6.11.06

Táctil

"Essence - Blue"

Na escola, sempre achei o tato o mais desprezado dos cinco sentidos. Talvez porque seja difícil imaginar o que seria a sua ausência. Ninguém tem problemas em entender o peso da privação da visão ou da audição. E bem ou mal, podemos imaginar, mesmo que vagamente, porque são casos mais raros, o que seria de repente não ter mais os sentidos tão ligados ao nosso dia-a-dia, que são o olfato e o paladar. E nisso tudo, o tato ficava um pouco relegado àquelas experiências da aula de ciências, de colocar as mãos numa caixa fechada e sentir o veludo, a lixa, a gelatina.
Ninguém ensina, na escola, a outra concepção de tato: o cuidado ao tratar com outrem. A preocupação com o bem-estar de quem se gosta, na hora de dar notícias que podem ser desagradáveis, que podem magoar. No fundo, a habilidade de tocar as pessoas, os seus sentimentos.
Essa semana, mesmo, fiquei bem chateada por um caso que se pode diagnosticar como total ausência de tato. O fato em si não é grave, não é ofensivo, poderia até mesmo ser um motivo de muito júbilo e comemoração (este texto, hein, com “outrem” e “júbilo”, vou te contar...), mas da forma que foi feito foi tão desagradável, tão indelicado, que me deixou magoada. Por falta de tato.
A expressão “cultivar uma amizade” é um verdadeiro achado. Cultivar é ter um cuidado constante. Você não pode abandonar, deixar secar, nem afogar em muita água. Tudo isso pode matar. Cultivar é ter cuidado e atenção, preocupar-se e ouvir as necessidades do outro. Tato.
E agora vejo-me do lado oposto. Uma amiga querida me escreveu dizendo que vai se casar. Eu, que acompanho o relacionamento de-perto-de-longe (porque ela mora em São Paulo, mas sempre me coloca a par de todos os detalhes) desde o início, tenho a impressão fortíssima de que não vai dar certo. É o tipo do casamento que tem todos os ingredientes para dar errado. Relacionamento muito recente, imensas diferenças entre os dois que já causaram sérios abalos no namoro, e sabe-se lá que outras surpresas podem ser reveladas nos próximos meses. Mas ao mesmo tempo, é claro que fico feliz por vê-la feliz, e ela está nas nuvens. Enfim, uma situação delicada. Preciso de tato, muito tato. Porque, na minha humilde opinião, ela está casando pela idade. Ou seja, está casando com quem está com ela neste momento, porque ela sente que é o momento para casar – o “com quem” importa, claro, mas menos. Se namorasse este mesmo cara aos 21 anos, não pensaria em casar com ele, não teria a convicção de que ele é “o” cara. Mas como já tem 31, o tempo urge. Mundo cruel, muito cruel. Mas claro que não vou dizer isto. Vou dizer que acho muito precipitado (apesar de ela já ter se antecipado e dito “não é uma coisa precipitada e impensada!”, o que só deixa mais claro que é, sim, precipitado), que não vejo necessidade de tanta pressa, que eles podem se conhecer melhor, que o melhor é morar junto um tempo, e depois, se estiver tudo ótimo, faz uma cerimônia consolidando a união... E dizer isso sem parecer o arauto das más notícias e a ave do mau agouro, só com muito, muito tato.
Segunda-feira de suspiros.

6 comentários:

B. disse...

Muito tato pra saber como falar e principalmente pra saber o momento certo de falar. Não sei, às vezes é melhor não falar nada. Porque a pessoa dificilmente vai mudar de idéia num caso desses, ou seja, o "falar" vai praticamente ser inútil. E ainda pode, realmente, se sentir ofendida, por mais tato que você tenha. Não sei, não sei. Tudo depende do grau de amizade também.

Anônimo disse...

Eu concordo com B. ... acho melhor ficar de bico fechado. Não resolve nada falar, você vai perder a amiga e sabe-se lá essa vida dá tanta reviravolta, já vi casamento que não prometia nada dar certo e outros que a dupla se conhecia há mil anos, morou juntos 10 anos, aí casou e estragou...Será que ela vai fazer festa, vestido de noiva, lua de mel e todo o kit-casamento ? Essa é a parte mais chata de aguentar :-) Beijocas.

Camilo disse...

Eu acho que depende do temperamento da tua amiga, que vc deve conhecer bem. Tipo, eu tenho um primo que tá enrolado com uma moça que, resumindo, não presta. Só que ele é temperamental, genioso e (pensa que) está apaixonado. Penso no Velho Deitado: merda, quanto mais mexe...
O melhor a fazer é ficar por perto para ajudá-la a se levantar se acontecer de ela cair. E haja tato!

Carrie, a Estranha disse...

É o q eu dizia: as pessoas se casam pelos motivos errados. Tenho várias amigas nessa faixa etária q estão em situações parecidas. E várias q já se separaram em momentos recordes.

Eu falaria. Sempre falei. Mas nunca adiantou nada. Acho q no fundo falar só alivia a nossa culpa. Porque, no fundo, no fundo, ela sabe. Não vai dizer "ó, descobri" só pq vc falou. Talvez a faça pensar um pouco mais, não sei. Mas eu sempre me sinto melhor falando. Talvez por puro egoísmo.

anna v. disse...

Eu já falei. Mas porque ela é muito minha amiga. Tipo: eu e M. fomos as primeiras a saber, depois da família. Legal, e tal.
Falei como pude. Acho que não dá para se omitir nessas horas. Rolou o tato, porque ela ficou feliz. Falei para ela morar com ele um pouco antes do casamento. E disse que é importante saber que o amor não basta. É o mais importante, mas só o amor não sustenta.

Anônimo disse...

O que sutenta, então?!