28.8.06

Segunda-feira

Telefone toca às sete da manhã. Engano. Não trote. Engano mesmo. Acho que é domingo, que sacanagem, alguém me acordar a essa hora no domingo. Viro pro lado para dormir de novo. Lembro: hoje é segunda. Merda. Durmo mais um pouco. O despertador toca às sete e meia. Aperto o snooze. Toca de novo sete e trinta e cinco. Snooze. Sete e quarenta. Snooze. De cinco em cinco. Até as oito e meia. Quero repetir o snooze mais uma vez, como uma viciada em microcochilos. Mas tenho algum senso de ridículo. E de dever, ora essa. Fico com os olhos abertos: assim não durmo de novo. Lembro que sonhei com a minha motinha que vendi, uma scooter vermelha. Que tanto que eu gostava dela, de andar pelas ruas e subir pelas calçadas se precisasse. No sonho ela estava sem freios. Levanto, bebo água, vou até a sala. Deito no sofá mais um pouco. Que difícil levantar. Lá fora: nublado. Café, jornal, torrada com cottage. Ponho a mesma roupa de ontem à noite. O cabelo está tão descabelado que tenho até preguiça de olhar no espelho. Jogo uma agüinha em cima, dane-se. Na rua, um homem tira um papel de propaganda do pára-brisa do carro e joga no chão. Na banca de jornal, a manchete diz que o cantor de pagode sai da prisão cheio de amor pra dar. Quem se importa?
Trabalho. Bom-dia, bom-dia, bom-dia. Escada. Correspondências. Chegou o contrato do Rio Grande do Sul. O Sedex diz: para abrir puxe aqui. Mas não tem nada pra puxar. Corto com a tesoura. Computador. Ctrl+Alt+Del e digite seu login e senha. E-mails. Spams vários. Hi, Go a od news for you. P p HARMA b CY di k rec n tly from… Essas letras no meio das palavras são para fugir dos programas antispam, eu acho. Mensagem do überchefe reclamando de uma coisa qualquer, me perguntando algo impossível. Como vou saber? Ainda por cima escreve porque no lugar de por que. Tsc. Daqui de cima escuto a voz alta dele, na sala de reuniões do andar de baixo. Outro e-mail: o gerente gordo quer saber novidades sobre o assunto da Bahia. Mais mensagens: uma querida escreve porque quer fazer uma correção em alguma coisa. Respondo. Newsletter: É cedo ainda para cantar vitória, mas a economia Argentina está dando olé. Outra hora. Ligo ramal 162: Bom dia, acabou a água aqui em cima, podem vir trocar o galão? Obrigada. A funcionária nova: Bom dia, onde eu arquivo este documento? Liga o chefe, da sala de reunião. Pede para eu cobrar uma resposta da velhinha alemã que mora em São Paulo. Ligo pra ela com prazer, gosto tanto dela. Tem um jardim lindo cheio de orquídeas. Em São Paulo! Ficamos de papo no telefone. Ela diz que hoje está toda atrasada porque foi fazer exame de sangue. Só está tomando café agora, 10 da manhã. A secretária do chefe chega esbaforida na minha porta: Me deu um branco, como é o nome do marido da dona Fulana?! Peter, eu respondo. Ah, é. E volta correndo para a sala dela. Vem a senhorinha da tesouraria me visitar: Oi, pode me dar um help? (isso é ela sendo bem moderna, falando me dar um help). Claro, o que é? Preciso dos contratinhos da Elaine e do Curt. Eu adoro como ela fala das empresas como se fossem pessoas. E contratinhos, veja só. Pode deixar, te mando os pdfs por e-mail. Valeu! (isso é ela sendo moderna de novo, falando valeu!, ela que é evangélica e que me repreendeu gentilmente quando uma vez eu disse “mas esse banco é um inferno, hein?!”, que coisa, só porque eu falei inferno, mas mesmo assim eu gosto dela, pessoa do bem.)
Olho para meu quadro de cortiça. Papelzinho que meu pai de mandou na primeira semana do ano: Feliz 2006 pra você também! 185 da Independência 117 da República 118 da Lei Áurea 198 da chegada de D. João VI. Papai é super ligado em efemérides. Calendário: este mês, pintura de Edwin Harris (English, 1855-1906). Hoje: Bank Holiday (UK except Scotland). Mas não diz por quê. Ano que vem quero um calendário brasileiro, bolas.
Meio-dia.
Toca o telefone da mesa da estagiária, que só vem à tarde. Deve ser engano, ningué liga pra esse ramal. Sozinha na sala. Puxo a ligação. Musiquinha de chamada a cobrar. Desligo. Toca de novo. Tindin, dindindin, dindindin. Desligo. De novo. Deixo tocar. Não me aflijo com o telefone tocando, sou zen. E-mail pessoal. Bobagens. A conversa foi arquivada. Saiba mais. Desfazer.
Rua. Um garoto com uniforme de escola pública come um pacote gigante de fandangos. Cocô de cachorro na rua – alguém já pisou. Mil coisas a resolver antes de almoçar. Almoço. Quiche de queijo, salada. Como meia cebola crua. Ardido. Quase choro.
Trabalho. Sono. Café. Água. Presilhas para domar o cabelo. E-mails com aporrinhações. Vontade de responder: Prezado Fulano, obrigada pela sua mensagem. Vá à merda, sim? Cordialmente, etc etc. Mais mensagens. Convite para a abertura da exposição... E no fim: O emitente desta mensagem é responsável por seu conteúdo e endereçamento. Cabe ao destinatário cuidar quanto ao tratamento adequado. Etc. Em português, inglês e espanhol. Agora me diz: pra que isso tudo? Entra na sala um diretor da empresa, o mais velho – e mais figura: me ajuda, eu quero consertar uma cadeira que tenho na varanda de casa, a marca é Pride, mas eu procuro na internet e só encontro sites gays! E ele fala como se tivesse nojo, como se os gays-prides fossem pular do computador para tentar comê-lo – o que me deixa revoltada. Vai ver a sua cadeira é gay, respondo. Porra, vou jogar fora. Fueda-se então, homofóbico dos infernos. E não param de chegar e-mails. Detesto quando não sei se é homem ou mulher. Meu address book: Jyothi Chikkala. Alpha Wong. Per Kølle. Ua Matthiasdottir. Ua?! Uma mensagem volta: O endereço IP do seu servidor esta' cadastrado em alguma LISTA NEGRA (see SPAMCOP / NJABL / SPAMHAUSS). Lista negra, eu? É tudo tão estranho, e ninguém pára pra pensar.
Seis horas. Chega. Post besta, esse.

