20.12.06

O tempo em que salvávamos todos

Pique-esconde por garssa, via flickr


Estava voltando do almoço quando ouvi as crianças brincando na rua*:
PIQUE 1, 2, 3, SALVE TODOS!
Lembrei desse recurso maravilhoso do jogo de pique-esconde. Sim, havia um tempo em que você podia salvar todos. Com um pouco de astúcia, bastava aparecer na hora certa e gritar Salve todos! Como é cruel que a vida adulta não nos ofereça mais esta possibilidade. De ser o salvador de todos, de ter nas mãos o poder de fazer o bem a toda a comunidade – e levar o crédito por isso.
Se eu bem me lembro, o Pique 1, 2, 3, salve todos era uma prerrogativa do último participante do jogo que ainda não havia sido achado. Era o momento em que o pique-esconde virava um one-on-one, não mais um jogo coletivo mas uma disputa privada entre dois indivíduos, um procurando, outro se escondendo. Com as regras tácitas e seguidas à risca, como por exemplo a terminante proibição de guardar caixão (de onde vêm essas expressões?!). Nessa hora, todos aqueles que já tinham sido achados podiam gritar ao último que ainda se escondia: “Fulano! Bate Salve Todos!”. E a coisa ficava ainda mais emocionante, porque aquele que procurava poderia sagrar-se vencedor ou ser desmoralizado por um Salve todos que colocaria todo seu trabalho no lixo e o obrigaria a mais uma vez cumprir a solitária função do “procurador” (será essa a origem do nome do cargo?).

O que me fez lembrar de outro recurso maravilhoso das brincadeiras infantis que eu não me conformo de não poder mais usar: o “altos”. “Estar de altos” era a melhor coisa do mundo, era o poder de ser momentaneamente excluído do contexto, por um motivo qualquer. Se o jogo era polícia e ladrão, vinha a polícia te prender e você fazia o V da vitória do Churchill e dizia com a cara mais cínica: “Mas eu estou de altos”. E continuava andando tranqüilamente, até o momento em que resolvesse “sair do altos” (a concordância é o máximo) e voltar a correr.
Agora imagine poder ficar de altos no seu trabalho, no seu casamento, na reunião de condomínio, no ônibus lotado ou no engarrafamento? Como foi que deixamos que isso nos fosse tirado, na boba correria da adolescência? Pois eis aí, pra mim, os dois maiores baques da passagem da vida infantil para a adulta: a diminuição das férias, de 3 meses por ano para ___ dias por ano (tirados aos pedaços, espasmodicamente), e a impossibilidade de pedir altos num momento oportuno.


*Só mesmo crianças são capazes de não se importar de exercer uma atividade que pressupõe basicamente correr às 14:30 (sol de 13:30 com horário de verão) de uma tarde em que a temperatura deve andar pelos 42º à sombra.

5 comentários:

Maria Fabriani disse...

Agora voltei a ter 10 anos. estar de altos é mesmo um recurso que faz a maior falta. e, me lembro, a coisa de ser café-com-leite. Fui café-com-leite algumas vezes (principalmente quando a brincadeira incluía meninos) e eu meio que gostava, mas ao mesmo tempo ficava meio indignada. Hehehe. Pequena Maria, feminista e gorduchinha.

Camilo disse...

Que saudade!

Cris disse...

olá, ana, adorei a sua sugestão para resolver o imbroglio do ventilador à la rainha de copas. quem sabe assim ele não muda de idéia... você também mora no rio? a coisa aqui está a beira do insuportável. apareça mais vezes! bj

MegMarques disse...

Anna,
um felicíssimo Natal e um 2007 de arromba!
bjos, Meg

B. disse...

Impossível ler isso e não querer voltar o tempo, não querer ser criança de novo.

Mas como disse a Meredith, de Grey's Anatomy (eu sei que você não gosta de seriados, mas eu ando num momento "seriados são a minha vida", já que eu não tenho uma ultimamente): "We're adults. When did that happen? And how do we make it stop? "

um gde beijo e um feliz natal pra você!