31.8.06

Sobre bois e telhados


Era uma vez um músico francês chamado Darius Milhaud. Em 1917, ele veio para o Brasil em uma missão diplomática, como adido da Embaixada. Chegou no Rio de Janeiro, então capital da República, na semana do Carnaval, o que lhe causou funda impressão. Como era compositor, Milhaud ficou ligado na cena da música popular brasileira da época. Passou dois anos aqui. Voltou para a França, onde reencontrou sua tchurma, a típica folie da Paris dos Anos Loucos. Lá, compôs uma peça para orquestra chamada O Boi no Telhado (Le Beuf sur le toit), que cita mais de trinta músicas populares brasileiras de sucesso daquela época. É sua obra mais conhecida, e a estréia foi em 1920 como música de um balé, com argumento de Jean Cocteau. A peça é um verdadeiro quebra-cabeças de motivos brasileiros (tangos, choros, maxixes, polcas etc.) interligados, e entremeados por um motivo original de Milhaud. Entusiasta do politonalismo, Milhaud compôs O Boi com diversas passagens usando a técnica. Há também trechos em que duas melodias diferentes são tocadas simultaneamente por instrumentos da orquestra. O Boi tem várias gravações disponíveis, e alcançou um relativo sucesso no meio sinfônico, sempre visto como uma curiosidade, um olhar francês sobre a música dos trópicos.
Quase cem anos depois, musicólogos empreendem uma extensa pesquisa para identificar as músicas brasileiras usadas por Milhaud para a composição do Boi. Há referências óbvias (Apanhei-te Cavaquinho de Ernesto Nazareth, Corta-jaca de Chiquinha Gonzaga) e outras nem tanto (a música-título, de um tal Zé Boiadeiro). Algumas poucas permanecem não identificadas. Em seguida, músicos brasileiros pegam a peça de Milhaud para orquestra e adaptam para conjunto regional (flauta, clarinete, clarone, cavaquinho, bandolim, dois violões, percussão), buscando uma sonoridade mais próxima daquela que o francês ouviu nos anos 10 no Rio de Janeiro. Em seguida, fazem um concerto cuja primeira parte é com algumas das músicas originais (os choros, tangos, maxixes, polcas), e a segunda, com a transcrição da peça de Milhaud para regional.
Como diz a Mary W, "no planeta anna v." esse círculo que se fecha agora, com as músicas sendo tocadas como foram ouvidas por Milhaud (ou bem próximo), é uma notícia fantástica, digna de muita publicidade. É mais que uma curiosidade, é uma invenção misturada com retorno que só promove a excelência da nossa música, ontem e hoje.
Os talibãs da nossa cultura caem de pau no Milhaud, porque ele não deu crédito aos compositores brasileiros e não pagou direitos autorais. Agora me diz se isso não é perder completamente o foco da discussão, e passar para uma questão política e meio ressentida que é muito, muito menos importante do que a música.
Bom, enfim. No planeta Brasil, ninguém tomou muito conhecimento de nada disso. O grupo conseguiu, a muito custo, agendar 4 apresentações: 3 no Rio (no CCBB uns meses atrás, na Sala Baden Powell em Copacabana no sábado que passou, e no dia 14 de setembro na Finep, na Praia do Flamengo) e uma em (veja só!) Berlim, no fim de setembro, com apoio da embaixada brasileira.
E é nessas horas que eu acho que podíamos rebaixar o planeta Brasil a planeta-anão, junto de Plutão.

(Essa imagem aí em cima, assim como a história completíssima do Boi no Telhado, você encontra no ótimo site da Daniella Thompson.)

3 comentários:

Milton disse...

Excelente blog e excelente(s) história(s) sobre a curiosíssima obra de Milhaud, de que gosto tanto.

Já já te linko. Gostei.

Bela Caleidoscopica disse...

Anna, que história fantástica!
No planeta caleidoscópica tb faz sucesso, viu?
Vou lá ler, ver e ouvir tuudo sobre o tema.
beijo
ps: tem tarefinha la no blog pra vc. Topas?

Anônimo disse...

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