onde minha mãe trabalhava (serviço público) e era tudo exatamente como vc descreveu. Com a diferença que já naquela época, 20 anos atrás, tudo parecia muito decrépito, antiquado e gasto.

bjo, Meg

a balzaquiana disse...

Lembrei de quando meu pai nos levava (eu e minhas irmnãs) para trabalhar com ele (na prefeitura). Exatamente assim: máquinas de escrever, papéis - pilhas e pilhas. Um cheiro de velho. E hoje continua exatamente igual! A coisa não evolui.

anna v. disse...

marcus, meg e balzaquiana: adorei os comentários de vocês, porque por eles vi que o texto reproduziu bem o que foi esse episódio. uma viagem a uma esfera que eu julgava já extinta no tempo. e marcus: sim, tinha totalmente um quê rodriguiano.