4 comentários:

Fezoca disse...

Ahhhhhhh, ADOREI esse post! Adorei ler! Quantos detalhezinhos legais! :-))) Beijao, Anna!

Alba Regina disse...

e a canção diz...tell me why i don't like mondays...não é mais ou menos assim? segunda feira definitivamente é o ó! beijo! ^^

Ângela disse...

isso, responder email com va a merda, atenciosamente, AF. ô vontade

Lu Thomé disse...

Anna, quantas coisas para decifrar. Eu sou muito curiosa e descobri várias coisas hoje nesse teu texto. Por isso que esses posts "bestas" valem tanto - hehehe...

Sobre o emprego. O que eu queria te dizer: sou a rainha de arrumar confusões com os chefes. Uma vez, torturei tanto um que, quando ele mandou o gerente da empresa me demitir, pediu que avisassem quando eu já estivesse fora do prédio. Claro, tinha medo de tomar uma sova da menina de 1,59m e 48kg... Mas já mandei chefe naquele lugar, no outro e aquele bem longe também. Atualmente, me torturo em dois empregos. Um que eu amo. Outro que odeio demais. E os dois pagam as contas e, principalmente, a fatura do pós-graduação. Mas a regra é a seguinte: não engole sapo. Nunca. Coloca tudo pra fora. E quando tua sala estiver atrolhada de milhões de sapos, tu vai embora. Porque trabalhar numa lagoa repleta de sapos pegajosos é que não dá... Bah! Escrevi demais - hehehe... Beijos, Anna!!!