19.4.07

Vila Morena


Teve uma certa hora em que paramos em Grândola. Porque estávamos de carro, indo de Beja pra Sintra, e Grândola ficava no caminho. Resolvemos parar para um café (com pastel de nata, bem entendido). E eu fiquei enchendo o saco porque queria tirar uma foto na placa de entrada da cidade, "Bem-Vindo a Grândola, Vila Morena". E ele sem entender o porquê de tanta insistência.

Eu: Por causa da história da música, ora bolas.
Ele: Que música?
Eu, espantada: Como assim, você não sabe a história de "Grândola, Vila Morena"?
Ele, espantadíssimo: ??
Eu, didática: Não sabe que essa música era a senha da Revolução dos Cravos? Que quando ela tocou no rádio, no 25 de Abril, foi o sinal para todos os quartéis e todos os outros revolucionários?!
Ele: É mesmo? Nunca ouvi falar.
Eu: Não é possível!

De volta a Lisboa, comentei com G. que passamos em Grândola e tal.

Eu, com ar quase de desprezo: E imagina que ele não sabia a história da música.
G.: Que música?
Eu: "Grândola, Vila Morena".
G., puzzled: Que história?
Ele, já rindo: Tá vendo?
Eu: Não acredito, vocês dois, cheios de pós-graduações, suma cum laudae e não sei o quê, e não sabem de "Grândola, Vila Morena".
G.: Mas que história é essa?
Contei tudo de novo para ela, que também nunca tinha ouvido falar que a Revolução dos Cravos foi deslanchada por uma música.

Mais tarde, saímos com uns portugueses. No táxi, a caminho, sugeri que pedíssemos que cantassem a música, e confirmassem a história. Mas fui demovida da idéia, com o argumento de que seria tão ridículo quanto encontrar uns gringos no Rio e eles pedirem para eu cantar Cidade Maravilhosa.
Enfim. Agora me digam, tô maluca? Ninguém conhece essa história maravilhosa?

http://www.goear.com/listen.php?v=91ac0c7 (só começa a música lá pelos 40 segundos)
Grândola, vila morena
terra da fraternidade
o povo é quem mais ordena
dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
o povo é quem mais ordena
terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
em cada rosto igualdade
o povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
que já nao sabia a idade
jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
jurei ter por companheira
à sombra duma azinheira
que já nao sabia a idade.

(Zeca Afonso)

3 comentários:

Marcus disse...

Não sei direito as referências dos seus amigos, mas eu conheço essa história já de muitos anos.

Passou na TV Cultura um documentário belíssimo sobre a Revolução dos Cravos, e foi nele que eu descobri, também, que a célebre palavra de ordem da campanha das diretas ("O povo unido jamais será vencido") já era usada pelos tugas naquela época.h

Inagaki disse...

Bem, ao menos eu sou um que conhece essa história, Anna. :)

http://spamzine.sites.uol.com.br/edicoesanteriores/sz062ladoa.htm

anna v. disse...

Oh, senhor, obrigada pelos meus leitores cultos! :-)
Eu achei que todo mundo conhecesse. Eu aprendi isso no 2º grau. Desde esse episódio, perguntei a várias pessoas, e a única que sabia era (dã) um amigo português.