20.5.10

Poliana madrugadora e o amor à arte

Continuo firme na hidroginástica às 6h40 às segundas, quartas e sextas. Resultado: não consigo mais passar das 22h. Em consequência: hoje é quinta e acordei às 6h, sem despertador, e sem conseguir mais dormir. Nunca pensei que isso fosse me acontecer.

A vantagem (hello, Poliana) é que, uau, venho ler e escrever no blogue enquanto ninguém mais acorda.

Então queria lhes contar que no final de semana vi no DVD um documentário sensacional, chamado The Rape of Europa, sobre o destino das obras de arte europeias durante a Segunda Guerra Mundial. Como se sabe, Hitler tentou ser pintor mas não foi aceito pela Academia de Artes de Viena (foi barrado no mesmo ano em que foram aceitos Egon Schiele e Oskar Kokoschka, aprendi vendo o filme). Há diversas teorias sobre as implicações psicológicas dessa rejeição. Mas o fato é que tinha o Führer um interesse especial pelo assunto, e por isso durante os anos da guerra os nazistas pilharam coleções e mais coleções de arte, públicas ou privadas, nos países invadidos. (Dê um Google em "Nazi plunder" e veja quanta coisa aparece.)

Retrato de Adele Bloch-Bauer, de Klimt -- um dos quadros roubados (e depois recuperados) cuja posse permanece controversa

Sabendo do que já havia acontecido na Áustria e na Polônia, países como a França e a União Soviética fizeram evacuações preventivas de seus acervos. Essa história é uma das mais bacanas do filme. Esvaziaram o Louvre. Não sei quantos milhares de peças, de todos os tipos e tamanhos, despachados para residências e castelos no sul do país. É lindo quando contam como foi difícil remover a Vitória de Samotrácia, que fica no alto de uma enorme escadaria. Afinal, apesar de pesar umas tantas toneladas, a estátua é frágil, composta de milhares de pedacinhos colados. Então colocaram num carrinho que desceu deslizando pela escada. E segundo um dos funcionários presentes (muitos voluntários nessa operação, lembrando que boa parte do staff do museu estava no front), durante todo o processo o silêncio era aterrador, de tanta tensão. Já a Monalisa foi a única obra que teve um carro só para si: foi transportada numa ambulância que reproduzia as condições ideais de conservação -- umidade, temperatura etc. -- e depois de muitas horas de viagem o curador que ia junto dentro da ambulância chegou desmaiado, mas o quadro estava em perfeito estado (sorrindo, hehe).

Vitória de Samotrácia, no Louvre

No Museu Jeu de Pomme, uma curadora foi a heroína. Rose Valland, que era uma funcionária de segundo ou terceiro escalão, falava alemão, mas os alemães não sabiam disso. Então ela continuou trabalhando no museu depois que ele foi tomado pelos nazistas (o Jeu de Pomme funcionava como uma espécie de centro de triagem das obras roubadas), passando despercebida de todos, circulando por ali como quem não está fazendo nada além de seu trabalho burocrático. E quando chegava em casa, fazia um diário minucioso registrando quais obras estavam indo para quais lugares. Foi graças a essa listagem que muitas obras foram recuperadas.

As obras de arte roubadas eram estocadas nos lugares mais diversos. Uma enorme quantidade no castelo de Neuschwanstein, na Baviera. Outras milhares de obras numa mina de sal (!). Na casa de campo de Göeringer. E ainda, as joias da coroa do sacro império romano-germânico, juntamente de muitas outras obras, num bunker sob o castelo de Nuremberg (neste, segundo o especialista inglês que primeiro chegou ao local, a tecnologia para conservação das obras era tal que elas estavam mais bem acondicionadas ali do que seria possível no British Museum).

Esses especialistas em arte são outra atração especial do filme. Eram homens que tinham se alistado, mas sem qualquer experiência de combate, e que eram mandadas para esses lugares para identificar as coleções de arte, distinguir o que era valioso e o que não era, e lutar para a sua preservação. Inclusive, lutar para preservar obras e monumentos de seu próprio exército, num momento em que oficiais e soldados não estavam assim tão preocupados com quadros ou afrescos. Como os pobres historiadores da arte que foram mandados para a Itália com essa missão. Tremendo problema. Os Aliados tendo que bombardear justamente o país que abriga tantos monumentos, estátuas e quadros de valor inestimável.

O Campo Santo, em Pisa, bombardeado pelos Aliados. O mural, destruído pelo fogo, vem sendo restaurado, a partir de zilhões de fragmentos, desde o final da guerra. Até hoje ainda não foi terminado.

E aí entra a parte emocionante, como a luta dos moradores de Florença para proteger os afrescos dos palácios, construindo uma espécie de estojo de madeira e colocando por cima, uma estrutura super precária, e por isso mesmo tão comovente. É outro momento especial do filme, esse de Florença. Porque a cidade, além de ser depositária de inúmeras joias do renascimento italiano, é também um grande centro de integração ferroviária -- e como tal, primordial alvo militar. Então, meia dúzia dos melhores aviadores americanos foram destacados para esta missão: bombardear a estação ferroviária de Florença, mas sem poder atingir nenhum outro ponto da cidade, nem mesmo o prédio ao lado da estação. (Ah, e como em todo bom filme americano, eles conseguem, é claro).

Milhares de obras foram recuperadas. Em relação a muitas delas até hoje ocorrem disputas sobre a quem pertencem. Outras milhares nunca foram encontradas, como um Rafael roubado de Cracóvia.

Este quadro de Rafael nunca foi recuperado. (Se você vir, avise as autoridades!)

Enfim, as histórias são muitas. Mas o que fica é o sentimento de amor à arte, a compreensão da importância que um quadro, uma estátua, um altar ou uma ponte podem ter para todo um povo.
Se esse assunto lhe for caro, tente ver o filme.
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5 comentários:

Camila disse...

Fiquei morrendo de vontade de ver, quero ver se encontro. Obrigada por compartilhar!

Anônimo disse...

Lindo post, bons ventos a façam madrugar mais para nos alegrar :)
um abraço,
clara

Cláudio Luiz disse...

Se eu vir o quadro do Rafael por aí, pode deixar, aviso.
O filme no momento não dá, mas fica anotado a dica.

Isabella disse...

Preciso assistir! No ano passado fomos ao The Jewish Museum ver a exposição com parte das obras do acervo de Jacques Goudstikker. Ele teve mais de 1400 obras roubadas na II guerra e só em 2006 sus familia conseguiu recuparar parte do seu acervo. O que salvou foi a caderneta preta que ele usava como registro da sua colecao. A caderneta estava no museu e vê-la trouxe lagrimas ao olhos.

Anunciação disse...

Fantástico!Bendita madrugada,rs!