
Era uma vez um músico francês chamado Darius Milhaud. Em 1917, ele veio para o Brasil em uma missão diplomática, como adido da Embaixada. Chegou no Rio de Janeiro, então capital da República, na semana do Carnaval, o que lhe causou funda impressão. Como era compositor, Milhaud ficou ligado na cena da música popular brasileira da época. Passou dois anos aqui. Voltou para a França, onde reencontrou sua tchurma, a típica folie da Paris dos Anos Loucos. Lá, compôs uma peça para orquestra chamada O Boi no Telhado (Le Beuf sur le toit), que cita mais de trinta músicas populares brasileiras de sucesso daquela época. É sua obra mais conhecida, e a estréia foi em 1920 como música de um balé, com argumento de Jean Cocteau. A peça é um verdadeiro quebra-cabeças de motivos brasileiros (tangos, choros, maxixes, polcas etc.) interligados, e entremeados por um motivo original de Milhaud. Entusiasta do politonalismo, Milhaud compôs O Boi com diversas passagens usando a técnica. Há também trechos em que duas melodias diferentes são tocadas simultaneamente por instrumentos da orquestra. O Boi tem várias gravações disponíveis, e alcançou um relativo sucesso no meio sinfônico, sempre visto como uma curiosidade, um olhar francês sobre a música dos trópicos.
Quase cem anos depois, musicólogos empreendem uma extensa pesquisa para identificar as músicas brasileiras usadas por Milhaud para a composição do Boi. Há referências óbvias (Apanhei-te Cavaquinho de Ernesto Nazareth, Corta-jaca de Chiquinha Gonzaga) e outras nem tanto (a música-título, de um tal Zé Boiadeiro). Algumas poucas permanecem não identificadas. Em seguida, músicos brasileiros pegam a peça de Milhaud para orquestra e adaptam para conjunto regional (flauta, clarinete, clarone, cavaquinho, bandolim, dois violões, percussão), buscando uma sonoridade mais próxima daquela que o francês ouviu nos anos 10 no Rio de Janeiro. Em seguida, fazem um concerto cuja primeira parte é com algumas das músicas originais (os choros, tangos, maxixes, polcas), e a segunda, com a transcrição da peça de Milhaud para regional.
Como diz a Mary W, "no planeta anna v." esse círculo que se fecha agora, com as músicas sendo tocadas como foram ouvidas por Milhaud (ou bem próximo), é uma notícia fantástica, digna de muita publicidade. É mais que uma curiosidade, é uma invenção misturada com retorno que só promove a excelência da nossa música, ontem e hoje.
Os talibãs da nossa cultura caem de pau no Milhaud, porque ele não deu crédito aos compositores brasileiros e não pagou direitos autorais. Agora me diz se isso não é perder completamente o foco da discussão, e passar para uma questão política e meio ressentida que é muito, muito menos importante do que a música.
Bom, enfim. No planeta Brasil, ninguém tomou muito conhecimento de nada disso. O grupo conseguiu, a muito custo, agendar 4 apresentações: 3 no Rio (no CCBB uns meses atrás, na Sala Baden Powell em Copacabana no sábado que passou, e no dia 14 de setembro na Finep, na Praia do Flamengo) e uma em (veja só!) Berlim, no fim de setembro, com apoio da embaixada brasileira.
E é nessas horas que eu acho que podíamos rebaixar o planeta Brasil a planeta-anão, junto de Plutão.
(Essa imagem aí em cima, assim como a história completíssima do Boi no Telhado, você encontra no ótimo site da Daniella Thompson.)